quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O que li em 2014


O livro é a compilação de um tradicional curso da Casa do Saber. Em linguagem ultracoloquial, os autores refletem sobre 8 temas: ética, moral, identidade, liberdade, poder, dominação, justiça e virtude.
O conceito exposto de que mais gostei é o de 'moral' como necessidade prática para se viver em sociedade a partir do momento em que não amamos todo mundo. (Se amássemos todos, a moral não seria necessária).

O grande amigo de Montaigne, Étienne de La Boétie escreve um curto manifesto refletindo sobre como tiranos mantém sua tirania (mesmo os escolhidos pelo povo; talvez até piores) e como as pessoas se sujeitam a essa tirania: boas doses de conivência, covardia e cumplicidade são necessárias para manter a própria servidão...
Escrito há quase 500 anos e muito atual.


Mário Ferreira dos Santos analisa a sociedade "atual" (aspas porque foi escrito em 1967) sob influência dos "bárbaros" (como contraposição a civilizados, intelectualizados). Mais: não mais uma invasão "horizontal" (=conquista territorial), mas uma invasão "vertical", interna, dentro da própria cultura. Alguns tópicos bem interessantes como moral, crimes, Cristianismo, ciência e religião, 'alta cultura', racismo... O filósofo usa termos e defende posições que provavelmente causariam mimimi se fossem escritos hoje em dia. Mas gostei bastante do texto. Sua capacidade preditiva é impressionante.

Conflito de Visões ✰✰✰✰✰
Segundo Thomas Sowell, as disputas ideológicas não são baseadas em diferenças de interesse, de conhecimento ou de moral; o cerne é a diferença de 'visão', definida como uma 'concepção pré-analítica'.
Ele classifica as visões em: - IRRESTRITA, que entende que o POTENCIAL humano é ilimitado ou que ainda não foi alcançado (e, portanto, devemos buscá-lo) e; - RESTRITA, que entende que a CONDIÇÃO humana é limitada, falha (e, portanto, devemos lidar com isso).
Os adeptos da visão irrestrita buscam SOLUÇÕES; os da visão restrita buscam COMPENSAÇÕES/TRADE-OFFs.
A partir dessa diferenciação (obviamente um continuum, não binária), há toda uma coerência no posicionamento de ambas as visões quando discutem igualdade, liberdade, justiça, poder...
Com certeza, um livro que será dos mais influentes na minha vida.

Subliminar ✰✰✰
Leonard Mlodinow, autor de O Andar do Bêbado, escreve mais um bom livro, dessa fez sobre a influência do inconsciente em nossas vidas. Com uma pequena pincelada em neurociência (especialmente em relação ao mapeamento da atividade cerebral), ele aponta alguns estudos sobre memória, visão, audição, categorização, racionalização,... Gostei especialmente do capítulo sobre in-groups e out-groups: as diferenciações inconscientes que fazemos entre as pessoas que são do nosso grupo e as que não são, QUALQUER que seja a definição desse grupo (e disso podemos tirar algumas ideias para questões de preconceito).
É um bem bolado de Dan Ariely, Malcolm Gladwell e da turma do Gorila Invisível.
"A evolução NÃO projetou o cérebro humano para entender a si mesmo com precisão, mas para [simplesmente] nos ajudar a sobreviver".

Nate Silver, o estatístico que ficou (mais) famoso por gabaritar o vencedor das eleições americanas em cada um dos 50 estados, fez um abrangente e agradabilíssimo apanhado sobre os vários mundos da previsão, cada qual com suas particularidades, seus desafios, seus acertos, seus erros, seus pop-stars.
Os capítulos passam por eleições, beisebol, basquete, meteorologia, xadrez, poker, macroeconomia, mercado econômico, epidemias, terremotos, aquecimento global, terrorismo.
Apesar de ser uma leitura fácil, não técnica, Nate Silver expõe alguns conceitos teóricos interessantes.
Ou seja, um livro excelente pra uma época em que querem prever a temperatura da Terra daqui a 100 anos ou em que a variação de 0,1 p.p. na previsão do PIB pro ano que vem dá manchete de jornal.

Ideias tem Consequências ✰✰✰✰
Muitos consideram esse livro como um ~must-read~ para direitistas. De fato, Richard Weaver defende muitos pilares do conservadorismo, mas achei um ou outro ponto divergente, como quando ele flerta com uma economia mais planejada ou quando dá umas pequenas porradas no “capitalismo financeiro”.
Achei a leitura difícil, mas gostei bastante. É um excelente mix de “Invasão vertical dos bárbaros”, “Rebelião das massas”, “Conflito de visões”, “As vantagens do pessimismo”.
O autor critica o materialismo e a imediatez vigentes, não no mesmo barco do ambientalismo ou da crítica ao consumismo, mas pela falta de algo transcendental, metafísico.
CRITICA a paixão pela razão, a fragmentação do conhecimento, a substituição da noção de fraternidade pela de igualdade, o fato da organização social deixar de se pautar pelas vocações e passar a ser pela capacidade de consumo (com o trabalho virando mero emprego sem significado ou valor); critica a ideia de conforto como fim último da vida, a psicologia da criança mimada (que acha que tem direito a tudo por “reclamações e exigências” sem ter aprendido a relação entre esforço e recompensa), que a política tenha sido transformada em uma mera serva da economia; enfim, critica “a teoria progressista da história, que ensina que o ponto mais avançado no tempo representa o ponto de maior desenvolvimento".
O autor DEFENDE a distinção e hierarquia (selecionei trechos desse espetacular capítulo aqui), a propriedade privada (ligada à escolha e à vontade, ou seja, intrinsecamente à liberdade) como o “último direito metafísico” (pois não depende de demonstração da utilidade social), a tolerância e a piedade (à natureza, aos outros e ao passado), a prudência e a responsabilidade.
Sensacional.

O livro é um “testemunho da credulidade, estupidez e crueldade humana”; ilustra uma série de besteiras que fizemos e acreditamos ao longo da história. (Consequentemente, claro, faz pensar nas idiotices que vamos deixar pros nossos filhos contarem).
O autor conta histórias de bodes expiatórios na religião (em especial, no Judaísmo e no Cristianismo, em que bate bastante), no esporte (técnicos, juízes), relacionados a gênero/sexo (como na ‘misoginia’ – segundo o autor – da caça às bruxas), na mitologia, com animais e objetos (as histórias de Cortes gastando tempo e dinheiro para ‘condenar’ porcos, pássaros, insetos, sinos e espadas são cômicas se não fossem trágicas), políticos (comunistas como ato final de lealdade, inimigos externos), financeiras (bolhas, lei do ‘tolo maior’), médicas (os próprios doentes, eventualmente a 1ª vítima).
Termina falando do caso emblemático de Alfred Dreyfus, das ideias por trás das teorias da conspiração e da psicologia do bode expiatório, especialmente com Jung (“arquétipo da sombra”). Achei interessante a analogia do bode expiatório com um herói (se ferram individualmente pelo bem do todo).
Alguns capítulos são muito longos, outros muito curtos, o autor sempre volta na questão do Cristianismo, mas é um livro interessante.

Michael Lewis, o autor de renomados livros como Moneyball e Big Short, publica uma espécie de diário sobre sua experiência como pai de 3 filhos, motivado pelo "persistente e incômodo gap entre o que ele DEVERIA SENTIR e o que ele REALMENTE SENTIA" como pai.
Com causos realmente engraçados, ele escancara a função secundária do pai e ironiza os experts em paternidade. Se você não estiver encanado, perturbado ou confuso com a paternidade, você provavelmente estará fazendo algo errado com seus filhos. Na verdade, você provavelmente estará fazendo algo errado de todo modo, mas tudo bem.
(Selecionei alguns trechos aqui)

As ideias conservadoras  ✰✰✰✰
Embora curto, não considerei o livro tão raso como algumas resenhas apontam (talvez seja apenas minha ignorância) principalmente porque João Pereira Coutinho versa sobre alguns "tendões de Aquiles" do conservadorismo e algumas diferenças entre os próprios conservadores. Ou seja, não se trata de um simples contraponto ao pensamento esquerdista ou às ideologias extremistas.
Entre esses "tendões", o autor fala sobre o eventual imobilismo (achei excelente o capítulo sobre "reformas prudentes") e o eventual conflito com "sociedade comercial" (não sabia que daria pra montar um longo manual anti-capitalista apenas com autores, em tese, conservadores).
Com relação às possíveis discordâncias entre os conservadores, a única que me saltou aos olhos (isto é, que inicialmente me faria discordar de Coutinho) é quanto à "maleabilidade na hierarquização de valores de acordo com as circunstâncias", que ele defende. No entanto, é engraçado que, ao ler outros conservadores, a ideia faz muito sentido e fica bem clara.
O livro é muito bom.
"Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos. (...) Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos homens que ainda estimam alguma coisa."

É sempre uma experiência interessante ler alguém que sabidamente pensa diferente de mim. O historiador comunista Eric Hobsbawm evidencia seu saudosismo pela União Soviética e sua inhaca pelos Estados Unidos, principalmente nas partes em que fala sobre ‘impérios’. Gostei bastante dos textos sobre terrorismo – em que ele crítica o medo irracional, talvez mais prejudicial que o próprio terror – e sobre democracia – em que ele questiona a ‘unanimidade não questionada’ sobre o tema. Mostra as fragilidades e exemplos que deram errado em ambientes democráticos e outros que deram certo sem ele. (O problema, claro, é que ele dá um passinho além e fica no limite de defender "algo pior" que a democracia...)

O Reacionário ✰✰✰✰
Nelson Rodrigues é um monstro. Crônicas deliciosas, que fazem falta nos jornais de hoje.
Selecionei uns trechos aqui.








Complacência ✰✰✰✰
Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman analisam as decisões do governo brasileiro na última década, levando à triste situação atual.
Com uma escrita bastante leve, passa por diversos temas como funcionalismo público, educação, previdência, balança comercial, política industrial (de “escolha dos vencedores”), sempre com uma espécie de “curso de introdução à economia” como pano de fundo. Bem interessante.

Política da Prudência ✰✰✰✰✰
Russel Kirk escreve sua bíblia sobre o pensamento conservador americano. Expõe seus 10 livros, seus 10 acontecimentos e seus 10 pensadores preferidos, explica a maioria deles, critica a ideologia progressista e os libertários. Defende a ordem, a justiça e a liberdade.
Livro necessário para todo conservador e outro que, sem dúvida, terá influência marcante em toda minha vida.

Conversa no Catedral ✰✰✰✰✰
Mario Vargas Llosa trata esse livro como sua melhor obra. E, de fato, é espetacular. Tanto o enredo (as histórias se passam na sociedade peruana na época da ditadura) como o estilo.
Muita coisa parecida com a sociedade brasileira e com os tempos modernos.
O Peru também não corre o risco de dar certo.

Trechos selecionados de 'Home Game - An accidental guide to fatherhood'

Trechos selecionados de Home Game - An accidental guide to fatherhood, de Michael Lewis.


My father took it almost as a matter of principle that most problems, if ignored, simply went away.

Memory loss is the key to human reproduction.

One of the many things I dislike about being a grown-up is the compulsion to have a purpose in life.

New parents are not rational; they worry about all sorts of things that it makes no sense to worry about. [When was the last time you saw a full-grown adult crawling around the streets on all fours?]

At some point in the last few decades, the American male sat down at the negotiating table with the American female and - let us be frank - got fleeced.

corollary to the rule about the fool at the poker table, that if you don't know who your wife is pissed off at, it's you.

The fact, as opposed to the theory, of life with a small child is an amoral system of bribes and blackmails. You do this for me, you get that. You don't do this, you don't get that.

that official statistics dramatically overstated the incidence of sudden infant death (...) because most of then were probably murder.

Maternal love may be instinctive, but paternal love is learned behavior.
A month after she was born, I would have felt only an obligatory sadness if she had been rolled over by a truck. Six months or so later, I'd thrown myself in front of the truck to save her.

1. Maternal propaganda. 2. Gift for mimicry. 3. Tendency to improve with age.

All the little things that you must do for a helpless creature to keep it alive cause you to love it.

The first rule of fatherhood is that if you don't see what the problem is, you are the problem.

The origin of vanity is not the desire to be admired by others but the need to be in charge. The other things just follows from it.

On of the many things about fatherhood is how it has perverted my attitude toward risk.
(neurotic, money, help other, flying, death)

It's astonishing how much trouble we take to prevent our children from seeing the world as it is.

Never underestimate your own insignificance.

For the whole of Stage1, a father performs no task more onerous than seeming busy when he isn't. In Stage2, he becomes, in a heartbeat, chauffeur, cook, nurse, gofer, personal shopper, Mr Fixit, sole provider and single parent.

The current wisdom holds that if you seem to be not all that interested in your new child the first time the older ones come to see him, you might lessen their suspection that he's come to pick their pockets.

A family is like a stereo system: a stereo system is only as good as its weakest component, and a family is only as happy as its unhappiest member.

"Do you know the data on siblings across species?" "Half the time they kill each other".

What you know is less important than who you know.

The problem with lucking out with your children is that your children don't appreciate their luck - and the lucky feeling is more than a half of the pleasure.

Like dreams, these fatherhood moments are easily forgotten and no doubt also a lot more interesting to the teller than to anyone else. But when they're forgotten, their lessons, such as they are, are lost. The vacuum winds up being filled by 'experts' on child rearing.

The final rule of fatherhood: if you're not bothered by it, or disturbed by it, or messed up from it, you're probably doing something wrong that will mess up your kids. You're probably doing something wrong anyway, but it's okay.

Trechos selecionados de 'O Reacionário'

Trechos selecionados de 'O Reacionário', de Nelson Rodrigues.

Sempre digo que o pior da bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa, nem humilhação, nada.

Um gênio não move uma palha, não ameaça, nem influi. Ninguém morre por um gênio, ninguém mata por um gênio. (...) Um gênio não convence ninguém, o idiota sim. Ponham um pateta na esquina e deem um caixote ao pateta. Ele trepa no caixote e fala. Imediatamente, outros idiotas vão brotar do asfalto, dos ralos, dos botecos. (...) o idiota é uma “força da natureza”.
Claro que nem sempre foi assim. Durante 40 mil anos, o pateta sabia-se pateta e como tal se comportava. Os melhores pensavam por ele, sentiam por ele, pensavam por ele. Mas em nosso tempo, e só em nosso tempo, os idiotas descobrem que são em maior número. – A Revolução do Idiota.

O diabo é que temos a vocação e a nostalgia do caos.

A pior forma de solidão é a companhia de um paulista. (...) “Mas não era isso que eu queria dizer.” Aqui, trabalha-se.

O brasileiro é vítima dos mais lamentáveis delírios numéricos. Lembro-me de um orador patrício que assim começou: - “Não vou fazer um discurso”. Pausa. Em novo arroubo, insiste: (...) “Vou dizer apenas duas palavras”. Pânico entre os presentes. Pois sabemos que, em nosso idioma, duas palavras são duzentas. E o homem não parou mais. Segundo consta, está falando até hoje.
Realmente não temos o menor respeito pelos números.

‘Diz Nelson Rodrigues que, no Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio!’. Não pode ser presidente quem tem medo de vaia – ou pior – não pode ser presidente quem tem medo do povo.

Aprendi uma verdade que está cravada na minha carne e na minha alma, para sempre: - “Não se mata”. Mesmo o culpado, não se mata. Um homem não mata outro homem.

Não estou odiando ninguém. (...) isso é odiar? São os fatos, os fatos, os fatos. (...) nós conhecemos aquilo que, em psicologia, se chama projeção. A pessoa projeta nos outros sentimentos seus.

Hoje, o ato de opinar compromete ao infinito.

O que a [feminista] quer é, justamente, liquidar a mulher como tal. Se vocês espremerem tudo o que ela diz, ou escreve, descobrirão que a nossa ilustre visita pensa assim, mais ou menos assim: - “A mulher é um macho mal-acabado, que precisa voltar à sua condição de macho.” (...) Há pouco tempo, ninguém teria a coragem de, alçando a fronte, declarar: - “A feminilidade não existe.” Diz mais: – que a mulher para viver dignamente precisa estar acima de “definições sexuais” como “mãe” e “esposa”. Para a pobre senhora a maternidade é um fato apenas físico, como se a mulher fosse uma gata vadia de telhado.

Não sei se repararam (e a gente não repara nas evidências mais ululantes). Mas ninguém ouve ninguém.  (...) O que nós chamamos diálogo é, na maioria dos casos, um monólogo, cuja resposta é outro monólogo.
Por isso, a nossa vida é a busca desesperada de um ouvinte.

Escrevi aqui mesmo, não sei quantas vezes: - não se adia um olhar, um sorriso, uma frase. Há sempre uma palavra que não devemos calar. Somos perecíveis, mas esquecemos que somos perecíveis.
A saudade antes do adeus.

Tenho medo das pessoas que vivem de certezas.

O homem deixou de ser um homem, é um “fato político”.

Sempre digo que a coragem é um momento, que a covardia é um momento.

E porque não entendemos nada de futebol, Deus nos fez o favor de confirmar todas as nossas intuições, palpites, vaticínios.

Assim é o brasileiro: - um sujeito atormentado por culpas imaginárias.

Geração de boteco ideológico.

Cada um de nós está sempre a um milímetro da depressão, a um milímetro da euforia. Aderna para um lado ou para outro, segundo estímulos eventuais.

Temos o vício da manchete.

A mulher que odeia não um homem determinado, mas todos os homens, já deixa de ser mulher.
Nada frustra mais a mulher do que a liberdade que ela não pediu, que não quer e que não a realiza.

Ou a jovem revolução está na depredação gratuita, na depredação idiota de algumas das maiores universidades do mundo? (...) Mas pergunto: - que fez essa juventude? Eu já me daria por satisfeito se, um dia, tivesse inventado um comprimido, um Melhoral. (...) a juventude não fez nada e repito: - exatamente nada. Quando nasceu, as gerações passadas deram-lhe, de mãos beijadas, na bandeja, a maior nação do mundo (...). E, então, por não ter feito nada, põe-se a contestar, a injuriar tudo o que já estava feito.
Admite que a agitação estudantil não teve grandes consequências visíveis. Aqui acrescento: - nem invisíveis. Ou por outra: - houve, sim, as consequências visíveis. Refiro-me aos automóveis virados, aos paralelepípedos arrancados e à Bolsa incendiada. Fora disso, a jovem revolução não deixou nem mesmo uma frase, uma única e escassa frase. (...) A razão deixa de ser o que sempre foi, isto é, uma lenta, progressiva, dilacerada conquista espiritual. [21/11/1973]

Apanhem o sujeito mais inteligente e o ponham na plateia. Imediatamente, ele passará a reagir como as duzentas senhoras gordas que assistem à peça, comendo pipocas. O sujeito que se mete no meio de trezentos idiotas será um deles. Aí está o milagre da multidão, ainda que seja pequena. Há um fulminante nivelamento intelectual por baixo.

A elegância é invisível. (...) Se descobriram que sou elegante, já não sou mais nada. Sua elegância deixara de existir a partir do momento em que perdera a invisibilidade.

Baseado em toda a minha experiência jornalística, sustento que nada mais falso, nada mais apócrifo, nada mais cínico do que a entrevista verdadeira. Por outras palavras, a entrevista verdadeira é uma sucessão de poses e de máscaras. Ao passo que a “entrevista imaginária”, pelo fato de ser imaginária e irresponsável, não mente jamais. E o leitor fica sabendo de tudo o que o entrevistado pensa, sente e não diz nem a muque.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Trechos selecionados de "As Ideias Conservadoras"


Dois tipos de pensamento antirrevolucionário: (...) espírito moderado e (...) reação intolerante.
Se uma grande mudança é para ser feita nos assuntos humanos, as mentes dos homens adaptar-se-ão a ela, as opiniões e o sentimentos gerais confluirão para esse destino.
Uma tradição que foi capaz de evitar os males do radicalismo revolucionário ou do revanchismo reacionário – no fundo, uma tradição que pode se orgulhar de não ter sangue nas suas mãos.
O conservadorismo – ensina Michael Oakeshott – deve começar pelo presente: pela fruição e conservação desse presente.

A ideologia conservadora
Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos. (...) Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos homens que ainda estimam alguma coisa.
Disposição: (...) usar e desfrutar aquilo que está disponível, em vez de desejar ou procurar outra coisa. (...) Não porque eles sejam superiores a uma alternativa hipotética, mas, precisamente, porque eles não são uma alternativa hipotética. São reais, tangíveis. E a possibilidade de os perder em situações de mudança, e sobretudo de mudança violenta e repentina, afigura-se com uma provação fundamental. (...) Só abraçam entusiasticamente a mudança, a qualquer mudança, (...) aqueles que são estranhos ao amor e ao afeto.
Evitam com apreciável esforço a palavra ‘ideologia’. (...) Temperamento (...) Fé (...) Espírito (...) Instinto (...) Inclinação (...) DISPOSIÇÃO. (...) O conservadorismo apresenta uma dimensão existencial que é anterior, ou até superior, a qualquer ideologia política.
O conservadorismo político também transportará para a esfera da governança esse gosto pelo próximo, pelo suficiente, pelo conveniente – recusando a ‘felicidade utópica’ que é típica da atitude revolucionária.
Distinguir o conservador da sua caricatura habitual: o reacionário. O reacionário não será mais do que o ‘revolucionário do avesso’ (Anthony Quinton) (...), para uma felicidade utópica passada.
O pensamento utópico sempre projetou no passado ou no futuro a ‘solução final’ para as iniquidades que afligem o presente.
Um conservador tenderá a recusar essas fantasias (...): por um lado, a falácia de que os homens possuem uma natureza fixa e inalterável e que, por isso, desejam necessariamente as mesmas coisas e, por outro lado, a falácia (...) de que os valores mais caros à existência humana podem ser vivenciados na sua expressão máxima (a máxima liberdade, a máxima igualdade, a máxima fraternidade) sem possibilidade de conflito entre eles.
Conservadorismo não apresenta esse ‘ideal substantivo’. (...) Ausência de uma cartilha a priori.
[Conservadorismo pode ser] uma ‘ideologia’ que, ao contrário dos rivais, tenderá apenas a emergir quando ‘os fundamentos da sociedade são ameaçados’. (...) Uma natureza vigilante e reativa.
O conservadorismo é uma ‘ideologia posicional’. (...) Procura enfrentar uma necessidade histórica específica. (...) ‘Ideologia de emergência’.
Os revolucionários, alicerçados em doutrinas políticas abstratas sobre os ‘direitos dos homens’, encaravam a comunidade como se esta fosse uma carta branca para as suas visões de perfeição. (...) Quando está em causa a perfeição da humanidade, faz parte do processo revolucionário não questionar a desmesura dos meios e a ferocidade com que eles são aplicados. O prêmio final seria demasiado precioso para inspirar condutas de moderação. (...) [E aí] ‘Os meios criminosos, uma vez tolerados, são rapidamente os preferidos’.

Imperfeição humana
Primeiro princípio estrutural do conservadorismo: a imperfeição humana ["restrito" de Sowell]
Não é necessário apelar para a Cidade Celeste de forma a explicar as imperfeições da terrestre. [de forma geral, princípios conservadores podem ser anteriores aos religiosos; não precisa ser religioso para ser conservador].
Desautorizam "projetos de mudança grandiosos e abstratos levados a cabo por pensadores isolados das realidades práticas da vida política".
A complexidade dos fenômenos sociais não pode ser abarcada, muito menos radicalmente transformada rumo à perfeição, por matéria tão precária [o homem]. Não se pretende com isso dizer que a ideologia conservadora nega a possibilidade de melhoria das condições terrenas - isso seria, no mínimo, historicamente obtuso. Porque a crítica conservadora não poderá ser confundida com uma crítica antirracional.
A crítica conservadora lidará não com a razão, mas com o racionalismo, entendido com uma subversão da razão, (...) com a ambição desmedida de atribuir à razão a tarefa hercúlea de construir e reconstruir a sociedade humana de forma radical e perfeita. Não é a razão per se que inspira a crítica conservadora; é, tão só, a arrogância do racionalismo moderno e a sua ideia nefasta de "possibilidade infinita" ["irrestrita" de Sowell]. (...) própria de quem se deixa embriagar pela "filosofia da vaidade" - a vaidade do otimismo racionalista.
Consequências imprevistas da ação social: (...) óbvias limitações epistemológicas do agente político, que muitas vezes erra na análise da situação que se lhe apresenta, ou na escolha do melhor curso de ação a seguir ou na forma como executa essa ação.
Sabemos menos do que pensamos e erramos mais do que devemos. "Sabe pouco da humanidade aquele que não concede um desconto à nossa comum e inevitável fraqueza".
Consequências fortuitas: (...) conhecimento que não possuímos porque não o PODEMOS obter antecipadamente.
E, mesmo que o fossem, como garantir que existe uma ligação direta entre aquilo que se deseja, por mais nobre que seja, e aquilo que se obtem no final? Não haverá sempre a possibilidade de um lamentável abismo entre as (melhores) intenções e as (piores) conclusões?
Espera-se de um estadista que ele possa exibir certas virtudes que estão ausentes nas condutas de revolucionários. Humildade e prudência.
Não se pretende sustentar que a posição conservadora remete toda e qualquer ação humana para o inevitável fracasso. O ceticismo conservador não é uma forma de fatalismo, nem a rigor de pessimismo. (...) Há consequências imprevistas (e imprevisíveis) que podem ser indesejadas (e indesejáveis). (...) A política não é um jogo de cassino.
Avançar sempre "sensível à sua própria cegueira" e com um apurado "sentido de sua própria fraqueza". (...) Terá em conta o inescapável papel das tradições e das circunstâncias.

O sentido da realidade
"Por mais absorto que um general esteja na elaboração das suas estratégias, às vezes é importante levar em consideração o inimigo". (...) A importância das circunstâncias.
Desautorizar esse violento repúdio ao presente que parece definir a teoria e prática de revolucionários ou reacionários.
"Nada de universal pode ser racionalmente afirmado sobre qualquer assunto moral ou político".
Essa capacidade para entender a realidade tal como ela é e não como deveria ser à luz dos nossos projetos, desejos ou sentimentos particulares - o estadista "realista" não surge perante a comunidade "possuído pelo seu brilhante e coerente sonho" e interessado em submeter todos a esse sonho.
Legou ao pensamento conservador sua maleabilidade. [não flerta com "incoerência"?]
Burke vislumbrou na Revolução Francesa o seu caráter perfectibilista e destrutivo (ou destrutivo porque perfectibilista).
Cada situação, cada circunstância, convida a uma resposta particular.
O conservadorismo britânico se orgulha por adotar inovações de esquerda quando elas mostram a sua validade perante os testes da experiência e as necessidades do momento.
A maleabilidade às circunstâncias (...) será a expressão mais evidente do seu pluralismo político.
Um conservador pluralista tenderá sempre a negar prioridade a um único valor ou a um conjunto de valores sobre os demais. [no momento, isso me deu um grande nó; não aceitei fácil. Mas, principalmente após Kirk, entendi melhor].
Admitindo, porém, que outras comunidades podem abraçar outros valores. [não precisa impor "sua verdade"; Kirk também bate muito nisso quando critica ideia americana de impor "sua" democracia pro resto do mundo].
Não é função do estadista conceder a determinados valores, sempre e em qualquer contexto, primazia sobre os restantes.
Uma vez afastada a "falácia agregadora" de que fala Scruton (...), ao estadista cabe a função mais modesta de escolher e equilibrar valores múltiplos e concorrentes. (...) "A total liberdade para os lobos é a morte para os cordeiros".
Conforme relembra Scruton, perguntar qual a melhor forma de governo em abstrato convida sempre à atitude do ateniense Sólon, que devolveu a pergunta com novas perguntas: "Governo pra quem? E em que tempo?".
[É claro que] A maleabilidade poderá abrir-se à crítica recorrente de que o conservadorismo não será mais do que uma forma de relativismo cultural e até ético...
Concepção universal de natureza humana que indicará não aquilo que os indivíduos devem fazer, mas o que eles não devem nem podem fazer.

Os testes do tempo
Só aqueles que nada estimam podem abraçar entusiasticamente a mudança, qualquer mudança, em qualquer circunstância.
A duração não é valiosa para aqueles que pensam que pouco ou nada foi feito antes do seu tempo. Pelo contrário: a antiguidade dessas tradições e instituições era um motivo suplementar para que elas fossem inapelavelmente destruídas. Como se essa antiguidade fosse expressão de um defeito intrínseco.
Parece existir no moderno pensamento liberal a ideia radical de que todas as tradições são "invenções" (...), que podem ser "reinventadas", substituídas ou pura e simplesmente destruídas.
Mas as tradições que importam a um conservador não são apenas as que resultam ou resultaram de um ato consciente de criação humana. (...) porque sucessivas gerações encontraram nelas vantagens que aconselharam a sua manutenção.
Obviamente que, nessa atitude, o conservador sabe que nem todos, no tempo presente, podem desfrutar desses arranjos - o conservador não é um personagem de Voltaire, acreditando que vive no melhor dos mundos possíveis.
O conservador não é estranho a situações de pobreza e exclusão que impedem muitos seres humanos de beneficiar do patrimônio moral e institucional de uma sociedade. Porém, a única forma de estender futuramente esse patrimônio aos mais desfavorecidos não significa, logicamente, destruí-lo. Significa, antes pelo contrário, preservá-lo (e às vezes reformá-lo) de modo que as gerações vindouras possam ter "uma casa, e não uma ruína".
As tradições (...) permitem ao indivíduo (...) entrar na "grande conversa da humanidade".
As tradições que cobrem a "natureza nua" dos indivíduos com as vestes do costume e do hábito.
Alargar os horizontes limitados do estadista presente, alertando-o para a sua circunstancial pequenez humana.
Relembrar aos vivos a sua natureza transitória num mundo que não lhes pertence, exceto por empréstimo.
"Sabedoria sem reflexão" - uma forma de designar os preconceitos que todos temos e de que todos precisamos.
Acontece que os "preconceitos" que interessam a um conservador não podem ser entendidos, ou confundidos, com meras ideias irracionais sobre determinados comportamentos, minorias ou indivíduos - o sentido atual e rasteiro do termo. Se todas as palavras também tem uma tradição, importa recordar que "preconceito" deve ser entendido no sentido clássico, ou seja, como praejudicium - um precedente ou um julgamento baseado em decisões ou experiências passadas que, pela sua validade comprovada, informam decisões ou experiências presentes e futuras. (...) válidos porque testados.
As tradições são também o ponto de partida para qualquer atitude reformista. (...) Uma sociedade incapaz de conservar é uma sociedade incapaz de se reformar.

A reforma prudente
"Para que mudar, se as coisas já estão tão ruins?" [Da piada] se conclui que a inação será sempre preferível a qualquer ação inevitavelmente destrutiva. (...) Levou demasiado longe uma caricatura.
[Críticas aos conservadores:]
"Tese perversa" (:...) acabarão sempre por gerar perversamente o oposto dos objetivos que se propunham alcançar.
"Tese fútil" (:...) serão apenas "superficiais" (mudanças de fachada, digamos).
"Tese ameaçadora" (:...) para que mudar se as coisas não estão tão ruins?
A revalorização das "consequências fortuitas" não equivale à afirmação de que tudo resultará necessariamente no seu contrário. (...) Os resultados de qualquer mudança apresentam sempre uma margem de imponderabilidade que tanto pode frustrar o agente, como contentá-lo muito além das suas melhores intenções originais. (...) Há acasos felizes.
Outras ideologias rivais (e racionalistas) defendem com preocupante otimismo que tudo está condenado ao sucesso desde que os homens tragam os problemas da sociedade perante o tribunal último de uma "razão clara e distinta".
Um organismo vivo, dotado de vida própria, ou seja, de evolução e transformação.
Reconhecendo que a mudança é inevitável em qualquer sociedade composta por seres vivos, Disraeli afirma que ela não deve proceder de doutrinas gerais ou princípios abstratos (e arbitrários). As mudanças devem fazer-se por referência (e em deferência) "às maneiras, aos costumes, às leis, às tradições de um povo".
Um princípio seguro de conservação e um princípio seguro de transmissão, sem excluir um princípio de melhoria. Conservação, transmissão, melhoria: a ordem dos fatores não é arbitrária.
"Um estado sem a possibilidade de alguma mudança é incapaz de se conservar", diz Burke. (...) A reforma é necessária para se preservar (e melhorar) o que se encontra em risco.
A importância preventiva da reforma para que se evitem situações potencialmente revolucionárias. (...) A reforma será especialmente relevante para um conservador avesso ao radicalismo político.
É importante estender quantitativamente essas condições, de forma a evitar que um elevado número de indivíduos atue radicalmente porque nada tem a perder e tudo a ganhar. (...) "Para que possamos amar o nosso país, nosso país deve ser amável".
Sobre as mudanças exógenas, o conservador deve ter em conta que a inovação traz sempre uma perda inevitável e um ganho possível, o que significa que cabe a quem propõe a referida mudança mostrar claramente as vantagens da inovação sobre as certezas da tradição.
A inovação deve partir de uma situação concreta, não de mero desejo abstrato. Deve ser resposta a um defeito preciso. Deve ser pequena e parcelar. Deve operar-se lentamente e ser acompanhada passo-a-passo.
Fazer uma distinção, nem sempre fácil, entre as imperfeições toleráveis e as imperfeições intoleráveis (...), distinguir coisas acidentais de causas permanentes, na medida em que nem todas as irregularidades constituem um "desvio total".
"A ciência de construir uma comunidade ou de renová-la ou de reformá-la é como qualquer outra ciência experimental, algo que não pode ser ensinado a priori" - Burke
As reformas atempadas [prudentes] são feitas "com o sangue frio" e não precipitadas por "estados de inflamação", típicos da mentalidade revolucionária e destrutiva.
Capaz de separar o todo da parte em falta, reformando-se a parte em falta sem alterar a substância do todo.
Karl Popper - engenharia "parcelares": (...) avaliar no prazo devido as consequências mais tangíveis de cada ação reformista antes de se avançar para uma nova ação do mesmo tipo.
Imperfeição intelectual (...), humildade política, (...) afastar do horizonte da espécie humana qualquer ambição perfectibilista ou utópica.

A "sociedade comercial"
A direita nunca vislumbrou no capitalismo o tipo de vícios desumanos que a esquerda se especializou em detectar e denunciar. Acontece que, para espanto desses mesmos espíritos, seria possível escrever um longo manual anticapitalista só com autores conservadores.
É possível articular uma defesa conservadora da "sociedade comercial"sem haver qualquer contradição entre os termos.
Se a função de um governo é respeitar, por princípio, a natureza humana, importante é também que ele respeite uma das propriedades fundamentais dessa mesma natureza: (...) propensão para negociar, permutar ou trocar uma coisa pela outra.
A vontade e a necessidade humanas de mercadejar eram das mais "autênticas" paixões naturais, e só um poder político tirânico podia suspendê-las ou destruí-las.
O conservadorismo portanto deve começar por respeitar a natureza dos homens, (...) num sistema em que são as escolhas naturais e livres dos indivíduos, e não a imposição autoritária de um padrão único de preferências ou comportamentos.
"Os resultados econômicos [do mundo ocidental] são melhores porque a filosofia moral é superior. É superior porque começa pelo indivíduo, pela sua singularidade e pela sua capacidade de escolha." - Thatcher
"Capacidade de escolha" parece colidir com "legisladores da humanidade". (...) O capitalismo  não parece despertar o mesmo fervor que outros ideais econômicos ou éticos. Não existe uma dimensão "transcendente" no capitalismo.
Um conservador valoriza uma "sociedade comercial" , não por motivos transcendentes - antes por motivos empíricos e imanentes. (...) A "sociedade comercial" funciona. Funciona duplamente: na criação e na distribuição de riqueza e, além disso, como expressão das livres aspirações humanas.
O mercado livre, mais do que uma ameaça a tradições estabelecidas, deve ser visto com uma tradição estabelecida (...) sobreviveu aos sucessivos "testes do tempo". (...) "ordem espontânea" (...) emergiu natural e espontaneamente pela interação livre e obviamente incontrolada dos seus diferentes elementos.
A mentalidade monista do intelectual secular convive mal com indivíduos que procuram livremente os seus fins de vida sem atenderem às recomendações paternalistas e tantas vezes autoritárias de uma elite política, filosófica ou religiosa.
O respeito pela liberdade das escolhas humanas não pode ser confundido com uma reverência acrítica a qualquer resultado.
A imperfeição humana que define os homens determinará muitas vezes lamentáveis condutas - e lamentáveis consequências. (...) Ninguém celebra a liberdade de um louco que fugiu de sua cela para aterrorizar a vizinhança. (...) Sublinhar a impossibilidade de aferirmos a qualidade de um valor apenas tendo em conta a "nudez e o isolamento da abstração metafísica". [talvez uma boa resposta à 'maleabilidade de valores']
Será também aconselhável (...) que o açougueiro, o cervejeiro e o padeiro exibam certas virtudes que o mercado tende a reconhecer e a premiar. (...) Valores como disciplina (e autodisciplina), confiança (e auto confiança), honestidade. (...) A moralidade dos mercados. "Viver numa economia de mercado encoraja certas formas de comportamento virtuoso".
E quando esse comportamento não é virtuoso? (...) Questionar se (...) as falhas morais são anteriores a qualquer participação no sistema e que podem igualmente emergir em contextos exteriores ao próprio mercado.
Imputar ao mercado comportamentos reprováveis do ponto de vista ético mais não é do que um lamentável expediente para desculpabilizar moralmente os indivíduos. (...) Convém não desprezar a influência prévia que as famílias, as escolas, as igrejas e todos os restantes "pequenos pelotões" desempenharam (ou não) na formação moral de um caráter. (...) O que somos dentro do mercado depende do que fomos (e somos) fora dele.
Uma lembrança especialmente importante para os herdeiros libertários de Adam Smith (... :) o Estado é a mais importante instituição para o bom funcionamento de uma "sociedade comercial". Porque só o Estado garante a defesa da paz e da ordem; a construção onerosa de grandes infraestruturas que não podem depender apenas do voluntarismo da iniciativa privada; e a administração independente da justiça, capaz de defender a propriedade privada, o respeito pelos contratos firmados ou a punição de crimes e abusos cometidos.
"O governo também tem o claro dever de ajudar a cuidar dos doentes e dos velhos e de providenciar uma rede de proteção para todos aqueles que, sem culpa alguma, caem no desemprego, na pobreza e na privação." - Thatcher

Conservadores ou monomaníacos: uma conclusão
Ignorância ou má-fé (...) "Conservador" e "fascista" são termos incompatíveis entre si. (...) Fascismo, assim como o comunismo, adquire contornos inapelavelmente revolucionários e utópicos.
A ação revolucionária, pelo contrário, obedece antes a um "princípio de preguiça": a preguiça de quem é incapaz de pacientemente estudar e reformar a comunidade real, optando antes por "atalhos" e pelas "facilidades falaciosas" da destruição e recriação totais.
O conservadorismo, como ideologia reativa que é, define-se pela sua atitude geneticamente antiutópica.
Pela defesa da imperfeição intelectual humana perante a complexidade e as contingências com que nos confrontamos no ato de governar; pelo reconhecimento das diferentes concepções do bem que definem as sociedades abertas, democráticas e pluralistas; pelo respeito às tradições úteis e benignas que sobreviveram aos diferentes "testes do tempo"; pela apologia de uma atitude reformista que seja capaz de evitar a degradação do "edifício" que se procura conservar; e pela valorização e proteção de uma sociedade comercial.
Desautorizar a procura por ideais utópicos (...) porque (...) assentam na arrogância própria de quem se considera onipotente e onisciente ignorando "a sua própria cegueira".
O que move Burke é a perigosa ideia de "plasticidade" do mundo e da natureza dos homens, como se ambos pudessem ser objeto de transformação radical.
Modesto e prudente.
Não cabe ao poder político decidir a hierarquia de valores sob a qual todos os indivíduos terão de viver as suas vidas. Porque são os indivíduos que vivem essas vidas. [não abre brecha pra falar que aborto é uma questão pessoal, então? Poder político pode impor valor da vida como primazia?]. (...) Confronto com outras tradições conservadoras de natureza monista, ou seja, defensores da aplicação de um valor ou de um conjunto de valores absolutos.
"Uma moralidade mínima que proíbe o homicídio, a agressão, o roubo e a mentira é igualmente aceita por liberais e tradicionalistas". [isso já não é uma hierarquização?]
O reconhecimento de uma natureza humana comum será também uma forma de repetir a velha máxima de que, em cada destino amargo, poderia também estar o meu destino.
Definir a específica (e limitada) vocação de um governo: (...) sobretudo aquilo que ele não pode nem deve fazer.
O que um governo conservador não pode nem deve fazer é "impor atividades substantivas" sobre terceiros, como se a vida alheia pertencesse a um dono sem rosto.
Para um conservador, o imperativo da continuidade é mais importante do que a promessa de que algo irá triunfar.
É perfeitamente possível ser um conservador em política e um radical em todo o resto.
Eis talvez o mais importante princípio de uma sociedade política tolerável: evitar que o poder seja exercido por monomaníacos [radicais].

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primum non nocere

Em um dos rascunhos públicos para seu último livro Antifragile, Nassim Taleb argumenta:

Há também o elemento do engano associado com o viés de intervenção, acelerado em uma sociedade de profissionalização. É muito mais fácil vender um "Olha o que eu fiz por/para você" do que um "Olha o que eu evitei por/para você".
Eu procurei na história por heróis que se tornaram heróis por aquilo que NÃO fizeram - é difícil de observar "não-ação"; não pude facilmente encontrar nem na minha memória nem nos livros. O médico que se abstenha de operar uma coluna (uma cirurgia muito delicada e gratificante), dando a chance de curar sozinha, não será recompensado ou julgado tão favoravelmente como o médico que faz a cirurgia que parece indispensável, trazendo [um falso] alívio para o paciente ao expô-lo a riscos e grandes recompensas financeiras para si mesmo. (...). O gerente corporativo que evitou uma perda não será facilmente recompensado. [tradução livre].
 A sabedoria milenar já avisa: Primum non nocere. First do no harm.

Eis, na verdade, um dos pilares da disposição conservadora: prefiro o mal que conheço ao mal que não conheço.

O fenômeno social que acontece em São Paulo, o haddadismo (só o Brasil mesmo pra ter imprensa governista e torcida organizada pra prefeito...) é a antítese disso. Nem os integrantes da TOFH (Torcida Organizada Fê Haddad, uma homenagem à zambininha) julgam como 'boas' as intervenções feitas em São Paulo. O único argumento é 'ainh... pelo menos ele fez alguma coisa...'.

Pois é. Sempre dá pra fazer alguma coisa. E piorar.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Amor e ódio

Numa dessas discussões filosóficas sobre o conflito de israelenses e palestinos, um grande amigo judeu vaticinou: "o conflito não acaba enquanto os palestinos não começarem a amar o próprio povo mais do que odiar o nosso". Achei interessante.
E sempre lembro disso quando analiso as atitudes demagógicas (e burras) de administrações petistas. E Haddad é o campeão: enquanto ele não 'amar o pobre mais do que odiar o rico', a cidade só vai piorar. (Aliás, como esquerdista gosta de criar versões de nós contra eles: ricos x pobres, mulheres x homens, negros x brancos, hetero x homo,...)
Prejudicar alguém não é sinônimo de ajudar um outro. É isso que dá pensar só em desigualdades ao invés de níveis absolutos...
As soluções dessa administração são completamente desbaratadas. Não devem ser tomadas por mais de uma pessoa, pois quando a primeira sugerisse, já levava um sopapo da segunda...

(ps: Quem está falando é um cara que usa bicicleta e ônibus, e não carro.)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

As vitrinas mandam

Outro trecho espetacular de 'A Rebelião das Massas', de Ortega y Gasset.

DINÂMICA DO TEMPO

AS VITRINAS MANDAM

     Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina, a proposição é mais falsa que verídica. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa, e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença.

     Entretanto, teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala, e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. Porque é estranho que tempos sobremodo diferentes coincidam em ponto tão principal. Em geral, não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas, porque - é forçoso declará-lo - eram mui pouco inteligentes a respeito de si. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser, esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história.

     No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata, chrémata aner! "Seu dinheiro, seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo, no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita, e no XVII, Gôngora faz disso letras. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro, desde que se inventou, é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. Quem as usa expressa com elas, pelo menos, sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. E de onde nos vem essa convicção, segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos, e que sempre nos colhe de surpresa?

     É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules.

     Eu creio que esta surpresa, sempre renovada, ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio, são, entre si, muito diferentes. Entretanto, pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral, tempos muito transitórios entre duas etapas. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. Como? Será que o dinheiro não possui, a rigor, o poder que, deplorando-o, se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade, essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. Pelo visto, não o deve ter porque não é seu, mas usurpado às outras forças ausentes.

     A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. O importante é evitar a concepção econômica da história, que alheia toda a graça do problema, fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo, também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza, da realidade econômica nos tempos feudais. Porque, ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval, não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. Os marxistas, para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese, menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica, e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu.

     Ninguém, nem o mais idealista, pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história, mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro, mas, vice-versa, se reparte segundo se acha repartido o poder social, e vai para o guerreiro na sociedade belicosa, mas vai para o sacerdote na teocrática. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias, que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. Pois bem: no século XVI, por muito dinheiro que tivesse um judeu, continuava sendo um infra-homem, e no tempo de César os "cavaleiros", que eram os mais ricos como classe, não ascendiam ao cume da sociedade.

     Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário, incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo, mas não é a musa de seu estilo tectônico. Pelo contrário, se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos - raça, religião, política, idéias -, toda a energia social vacante é absorvida  por ele. Diríamos, pois, que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro, que, por ser elemento material, não pode volatilizar-se. Ou, de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. 

     Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. Morta uma constituição política e moral, fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. Ora bem: isto é impossível. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. Qual seja o princípio desta é outra questão. Mas algum terá de existir sempre. Se os normais faltam, um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. Durante um momento - o século XVII - na Holanda, o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. A fantasia humana, fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia, inventa sempre algum novo tema de desigualdade.

     Mas, ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota, eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. Se nos envaidecemos, tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. Há, entretanto, a meu juízo, uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. Resta só o dinheiro. Mas, como indiquei, isto aconteceu várias vezes na história. O novo, o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. O dinheiro teve, para seu poder, um limite automático em sua própria essência. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. Se há poucas coisas para comprar, por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências, seu influxo será escasso. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro - ceteris paribus - será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar, não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno, em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica, produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis, de tantas classes e qualidades, que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar.

     No século XVIII existiam também grandes fortunas, mas havia pouco para comprar. O rico, se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente, tinha de inventar um apetite e o objeto que o satisfaria, tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais - fantasia criadora de desejos no rico, seleção do artífice, trabalho técnico deste, etc. - de que se fazia, sem querer, dependente.

     Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas, escolher os objetos melhores - o melhor automóvel, o melhor chapéu, o melhor isqueiro, etc. - e comprá-los. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.

     El Sol, 15 de maio de 1927.


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