segunda-feira, 16 de abril de 2018

Amigos do Acaso


O ser humano tem a mania de justificar seus sucessos pela própria competência – e não por sorte – e a justificar seus fracassos pelo azar – e não pela incompetência [NTaleb]. Isso é uma espécie de autoengano, que pode funcionar por muito tempo, mas - acredito - alguma hora vai bater e machucar.

Em um sociedade meritocrática, onde comemoramos apenas conquistas, isso pode não soar bem. Não me entendam mal. Não existe sociedade bem sucedida sem meritocracia. Incentivos (e analogamente punições) são absolutamente necessários para civilização. Mas a ideia desse texto é trazer um pouco de humildade. Lembrar que muito do que nos leva ao sucesso não é exatamente mérito nosso. Sacrifício de pais, esposas, maridos, filhos, professores, outros funcionários, amigos. Mas quero ir além, entrando um pouco nos campos filosófico e até religioso. Mesmo os "próprios méritos" que nos levam ao sucesso são, em certa medida, mero acaso. Para se formar em Engenharia, por exemplo, é preciso alguma proficiência em matemática. É verdade que matemática tem muito de transpiração (além da inspiração inata), mas sem a semente do conhecimento, sem esse "dom", provavelmente 20 horas de estudo por dia não bastariam. E esse dom é uma graça gratuita. Ganhamos por acaso. Vejam bem. De modo algum quero desmerecer as conquistas. Muitos receberam os dons que tivemos e não fizeram nada com eles. E aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais [NBonder]. Por isso, também a importância de uma sociedade meritocrática, que incentive o sucesso de pessoas bem dotadas. Mas entender, ou aceitar, ou pelo menos considerar que talvez a gente tenha tido certa sorte, torna os sucessos ainda mais especiais. Porque adiciona à felicidade da conquista laboriosa um sentimento de gratidão.

Em suma, sejamos amigos do acaso. Minha mensagem em todo esse texto é basicamente essa.

Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: O destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos. (...)
Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos.
- Eclesiastes 9

Sejam amigos do acaso. Mas lembrem-se que amizade requer uma atitude ativa. Tudo que falei até agora não significa ficar esperando a sorte no sofá. O vento apaga uma vela mas atiça a fogueira. O mesmo acontece com a aleatoriedade: queremos usá-la, não fugir dela. [NTaleb]. Isso significa se expor ao bom acaso. Quero me ater um pouco mais a esse ponto. Já conversei bastante sobre acaso com amigos e alguns reagiram de forma meio maniqueísta: 'Ah, se o acaso é quem manda, então não temos o que fazer!'. Não. Não é isso que eu disse e não é isso que eu acho. Tem um monte de frase bonitinha na internet sobre isso ('você não escolhe o que a vida faz com você mas escolhe o que faz com aquilo que a vida fez com você') ou mesmo em qualquer entrevista de atleta americano após uma derrota ('we have to control just what we can control'). São chavões, mas são verdadeiros. O argumento aqui é que o modo como a gente encara o acaso interfere na influência real do mesmo em nossas vidas. Permitam-me um exemplo pessoal rápido. Um dos dias mais tristes da minha vida foi quando tive que demitir um amigo por estar usando crack no trabalho. À noite no mesmo dia, num aniversário, ainda meio abatido, conheci uma amiga de uma amiga que trabalhava com dependência e acabei desabafando um pouco com ela. Essa moça é minha esposa há 5 anos e mãe de 2 belos filhos. Foi a essência do limão virando limonada. O azar de ter um amigo dependente foi quase que a 'chave de leitura' para a sorte de ter encontrado minha esposa.

Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires
tratar da mesma forma a esses dois impostores. (...)
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!
- Rudyard Kipling

Sejam amigos do acaso. Ser amigo do bom acaso, ser amigo da sorte, é ser humilde. Isso seria razão suficiente. Mas tem seu inverso. Alguma hora, os dados vão cair pro outro lado. Alguma hora, o azar vai nos pegar e, nesse momento, a humildade no sucesso de outrora vai nos dar bagagem para ser altivo no fracasso presente. Todos seremos vítimas de alguma injustiça na vida - condição social no nascimento, beleza estética prejudicada, trapaça no trabalho, traição, doença, algum crime; o problema não é se perceber vítima; o problema é o ressentimento que essa vitimização pode causar [TDalrymple]. Sem serenidade, com ressentimento, a tendência é alguma tentativa de vingança ou reparação. E com isso, o mundo fica pior. Mas, pior que o mundo pior, é a gente ficar pior. Não dá para arrumar o mundo sem arrumar sua casa; não dá para arrumar sua casa sem arrumar sua cabeça [JPeterson].

Se todos os nossos infortúnios fossem colocados juntos e,
posteriormente, repartidos em partes iguais pra cada um,
ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter,
de novo, apenas aqueles nossos."
- Sócrates

A maior crítica que alguém pode fazer a meritocracia é o corolário de, ao afirmarmos que alguém MERECE o sucesso, termos que dizer que outro alguém MERECE o fracasso [ABotton]. Daí, o "azarado" (conotação neutra) do passado ter virado o "loser" (conotação negativa) do mundo atual. Mas justamente nesse ponto, sendo amigo do acaso, percebi que uma relação amigável - não revoltada, não ressentida - com o acaso permite entender melhor as injustiças alheias. Passamos a ter empatia, por exemplo, pelos mais pobres que, inevitavelmente, terão menos oportunidades na vida (embora, parêntesis, o atual regime capitalista meritocrático ainda seja o que mais oferece chances para esses 'azarados'), mas sendo amigo do acaso, percebemos que esses infortunados não são pessoalmente culpados pelo próprio azar. Por outro lado - e na polarização ideológica atual, isso é crucial - entendo também que EU não sou pessoalmente culpado pelo azar de ninguém. Nem culpa criminal, nem política, nem moral, nem mesmo metafísica [KJaspers]. Claro que ausência de culpa não significa indiferença. Mas tratar a situação sem estar 'acuado pela culpa' é um bom começo. [Na tragédia,] Entendendo a 'inversão de sorte', sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou [Alain de Botton]. Essa empatia sem culpa, esse entendimento sem coitadismo, aos poucos, pode restabelecer uma sociedade mais baseada em caridade e voluntariedade do que em deveres e direitos [RWeaver]. 

Ninguém quer ser tolo.
Também, ninguém quer ser perverso.
Mas se não queremos ser tolos de jeito nenhum,
acabamos por nos tornar indivíduos bem perversos.
E o contrário também.
- Nilton Bonder

Sejam amigos do acaso.
Coluna ereta e olhar firme no fracasso, sem ressentimento, sem autocomplacência, sem inveja. Serenos.
Coluna ereta e olhar firme no sucesso, sem orgulho, sem autobajulação, sem perversidade. Humildes.


Quem acusa os outros pelos seus próprios infortúnios revela uma total falta de educação; quem acusa a si mesmo mostra que sua educação já começou; mas quem não acusa nem a si mesmo nem aos outros revela que sua educação está completa.
– Epíteto

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Luta solitária

Tenho certa aversão à necessidade de criticar (potencialmente) a direita quando se critica (factualmente) a esquerda. Mas a pensata abaixo, retirada do twitter do @lucasmafaldo me pareceu muito boa e 'intelectualmente honesta'.
Repito na íntegra o que está na sequência aqui.
____

O problema do petismo não está nas políticas públicas, mas em uma mentalidade de alguns de seus membros e de muitos grupos políticos -- o que, infelizmente, atinge tanto a esquerda quanto a direita. O primeiro elemento dessa mentalidade é a convicção que o mundo é fundamentalmente mau e que toda relação pode ser caracterizada como uma disputa entre oprimidos e opressores.
Essa interpretação não deixa de ter uma base na realidade, pois a natureza da existência, afinal, é bastante desigual -- sempre tem alguém com mais dinheiro, mais beleza, mais contatos. Porém, em vez de considerar que isso é parte da vida, os utópicos ficam... putos. Eles acham que tudo é uma Grande Sacanagem. E que alguém é pessoalmente culpado pelo fato do mundo andar torto.

Aí chegamos no segundo elemento: o utópico, por perceber e se revoltar contra a Grande Sacanagem, começa a se achar especialmente puro. Quanto mais odeia o mundo, mais bondoso ele se sente -- é o nascimento do famoso "ódio do bem".
Isso gera um sentimento tribal: as pessoas comuns, que vão tocando a sua vida, são vistas como "alienadas", sem "pensamento crítico". O utópico as olha cada vez mais com desprezo, pois não as vê lutando "contra tudo que está aí". Ele começa, então, a se sentir cada vez mais irmanado com os demais utópicos. Ele sente que sua verdadeira família é composta por aqueles que também lutam contra a Grande Sacanagem -- os revoltados, os indignados, os revolucionários.

E aí chega ao terceiro elemento: o utópico não quer resolver nenhum problema específico. Ele quer Resolver Todas as Coisas Ao Mesmo Tempo. Isso mesmo: ele quer uma solução total, global, definitiva. Aos seus olhos, as pessoas comuns são egoístas e pequenas, pois se ocupam apenas dos males que estão diante de si. Ele chega até a odiá-las, pois começam a achar que elas, de algum modo, são cúmplices da Grande Sacanagem.

Essa tríplice combinação é, literalmente, infernal. Simplesmente não é possível resolver todos os problemas. Não é possível mudar a natureza da existência humana. Essas pessoas se acreditam puras, mas elas estão, na verdade, surtadas. E é um surto com consequências enormemente destrutivas. Elas criam alianças em torno desse ódio generalizado e começam a trabalhar incessantemente por causas impossíveis. Embora elas jamais cheguem aonde pretendem, elas fazem merda pra caramba no caminho.

Como eles acham que TUDO está errado e que são PUROS, eles concluem que o defeito fundamental do mundo é o fato de que eles ainda não possuem poder total. Afinal, se controlassem tudo, o paraíso chegaria à terra. Logo, a coisa certa a fazer é acumular poder a qualquer custo. Essa mentalidade sempre acaba em revolução e morticínio. Ela gera uma fome de poder insaciável. Toda lei, fato ou moral que se interrompa a caminhada para o poder deve ser atropelada. Ele serve como livre-conduto para roubo, mentira, manipulação e violência.
Em alguma medida, essa mentalidade está em quase TODOS os grupos políticos -- tanto de esquerda, como de direita. Ela pode perverter mesmo ideais bastante boas e causas realmente justas. Essa distorção ideológica está no centro do movimento socialista e foi uma das principais causas de mortes no século XX -- matando mais que o nazismo e o fascismo, que também são variações da mesma insanidade. E foi esse mesmo movimento, essa mesma psicopatia generalizada, que formou e alimentou o movimento socialista brasileiro. Por orientação direta, aliás, dos serviços secretos comunistas desde a década de 30, desbocando no petismo nos anos 80.

O que é realmente impressionante é a incapacidade da cultura de reconhecer a psicopatia como tal, de deixar movimentos maoístas -- que possuem como objetivo explícito degolar a todos nós -- circulando por aí. É uma prova que todo mundo está meio lelé da cuca. Obviamente, não quero insinuar que essa insanidade é exclusiva da esquerda. Mesmo muito direitistas e liberais brasileiros têm sucumbido à tentação utópica, achando que possuem a Solução Total, e fazendo um monte de merda pelo caminho.

A verdade é a seguinte, turma: não existe salvação nessa vida. O bem e o mal já estão dentro da gente. Nenhum movimento vai trazer o paraíso para a terra. A vida sempre será uma bagunça. Se houver salvação, é para depois que morremos. Enquanto isso, o que dá para ter certeza é o seguinte: o bem o mal são alimentados por cada concreto, específico, particular. Não há iluminação ou santidade permanente. Cada um precisa lutar sozinho para não virar um filho da puta. O resto é mentira e ilusão.

(Lucas Mafaldo)

Nada pessoal


Juan Carlos Osorio, em entrevista coletiva, disse certa vez: Aprendi a não tomar nada como pessoal. Na maioria das vezes, as críticas não são a mim especificamente, mas àquilo que eu represento. As críticas não são ao Osório, mas ao técnico; ou ao técnico estrangeiro; ou ao técnico com background acadêmico.
Aquilo me tocou. E tenho tentado aplicar à minha vida. Não tomar as coisas como algo pessoal. Nem sempre é fácil.
Personas. Somos personas. Somos personagens em cada cenário de nossas vidas. Vestimos máscaras. Representamos funções. A crítica, tomada como pessoal, pode afastar o desejo de continuar. Mas virá outra pessoa, representando aquela mesma função, e a crítica permanecerá. Se a função é necessária, haverá um personagem, e esse personagem será criticado.
Mas, oras, se a função é mesmo necessária, a crítica então será conseqüência natural, ato contínuo. Se a persona não agüenta, a estrutura – para a qual a função era necessária – cai.
(...)
Criticar é preciso. Aguentar a crítica... também.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Esperança

A grande maioria dos casamentos se inicia abençoada pela Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor...“). É um trecho que dá primazia à virtude do AMOR. Linda, sem dúvida.

Mas o AMOR – caridade – é ‘apenas’ uma das 3 virtudes teologais. E tenho pra mim, cada vez mais forte, que as 3 agem em conjunto, um tripé. O amor na alegria e na saúde é mais fácil. Já na tristeza e na doença, pode sacolejar. E aí, só é possível segurar a peteca e retomar a linha usando-se da FÉ e da ESPERANÇA.

Retomando ao caso do meu amigo Cepa: a relação dele com sua esposa Laura deve ter mudado bastante. Diante do ‘obstáculo’ na relação, o desafio na rotina do AMOR causado pela doença, a toada foi retomada porque mergulharam na FÉ. A FÉ é a entrega total, é a resignação prazerosa, é aceitar de bom grado o ‘Seja Feita a SUA Vontade’.

Mas o ponto central do meu argumento nesse texto é a 3ª virtude teologal: a ESPERANÇA.
Não devemos deixar que o insucesso na batalha pela vida do nosso amigo nos leve a achar que a esperança nesses 11 meses tenha sido em vão. Ou pior: que tenha sido um grande delírio coletivo. Acho que se diz que a esperança é a última que morre porque ela é capaz de se renovar. Se tínhamos a esperança que o Cepa sobrevivesse, agora temos a esperança que ele, lá de cima, ajude a Laura e as meninas a terem uma vida legal por aqui. Mas tampouco é esse o ponto central da esperança. Se fosse só isso, ainda assim, poderia ser considerado um mero auto-engano em massa, sempre aguardando a próxima decepção. NÃO. A esperança é o próprio caminho feliz. Também se diz que o melhor da festa é esperar por ela. Não é pra tanto (a festa – a vida eterna – ainda é o melhor), mas a espera já traz, sim, felicidade. Como disse aqui, “(...) no tumulto da vida terrena, a promessa de felicidade celeste já nos enche de esperança. No exato momento em que o sujeito se recobre de esperança, ele já começou a ser feliz. A esperança é o aperitivo necessário para o banquete da felicidade. (...)
Aliás, o texto do link é sobre o Evangelho da Montanha – coincidentemente a Homilia de hoje – e justamente sobre a lógica "faça isso na Terra e tenha a esperança daquilo no Céu".

Hoje é Dia de Finados e a reflexão nos diz: “para todos os povos da humanidade, (...) a morte continua a ser o maior e mais profundo dos mistérios. Mas, para os cristãos, tem o gosto da esperança, (...) é apenas a porta de entrada para desfrutar com Ele a vida eterna no Reino do Pai. (...) Enquanto para todos os homens a morte é a única certeza absoluta, para os cristãos ela é a primeira de duas certezas; a segunda é a ressurreição que nos leva a aceitar o fim da vida terrena com compreensão e consolo”. Em suma, esperança.

O Cepa viveu melhor nesses 11 meses – de fato, na realidade, não apenas ‘potencialmente’ – pois teve o coração cheio de ESPERANÇA. Todos nós nos preparamos. Chegou a hora da sua festa.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aos amigos Cepa e Laura


Cepa, meu amigo, sua mensagem foi linda. Pesada mas linda. Não soube como responder - e essa carta é uma tentativa -, mas não tive vontade de chorar. Já choramos demais ao longo do caminho. Sua mensagem nos traz serenidade e paz.

"Mas por que, Deus? Por que, Deus?". Não cabe essa pergunta. Essa vida nos é dada sem sabermos e nos é tirada sem pedirmos. Mas o que fazemos nela é o que define o que será depois da passagem. Lembro de uma frase que marcou minha infância pelo joguinho de palavras bestas, mas que foi criando sentido ao longo da minha vida: 'Quando você nasceu, você chorou e as pessoas ao seu redor sorriram; viva sua vida de modo que, quando morrer, seja você a sorrir enquanto os outros choram'. Por muito tempo, não tive medo de morrer; tinha medo, sim, de morrer com um velório vazio. Meu amigo: você cumpriu a missão. A energia que você deixa é o melhor que alguém pode fazer por aqui.

Quando conversamos pela primeira vez após a confirmação da doença, você me disse que, dias antes de descobrirem, você comentou com a Laura que sentia falta de certa espiritualidade. Aquilo ficou marcado na minha cabeça. Talvez, essa história tenha sido justamente para trazer essa espiritualidade, não só pra você, mas pra toda sua família. Do ponto de vista cristão, a boa vida é a que abre as portas para outros irmãos. Sua família viverá no Reino dos Céus, pelo sacrifício da sua vida. Literalmente. Isso é o mais perto que conseguimos da Imitação de Cristo. Parabéns, cara, você conseguiu. Você é um vencedor.

"Mas e a Laura? E a Marina? E a Bruna?". Meu amigo, elas vão sofrer. Pra caralho. Mas só sofre quem ama. E só ama quem quer a Verdade. E a Verdade é essa espiritualidade que você encontrou com elas. Elas vão passar e se tornar pessoas melhores. Até porque você vai estar presente no coração de cada uma delas. O tempo todo. Não sofra por elas agora. Damos os ombros uns aos outros, mas cada um tem a sua cruz. Assim como eu queria carregar um pouco dessa sua cruz pra te aliviar - e não posso -, você também não pode carregar essas cruzes que são delas. E se são delas é porque elas podem carregar.

      Por muito tempo achei que a ausência é falta.
      E lastimava, ignorante, a falta.
      Hoje não a lastimo.
      Não há falta na ausência.
      [Drummond]

Mergulhamos só umas 20 ou 30 vezes juntos e fico feliz em saber que você estará em todo e cada mergulho que eu fizer na vida a partir de agora. Não deixe de olhar por nós, por favor. E quando chegar minha vez, se eu for digno de ir pro Céu te encontrar, se der, por favor, venha me receber logo na entrada: tenho medo de não ser tão forte e tão bom como você.

Te amo, cara.
___________________

Laura, querida,
mandei uma mensagem pro Cepa, mas não paro de pensar em você. Ele parece sereno, em paz, e isso só é possível porque ele tem um anjo como você por perto.

No início do ano, numa crise de choro, fui rezar ainda mais intensamente. Era março, dia 19, dia de São José. E a história de São José caiu como uma luva para o que eu sinto por você. São José foi um santo "low-profile", um "ator coadjuvante". Estava sempre "à sombra" de Jesus e Maria, sempre servindo Jesus e Maria. Mas estava sempre ali. Numa pergunta que te fiz sobre VOCÊ por whatsapp ("E aí, como VOCÊ está?"), você respondeu sobre o Cepa. Você se esvaziou pra encher o Cepa. Você viveu pra servir o Cepa. Que belo dom é o dom do servir. Que linda história. Você deve ter chorado algumas vezes, num canto; um choro contido, escondido. Como São José. Você é o nosso São José.

Você tem uma grande cruz pela frente. Pode xingar Deus. Ele te entenderá e não vai se magoar. E vai te consolar. Mas lembremos que o "Seja Feita a Sua Vontade" do Pai-Nosso não tem condicionante; NÃO é "seja feita a Sua Vontade DESDE QUE não leve nosso Cepa". A fé é um modo de aceitar o que - TALVEZ - só faça sentido mais tarde. O Cepa estará mais presente do que nunca e mostrará suas marcas - vividas e sentidas - nos nossos corações, especialmente nos de vocês três.

Não tenha medo do futuro. De novo no Pai-Nosso, "o pão nosso de cada dia nos dai hoje". Não 'os pães do resto da vida nos dai hoje', nem mesmo 'o pão de amanhã nos dai hoje'. "Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará suas próprias preocupações. É suficiente o mal que cada dia traz em si" [Mt 6,34].

Não é tanto o que me dói que me assusta; mas o que pode doer. Os sábios reconheciam que o mais poderoso recurso da imaginação é o medo, que pode ser definido como uma mentira muito sofisticada. O medo não é a subversão de um fato ou evidência, mas uma mentira sobre o tempo. Ele não distorce a realidade em si, apenas o seu tempo. Em vez de olhar a realidade no presente, o medo faz com que a vejamos nas imagens projetadas sobre o futuro. Como o futuro ainda não existe, tudo aquilo pelo qual nos preocupamos está no território da mentira, produzido pela inventividade. O medo tenta neutralizar o elemento mais poderoso do corpo e que tanto o ameaça: a dor. Diferente do medo, a dor localiza-se no território da verdade, que é o agora. [Nilton Bonder]

Sejamos sinceros: 1. essa dor não vai passar. NUNCA. Vocês (nós) vamos nos acostumar com ela, mas essa dor sempre vai nos cutucar. Mas 2. APESAR DISSO, vocês vão ficar bem. Vão ficar pessoas ainda melhores.

Até o nosso dia chegar... E aí, o reencontro terá sabor de infinito.

Laura, você é um anjo. Continue iluminando quem passa pelo seu caminho.
Que São José, Protetor das Famílias, te acompanhe sempre. O Cepa estará junto.
(E eu quero também estar por perto)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Essa vida...

Acho que chega um momento na vida de reflexão de toda pessoa no qual ela se pergunta ‘qual é a dessa vida...?’. Seja por uma tristeza pessoal muito grande, seja por uma sensação de injustiça generalizada.
Por que o mundo é ruim se Deus é bom?
Por que Deus permitiu a existência do Mal?

Pessoalmente, tive o pico desse sentimento ao longo desse ano. Estudei mais, entendi que essa não é uma Vida de Justiça, e sim de Misericórdia. Mas aí, veio um sentimento perigoso: o de ‘apequenamento’, de ‘desimportância’ dessa vida. Cheguei a conversar com uma grande amiga, baita psicóloga jungiana, que me apresentou o conceito de metanoia, a ‘crise de meia idade’, especialmente pra alguém que já se formou, já trabalha há bom tempo, já é casado, já tem 2 filhos... E agora, o que fazer desse ‘restinho de vida’ que me sobra? Procurei mais ajuda: conversei com um padre amigo, busquei outros sermões. Disseram-me: essa vida é tão importante que o Próprio Deus resolveu viver nela. 

E acho que cheguei numa resposta. [Tenho a impressão que esse é um tipo de pergunta-resposta que vai mudando ao longo de toda vida; tenho a impressão que vou reler esse texto no futuro e me sentir meio simplista...] Enfim...

Essa vida é como o dito popular: ‘seu caráter é o que você faz quando não tem ninguém olhando’. O Bem feito apenas para chamar atenção perde um pouco do Encanto. É auto-marketing, não o Bem em si. Como Jesus diz no Evangelho: quando jejuar, não fique com cara amarrotada mostrando sofrência; quando orar, não grite para ser ouvido; que a mão direita não saiba quando a mão esquerda doou... Se nos fosse dada a evidência do Céu e do Inferno, como distinguir quem faz o Bem porque simplesmente é Bom daqueles que fazem o Bem por mero medo do Inferno? Ou seja, essa vida é nossa oportunidade de mostrar se somos Bons por convicção, por crença, por simplesmente achar que o Bem é o Bem, independentemente da certeza de recompensas. Embora nossa fé diga, sim, que haverá recompensa: a vida eterna no Céu (vis a vis a vida pra sempre no Inferno).

O sofrimento, a tristeza, a resistência à injustiça são provações que temos que passar pra chegar lá.
E aí, sim, poderemos viver num mundo sem o Mal.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Rezar, esperar, agradecer

Faith means believing in advance what only makes sense in reverse. - Philip Yancey
No domingo, voltei pra casa pra fazer uma mala: minha esposa estava no hospital com minha filha, que seria internada por um problema respiratório. Sentei numa banqueta no banheiro, rezei, tentei controlar a respiração como na yoga e pensei: as próximas horas vão ser duras; que o tempo passe rápido e cheguemos logo na, sei lá, quarta-feira. Por várias vezes ao longo da vida, em momentos especialmente mais "reflexivos" - Natal, Ano Novo, diante de uma paisagem - fazendo aquele tradicional review do que vinha acontecendo, pedia a Deus para que eu conseguisse levar essa calma para os momentos de turbilhão. É fácil explicar uma história depois que ela passa; difícil é ter o discernimento para, na hora certa, facilitar a resolução e encaminhar melhor o rumo da história. Era o que eu estava tentando fazer ali. Mas, tolinho!, quarta-feira ainda seria cedo.

Helena acabou parando na UTI por longos 6 dias. A porra da merda do ciclo da doença tem seu pico no 5º~6º dia; isso significa que, ao contrário do que se espera quando se está num hospital, ela PIORAVA a cada dia. Poupando maiores detalhes, eu vi cenas fortes com minha filha (... uma vez vistas, jamais serão des-vistas...). A possibilidade de perder minha filha - pelo menos, na minha cabeça - foi bastante real. Nesse momento, diante de muitas crises de choro, lembrei da experiência de Abraão, que levando seu filho para o local da morte, mantinha a fé em Deus. Lembrei de 2 textos. O primeiro da peça "Alma Imoral", de Nilton Bonder:
Abraão caminha com o filho pelos montes de Moriah. No seu íntimo, a dúvida é terrível. Em determinado momento o filho lhe pergunta: “pai, onde está o cordeiro que oferecerás em holocausto”? Ele responde: “Deus o enviará, filho”. Ele não quer obedecer. Ele não quer desobedecer. E ele não obedece. E ele não desobedece. Porque ao colocar o filho entre os gravetos Abraão escuta um terceiro comando divino: “Não lance tua mão sobre o mancebo e não lhe faça mal”. Ao ouvir esse terceiro comando divino Abraão não trai nem a Deus e nem a si e ainda consegue legitimar a sua transgressão em relação à cultura como sendo a verdadeira vontade do seu Deus. O segredo de Abraão está na sua capacidade de não revolta. Na sua capacidade de manter um altíssimo nível de tensão interna e esperar. Esperar ouvir Deus desdizer. E ele ouve. Essa capacidade de ouvir Deus expressar uma vontade diferente da que inicialmente tinha revelado é a capacidade humana de legitimar e dar prioridade aos interesses da alma, munido de seu corpo moral. Abraão, assim, funda a história porque ele compreende, através do seu esforço, que seus comandos divinos lhe são internos, mas tão internos, tão internos, que vêm de uma superfície entre o eu e o não eu. Uma superfície em região tão profunda e sagrada que pode até ser simbolizada como o céu e o inferno.  Essa é a “terra prometida” com que Abraão sonha. Uma terra que não sacrifique os seus filhos.
O segundo foi "Temor e Tremor", de Soren Kierkegaard, que também versa sobre a angústia, a dúvida doída e calada de Abraão. Para isso, a fé:
A fé é a mais elevada paixão de qualquer homem. Talvez existam muitos homens de cada geração que não a atinjam, porém nenhuma vai mais além dela.
O único modo de encarar essa semana foi essa resignação absoluta, esse completo aceitar. Não procurar "entender" nem encontrar porquês.

Também foi importante separar a dor (real) do medo (potencial). Como nesses trechos de "Segundas Intenções", também de Nilton Bonder:
Não é tanto o que me dói que me assusta; mas o que pode doer. Os sábios reconheciam que o mais poderoso recurso da imaginação é o medo, que pode ser definido como uma mentira muito sofisticada. O medo não é a subversão de um fato ou evidência, mas uma mentira sobre o tempo. Ele não distorce a realidade em si, apenas o seu tempo. Em vez de olhar a realidade no presente, o medo faz com que a vejamos nas imagens projetadas sobre o futuro. Como o futuro ainda não existe, tudo aquilo pelo qual nos preocupamos está no território da mentira, produzido pela inventividade. O medo tenta neutralizar o elemento mais poderoso do corpo e que tanto o ameaça: a dor. Diferente do medo, a dor localiza-se no território da verdade, que é o agora.
Todo choro contém uma fração que não é de dor, mas de uma segunda intenção que quer controlar a dor. Para realizar isso, o ‘Eu’ tem como artifício transformar a experiência do acidente que causa a dor numa ameaça constante. O choro passa a existir por preocupação e por controle, não mais pelas consequências dolorosas do ocorrido, mas pela possibilidade dessa dor se repetir. No choro está o truque de transformar nossa impotência, o fato de que somos vítimas, numa forma falsa de potência e controle. Reagimos assim não só à dor, mas à injustiça da dor e à perda do privilégio que ela representa.
Minha filha está bem. Saímos domingo, presente de Dia das Mães. E, ex-post, todo esse medo pode parecer meio besta, claro. Mas, mesmo assim, sem dúvida, provocou uma transformação aqui dentro.

Não posso ser acusado de não valorizar as "pequenas coisas cotidianas", as sortes-bençãos que tenho na vida, como minha família. Valorizo e agradeço frequentemente. Mas, talvez, eu tenha aprendido a dar menos valor para outras coisas. Nessa semana, teve um problema grave na empresa, teve uma eliminação grave do meu São Paulo. Quer dizer, ... nada disso foi GRAVE MESMO...

Também percebi que não adianta tentar se antecipar muito às dores futuras, transformando-as em medos presentes. Meu grande medo é bandido, mas quem me deu susto mesmo foi um vírus. Difícil lutar contra o acaso...

E, falando em acaso, penso nas, sei lá, mais de 50 pessoas que passaram pela vida da Helena nessa semana: médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, motorista de ambulância, secretária de internação,... Quantas avaliações, quantos pequenos procedimentos poderiam ter dado errado e...: não deram!

Toda minha vida parou. Fui só 2 dias ao escritório, sem ter dormido quase nada no hospital, claro. E foi extremamente difícil fazer qualquer coisa: o cérebro simplesmente não reagia. Também voltei a lembrar - na verdade, eu nunca tinha esquecido - da sorte-benção de ter esse trabalho flexível. Fiquei triste pelos que não tem essa sorte, inclusive funcionários da empresa.

Também tive muita ajuda da família nesse período. E quem não tem?...
Conversando sobre filhos & medos com uma amiga há algumas semanas, ela me disse: a experiência de ter filhos é uma prova de humildade, pois todos os dias eles desafiam nossas certezas. Helena desafiou muita coisa em mim nessa semana. Refleti bastante sobre a relação assimétrica entre pais e filhos: é uma relação de amor, claro, mas é uma relação assimétrica. O amor que emana dos pais é, sei lá, mais "ativo"; os atos de amor dos pais são silenciosos, contritos, quase que "não-reconhecidos"; é uma oferta de tempo, sono, preferências ... e que os filhos jamais vão perceber, não por maldade, mas por simples ignorância. Encanado como sou, imaginei tudo que meus pais fizeram por mim e eu não pude ou não soube reconhecer. De novo, fiquei mais triste.

Ficar na UTI por uma semana é uma experiência de humanização, um - como dizem - "BANHO DE POVO" (considerando que não fiquei num hospital ~TOP™, como falam os jovens). O drama de casos mais graves, de bebês ainda mais novos, de pacientes com longas permanências, de neuropatas, cirurgias punks... Enfermeiras que deixam filhos doentes em casa para cuidar dos filhos doentes dos outros... É tudo muito forte.

Mas tudo isso fortaleceu minha fé. Não pelo resultado positivo, claro. Mas pela experiência em si. Peço apenas mais 2 coisas: que todo esse sentimento não se enfraqueça em mim com o passar do tempo e que eu possa transmitir toda essa reverberação para outras pessoas.
"Eu creio mas aumentai a minha fé".