sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Cartas a meus filhos

XI

Filhos,

Muito se tem dito sobre “pais ausentes”, nem tanto fisicamente, mas principalmente pela falta de autoridade e de propagação (não propaganda) de conhecimento.

Eu concordo com a tese. Acho que o mundo tem recebido muitos filhos pouco acostumados a ouvir “não”, muito mimados. Até pela influência dos nossos ascendentes – meu pai, meus avôs, bisavôs – muito disciplinadores, queridos e respeitados por toda família, tive a preocupação de dizer “nãos” pra vocês desde cedo. Lembro como fiquei “orgulhoso” quando o Pedro, ainda engatinhando, queria bagunçar na cozinha com a comida do Zig, mas voltava, obediente, quando eu dizia “isso não”.

Num desses dias, depois de um “não vá bagunçar a comida do Zig”, disse um “não brinque aí perto da quina” e talvez um “não rasgue os livros”... Foi então que a mamãe percebeu e me deu um toque: talvez devêssemos selecionar só alguns “nãos”. Foi a primeira vez que percebi talvez o maior dilema de ser pai: quando intervir? e quando deixar rolar?

Começou a passar todo um filme na minha cabeça das inúmeras vezes que meus pais sofreram por nós e que não puderam fazer absolutamente nada mais que assistir ao sofrimento: uma derrota doída nos nossos esportes, uma porrada amorosa, um vestibular ou uma prova de motorista. Você põe o filho no mundo e vê a vida bater nele.

Na verdade, às vezes, não é nem uma porrada da vida. É só uma dor de crescimento mesmo. Não adianta eu fazer o exercício de matemática pra vocês. Vocês vão ter que errar sozinhos.

E a angústia dessa carta é justamente porque vocês já começaram a nos oferecer algumas dúvidas sobre desenvolvimento, questões sobre esse “viés da intervenção”. Numa “Oração dos Fieis” que o vovô me entregou sobre a missão de ser pai, tem um item que fala um pouco sobre isso:


Rezo a Deus para que eu tenha a coragem, a competência e o conhecimento para intervir quando eu tiver que intervir; que eu tenha a serenidade e a mansidão para que deixar que vocês andem por conta própria quando tiverem que andar por conta própria; e que eu tenha a sabedoria e a inspiração de Deus pra reconhecer a diferença.

Amo vocês.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Cartas a meu filho

X

Filhos, já disse outras vezes: o crescimento do amor com o nascimento de vocês foi uma coisa mágica, gigantesca, mas veio acompanhado por um medo muito forte. O medo d’eu morrer. O medo de um de vocês morrer. O medo da mamãe morrer.

Um amigo do papai está com um desafio maior pra encarar esse medo. Um câncer pesado. Ele - como eu - tem 2 filhinhas - como vocês. A associação é óbvia. Não digo que a dor dele é a minha dor, porque simplesmente não é: ele é quem sente as dores e os enjoos do tratamento, não eu. Não posso dizer que sei o que ele sente. (A mamãe falou sobre isso outro dia: a diferença entre empatia e identificação). No entanto, o medo dele é o meu medo. O medo dele é a materialização do meu medo. Nesse ponto específico, estamos juntos.

Desde que ficamos sabendo dessa doença, filhos, muitas ideias relacionadas ao assunto me chegaram. Algumas por querer, outras nem tanto. Claro que meus olhos e meu coração estavam mais atentos pra essas mensagens. Li sobre métodos novos pra atacar as células ruins, por exemplo. Na missa passada, no Evangelho do Sermão da Montanha, aprendi que aquelas promessas de felicidade celestes são um convite para nossa esperança aqui nessa vida. Quem tem esperança já começou a ser um pouco feliz. E, essa semana, num livro que me apareceu, li essa pérola:
"Cavamos abismos quando já os temos dentro de nós. E eles surgem da nossa desesperança. É a desesperança que cava abismos. E o homem desesperado, quando não mais espera o que esperava, precisa encontrar o que não tem.  E o desespero, que está virtualizado no crente fiel, atualiza-se no homem que duvida. Cavam abismos os que duvidam."

Filhos, a esperança não é racional, é uma virtude. O mundo vai dar motivos, mas nunca percam a esperança.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

~Verdades~ goela abaixo


É impressionante a capacidade d’o Brasil criar ‘verdades’ ‘unânimes’. Em especial, as que atendem a pauta esquerdista.
Por muito tempo, o simples fato de não dizer ‘amém’ para o pensamento vermelho foi visto como deformação de caráter: ‘Nossa, como assim você não quer justiça social e paz mundial?????’.

Um assunto que veio à tona mais forte recentemente (talvez pelas loucuras do Trump, talvez pelos acertos do Brexit) é o multiculturalismo. Virou crime fazer cara feia para a miscigenação irrestrita dos povos e costumes. O ‘multiculturalismo é bom’ virou uma daquelas ‘verdades unânimes’. Sei...

Acho que a ideia antagônica ao multiculturalismo é ‘patriotismo’, soberania, respeito à cultura local, às tradições. Mas outro dia, perguntei pra uma amiga e ela respondeu ‘xenofobia e racismo’!!! Não é fácil acompanhar essa lógica.

Meu ponto é que, pro brasileiro, multiculturalismo significa ir à Vila Madalena e poder escolher entre o restaurante árabe, tailandês ou a velha e boa pizza. Não tem um vizinho com 12 esposas legítimas, não tem um imigrante ilegal empregado enquanto você está desempregado, não tem um cara na rua que explode porque a religião assim o manda. (O assassino brasileiro é gente como a gente. hehe)

O multiculturalismo assume que TODA miscigenação é boa. E isso é obviamente uma falácia. Sorvete é bom. Catchup é bom. Sorvete com catchup não é bom. ‘Ainnn, o brasileiro é um povo por definição miscigenado.’ É verdade. E o 'anti-multiculturalista' NÃO diz que NENHUMA miscigenação é boa. Mas provavelmente precisam ter alguns elementos em comum, algum nível de associação, alguma possibilidade de adaptação. Sorvete é bom. Caramelo é bom. Sorvete com caramelo é bom. Um homossexual nunca vai ser bem quisto numa cultura islâmica. Por definição.
E, claro, algum nível de respeito; um é o solvente, outro é o soluto. Uma mulher chegando na Arábia vai usar véu. Não é a árabe que vai passar a usar mini-saia em casa.

Ainda na linha das comparações bestas mas úteis, a fé cega no multiculturalismo é pensar em fazer um festival musical com hard rock e sertanejo no mesmo lugar. Não vai ser legal nem pra uns, nem pra outros. E essa constatação, por si só, não quer dizer que um seja melhor que outro. (Mas é importante notar que, sim, pra uns, um será melhor que o outro; e pra outros, o outro será melhor que o um.)
Um mundo todo adepto ao multiculturalismo seria um mundo todo igual, todo bege, todo chocho. Você não precisaria viajar pra Tóquio, Moscou, Tofo ou Jerusalém. Seria tudo a mesma coisa que a tua rua.

O interessante é que muitos adeptos do multiculturalismo não aplicam a teoria à sua própria vida (como, aliás, é típico dos esquerdistas). Um amigo ‘escandalizado’ com a ‘onda nacionalista ao redor do mundo’ é um agente ativo na sua associação de bairro. Há alguns anos, numa bela praça em declive bastante frequentada por crianças e cachorros, colocaram paralelepípedos no lugar das lombadas. Pelo jeito, eles não estavam muito a fim de miscigenar as crianças com os muitos skatistas que começaram a frequentar o local para aproveitar a inclinação da rua. Recentemente também fizeram uma grande reforma, com especial ênfase na iluminação. Também não acharam legal miscigenar a molecada com os nóinhas do escuro. Na teoria, a prática é outra.

Encerro com Dalrymple: o multiculturalismo é apenas mais uma faceta da estratégia esquerdista de fortalecer elos externos com o intuito de enfraquecer os elos internos da sociedade. Tem a mesma semente do trabalhismo e do ambientalismo, por exemplo.

É amar o sírio e tratar mal o próprio pai.

O Sermão da Montanha, a (in)capacidade de se mudar e a esperança como felicidade

O Evangelho da semana passada foi o Sermão da Montanha (Mateus, 5). Gosto especialmente desse trecho desde o curso de 1ª Comunhão, talvez pela estrutura lógica agradável à minha mente matemática: se fizer isso, então terá aquilo, se for pobre de espírito, então terás o Reino dos Céus, e assim por diante.

Existe um versículo nesse trecho que sempre me cutuca: os “mansos” herdarão a terra. Nunca me reconheço nele, e não evoluo de ano pra ano. É sempre um convite a esse difícil desafio.


Mas venho escrever sobre esse assunto por um outro motivo. Ouvi uma homilia que abre toda uma nova dimensão para esse Sermão. Jesus nos promete a felicidade, mas não nessa vida. Todos os “se’s” são dessa vida, todos os “então’s” são celestes. Uma conclusão possível seria desanimadora: ‘esquece!, nessa vida não haverá felicidades como no Céu!; desencana!’. Mas não. No tumulto da vida terrena, a promessa de felicidade celeste já nos enche de esperança. No exato momento em que o sujeito se recobre de esperança, ele já começou a ser feliz. A esperança é o aperitivo necessário para o banquete da felicidade. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cartas a meu filho

IX

Filhos, eu tenho um ídolo. Ídolo na concepção mais admiradora: eu queria ser ele.
Suas principais virtudes são meus maiores defeitos: ele é querido onde chega, é bom no que se propõe a fazer, é easygoing e não está nem aí pra tudo isso. É assim sem nem se esforçar, quase sem perceber.
Mas ele levou uma porrada da vida. Ele sofre, eu sofro. Mas - claro - minha sofrência não diminui a dele, não acelera a cura dele. E isso me angustia. 
Se eu pudesse dar um pitaco pra Deus, pediria pra Ele rever a questão da angústia do homem. Ao contrário da multiplicação que ocorre - cada um que fica sabendo aumenta o quantum de sofrimento -, poderia haver alguma possibilidade de divisão: ao sofrer um pouco por ele, ele passaria a sofrer um tanto menos...
Que passe logo.
Vai passar.

Amo vocês.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Do Ódio

Trechos selecionados do excelente 'Do Ódio', de Gabriel Liiceanu .




Ambiguidade epistemológica da fórmula "não poderes odiar": significa não poderes invejar e, assim, chegares ao ódio? Ou significa não poderes reagir ao mal feito, fazendo outro?

Nos obriga a distinguir entre um "ódio de partida" e um "ódio de reação", tendo o primeiro justificação psíquica, mas não moral; e o segundo, igualmente justificações psíquicas e morais.

1. Um homem chega a odiar o outro pelas qualidades que não tem ou pelo grau acrescentado das qualidades que ambos têm (...). Odiando-o, ele lhe deseja o mal. Este mal não responde de maneira nenhuma a nenhum gesto pelo qual o odiado tenha feito àquele que o odeia. (...) O ódio nasce "puro". (...) Porque não tem o precedente no ato ou feitos do odiado, o ódio dele é "de partida". O odiado é a vítima passiva daquele que odeia. Ele se vê odiado "do nada". (...) É gerado estritamente do ponto de vista psicológico. (...) É profundamente imoral precisamente à medida que não tem nenhuma justificação moral. (...) Gratuito em sua maldade.

2. Um homem chega a odiar o outro pelo mal que aquele lhe faz. (...) É justificado como réplica ao mal suportado. (...) "ódio de reação". O ódio de reação, procurando recolocar o mundo em equilíbrio, é um ódio com justificativas morais.


Todo o tempo da vida, saibamos ou não, comparamo-nos com os outros. Que posição ocupo do mundo em relação aos que a vida me colocou no caminho? (...) Nossa vida é de fato uma contaminação perpétua que resulta da "fricção" contínua com os outros. (...) Como me distingo dos outros?

O encontro com o igual ou superior termina no amor, passando pela admiração, ou no ódio, passando pela inveja. (...) Dito de outro modo, não se põe o problema do ódio enquanto o outro é avaliado como inferior.

Goethe sugere que é "mais rentável" amares, e a "salvação" neste caso é, evidentemente, a do "inferno do ódio".  (...) Em suma, o ódio nasce da impotência de amar.

Numa comunidade atomizada e desunida, em que a admiração está em vias de desaparecer, o sucesso de alguém já não pode ser avaliado em termos positivos. O ódio é que passa a ser automaticamente um sintoma de sucesso. É odiado, logo, existes.


Uma qualidade que desejo pra mim, eu a descubro no outro. (...) Odeio ao que tem parte neles, porque considero que um puro acidente impediu-o de ser meu. (...) Não é minha impotência essencial que ponho em discussão, fundada nos limites dos meus dons, mas a "injustiça cósmica": Por que ele, e não eu?


(...) Desaparece o semelhante e Caim percebe Abel mais como diferente (...), depois como oposto a ele (...), no fim, como inimigo (...), digno de ser morto. (...) "Algo" tem de ser tão poderoso em sua imponência, tão importante, que impeça Caim de reconhecer Abel e, assim, reconhecer a si nele. Este "algo" é o ódio. (...) Inveja-ódio-crime.

Deus não faz senão condená-lo ao estado que, pelo ódio, Caim já obtivera: à cegueira.

Adão e Eva, calcando o mandamento divino, abrem o problema da opção. Caim, o filho mais velho, o corta em favor do mal.

O ódio de Caim é pessoal. (...) sendo gerado pontualmente pela inveja. (...) é uma paixão negativa espontânea. (...) algo ruim. (...) Pressupõe um castigo. (...) O crime tem um reverso e um eco  (...) no sofrimento que este lhe provoca. (...) vergonha (...) remorso.

Ao contrário do amor, por exemplo, cuja satisfação pode multiplicar-se ao infinito nos limites desse mesmo objeto, o ódio em sua forma originária não pode realizar-se de maneira absoluta senão uma única vez, juntamente com o crime. (...) A principal limitação do ódio consta no fato de que o odiado não pode ser morto mais do que uma vez. [Maaaaaas:]

A espécie humana teve de esperar até o final do século XIX para que as "insuficiências" do ódio originário - a satisfação limitada, a direção única, o castigo, o opróbrio, o sofrimento ou remorso - fossem eliminadas e substituídas pelo oposto delas. Era necessário que o ódio se transformasse numa paixão honrada, era necessário que o assassino perdesse sua aura funesta, e juntamente com esta, todo o cortejo que geralmente acompanha a ideia de pecado, remorso e castigo tinha de ser, a seu turno, suprimida. Que elemento miraculoso faltava ainda para que tudo isso acontecesse? Para fazer do ódio um sentimento preferível ao amor, para fazer do crime algo bom e do autor dele um herói, para pôr, em lugar do remorso, o respeito de si e, em lugar do pecado supremo, a façanha que devia ser encorajada, louvada e recompensada?

O que descobria, juntamente com Marx, o final do século XIX é que o ódio pode ser organizado. Dito de outro modo, ele pode ser induzido, argumentado, explicado, teoretizado, previsto com um escopo, com um programa e posto de modo sistemático a trabalhar. (...) IDEOLOGIA. Desde esse momento, o ódio passa a ter dignidade histórica e aura científica. E o crime que o acompanha é, a seu turno, enobrecido, porque a finalidade a que ele serve sonha com o bem para muitos e, no limite, para toda a humanidade. O ódio vazio tem a eficiência de um arco e flecha, de um mosquete que dá um único tiro. Previsto com ideologia, ele se torna uma arma com repetição.

Transformação do ódio em "paixão política".  Ideologia: organização intelectual dos ódios políticos. (...) Ódio de classe, de raça, de nação e religioso. (...)  Todos encontram um teórico eminente, ou seja, homens capazes de organizá-los intelectualmente. (...) O desenvolvimento da imprensa como "instrumento de cultivo das próprias paixões".

Intelectuais abdicaram, por amor "das paixões políticas", sua missão eterna: a de defender, ao longo dos tempos, os valores da verdade, do bem e do direito da humanidade.

O ódio se torna impessoal. (...) Já não se odeia sozinho, mas se odeia em grupo. (...) Já não se odeia uma pessoa isolada, mas odeia-se uma pessoa como agente de uma categoria. (...) Odeia-se a alguém "como".

O ódio se aperfeiçoa: torna-se culto e cultivado. (...) consciente e orgulhoso de si. (...) O ódio dá o passo da natureza para a cultura. (...) Ódio canalizado. (...) Apenas quando se torna "ódio com programa", ele pode atingir as massas. (...) O enobrecimento do ódio. (...) O ódio justificado. (...) Em vez de receber um castigo pelo crime, recebe uma recompensa pelo seu ato.

De modo paradoxal, a ideologia introduz o ódio numa equação de felicidade. (...) deixa crer que a ideia de felicidade humana passa fatalmente pelo extermínio de uma parte dela.

A ideologia distorce fatalmente a verdade e cultiva de maneira sistemática a mentira. A mente escurecida pelo ódio não pode, falando platonicamente, ter acesso à verdade, mas apenas ao falso. (...) No plano afetivo, a sua vida de instala no horizonte do ódio e no plano intelectual, no da mentira.

O comunismo utiliza sistematicamente, no plano intelectual, a mentira, e no plano afetivo, o ódio e a inveja. Portanto, no que diz respeito às duas funções essenciais da psique humana - o intelecto e a afetividade - ele se situa em oposição aos valores centrais de cada uma: a verdade e o amor.

A agressividade das ideologias: do projeto de ódio à realidade do crime. (...) Marx: "Quando chegar nossa vez, não vamos disfarçar o terrorismo" e aceitou o assassinato com  a condição de ser eficiente.

A história do século XX se eleva nos montes de ressentimentos acumulados nos corações de alguns poucos indivíduos.

Doravante a humanidade se divide em duas categorias: a "progressista" e a "reacionária". A primeira é "boa" porque caminha no sentido da História. A outra é "má" porque se encontra fora do curso da História ou bloqueando-a.

Lênin: libertar-se de qualquer inibição que o mundo civilizado, com seus códigos e moral, podia induzir em si. (...) A nação como fator de coesão humana era extremamente forte (...), o pertencer ao mesmo povo no plano da união. Tinha de ser encontrado algo que, unindo do exterior, pudesse desunir o interior. (...) A noção de "semelhante" tinha de ser mudada para além das fronteiras de um país, e a de "inimigo" trazida para dentro delas. [HOJE: multiculturalismo, ambientalismo, ...] (...) Em todos os casos de ódio ideológico, de ódio organizado intelectualmente, é a operação de destituição da esfera do humano.


Caim mata tolamente, sem ser capaz de oferecer uma fundamentação do ódio que conduziu ao crime. Nós, ao contrário, (...) temos a qualquer momento um amplo sistema de justificativas, senão mesmo uma metafísica do ódio. Com convicções. (...) Vai afirmar que ‘então’ não era ele que agia, mas, através dele, uma ‘força histórica’.

O paradoxo do ódio organizado intelectualmente é que o objeto dele não desaparece com o crime. (...) Odiados igualmente em nome da categoria que representam. (...) A satisfação ilimitada do ódio pela inesgotabilidade do seu objeto é uma invenção da modernidade. (...) Um desenfreamento do ódio que não se pode satisfazer senão no crime infinito.

‘intelectuais’: (...) homens de letras. (...) Por oposição a ele, o resto dos homens, ‘leigos’.
Para que servem os intelectuais num mundo dominado inteiramente pelos leigos? (...) se opõem de maneira aberta às barbáries geradas pelo desenrolar-se das paixões políticas. É claro que não podem mudar o curso do mundo (...) mas, propondo sem cessar um tipo honroso de homem, mantém intacto o prestígio do ideal: não puderam impedir os leigos de encher toda a história com o zunido dos ódios e dos seus massacres, mas impediram que tivessem o culto desses atos, que se orgulhassem com o cometimento desses. Graças a eles, a humanidade praticou o mal, mas honrou o bem.

Os intelectuais são os moralistas de plantão da humanidade. Um mundo onde ninguém mais está da parte do espiritual, em que ninguém mais defende os valores de humanidade e de justiça e não se opõem às ‘paixões leigas’ é um mundo que escorrega para o materialismo mais puro e termina na bestialidade. Os valores universais e a dimensão do extra-temporal constituem a cilha com que a humanidade é impedida de sair do caminho da civilização.

No final do século XIX, os intelectuais começam a fazer o jogo das paixões políticas. (...) O termo intelligentsia descreve intelectuais que querem o poder a fim de mudar o mundo. (...) Espécie de intelectual que, uma vez com a ‘apresentação do programa’, assume também o papel de realizador dele. (...) Organizadores do jogo, eles querem, ao contrário, escrever a peça, dirigi-la e interpretar o papel principal. [hummm]. Todos os condutores da Revolução Russa eram intelectuais. (...) Lênin: o proletariado deve ser conduzido por homens capazes de conscientizar os interesses do proletário (este não estava em condições e terminava por ‘pactuar’ com a burguesia). (...) os que passaram à organização intelectual do ódio, os fanatizados por ele e desejosos de fazer bem aos outros, se não pela sua livre aceitação, então com a força e, no limite, matando-os.

Eles terão de demonstrar, ao contrário, que as leis, a moral e a crença são relativas e que, de um dia para o outros, podem já não valer dois caracóis. “As leis, a moral, a religião são para o proletário igualmente preconceitos burgueses”, diz-se no capítulo I do Manifesto do Partido Comunista. Nada mais é universal: nem a verdade, nem a moral, nem a justiça.

(...) para os quais o tempo e o mundo começaram com eles.

A ele e sua esposa – nenhum sabia escrever – lhes deram títulos de acadêmicos e, dessa forma, destruíram o símbolo da excelência do espírito. (...) Prostituíram o talento e mutilaram o gosto; destruíram a substância semântica das mais importantes palavras da língua (honra, verdade, povo, direito, dignidade, liberdade, consciência).

Bajulando um ser inferior, deram ao povo romeno um padrão de valores e de humanidade extremamente baixo; fazendo do cinismo a regra suprema do comportamento, atrofiaram aos concidadãos o sentimento de orientação na vida e tomaram de um povo as referências morais. Devastaram o espírito e a substância moral.

Na nova orla da história, 3 categoria de intelectuais: - os ‘desprendidos’ ou ‘castrados políticos’ (críticos literários e de arte, compositores ou pintores honestos, homens de ciência, lógicos,...); - os ‘comprometidos’, (...) o agrupamento sob a bandeira da esquerda, rebatizada no doce estilo novo, ‘social-democracia’; - os ‘neomoralistas’, (...) que se engajaram na reconstrução dos padrões morais da sociedade (os valores extra temporais perdidos no percurso dos decênios de relativismo anterior).

[entre ‘comprometidos’ e ‘neomoralistas’:] Uns odeiam porque se sentem deslegitimados socialmente e em perigo de perder os próprios privilégios (...). Os outros odeiam porque lhes parece impudico ouvir muitas vezes a mesma voz cantando agora uma partitura completamente diversa da história; porque esperam dos ‘comprometidos’ uma desculpa um tanto vaga pela qual decoraram o inferno; porque esperam deles um simples ‘passo pra trás’.

A diferença entre essas duas formas de ódio é, no entanto, enorme. Uma sonha com a supressão da pessoa odiada; a outra, com a aposentadoria dela.

[O ‘neomoralista’] crê no ‘humanismo’ e nas forças frágeis do bem. (...) [Para o ‘comprometido’], deve ser demonstrado a qualquer preço que todos fomos culpados. (...) [Para o ‘neomoralista’] mesmo se não conseguir sempre impedir os políticos de trapacear o jogo, ao menos vai tentar impedir que apresentem seus atos como morais e como a regra do próprio jogo.


Inclino-me cada vez mais a crer que a impossibilidade dos romenos de reencontrar um sopro histórico se explica pelo capital de ódio acumulado na sociedade.

Grande vitória de Lênin foi a de ter levado o ‘inimigo’ para dentro; (...) representado como estando permanentemente à espreita. (...) inimigo potencial.

Organizado intelectualmente como ‘ódio de classe’, conseguiram com notável eficácia obter, em apenas alguns anos, uma sociedade reassentada no domínio do ódio. (...) Capaz de fazer o mal a outro homem como se não fosse um homem. (...) Acontece numa dupla excomunhão da espécie humana: para poder agredir, o agressor tem de sentir o agredido como um não-homem, mas o agredido, por sua vez, sendo agredido, sente como não-homem o seu agressor.

A história é ‘abrigada’ ou é experimentada como abrigo por tanto tempo quanto os homens mantêm uns para os outros a imagem humana, por tanto tempo quanto o ódio não os desfigura. (...) infâmia, preguiça, delação, perda de referências, aniquilação das relações respeitosas entre os homens e cujo ingrediente supremo foram a inveja, a suspeita e o ódio.

O ódio organizado como princípio de governo devastou a sociedade romena: devastou as almas dos homens e as relações entre eles, assim como, pelos instintos de destruição liberados, devastou as acumulações do passado.

As confusões são muito disseminadas, seja porque alguns têm necessidade de mantê-las (a confusão é o estado de espírito ideal para a manipulação da consciência), seja porque outros, por tolice ou por preguiça intelectual, se comprazem nelas. Uma sociedade que vive em confusão não pode construir nada. Ela tateia por sua própria história e termina por sucumbir diante da burrice coletiva.

Pôr ordem nos conceitos fundamentais da vida não é uma questão de pedantismo, mas um modo de fazer periodicamente a limpeza no pátio da tua mente e da sua vida.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sobre a linguagem

Trecho de "Podres de Mimados - As consequências do sentimentalismo tóxico", de Theodore Dalrymple:

Assim, uma palavra passa a incluir coisas demais e a significar coisas de menos, e o hábito de insinuar falsidades enquanto se suprime a verdade é sutilmente inculcado em toda uma população.

(...)
Confúcio (...): Se a linguagem não é correta, então aquilo que se diz não é o que se quer dizer; se o que se diz não é o que se quer dizer, então o que deve ser feito permanece por fazer; (...) Por isso, não deve haver qualquer arbitrariedade naquilo que se diz.

A reforma da linguagem proposta por Confúcio (...) tomava a direção da verdade, com o propósito de conhecê-la.

As tentativas modernas da reforma da linguagem, por outro lado, são tentativas de realizar um fim político, normalmente utópico, e, portanto, ao mesmo tempo romântico e sentimental: um fim que ao mesmo tempo se deseja – ou que ao menos se diz desejar – e que se sabe não ser possível. Trata-se, portanto, de uma ferramenta permanentemente útil, mas desonesta (...).