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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Angústia moderna


Meu primeiro contato com Alain de Botton foi através desse excelente vídeo no TED, sobre uma nova concepção de sucesso. Depois, assisti a uma palestra dele no Fronteiras do Pensamento aqui em São Paulo, em que ele defende o legado e o exemplo das religiões mesmo para quem é ateu (como ele): forma de educar através de repetição e parábolas, artes (arquitetura, música), senso de comunidade, busca pelo conhecimento. Muito boa também. Aí, ele criou a tal School of Life, que me parece uma grande embromação.

Mas a ideia desse post é resenhar seu livro ‘Status Anxiety’, traduzido porcamente para ‘Desejo de Status’. Digo ‘porcamente’ porque a tônica do livro é a angústia mesmo, não o ‘desejo’. Gostei MUITO do livro (apesar de ser um pouco repetitivo...); acho que vai bem aos pontos do mal estar incessante dos ‘tempos  modernos’...



Alain de Botton divide o livro em 2 partes. Na primeira, ele reflete sobre 5 eventuais causas dessa angústia. Na 2ª parte, fala sobre 5 eventuais saídas, escapes para ela.

CAUSAS

1. (Falta de) Amor
Ele argumenta que, não raramente, o desejo de subir na hierarquia se deve não às conquistas em si, mas ao amor que recebemos em consequência do alto status; ou seja, dinheiro, fama, influência são como ‘tokens’ (fichas, meios) para ser amado. Nossa autopercepção, nossa própria identidade depende demais do que os outros pensam sobre nós. Procuramos sinais de respeito do mundo para nos tolerarmos. Se dão risadas das nossas piadas, consideramo-nos engraçados; se nos elogiam, consideramo-nos merecedores.

2. Expectativas
O autor lembra que a grandíssima maioria da população medieval, após uma vida inteira de trabalho árduo, possuía apenas 1 ou 2 vacas. O progresso material mudou completamente essas expectativas. Nós não conseguimos perceber como somos prósperos em termos históricos. Consideramo-nos bem sucedidos apenas em comparação com quem crescemos, com quem estudamos, com nossos amigos.
Não há sucesso mais intolerável (intragável, doído) do que o daqueles incrivelmente parecidos conosco. Daí, segue que, quanto maior o número de pessoas com as quais nos consideramos ‘iguais’, maior a possibilidade de sentirmos inveja .

"Quando a desigualdade é regra da sociedade, as grandes diferenças não chamam atenção.
Mas quando tudo fica mais ou menos no mesmo nível, a menor variação é notada."
Tocqueville

Hoje, uma leve queda nas condições de provação aumenta desproporcionalmente o medo da privação total. As pessoas não aceitam dar um passo pra trás.
Daí, as sociedades modernas criaram uma espécie de defesa, uma notável capacidade de achar que nada, nunca é suficiente...
Nós poderíamos estar felizes o suficiente com pouco, se pouco fosse o que queríamos; e poderemos nos sentir miseráveis com muito, se formos inclinados a desejar tudo. O preço que pagamos por ter expectativas tão maiores que nossos ancestrais é justamente uma angústia perpétua por estarmos longe de ser tudo aquilo que ‘poderíamos ser’.

"Há dois modos de tornar um homem mais rico: dar-lhe mais dinheiro ou ceifar seus desejos."
Rousseau

3. Meritocracia
Aqui, o filósofo explicita mudanças em 3 histórias do imaginário popular ao longo do tempo.
A primeira sobre a utilidade dos pobres. Por milênios, a plebe era vista com respeito por ser a trabalhadora, a ‘criadora’ de riqueza, até pela interdependência das classes (clero, nobreza e plebe). Por influência de pensadores modernos, essa lógica se inverteu. Hoje, os ricos, mesmo através de orgulho ou luxúria, são os que possibilitam a criação de riqueza e sua divisão. Antigos vícios passam a ser vistos como virtudes.

A segunda história que mudou é com relação à conotação moral da pobreza. Antes, até pela forte influência do Cristianismo (pelo qual, o verdadeiro ‘bem’ é o reconhecimento da dependência de Deus, independentemente de dinheiro), ser pobre não era um ‘ônus moral’. Agora, concorrendo com os antigos princípios hereditários e igualitários, aparece a MERITOCRACIA.
Não é mais possível argumentar que status seja resultado inteiramente de um sistema rígido. A crença de uma crescente conexão confiável entre o mérito e o sucesso no mundo dá ao dinheiro uma nova qualidade moral. A consequência desse pensamento (que, aliás, é um dos principais pontos lá da 1ª palestra de Alain de Botton no TED) é que, assim como os bem-sucedidos merecem seu sucesso, necessariamente os fracassados MERECEM seu fracasso. O baixo status passa a ser ‘MERECIDO’.

A 3ª história fala sobre ‘erros’. Antes, por influência de Marx & cia, os ricos eram considerados necessariamente corruptos, pecadores, ‘errados’. Enriqueceram porque roubaram os pobres. Agora, os estúpidos são os pobres, incapazes de se tornarem bem sucedidos pelos próprios esforços. (Pessoalmente eu não concordo que houve essa mudança). Os pobres deixam de ser AZARADOS e passam a ser FRACASSADOS (losers).

4. Esnobismo
Vivemos em um mundo diametralmente oposto ao amor incondicional de mãe, isto é, um mundo esnobe, com atenção condicional e dependente do que fazemos ou conquistamos.
O reforço do prestígio de ‘famosos’ necessariamente banaliza a vida dos ordinários.

"Se elas estão loucas para nos conhecer, não deve nos interessar conhecê-las. As únicas pessoas que nos interessam são as que não se interessam por nós."
Cartoon em 1892.

O problema é que não gostar das pessoas quase nunca é motivo suficiente para não desejar que elas gostem da gente.

5. Dependência
Nas sociedades tradicionais, o alto status podia ser difícil de ser alcançado, mas também era muito difícil perdê-lo. Hoje, há muito mais imprevisibilidade (ou pela menos, temos mais percepção dela) para manutenção do status.
Dependemos do talento, da sorte, de um empregador, do lucro desse empregador, da economia global,...
O autor lembra que não faz muito tempo que as pessoas deixaram de trabalhar por conta própria (em suas fazendas ou negócios de família) para barganhar sua inteligência por um salário. Essas ‘novas’ relações trabalhistas (necessidade de ‘puxar saco’ de colegas e superiores, tensão por promoção própria e alheia, corte de funcionários) se tornam uma das mais opressivas angústias.
Abre-se espaço para Marx, cujas teorias de valor capturam esse ‘conflito’ entre empregado e empregador: há uma ÚNICA diferença entre o trabalho e outras commodities; o trabalhador sente dor.

SOLUÇÕES

1. Filosofia
Embora a filosofia entenda que a angústia possa ser 'útil', aqui o autor apresenta o ceticismo em relação à inteligência dos outros, o que chama de 'misantropia inteligente'.
Devemos perceber que a opinião da maioria das pessoas sobre a maioria dos assuntos é extraordinariamente confusa e errada: 'a opinião pública é a pior das opiniões' (Chamfort).
Antes de buscar a aprovação de alguém, devemos nos questionar se as opiniões dessa pessoa merecem ser ouvidas.

"Um músico deve se sentir grato pelo aplauso de uma plateia se soubesse que toda ela, sem exceção, é surda?"
Schopenhauer

2. Arte
A arte é a antítese do moralismo; é marcada pelo desejo de remover o erro humano, limpar a confusão humana, diminuir a miséria humana.
Através da tragédia ('da alegria para miséria', erro de julgamento, inversão de sorte), sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou. Evidencia nossa (falsa) tendência a achar que estamos com o controle consciente do nosso destino. Num mundo imbuído com as lições da arte trágica, as conseqüências das nossas falhas seriam menos pesadas.
Já a aparente inocência das comédias permite passar mensagens que seriam 'perigosas' diretamente. Uma piada engraçada é aquela que cria situações ou sentimentos que causam embaraço ou vergonha no nosso dia-a-dia; jogam luz sobre as vulnerabilidades que costumamos deixar nas sombras.

3. Política
Toda sociedade atribui uma alta estima a um certo grupo (enquanto condena ou ignora outros) baseado em habilidades, origem, temperamento, força física, cor da pele, gênero, religião,... Longe de ser permanente ou universal, as 'qualidades' em um local ou era podem ser irrelevantes ou mesmo indesejáveis em outros. Os valores de status foram e serão objetos de mudanças: esse processo é chamado 'política'. Para tentar mudar, usam-se armas, protestos ou livros.
As 'ideias dominantes' de qualquer época são sempre as ideias da 'classe dominante' e é difícil manter essa relatividade em mente. Paradoxalmente, se essas ideias forem percebidas como 'impostas forçosamente', elas não serão mais dominantes. Daí, a necessidade de ser perguntar de forma autônoma: 'Deve ser assim?'.
Essa percepção pode diminuir nossa sensação de perseguição, passividade e confusão a que estamos sujeitos.

4. Religião
Nós podemos superar o sentimento de ‘desimportância’ não nos fazendo mais importantes, mas reconhecendo a falta de importância de qualquer um (e de todos) na Terra, especialmente diante de uma força muito maior (infinitude, eternidade ou, mais comumente, ‘Deus’).
Memento mori: a ideia da morte reorienta nossas prioridades, afastando-se do mundano, rumo ao espiritual. Passa a ideia de certa 'igualdade': não importa se com alto ou baixo status, todos temos o mesmo destino, o pó.
Achei interessante a passagem de Xerxes (de Herodotus): após grande conquista, o imperador começa a chorar ao perceber que, em um período de 100 anos, todos seus bravos soldados estariam mortos.
Ruínas (um símbolo da infinitude do tempo) e paisagens (símbolo da infinitude do espaço) ajudam nessa tarefa de evidenciar nossa insignificância.
Outro importante auxílio das religiões é o senso de comunidade. No mundo atual, ser ‘qualquer um’ é medíocre, conformista, chato, suburbano; o objetivo é se distinguir da massa. No entanto, pelos ensinamentos de Cristo, por exemplo, ser igual aos outros é uma das principais virtudes do ser humano. Ensina-nos a olhar além das nossas diferenças superficiais, destacando que possuímos basicamente as mesmas vulnerabilidades e necessidades. O entendimento cristão é de que existe um status terreno e outro sagrado; redefine sucesso não em termos materiais: pobreza pode coexistir com bondade, ocupação humilde com alma nobre.

5. Boemia
Trata-se de uma crítica à noção 'burguesa' de respeitabilidade. Valoriza-se a 'simplicidade' (ao invés do termo 'pobreza'): não se é um loser, apenas se escolhe gastar energias em outras coisas que não fazer dinheiro.
Os mártires boêmios são aqueles que sacrificaram a segurança de um emprego estável e da estima da sociedade para escrever, pintar, fazer música, viajar ou simplesmente passar tempo com amigos e família.
Boêmios repudiam a noção de sucesso/fracasso porque o mundo é governado por estupidez e preconceito; os bem sucedidos raramente são os melhores ou mais inteligentes, mas sim os que foram mais aptos a responder aos valores falhos dos tempos modernos.

"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão."
Thoreau

Embora não seja perene (o dinheiro acabava!), a boemia valeu para refletir sobre algumas 'verdades', até então inquestionáveis, da burguesia.

A conclusão é que, por menos prazerosas que sejam, é difícil imaginar uma boa vida completamente livre dessas angústias por status, mas podemos 'melhorar a relação' com elas.
Uma solução madura é perceber que status é definido por uma variedade de ‘audiências’ e que podemos escolher livremente 'nosso público', ou seja, existe mais de um modo de ser ‘bem sucedido’ na vida.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Vida é um fractal da História


Há muitos anos, descobri o prazer da leitura. Mais tarde, com curiosidade, desejo de aprender e influenciado por um ou outro amigo, resolvi postergar o desejo de um mestrado, substituindo os cursos por leituras mais ‘sérias’, mais formais. A ideia era fazer meu próprio curso, aprender o que desse na telha. Ganhei amplitude, perdi profundidade. Nunca mais fiz uma matéria da qual eu não gostava. E fiquei preparado para ser um ‘tudólogo’: enrolar sobre quase todos os assuntos... hehe. E misturar assuntos diversos.
Essa introdução serve apenas para contextualizar uma associação que fiz pela leitura de alguns livros que, a princípio, não teriam nada a ver.

Começo com uma ideia do Nassim Taleb, de "Cisne Negro" e "Iludidos pelo Acaso", crítico do uso sem restrições da curva normal, com suas caudas estreitas. Taleb defende a tese de que alguns eventos de grande impacto são menos raros do que supostamente esperamos (os extremos da distribuição de probabilidades – as caudas – são na verdade mais gordos). Os exemplos disso na História são as guerras e revoluções que nos levaram ao mundo como é hoje. Fosse a História feita apenas pelos dias comuns, estaríamos em um estágio muito anterior. Ao ler esse trecho, imaginei 2 gráficos que se somam. Abaixo, o azul representa a evolução cotidiana, de grão em grão, lenta e segura. O vermelho, as revoluções e grandes mudanças, pontuais, ocasionais, um pouco caótico. A soma, em preto, resulta a evolução da História da humanidade. Passos pequenos somados a grandes saltos.





Retire 2 ou 3 grandes eventos ou grandes dias da História, e estaríamos em tempos MUITO diferentes. Analogia do tempo moderno: a Bolsa parece um ótimo investimento de longo prazo; retire (ou esteja fora dela) os 2 ou 3 dias com maiores valorizações e o rendimento total do período já não será bom.

Ok, e daí?
E daí que li também Nilton Bonder, o rabino cujo principal assunto são nossos confrontos internos, nossos dilemas conscientes e inconscientes. Com paródias judaicas (lembrando que sou bem católico...), ele passeia por filosofia e psicanálise. Gostei muito. ‘Alma imoral’ e ‘Segundas intenções’ são embates sobre a imoralidade da alma com a moralidade do corpo, o bom versus o correto, a evolução versus a preservação. (O jogo das capas dos livros é bem legal: aqui e aqui). Ao longo do texto, fui completando a tabela abaixo. E percebendo que nossas vidas são pequenas versões dos gráficos acima. A grande maioria dos dias é comum, mas nossa vida é fundamentalmente marcada pelos poucos momentos atípicos, por acaso, fora de controle. Uma mesmice com pequenos picos de grandes mudanças. Uma topada com certa pessoa, uma demissão, um acidente de carro, um convite, uma ruptura. Retire 2 ou 3 grandes momentos da vida e estaríamos em outro estágio.



Tanto a composição dos gráficos como a ideia de que pequenas estruturas formam estruturas maiores idênticas são baseadas nos fractais de Mandelbrot.
A vida é um fractal da história da humanidade.



Ao longo dos textos, fui pensando também sobre as implicações políticas ou, mais que isso, nas minhas discussões diárias (já que gosto de discutir...). Será que eu estava delirando, querendo encaixar o mundo ao meu pensamento (e não o contrário), fazer o convidado do tamanho da cama (e não o contrário)? No final de ‘Segundas intenções’, fui presenteado com uma seção voltada mesmo pra política – liberais versus conservadores – tal como eu vinha imaginando ao longo dos textos. Não viajei sozinho.
Não gosto da ideia de que essa separação política não faz mais sentido porque não me considero parte do mainstream esquerdista contemporâneo, não gosto desse ‘é-tudo-a-mesma-coisa’, já que não quero a ‘mesma coisa’ que está aí. Não acho legal tudo caminhar para o centrismo, para a peemedebização. E os livros me permitiram categorizar, rotular algumas dessas diferenças.

Em essência, a direita é o corpo, é a linha azul lá de cima. A esquerda é a alma, a linha vermelha lá em cima.
Em essência, o dia-a-dia tem que ser direitista, com cuidado, com regras, com preservação (Daí, acho que em geral os governos devem ser direitistas). Mas os grandes eventos, as grandes conquistas da humanidade foram realizadas por gente que pensou fora da caixa, esquerdistas, alma. Mas não dá pra ter uma situação esquerdista, é muito “vida-loka”. Direita como default, esquerda como conquista.
Do mesmo modo, em essência, nossa vida tem que ser com cuidado, com regras, com disciplina. Mas os grandes momentos da vida são imorais, são alma, um pouco caótico e sem controle.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O controle e o acaso

Tirei essa última semana para mergulhar... Atividade que cansa o corpo e descansa a mente. Gosto muito.

Fiz um dos mais famosos (e bonitos) mergulhos no Brasil: um naufrágio a 60 metros de profundidade. É quase uma operação de 'guerra': sem caipirinha, comidas fortes e pimenta na noite anterior, cama mais cedo, grupo pequeno com 2 instrutores e 2 safety divers, stages com 50% de oxigênio na parada de descompressão,...
Senti minha primeira narcose: uma sensação estranha causada (?) pela pressão do nitrogênio a partir de determinadas profundidades. Comparam a uma sensação de bebedeira, sem dor de cabeça e sem ressaca. Achei a comparação com o gás do riso (usado em dentistas) mais apropriada: 'Is that real life?'...
A sensação é bizarra porque, de fato, parece que perdemos o controle. (Acho que terapeutas iriam à loucura se soubessem o que seus pacientes pensam e sentem nessa hora... hehe)
Toda essa situação 'limítrofe' e tudo correu muito bem, perfeito! Um naufrágio e um mergulho do cacete!!!

Num outro dia, mergulhinho bobo num mar mais mexido, fiquei mareado e deitei num canto do barco. O instrutor (!!!) esqueceu de prender seu cilindro duplo e o equipamento caiu no chão a 2 cm da minha cabeça!! Se eu estivesse deitado 10 cm pro lado, a essa altura, estaria conversando com meus avôs em algum outro lugar...

E ainda tem gente que acha que temos o controle e não somos governados pelo ACASO... hehe

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Complementado: um bom 'case'

Complementando o post abaixo, alguns comentários esquecidos...

Vi a entrevista de um economista, 'responsabilizando' o início do welfare state pela crise atual. Concordo muito. Não é fácil que uma pequena parte da sociedade pague a alegria geral da nação por muito tempo. (No mínimo, é muito caro, traz muita dívida). A grande pergunta chavão: como convencer o velhinho de 65 anos da Alemanha, que ainda trabalha, a pagar a aposentadoria do grego de 55, já aposentado?

O problema é que romper o ciclo atual é doloroso, impopular. Tanto que o Brasil parece navegar na mesma onda, alheio a tudo que acontece na Europa: aumentos acima da inflação para a população inativa, discussão sobre o fim do fator previdenciário,... Questionar o Bolsa-Familia, então, um crime... Sei não...

Apesar de achar interessante, não sou muito adepto dos cases dos MBA's da vida. É como comentarista de lance feito: é fácil saber em 2010 que a decisão da Ford em 1935 foi acertada ou que a da HP em 1990 foi errada... É o viés do retrospecto. (Aliás, veja aqui um ótimo vídeo sobre vieses na tomada de decisão.)
Enfim, o que fazer com a Grécia é o grande case do momento! Como vamos analisá-lo em 2050?

Uma post aventureiro

Ainda não me sinto muito confortável ao escrever sobre assuntos mais sérios. Mas há algumas semanas, estou com vontade de escrever sobre o desenrolar na crise econômica. (O twitter me tirou as atenções do blog...) Enfim, deixe eu tentar...

Acredito que as pessoas mais sensatas, ainda não dizem que a crise iniciada em 2008 já passou. Um pouco de prudência pode evitar crises de transtornos bipolares, como evidencia o PJ, em seu blog.

Mas o Brasil tem se saído muito bem. Meu grande cuidado nesse contexto foi levantado pelo Pedro Malan, em uma palestra a que assisti há cerca de 1 mês: "Tenho receio de que atribuam o sucesso do Brasil na crise a fatores errados; que justifiquem com os argumentos errados". Concordo 100%.
Em minha humilde opinião, o Brasil não se ferrou tanto por 2 motivos:
1) o polêmico PROER da década de 90 antecipou a regulação bancária, que está sendo feito apenas hoje em dia no resto do mundo. Os bancos brasileiros são muito fortes (talvez por isso, tão caros...)
2) a relação crédito/PIB do Brasil no início da crise era irrisório (~32%) quando comparado com os demais países. Desalavancado (por acaso; e não por projeto ou convicção), o Brasil não sofreu demais com a crise creditícia (="de confiança") mundial.

Indo pro resto do mundo, no livro 'Animal Spirits', George Akerlof e Robert Shiller comentam o nascimento dos bancos centrais. A principal ideia já lá no início não era essa movimentação diária com os demais bancos e sim, ser o provedor de liquidez em eventuais crises. Exatamente o que aconteceu mundialmente. Ou seja, por mais que se critique, os bancos centrais fizeram o que, no nascimento e em essência, deveriam fazer.

Voltando ao Malan, receio que o atual governo petista jogue para si os méritos que não são seus aqui no Brasil e, mundialmente, atribua a melhora da economia a uma maior intervenção do Estado.

A imprensa vermelhinha bombardeou o noticiário decretando o fim do capitalismo: "o Estado salvou o mercado!!", diziam.
Pois bem... Estamos vendo o que acontece na Grécia, em Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, Inglaterra, EUA,... O 'Estado que injetou dinheiro no mercado' está bambeando, dívida/PIB muito maior que 100%... O que os vermelhinhos vão dizer agora?

Pra mim, a única lição que fica por enquanto é aquela que meu pai me ensinou desde pequenininho: gaste só aquilo que você tem. Seja a empresa privada, seja o governo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Incrédulos e/ou arrogantes

Uma das pessoas mais inteligentes e cultas que conheço é o PJ. Trabalha no mercado e é um dos melhores caras do Brasil naquilo que faz. Há algum tempo, conversando sobre carreira, perguntei sobre mestrados e ele deu de ombros... Acha melhor gastar seu tempo lendo livros que agreguem mais.

Da minha parte, me formei em engenharia, fiz um semestre da graduação em economia e preferi largar para fazer uma pós na área. Desde que concluí essa pós, costumo fazer cursos de educação continuada: aqueles cursos de apenas um semestre, com carga de 40 a 70 horas, temas bem específicos e que não aumentam em nada o grau acadêmico. Leio devagar, mas leio bastante também. E essas leituras também me tornaram mais ácido com a Academia.
Nesse semestre, comecei outro curso de educação continuada. Na primeira aula, um professor começa a explicar todo o processo da atual crise... A oratória e a didática até foram boas, mas nada de novo, um mesmo blablabla... O segundo professor, falando de regulação e defesa da concorrência, só escorregava e saía pela tangente nas perguntas... Na terceira aula, o professor principal e responsável pelo curso gastou mais tempo falando do currículo próprio do que do tema em si. Completamente disperso... Já virei o ponteiro, me juntei ao PJ, sou daqueles que ficaram céticos com a Academia. Não vou bancar um brazuca revoltado só com as escolas nacionais. É fato que os alunos e professores do Brasil não obtêm grandes prêmios acadêmicos mundiais e a produção de papers por aluno no Brasil é ridícula (não vou atrás dos números porque o Balu já deve ter escrito alguma coisa a respeito; se não escreveu, já conversamos e é uma boa dica para um próximo post). Mas não. O quase desrespeito à Academia não é restrito ao país...

E nós mortais não estamos sozinhos. Nosso guru Nassim Taleb é o mais incrédulo. No seu twitter, são recorrentes as ironias à Academia. Uma de suas principais críticas é o fato das Escolas ainda ensinarem Teoria de Carteiras, mesmo com a patetada na última crise. Ele deixa isso claro nessa conversa com Daniel Kahneman. Enfim, a teoria convencional se mostrou fracassada e as Escolas não se propuseram a se atualizar. Como não podemos mudar o que as Escolas ensinam, sua sugestão é que deixemos de frequentá-las... Simples assim.
Abaixo algumas boas frases do Taleb:

'My problem of knowledge is that there are many more books on birds written by ornithologists than books on birds written by birds.'

'Mathematics is to knowledge what an artificial hand is to the real one. Do not amputate to replace.'

'The imagination of the genius vastly surpasses his intellect; the intellect of the academic vastly surpasses his imagination.'

'Academia is to knowledge what prostitution is to love; close enough on the surface but, to the nonsucker, not exactly the same thing.'

'What they call philosophy, I call literature; what they call literature I call journalism; and what they call journalism I call gossip.'

'Academics are only useful when they try to be useless, and dangerous when they try to be useful.'

'The 4 most influential modrns Darwin, Marx, Freud & (early) Einstein were scholars but not academics. Hard to do genuine work with institutions.'

quarta-feira, 3 de março de 2010

Era uma quinta qualquer...

Quinta-feira passada, uma pessoa muito próxima - extremamente do bem - estava indo para o trabalho, 6h45 da matina, quando atropelou um senhor que atravessava uma via rápida em local proibido. O senhor faleceu no sábado.
Quinta-feira passada, a mãe de uma outra pessoa próxima foi atropelada e também morreu.
Dois lados da moeda e, sinceramente, não sei qual é o mais difícil.
Os fatos, obviamente, mexeram comigo. Duas pessoas 'normais', com a labuta e os problemas do dia-a-dia, mas com uma vida relativamente tranquila, estável, 'sob controle'... Aí, vem a vida e muda tudo... Sob controle?
Era só uma quinta qualquer e as vidas dessas pessoas tomaram outros rumos...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Perguntas e respostas

Quantas vezes você se percebeu dando conselhos para uma pessoa querida, mas que, numa situação análoga, você não fez o que está aconselhando? Quantas vezes você encontra resposta para um problema só depois de ter passado o furacão?
Na verdade, acho que um grande pulo do gato na vida é ter a capacidade de identificar situações reais que você tinha aprendido apenas teoricamente.
Taleb tem experimentos com doutores em estatística que, diante de situações ‘disfarçadas de caso real’, ou seja, sem um enunciado típico de problema da academia, não conseguem encontrar a resposta correta.
Saber a resposta é mais fácil quando você sabe a pergunta e, mais, quando você sabe que a pergunta foi feita agora.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

E agora, José? Acabou...

Por definição, não rezo por futebol.
Também não costumo falar sobre futebol na minha terapia. Talvez devesse. Provavelmente meu humor no trabalho ou na vida pessoal esteja muito ligado aos resultados do futebol no final de semana... Que nada de autoconhecimento! É bola na rede e felicidade, bom humor e paz garantidos para próxima semana!! Como essa!

Enfim, acabou o Brasileirão.
Sou do time do PVC, dos que consideram o nosso Brasileirão um belo campeonato. Não gosto daquele saudosismo dos mais velhos. E acho que a comparação com a Europa é distorcida: talvez eles se saíssem melhor num quadrangular com os 2 melhores do brasileiro e os 2 melhores espanhois ou ingleses ou italianos. Mas o 3º, o 4º, o 5º,..., daqui são melhores que os deles... Mas isso é achismo - nunca teremos uma prova - ou, como diz o Balu, é só linguiça para ser enchida nos programas vespertinos de futebol.
A verdade é que gostei muito desse campeonato. Cheguei a considerar a hipótese do meu São Paulo brigar para não cair (tinha esquecido de que time grande não cai!); fiquei triste de verdade com a real possibilidade do Palmeiras campeão e a tolerância que deveria ter com meus amigos mais chatos; criei 15 piadas para o hepta do São Paulo (que terei que guardar para o ano que vem); e acabei não gostando de ter que aguentar meus parentes flamenguistas (eles realmente acreditam que Leo Moura e Bruno são jogadores de verdade... tsc tsc tsc)...
Não desmereço o Flamengo por ter sido o campeão com menor aproveitamento (59%, percentual normalmente considerado para briga por Libertadores), nem São Paulo, Inter, Atlético,... por perderem as chances de ser campeão. A verdade é que estava tudo mais nivelado.
Já tinha falado em outro post que achava improvável que o São Paulo fosse campeão esse ano. Não vou criar um blog só para apontar os erros de juízes (como tem de um palmeirense), como se houvesse uma conspiração universal. Em resumo, o que tinha dito é que a 'popularidade' do Brasileirão não ia muito bem das pernas fora de São Paulo, já que os 5 últimos títulos tinham ficado por aqui. Ou seja, era 'interessante' que São Paulo e Palmeiras não levassem. Flamengo campeão seria o melhor dos mundos. Livrar os 2 outros cariocas do rebaixamento, então, nem se fala... Não sou um gênio. PVC e Juca Kfouri também falaram a mesma coisa. E escrevi isso antes do procurador punir o Vagner Love por não ter 'tranças rubro-negras', antes da anulação ridícula do gol do Obina, antes de darem 2 jogos para um 2º amarelo do Jean, antes de darem 3 jogos para uma falta do Dagoberto pesada, mas idêntica a outras tantas que não deram mais de 2 jogos, de inventarem 'efeito suspensivo parcial' contra o São Paulo, de punirem o Dagoberto por dar risada, de tirarem o jogo do Flamengo contra o Corinthians do mando do Corinthians... Erro de juiz é uma coisa; de tribunal é outra...
É lógico também que, em um lugar mais decente, Corinthians e Grêmio seriam punidos. Dois dos principais jogadores do Corinthians 'se machucam' antes dos 20' do 1º tempo. O médico foi atender o Ronaldo e nem sabia onde espirrar o spray, já que ele não tinha colocado a mão em nada. O Felipe saiu da bola na hora do penalti. O Grêmio foi com 3 titulares, teve seu nome gritado no Maracanã e instruções claras de não chutar no gol. Não aceito o argumento de que o SP não fez a parte dele e, então, não pode reclamar: tivemos que jogar 38 jogos; o Flamengo teve que jogar 36 e ganhou 6 pontos de graça. É totalmente diferente. Num grupo de discussão com amigos, pensamos em soluções: direcionar clássicos locais para as últimas rodadas, parte das cotas de TV baseando-se na classificação do ano anterior (de tal modo que faça diferença ficar em 9º ou em 10º),..., mas não chegamos à nenhuma conclusão...
Mas os jogadores do Flamengo não têm culpa e merecem comemorar. O Flamengo foi um Cisne Negro, aquele evento altamente improvável que acontece de vez em quando. Sem estrutura, com troca de treinador, troca de presidente, com estrela que não treina e outra que veio para saldar dívida, salário atrasado... e campeões! Parabéns! Só não vamos achar que a várzea ganhará todo ano. Esse ano é exceção, não a regra.
Outra coisa que me chamou a atenção é a intenção da imprensa (e, para não ser tão genérico, senti isso mais na Sportv mesmo!) de colocar o 'hexa' na frente de toda vez que se fala 'campeão', forçando goela abaixo! Eu era muito criança em 1987 e, portanto, considero-me um tanto inapto a entrar na discussão com propriedade. Mas quero dar meus pitacos... Sendo pragmático, 1987 é do Sport de direito. Basta entrar no site da CBF. Lógico que houve um outro campeonato, provavelmente muito mais forte, em que o Flamengo se sagrou campeão, o que talvez o dê um título nacional de fato. Mas diferentemente de 2000, quando a mesma CBF fez um mesmo campeonato, só mudando o nome (Copa João Havelange) por razões bem específicas, 1987 teve, sim, um campeonato da própria CBF. Ou seja, talvez o título do Flamengo de 1987 possa ser comparado ao atual status da Copa do Brasil, isto é, de abrangência nacional, mas não 'o campeonato brasileiro'. Não vou me alongar. Essa é só minha verdade, dentre várias verdades possíveis... ;) O que me incomoda não é o eventual 6º título do Flamengo mas, sim, essa lavagem cerebral na tentativa de tirar a exclusividade do hexa são-paulino. Só quero lembrar que ainda precisam igualar 3 Libertadores e 3 Mundiais. haha. Essa foi só para provocar... ("Eu tento ser humilde. Meu time é que não deixa!").
Vou parar a choradeira por aqui. hehe. Até porque terminei o ano feliz. O espetáculo no Morumbi ontem foi SENSACIONAL. A torcida entendeu que não é possível ganhar todo ano. Quanto mais vezes consecutivas você ganha, mais próximo da derrota seguinte. Foi um pequeno sacrifício para termos mais anos de pontos corridos garantidos. E, pelo 7º ano consecutivo, estamos na Libertadores... Meu amigo Bola tem uma tese de que não ganhar o Brasileiro nos dará humildade para ganhar a Libertadores. Tomara.
E, se em 2006 a disputa foi com o Inter, em 2007 com o Santos, em 2008 com o Grêmio e em 2009 com o Flamengo, só existe uma certeza para o ano que vem: é o São Paulo e mais alguém disputando o título... Ah, e o Palmeiras... Vou respeitar o luto por enquanto...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Controle? pffff...

Se existe uma coisa que a vida tem me forçado a aprender é que a gente não controla tudo que queria; na verdade, controla muito pouco ou quase nada.
Para pessoas metódicas como eu, é um constante sofrimento. Tocando uma empresa pequena, mais ainda. Passando por um forte processo de autoconhecimento, piorou!
Tenho lido bastante sobre 'acaso', 'eventos altamente improváveis', 'o desconhecido'.
Se eu fosse onipotente, muita coisa seria diferente... Mas não sei se seria melhor...