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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primum non nocere

Em um dos rascunhos públicos para seu último livro Antifragile, Nassim Taleb argumenta:

Há também o elemento do engano associado com o viés de intervenção, acelerado em uma sociedade de profissionalização. É muito mais fácil vender um "Olha o que eu fiz por/para você" do que um "Olha o que eu evitei por/para você".
Eu procurei na história por heróis que se tornaram heróis por aquilo que NÃO fizeram - é difícil de observar "não-ação"; não pude facilmente encontrar nem na minha memória nem nos livros. O médico que se abstenha de operar uma coluna (uma cirurgia muito delicada e gratificante), dando a chance de curar sozinha, não será recompensado ou julgado tão favoravelmente como o médico que faz a cirurgia que parece indispensável, trazendo [um falso] alívio para o paciente ao expô-lo a riscos e grandes recompensas financeiras para si mesmo. (...). O gerente corporativo que evitou uma perda não será facilmente recompensado. [tradução livre].
 A sabedoria milenar já avisa: Primum non nocere. First do no harm.

Eis, na verdade, um dos pilares da disposição conservadora: prefiro o mal que conheço ao mal que não conheço.

O fenômeno social que acontece em São Paulo, o haddadismo (só o Brasil mesmo pra ter imprensa governista e torcida organizada pra prefeito...) é a antítese disso. Nem os integrantes da TOFH (Torcida Organizada Fê Haddad, uma homenagem à zambininha) julgam como 'boas' as intervenções feitas em São Paulo. O único argumento é 'ainh... pelo menos ele fez alguma coisa...'.

Pois é. Sempre dá pra fazer alguma coisa. E piorar.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O que li em 2013

A Revolta de Atlas 1 ✰✰✰
O 2º livro mais influente nos EUA (só atrás da Bíblia) é muito bom. É uma homenagem ao self-made man. Ayn Rand conta a história de um pequeno grupo de empresários que quer ganhar dinheiro 'fazendo as coisas acontecerem' nos EUA. O pano de fundo é o libertarianismo (deixa rolar!) versus o keynesianismo (mão pesada do governo controlando a economia). Mas dá pra encarar como algo mais simplista: os que querem desatar os nós versus os que querem apertar os nós ainda mais. 
(Não estou reduzindo as citadas escolas econômicas a esses 2 pontos; até porque a visão de Rand é bem parcial e extremamente caricatural). Gostei da primeira parte da trilogia.

O que o dinheiro não compra ✰✰
Gosto muito do autor, Michel Sandel, pelo famoso curso 'Justice - the right thing to do' (disponível online) e respectivo livro sobre o assunto. Mas acho que ele erra a mão um pouco nesse 2º livro. A ideia de reforçar a importância das questões morais no campo político é importantíssima, mas ele exagera.



Quando a maioria pensa da mesma maneira, muito provavelmente estará errada. O livro conta histórias de efeito manada (pro lado errado, claro) e lista uma espécie de 'técnicas' para conseguir se blindar. Opinião pública não é sinônimo de verdade (muito pelo contrário). Foi escrito em 1953. Bem bom!



O Príncipe ✰✰✰
'Os fins justificam os meios' não está escrito ipsis litteris na obra de Maquiavel mas claro que, ao descrever - baseado em sua larga experiência - os modos como os governos (principados) são conquistados e mantidos, ele deixa explícita essa lógica. Mas menos como um conselho ou um pensamento próprio, e mais pela observância de como as coisas são de fato. Também gostei. Completou 500 anos em 2013, como destacou João Pereira Coutinho nessa coluna

A mais pura verdade sobre a desonestidade ✰✰✰✰
Sou um fã de Dan Ariely. O 3º livro do economista comportamental de Duke também é muito bom. Com uma série de testes controlados, ele desmonta a tese do 'crime racional' (pela qual, trapacearíamos apenas por um cálculo entre o benefício da trapaça e o custo de ser pego). Ele testa influências mais 'irracionais' - como simples evocação à moralidade, parceria, esgotamento, criatividade, etc. - no efeito (e no montante) da trapaça. Livro muito bom.

Crime e Castigo ✰✰✰✰
Outra obra prima de Dostoievski, com reflexões sobre o acaso, os impulsos, a (auto)mentira, a bagunça entre o 'bem' e o 'mal', o 'certo' e o 'errado' e, principalmente, a angústia (pra se tolerar?) em que vive o protagonista (e, claro, todos nós).




Ser conservador ✰✰✰✰
Um pequeno manifesto do clássico pensador conservador Michael Oakeshott. Excelente.








Status Anxiety ✰✰✰✰✰
Meu primeiro contato com Alain de Botton foi assistindo a essa ótima palestra TED sobre noção de sucesso e meritocracia. Estive presente quando se apresentou em São Paulo, pelo Fronteiras do Pensamento, falando sobre as virtudes da religião, mesmo para ateus (como ele). Depois, a seqüência do The School of Life me pareceu meio embromation. Nesse livro, acho que ele acerta em cheio falando sobre o maior drama da atualidade: a angústia. Discorre sobre 5 causas (falta de amor, expectativas, meritocracia, esnobismo e dependência) e 5 possíveis escapatórias/proteções (filosofia, arte, política, religião e boemia). Fiz uma resenha aqui. 

Human Transit ✰✰✰✰✰
Jarret Walker sintetiza as principais ideias sobre as quais já escreve em humantransit.org. No livro, fala sobre as 7 demandas de um bom transporte público, sobre linhas e loops, paradas e estações, obstáculos e atrasos, tarifas, os trade-offs entre cobertura versus quantidade de passageiros, entre conexões versus complexidade e, principalmente, sobre sua bandeira principal: a necessidade de maior freqüência entre os ônibus/trens. Considero um livro simplesmente necessário para quem quiser discutir (e gerir) transporte público, mobilidade e urbanização.

Foi um imenso prazer conhecer Roger Scruton. O filósofo conservador apresenta 7 falácias utilizadas pelos 'otimistas inescrupulosos' (o eufemismo que ele utiliza para esquerdistas) e algumas conseqüências a partir delas. Resenhei aqui. 'Meu' melhor livro do ano.




Como viver ✰✰✰
Sarah Bakewell faz uma biografia de Montaigne, apresentando as principais ideias do filósofo, com estrutura semelhante à sua principal obra ('Ensaios'), ou seja, pensamentos livres, sem uma organização clara ou pré-definida. Interessante.
(Exatamente hoje, saiu uma resenha no BrainPickings)


Capitalismo de laços ✰✰✰✰
O doutorado do professor Sergio Lazzarini virou um livro no qual ele disseca a estrutura de poder no Brasil, passando pela abertura econômica do Collor, as privatizações de FHC e as aberturas de capital no período Lula. Muda-se tudo para não se mudar nada: o Estado continua sendo o principal player econômico, cercado de 'amigos' cada vez mais próximos. Também considero uma leitura fundamental para discussão econômica aqui no Brasil.

Com uma escrita irreverente (até demais), meio no estilo 'Guia dos Curiosos', o que mais me chamou a atenção no livro (e - confesso - me deixou um tanto desanimado) foi confirmar que a história é contada pelos vencedores ou, pior, que pode ser mudada ao longo do tempo, pela repetição sistemática de algumas mentiras.


O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota ✰✰✰✰
Gostei MUITO dessa seleção de artigos de Olavo de Carvalho, o principal filósofo brasileiro conservador vivo. A esquerda e grande parte dos 'cults' das redes sociais amam odiar Olavo. Mas é inegável seu talento na escrita e argumentação (embora, claro, eu não concorde sempre) e sua capacidade de estimular o conhecimento.


A Rebelião das Massas ✰✰✰✰✰
Ortega y Gasset concluiu o livro em 1930, mas serviria perfeitamente pra analisar as manifestações do ano passado. O conceito de que mais gostei foi sobre o equilíbrio (instável) da nossa sociedade: forças que se acumularam ao longo do tempo e hoje parecem imperceptíveis para uma geração de 'señoritos satisfechos' que acham que o estágio atual de civilização é dado pela natureza e que não exige cuidados constantes. Uma massa mimada que usufrui dos benefícios do mundo atual sem ter que enfrentar sacrifícios para sua conquista. (Aliás, Olavo de Carvalho também fala disso em um texto. Selecionei alguns trechos aqui)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Não seja tão quadrado


Embora já bem freqüente na Europa e na Austrália, os americanos ainda são muito reticentes com relação à implantação de rotatórias. [No Brasil, então...]

Esse estranhamento se deve, obviamente, ao costume de toda uma geração que cresceu confiando na lógica binária (pare-siga) e se sente desconfortável com uma situação ‘meio difusa’ que parece governar numa rotatória. Ele cita também o ‘viés da disponibilidade’: um autoengano psicológico, no qual um evento mais raro vem à mente com mais facilidade. No caso, americanos que visitam cidades européias e não se sentem bem nas rotatórias de lá. O engano se dá simplesmente por não estarem acostumados e ficarem pouco tempo para se adaptar. Um europeu, acostumado, já não sente o mesmo.

Vanderbilt também diferencia o modelo 'bom' dos 'antigos': se é muito grande, se a preferência não é de quem já está na rotatória ou se existem semáforos, não se trata do ‘bom modelo’ para rotatórias.

Para argumentar sobre as vantagens das rotatórias sobre os cruzamentos, o autor cria um acróstico mnemônico: STEP.

S de ‘safety’, segurança. Os cruzamentos são os locais com a maior quantidade de acidentes e de acidentes fatais. As rotatórias eliminam a ‘virada à esquerda’, grande vilã do trânsito, e a quantidade de ‘pontos de contato’. Os motoristas precisam diminuir a velocidade para entrar na rotatória; ou seja, mesmo que haja alguma colisão, será menos grave por ser em velocidade menor. Eliminando a faixa dedicada a quem espera para virar à esquerda num cruzamento normal, a largura da via pode diminuir, facilitando a travessia do pedestre. Os números na Austrália, na Europa e até nos EUA já comprovam essa redução. [Nota minha: no Brasil, provavelmente as rotatórias também podem eliminar os assaltos enquanto se espera o sinal verde.]

T de ‘time’, tempo. A velocidade em um determinado momento não pode ser confundida com tempo total da viagem. Menos batidas, menos ciclos de aceleração/desaceleração e menos espera pelo sinal verde faz com que os tempos gastos em trajetos com rotatórias sejam menores. Os números comprovam.

E de ‘energy’, energia. Os ciclos de aceleração/desaceleração, típicos de cruzamentos tradicionais, são sabidamente os momentos de maior consumo de gasolina. As rotatórias trarão economia.

P de ‘public space’, espaço público. O centro da rotatória pode servir para algum jardim ou monumento. A faixa de espera para virar à esquerda pode ser reaproveitada. A velocidade mais lenta pode fazer com que os motoristas percebam mais o comércio ao longo das vias. Em suma, o ambiente fica mais harmonioso.

Como pontos de atenção, Vanderbilt diz que alguns cruzamentos já estão tão saturados que a rotatória pode não ser mais tão eficiente (assim como o cruzamento já não o é). Outra questão é uma eventual dificuldade de iniciantes para ‘entrar’ nas rotatórias.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Administrando grandes cidades


Tive o prazer de assistir ao seminário organizado pelo Insper, Harvard e Columbia (através dos respectivos escritórios no Brasil) sobre a Administração de Mega Cidades, com ênfase em São Paulo.

Além de 2 palestras com visões mais macro (do economista Edward Glaeser e do prefeito Fernando Haddad), o seminário foi composto por 4 mesas (1 palestrante + 2 comentaristas) com os temas: educação, trânsito, segurança/violência e visão estratégica.

Gostei BASTANTE. Com uma única exceção, as palestras e debates foram muito bons. Já falei sobre Ed Glaeser aqui: é o defensor entusiasta da vitalidade das cidades, das suas microrrelações diárias e do ganho exponencial com a proximidade do conhecimento.

Mas quero falar de 2 temas específicos: política e trânsito.

Politicamente, é triste constatar que a única palestra RUIM foi a do prefeito. Falou um monte de obviedades zagallianas (“Defesa, vamos defender!!”; “Atacantes, vamos fazer gols!”; “Precisamos melhorar a mobilidade e aumentar a segurança!!”). O pior é não identificar início, meio e fim nos argumentos. Se me perguntarem sobre o que ele falou, juro que não sei responder. Por outro lado (e para não dizerem que essa minha opinião sobre Haddad é completamente enviesada), duas das palestras mais interessantes foram de pessoas-chave na administração petista: Ciro Biderman, da SPTrans, e Fernando de Mello Franco, secretário de Desenvolvimento Urbano (acho que foi o 1º nome que Haddad anunciou; pertence ao “núcleo duro” do prefeito). Ambos mostraram-se preparados para as respectivas funções. Embora haja bastante coisa que continua da administração anterior (do neo-aliado Kassab), parece existir um clima de “transição”, de “nova fase”. Tenho um pouco de receio quando ouço petista falando assim (vão achar que SP surgiu em 2013 como fazem com o Brasil 2002?), mas não deixa de ser saudável que a cidade de São Paulo seja repensada, desde política de uso de solo, mobilidade, etc.

(Provocação barata: primeira vez que vejo uma “autoridade” petista participando de um debate gringo sem precisa de head phones pra tradução... Ponto positivo para Fernando de Mello Franco. Hehe)

Sobre a questão de trânsito, vou me estender um pouco mais. Ciro Biderman, professor da FGV, agora na SPTrans, fez sua palestra defendendo a construção/incentivo de BRT (bus rapid transit) em contraposição ao metrô (e variações como o monotrilho) - menos flexíveis, mais caros - e principalmente em relação ao uso do veículo particular.
Apenas lembrando, grosso modo (beeem grosso modo), o BRT é um meio termo entre os corredores de ônibus e o metrô. Ou seja: ônibus maiores de superfície (nas ruas mesmo, como os articulados que já existem), em vias totalmente separadas, com vias para ultrapassagem, com diferenciação de linha expressa e linha “paradora”, com embarque/desembarque em nível (ou seja, sem precisar descer/subir escada para acessar o ônibus; esses 2 segundos de escadas são muito relevantes no acumulado do dia), bilhetagem externa (não existe cobrador dentro do ônibus; a cobrança é feita no ponto/plataforma), entre outras características. Trata-se de um modelo de transporte de alta capacidade, mais barato e mais resiliente (mais fácil adaptar a novos trajetos, situação impossível para uma linha de metrô, por exemplo).

Pra melhorar, o palestrante ainda citou a redefinição das rotas de ônibus para abordagens mais “pendulares”, isto é, não radiais, ligando perifeira a perifeira, sem passar pelo centro.

Em suma, muito perto do que eu imagino pra São Paulo (Talvez tenham percebido pelo modo como escrevi. hehe). (Faltou só citar um redesenho de rotas para facilitar/incentivar comutações, como falei aqui...). Ou seja, gostei bastante!
Vai ser muito difícil pra mim, mas se implementarem esse modelo de fato, vou ter que dar a mão à palmatória e parabenizar a gestão petista (ousando dizer que é o ato mais importante a ser feito em SP, considerando TODAS as secretarias...).

José Luiz Portella, de quem gosto, ex secretário de Transportes do Estado, mais ligado aos tucanos, foi um dos comentaristas. E fez observações pertinentes. Disse que não precisa haver essa “competição de modais”, no sentido de que todos são importantes e precisam ser ampliados (isto é, não precisamos achar que um deles – no caso do Ciro, o BRT – é a solução de todos os males) e colocou sérias restrições à implementação do BRT em São Paulo. Por exemplo, lugares cruciais seriam a Santo Amaro e a Francisco Morato/Rebouças mas não é nada trivial aumentar a largura dessas vias com desapropriação. Ou seja, talvez pela mais larga experiência no setor público, jogou água no chopp do Ciro ao dizer que não é tão fácil assim... De todo modo, conversei em off com o Ciro depois da palestra e aprofundei essa questão. O cara me pareceu meio doidão mesmo; parece que, por ele, sairia hoje mesmo tocando o pau com BRT nessas avenidas, seja com túneis, elevados ou mesmo desapropriação. No fundo até achei bom. Ele, como responsável pela SPTrans, tem que querer isso mesmo. Se for doideira (financeira ou politicamente), alguém (da Secretaria de Finanças, por exemplo) que freie o projeto.

Outro ponto que achei relevante nessa mesa foi o trabalho acadêmico do outro comentarista, aluno do Insper, no qual chega à conclusão de que, uma vez tendo ido para o transporte individual (carro próprio) haverá pouca migração de retorno ao transporte público. Ou seja, ele acha que o BRT pode ser útil ao dar mais conforto e agilidade pra quem JÁ usa o transporte público, mas que não deve conseguir convencer usuários de veículos próprios a começarem a usar o novo modal. Tenho minhas dúvidas; menos pela questão financeira e mais pela questão de perda de tempo mesmo.

Todos concordaram que deve haver desincentivo à utilização de veículos próprios, seja pela redução de vias de fato (para dar mais espaço a ônibus; Portella citou o plano de metas de Paris de reduzir 30km de vias por ano), seja pela introdução do pedágio urbano. Engraçado(/Triste) ver pessoas próximas a prefeitos e governadores acharem que o pedágio urbano será benéfico, mas não conseguirem convencer os respectivos chefes executivos (sempre com o contrargumento de custo político).

Por fim – e do ponto de vista prático, o mais importante pra mim ;) – a questão do estacionamento finalmente entrou na pauta. A necessidade legal de construção de um número mínimo de vagas associadas aos prédios, a quase gratuidade do estacionamento em vias públicas e, principalmente, a “restrição a estacionamentos” foram citados. Conceitualmente, eu concordo com quase tudo (mesmo com essa questão de “restringir”, que, em tese, seria ruim pro meu negócio), mas tudo depende da forma como é feito. Ciro Biderman é enfático na questão da restrição via “taxação”. Fui questioná-lo por que desse modo e não, simplesmente, reduzindo a oferta (diminuindo a quantidade de vagas). E ele não fez cerimônia: “Melhor o dinheiro vir para o governo do que virar lucro das operadoras”. Hehe. A conversa não foi muito mais longe...

Se, por um lado, fiquei satisfeito ao perceber que tem gente no governo municipal que pensa parecido com o que eu penso (do ponto de vista prático), por outro, desanimei ao relembrar que um detalhe ideológico pode fazer bastante diferença.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O que li em 2012


Em termos de leitura, foi um bom ano pra mim. Li bastante. Aprendi um tanto. Segue minha lista, com link e um mini resumo.


1. Animal Spirits – George Arkelog e Robert Shiller

Na contramão da corrente majoritária ('o homo economicus é totalmente racional'), os dois renomados economistas defendem teses comportamentais, já defendidas por Keynes: a economia é regida por sentimentos de confiança, percepção de justiça, propensão a comportamentos de má fé ou corrupção, ilusão monetária e histórias que rondam o imaginário ('causos'). Ok, a economia comportamental já não é tão 'pequena'...


 

2. Um jogador – Dostoievsky

Com pesar, confesso que ainda não li 'Crime e Castigo', nem 'Irmãos Karamazov', nem 'O Idiota'. Ou seja, foi minha estreia em Dostoievsky. A narrativa é gostosa, mas esperava mais.






Trata-se basicamente de uma 'resposta' - dessa vez 'defendendo o corpo' - a um outro livro do rabino, 'Alma Imoral', que 'defendia a alma'. Novamente os dilemas entre desejo e valores, liberdade e segurança, traição e tradição, evolução e preservação, malícia e hipocrisia. É espetacular. Separei uns trechos aqui.




Mais um ótimo livro de psicologia econômica, sobre nossos vieses. No caso, especificamente o auto-engano: nossas ilusões de atenção, de memória (pra mim, o melhor capítulo), de confiança, de conhecimento, de causa e de potencial. Muito bom!



Meu 3º livro do escritor pop também é bem legalzinho. Ele exagera em alguns pontos (bastante criticado inclusive no Invisible Gorilla) como por exemplo ao afirmar relações causais sem o devido cuidado metodológico (tendo grupos de controle, por exemplo). Mas ok, não deixa de ser interessante. A tese central do livro é a não-linearidade de eventos sociais (venda de livros, fortuna, crimes no metrô...), os pontos de ruptura, assunto bem interessante.
 


A historinha de Antoine que, desiludido e infeliz com o mundo, tenta se matar algumas vezes, mas nem isso consegue. Acaba no mercado financeiro. Interessante.
"De tanto pensar, a consciência sempre tumescente, vivia mal. Ele agora queria ser um pouco inconsciente, bem ignorante das causas, das verdades, da realidade... Estava cansado da acuidade de observação que lhe dava uma imagem cínica das relações humanas. Queria viver; não saber a realidade da vida..."

Um tributo ao acaso, com um apanhado de textos que passa pela Bíblia, por Epíteto, Homero, Shakespeare, Rembrandt, Voltaire, Mark Twain, Albert Camus, Sartre, Borges...
Destaco o 1º parágrafo desse texto de Epíteto.
Difícil de ler, até pelo inglês erudito, mas interessante.


8. 
Justiça – Michael Sandel

O livro sobre o baladado curso, disponibilizado online, de Harvard. O professor-autor-filósofo é muito bom. Faz um resumão, confrontando as noções de moral e justiça ('o que é o certo? o que deve ser feito?') nas visões de Kant, Bentham e os utilitaristas, a teoria do véu da ignorância de Rawls e Aristóteles. A argumentação é tão boa que eu sempre ficava com a sensação de que o autor era 'signatário' do pensamento em questão. Talvez tenha faltado justamente isso: uma oposição a cada um desses pensadores.
Mas essa crítica ao autor também é interessante. Livro top.



Segundo o próprio autor, principal nome do niilismo, o livro se propõe a ser um resumão de sua obra. Nietzche refuta a exaltação dos ‘fracos’ (a moral da décadence) e não se conforma que ninguém perceba isso. Volta às ideias de ‘transmutação dos valores’, ou seja, trocar ‘tudo isso que está aí’, sempre apresentando seu Zaratrusta como o super-homem. Os títulos dos capítulos são impagáveis! (Por que sou tão sábio; Por que escrevo tão bons livros; Por que sou um destino...)
É muito bom. A vida só é possível ‘apesar de’.
 

O autor é conhecido pelos seus bons livros sobre a arte da psicoterapia. Nesse, ele vai fazendo um paralelo entre o trabalho cotidiano de um terapeuta com câncer e a vida e obra de Arthur Schopenhauer. Uma ótima introdução a uma das principais influências para o pensamento de Nietzche e de Freud. Gostei muito.


Resenhei aqui. Três intelectuais justificam suas preferências pelas ideias conservadoras.
Gostei bastante do texto de João Pereira Coutinho e, sabendo ponderar, costumo gostar bastante do Ponde. Acho que o Rosenfield não foi bem. A introdução, de Marcelo Consentino, é também muito boa.
Até pela grande quantidade de citações e bibliografia, trata-se de uma excelente referência para quem quiser estudar (entender, criticar, sei lá) as ideais direitistas.



Sem dúvida meu livro mais difícil do ano. A escrita de um dos primeiros pensadores existencialistas, raríssimo caso que se manteve cristão, não é nem um pouco fácil. Com a história de Abraão como pano de fundo, o autor discorre sobre sua noção de fé. Tentei resenhar aqui.


13.O estrangeiro – Albert Camus

O autor foi amigo de Sartre até romperem por questões políticas do pós-guerra. O texto de Camus é considerado misantropo, ou seja, com uma eterna desconfiança na humanidade. A principal fala do protagonista do enredo em questão, recém órfão e preso por um crime bobo, é ‘Tanto faz...’.
Espetacular livro que conta a história dos estacionamentos, desde a transição de carroças para carros, das ruas para ‘estalagens’. Sobretudo, tenta inserir a questão do estacionamento (que chega a ocupar 30%~40% da área urbana) como um fator mais importante na definição da ‘cidade que queremos’, do ponto de vista funcional e, principalmente, arquitetônico. A passagem sobre os usos alternativos da área de estacionamentos (em horários de subutilização) – como quadras, teatros, feiras, brechós, templos – é muito interessante.


Uma ode à cidade. O renomado economista defende os centros urbanos, principalmente pela sinergia e troca de ideias que geram inovações e evolução. Cada capítulo trata de um assunto, via de regra usando uma cidade como exemplo (ou contra exemplo). Dá uma bela cutucada nos ambientalistas, defendendo as cidades verticais ao invés de expansões territoriais. O argumento é: ‘Cada estudo só avalia o impacto do projeto se ele for aprovado, e não o impacto de ele ser negado e a construção começar em outro lugar’.
Dei uma pincelada sobre um dos assuntos aqui.
O livro já é considerado pré-requisito para se estudar urbanismo. Muito bom.



Concordo: é fácil não gostar do Pondé. Se esse for seu caso, nem chegue perto do livro. Na minha opinião, o cara peca pelo exagero, por ser agressivo ou arrogante demais; mas a mensagem geralmente é muito boa. De filosofia mesmo, tem muito pouco. Nesse livro, que ele mesmo chama se ‘ensaio de ironia’, Pondé bate em quase tudo: preconceitos, opinião pública, felicidade, mulheres, universidades, religião, música,... O politicamente correto é a origem da maioria dos males do nosso tempo.
Gostei bastante do livro (talvez porque concorde com quase tudo).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Não tenha medo de trocar de ônibus


Faço um resumo desse bom texto do ótimo Jarrett Walker, acrescentando alguns comentários. (as figuras desse post são do texto original).

Em 'Por que dirigimos assim?' (que resumi aqui), Tom Vanderbilt argumenta (com estudos) que o que mais incomoda o cidadão no trânsito não é o longo tempo em si da viagem, mas, sim, a variação desse tempo. Exemplificando: o que mais incomoda um aluno da cidade universitária de São Paulo que mora na zona leste não é gastar 1 hora para atravessar a cidade mas, sim, que em vários dias, essa 1 hora vira 1 hora e meia (na prática, a felicidade de que, em alguns dias, ele leve 'apenas' 40 minutos não compensa a frustração da demora nos outros dias).

Nessa mesma linha, Jarrett Walker defende como um dos maiores pilares da política de mobilidade urbana a busca por FREQUÊNCIA ao invés de VELOCIDADE. O artigo que trago toca justamente nesse ponto.

Via de regra, os cidadãos se deliciam com uma linha de ônibus que passe na porta do trabalho e os leve à porta de casa. Mas isso é simplesmente impossível de atender em larga escala. Buscar esse objetivo é jogar dinheiro fora e subaproveitar a malha de ônibus.

A alternativa, impopular (aliás, como a maioria das soluções de verdade), é incentivar transferências (conexões, baldeações,...).

O exemplo clássico é o seguinte: imaginemos 3 origens e 3 destinos. Pra ligar ponto-a-ponto pra todo mundo, precisaremos de 9 rotas (A a 1, A a 2, A a 3, B a 1, B a 2, B a 3, C a 1, C a 2, C a 3).
Supondo tempo de viagem de 20 minutos e orçamento suficiente para realizar cada viagem a cada 30 minutos, temos que cada viagem demorará entre 20 minutos (você chegou no ponto bem na hora da porta aberta do ônibus; tempo de espera = 0) e 50 minutos (você chegou no ponto bem na hora da porta fechando; tempo de espera = 30 minutos). Na média, 35 minutos.



A alternativa com transferência criaria um ponto de conexão (vamos supor no meio do caminho de todo mundo). Nessa situação serão necessárias apenas 3 rotas, todas passando por esse ponto central. Com o mesmo orçamento e a redução de rotas num fator de 3, podemos aumentar a FREQUÊNCIA das viagens em um fator de 3, ou seja, a cada 10 minutos. O tempo de viagem será composto por: de 0 a 10 minutos pra pegar o 1º ônibus + 10 minutos da 1ª viagem + de 0 a 10 minutos para pegar o 2º ônibus + 10 minutos da 2ª viagem; ou seja, entre 20 e 40 minutos. Na média, 30 minutos.



Repare que, se você tiver a 'sorte' de ter a viagem direta (no exemplo, acontecerá em 1/3 das rotas), você ainda não terá o tempo de espera do meio, ou seja, a média de viagem cai ainda mais.

Essa alternativa possui ainda mais vantagens do que apenas a economia de tempo:
- é mais fácil pra população entender as rotas; é mais mnemônico; haverá menos tempo perdido com o motorista tendo que responder pra senhorinha se esse ônibus passa na avenida x.
- a malha será mais bem aproveitada; a tendência é que todos os ônibus sejam mais bem ocupados (todo ônibus será, de fato, útil). Isso pode parecer uma desvantagem (ônibus cheio é mais desconfortável), mas ônibus bem ocupado (não superocupado) é sinal de bom uso do dinheiro público. Ou não existe a sensação de 'desinteligência' ou desperdício quando pegamos um ônibus abarrotado e, na sequência, um ônibus super vazio?
- menos rotas e mais curtas significam mais resiliência, mais capacidade de acertar um detalhe do trajeto como um cruzamento-gargalo.
- a vantagem aumenta com o aumento da cidade. Basta imaginarmos uma redução de rotas num fator de 10 e aumento da frequência num fator de 10.

Existem três argumentos contra os transfers: um fresco, um falacioso e um considerável.

A crítica fresca é que não terá mais viagens sentadinhas, longas, para se ler um livro. Bem, aí a população precisa escolher se prefere chegar logo ou chegar sentada. Frescura.

A crítica falaciosa condena o cálculo de espera lá de cima no texto. Dizem que basta você saber a hora que o ônibus passa e se programar pra ela, levando o tempo de espera sempre a zero. Quem vive a prática, sabe que isso não é aplicável. Primeiro porque não sabemos ao certo a hora dos ônibus. Segundo porque, mesmo que soubéssemos, nem sempre conseguiríamos nos adequar. A frequência menor (mais tempo entre um ônibus e o próximo) levará a tempos de espera, mesmo que você saiba os horários. O exemplo no post original é bom: se você tem que chegar ao escritório às 9h00, mesmo que saiba que um ônibus passa às 8h05 e te deixará no escritório às 8h40, você continuará perdendo os 20 minutos no trabalho por ter chegado mais cedo do que precisaria (e o ônibus seguinte faria você chegar atrasado). Ou seja, essa crítica é uma falácia.

A crítica boa é psicológica: o perrengue da conexão. Ou seja, existe um 'penalty' maior do que simplesmente o tempo de espera adicional na conexão.
Na verdade, tudo isso pode ser mensurado para vermos até que ponto (até quantos minutos) o usuário aceita gastar mais na viagem direta do que fazendo conexão (5 minutos? 10 minutos?). Obviamente, a conexão tem que ser uma situação agradável e cômoda, sem ter que andar demais, por exemplo.

Pra tudo isso, claro, um cartão do tipo 'bilhete único' é imprescindível.

Experimentei a teoria na prática e adivinhem: dessa vez, deu certo. hehe. Comecei a pegar, de fato, o primeiro ônibus que passasse em frente ao trabalho, sem nem saber o nome ou o número. No meu caso, confesso, era um pouco mais fácil: ou ele pega a Av Santo Amaro (que me basta para rota direta) ou sobe a Av Brigadeiro Luis Antonio. Nesse 2º caso, pulava do ônibus assim que percebesse o 'desvio da minha rota', andava até a Av Santo Amaro e pegava o primeiro ônibus que passasse, também sem saber nome ou número. Como a entrada dos ônibus na Av Santo Amaro às vezes trava, acredito que em alguns dias, até ganhei tempo ao pular de um ônibus e entrar no outro, já na Avenida.

Enfim, seria bom ter um prefeito com um pouco mais de coragem para enfrentar o status quo e tomar uma decisão um pouco mais técnica com relação à malha de ônibus.