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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Trechos selecionados de 'Home Game - An accidental guide to fatherhood'

Trechos selecionados de Home Game - An accidental guide to fatherhood, de Michael Lewis.


My father took it almost as a matter of principle that most problems, if ignored, simply went away.

Memory loss is the key to human reproduction.

One of the many things I dislike about being a grown-up is the compulsion to have a purpose in life.

New parents are not rational; they worry about all sorts of things that it makes no sense to worry about. [When was the last time you saw a full-grown adult crawling around the streets on all fours?]

At some point in the last few decades, the American male sat down at the negotiating table with the American female and - let us be frank - got fleeced.

corollary to the rule about the fool at the poker table, that if you don't know who your wife is pissed off at, it's you.

The fact, as opposed to the theory, of life with a small child is an amoral system of bribes and blackmails. You do this for me, you get that. You don't do this, you don't get that.

that official statistics dramatically overstated the incidence of sudden infant death (...) because most of then were probably murder.

Maternal love may be instinctive, but paternal love is learned behavior.
A month after she was born, I would have felt only an obligatory sadness if she had been rolled over by a truck. Six months or so later, I'd thrown myself in front of the truck to save her.

1. Maternal propaganda. 2. Gift for mimicry. 3. Tendency to improve with age.

All the little things that you must do for a helpless creature to keep it alive cause you to love it.

The first rule of fatherhood is that if you don't see what the problem is, you are the problem.

The origin of vanity is not the desire to be admired by others but the need to be in charge. The other things just follows from it.

On of the many things about fatherhood is how it has perverted my attitude toward risk.
(neurotic, money, help other, flying, death)

It's astonishing how much trouble we take to prevent our children from seeing the world as it is.

Never underestimate your own insignificance.

For the whole of Stage1, a father performs no task more onerous than seeming busy when he isn't. In Stage2, he becomes, in a heartbeat, chauffeur, cook, nurse, gofer, personal shopper, Mr Fixit, sole provider and single parent.

The current wisdom holds that if you seem to be not all that interested in your new child the first time the older ones come to see him, you might lessen their suspection that he's come to pick their pockets.

A family is like a stereo system: a stereo system is only as good as its weakest component, and a family is only as happy as its unhappiest member.

"Do you know the data on siblings across species?" "Half the time they kill each other".

What you know is less important than who you know.

The problem with lucking out with your children is that your children don't appreciate their luck - and the lucky feeling is more than a half of the pleasure.

Like dreams, these fatherhood moments are easily forgotten and no doubt also a lot more interesting to the teller than to anyone else. But when they're forgotten, their lessons, such as they are, are lost. The vacuum winds up being filled by 'experts' on child rearing.

The final rule of fatherhood: if you're not bothered by it, or disturbed by it, or messed up from it, you're probably doing something wrong that will mess up your kids. You're probably doing something wrong anyway, but it's okay.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Angústia moderna


Meu primeiro contato com Alain de Botton foi através desse excelente vídeo no TED, sobre uma nova concepção de sucesso. Depois, assisti a uma palestra dele no Fronteiras do Pensamento aqui em São Paulo, em que ele defende o legado e o exemplo das religiões mesmo para quem é ateu (como ele): forma de educar através de repetição e parábolas, artes (arquitetura, música), senso de comunidade, busca pelo conhecimento. Muito boa também. Aí, ele criou a tal School of Life, que me parece uma grande embromação.

Mas a ideia desse post é resenhar seu livro ‘Status Anxiety’, traduzido porcamente para ‘Desejo de Status’. Digo ‘porcamente’ porque a tônica do livro é a angústia mesmo, não o ‘desejo’. Gostei MUITO do livro (apesar de ser um pouco repetitivo...); acho que vai bem aos pontos do mal estar incessante dos ‘tempos  modernos’...



Alain de Botton divide o livro em 2 partes. Na primeira, ele reflete sobre 5 eventuais causas dessa angústia. Na 2ª parte, fala sobre 5 eventuais saídas, escapes para ela.

CAUSAS

1. (Falta de) Amor
Ele argumenta que, não raramente, o desejo de subir na hierarquia se deve não às conquistas em si, mas ao amor que recebemos em consequência do alto status; ou seja, dinheiro, fama, influência são como ‘tokens’ (fichas, meios) para ser amado. Nossa autopercepção, nossa própria identidade depende demais do que os outros pensam sobre nós. Procuramos sinais de respeito do mundo para nos tolerarmos. Se dão risadas das nossas piadas, consideramo-nos engraçados; se nos elogiam, consideramo-nos merecedores.

2. Expectativas
O autor lembra que a grandíssima maioria da população medieval, após uma vida inteira de trabalho árduo, possuía apenas 1 ou 2 vacas. O progresso material mudou completamente essas expectativas. Nós não conseguimos perceber como somos prósperos em termos históricos. Consideramo-nos bem sucedidos apenas em comparação com quem crescemos, com quem estudamos, com nossos amigos.
Não há sucesso mais intolerável (intragável, doído) do que o daqueles incrivelmente parecidos conosco. Daí, segue que, quanto maior o número de pessoas com as quais nos consideramos ‘iguais’, maior a possibilidade de sentirmos inveja .

"Quando a desigualdade é regra da sociedade, as grandes diferenças não chamam atenção.
Mas quando tudo fica mais ou menos no mesmo nível, a menor variação é notada."
Tocqueville

Hoje, uma leve queda nas condições de provação aumenta desproporcionalmente o medo da privação total. As pessoas não aceitam dar um passo pra trás.
Daí, as sociedades modernas criaram uma espécie de defesa, uma notável capacidade de achar que nada, nunca é suficiente...
Nós poderíamos estar felizes o suficiente com pouco, se pouco fosse o que queríamos; e poderemos nos sentir miseráveis com muito, se formos inclinados a desejar tudo. O preço que pagamos por ter expectativas tão maiores que nossos ancestrais é justamente uma angústia perpétua por estarmos longe de ser tudo aquilo que ‘poderíamos ser’.

"Há dois modos de tornar um homem mais rico: dar-lhe mais dinheiro ou ceifar seus desejos."
Rousseau

3. Meritocracia
Aqui, o filósofo explicita mudanças em 3 histórias do imaginário popular ao longo do tempo.
A primeira sobre a utilidade dos pobres. Por milênios, a plebe era vista com respeito por ser a trabalhadora, a ‘criadora’ de riqueza, até pela interdependência das classes (clero, nobreza e plebe). Por influência de pensadores modernos, essa lógica se inverteu. Hoje, os ricos, mesmo através de orgulho ou luxúria, são os que possibilitam a criação de riqueza e sua divisão. Antigos vícios passam a ser vistos como virtudes.

A segunda história que mudou é com relação à conotação moral da pobreza. Antes, até pela forte influência do Cristianismo (pelo qual, o verdadeiro ‘bem’ é o reconhecimento da dependência de Deus, independentemente de dinheiro), ser pobre não era um ‘ônus moral’. Agora, concorrendo com os antigos princípios hereditários e igualitários, aparece a MERITOCRACIA.
Não é mais possível argumentar que status seja resultado inteiramente de um sistema rígido. A crença de uma crescente conexão confiável entre o mérito e o sucesso no mundo dá ao dinheiro uma nova qualidade moral. A consequência desse pensamento (que, aliás, é um dos principais pontos lá da 1ª palestra de Alain de Botton no TED) é que, assim como os bem-sucedidos merecem seu sucesso, necessariamente os fracassados MERECEM seu fracasso. O baixo status passa a ser ‘MERECIDO’.

A 3ª história fala sobre ‘erros’. Antes, por influência de Marx & cia, os ricos eram considerados necessariamente corruptos, pecadores, ‘errados’. Enriqueceram porque roubaram os pobres. Agora, os estúpidos são os pobres, incapazes de se tornarem bem sucedidos pelos próprios esforços. (Pessoalmente eu não concordo que houve essa mudança). Os pobres deixam de ser AZARADOS e passam a ser FRACASSADOS (losers).

4. Esnobismo
Vivemos em um mundo diametralmente oposto ao amor incondicional de mãe, isto é, um mundo esnobe, com atenção condicional e dependente do que fazemos ou conquistamos.
O reforço do prestígio de ‘famosos’ necessariamente banaliza a vida dos ordinários.

"Se elas estão loucas para nos conhecer, não deve nos interessar conhecê-las. As únicas pessoas que nos interessam são as que não se interessam por nós."
Cartoon em 1892.

O problema é que não gostar das pessoas quase nunca é motivo suficiente para não desejar que elas gostem da gente.

5. Dependência
Nas sociedades tradicionais, o alto status podia ser difícil de ser alcançado, mas também era muito difícil perdê-lo. Hoje, há muito mais imprevisibilidade (ou pela menos, temos mais percepção dela) para manutenção do status.
Dependemos do talento, da sorte, de um empregador, do lucro desse empregador, da economia global,...
O autor lembra que não faz muito tempo que as pessoas deixaram de trabalhar por conta própria (em suas fazendas ou negócios de família) para barganhar sua inteligência por um salário. Essas ‘novas’ relações trabalhistas (necessidade de ‘puxar saco’ de colegas e superiores, tensão por promoção própria e alheia, corte de funcionários) se tornam uma das mais opressivas angústias.
Abre-se espaço para Marx, cujas teorias de valor capturam esse ‘conflito’ entre empregado e empregador: há uma ÚNICA diferença entre o trabalho e outras commodities; o trabalhador sente dor.

SOLUÇÕES

1. Filosofia
Embora a filosofia entenda que a angústia possa ser 'útil', aqui o autor apresenta o ceticismo em relação à inteligência dos outros, o que chama de 'misantropia inteligente'.
Devemos perceber que a opinião da maioria das pessoas sobre a maioria dos assuntos é extraordinariamente confusa e errada: 'a opinião pública é a pior das opiniões' (Chamfort).
Antes de buscar a aprovação de alguém, devemos nos questionar se as opiniões dessa pessoa merecem ser ouvidas.

"Um músico deve se sentir grato pelo aplauso de uma plateia se soubesse que toda ela, sem exceção, é surda?"
Schopenhauer

2. Arte
A arte é a antítese do moralismo; é marcada pelo desejo de remover o erro humano, limpar a confusão humana, diminuir a miséria humana.
Através da tragédia ('da alegria para miséria', erro de julgamento, inversão de sorte), sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou. Evidencia nossa (falsa) tendência a achar que estamos com o controle consciente do nosso destino. Num mundo imbuído com as lições da arte trágica, as conseqüências das nossas falhas seriam menos pesadas.
Já a aparente inocência das comédias permite passar mensagens que seriam 'perigosas' diretamente. Uma piada engraçada é aquela que cria situações ou sentimentos que causam embaraço ou vergonha no nosso dia-a-dia; jogam luz sobre as vulnerabilidades que costumamos deixar nas sombras.

3. Política
Toda sociedade atribui uma alta estima a um certo grupo (enquanto condena ou ignora outros) baseado em habilidades, origem, temperamento, força física, cor da pele, gênero, religião,... Longe de ser permanente ou universal, as 'qualidades' em um local ou era podem ser irrelevantes ou mesmo indesejáveis em outros. Os valores de status foram e serão objetos de mudanças: esse processo é chamado 'política'. Para tentar mudar, usam-se armas, protestos ou livros.
As 'ideias dominantes' de qualquer época são sempre as ideias da 'classe dominante' e é difícil manter essa relatividade em mente. Paradoxalmente, se essas ideias forem percebidas como 'impostas forçosamente', elas não serão mais dominantes. Daí, a necessidade de ser perguntar de forma autônoma: 'Deve ser assim?'.
Essa percepção pode diminuir nossa sensação de perseguição, passividade e confusão a que estamos sujeitos.

4. Religião
Nós podemos superar o sentimento de ‘desimportância’ não nos fazendo mais importantes, mas reconhecendo a falta de importância de qualquer um (e de todos) na Terra, especialmente diante de uma força muito maior (infinitude, eternidade ou, mais comumente, ‘Deus’).
Memento mori: a ideia da morte reorienta nossas prioridades, afastando-se do mundano, rumo ao espiritual. Passa a ideia de certa 'igualdade': não importa se com alto ou baixo status, todos temos o mesmo destino, o pó.
Achei interessante a passagem de Xerxes (de Herodotus): após grande conquista, o imperador começa a chorar ao perceber que, em um período de 100 anos, todos seus bravos soldados estariam mortos.
Ruínas (um símbolo da infinitude do tempo) e paisagens (símbolo da infinitude do espaço) ajudam nessa tarefa de evidenciar nossa insignificância.
Outro importante auxílio das religiões é o senso de comunidade. No mundo atual, ser ‘qualquer um’ é medíocre, conformista, chato, suburbano; o objetivo é se distinguir da massa. No entanto, pelos ensinamentos de Cristo, por exemplo, ser igual aos outros é uma das principais virtudes do ser humano. Ensina-nos a olhar além das nossas diferenças superficiais, destacando que possuímos basicamente as mesmas vulnerabilidades e necessidades. O entendimento cristão é de que existe um status terreno e outro sagrado; redefine sucesso não em termos materiais: pobreza pode coexistir com bondade, ocupação humilde com alma nobre.

5. Boemia
Trata-se de uma crítica à noção 'burguesa' de respeitabilidade. Valoriza-se a 'simplicidade' (ao invés do termo 'pobreza'): não se é um loser, apenas se escolhe gastar energias em outras coisas que não fazer dinheiro.
Os mártires boêmios são aqueles que sacrificaram a segurança de um emprego estável e da estima da sociedade para escrever, pintar, fazer música, viajar ou simplesmente passar tempo com amigos e família.
Boêmios repudiam a noção de sucesso/fracasso porque o mundo é governado por estupidez e preconceito; os bem sucedidos raramente são os melhores ou mais inteligentes, mas sim os que foram mais aptos a responder aos valores falhos dos tempos modernos.

"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão."
Thoreau

Embora não seja perene (o dinheiro acabava!), a boemia valeu para refletir sobre algumas 'verdades', até então inquestionáveis, da burguesia.

A conclusão é que, por menos prazerosas que sejam, é difícil imaginar uma boa vida completamente livre dessas angústias por status, mas podemos 'melhorar a relação' com elas.
Uma solução madura é perceber que status é definido por uma variedade de ‘audiências’ e que podemos escolher livremente 'nosso público', ou seja, existe mais de um modo de ser ‘bem sucedido’ na vida.


sábado, 7 de julho de 2012

APESAR DE...


Sempre fui um cara pessimista; talvez, preocupado. Na origem, quem sabe, isso se deva à tradição judaico-cristã, de zelo presente e preocupação com o futuro. A mudança do mundo corporativo em um banco para a gestão de uma empresa própria me empurrou pra ‘vida de verdade’. Casar com uma psicóloga que trabalha com dependente químico ainda mais. As sujeiras e tristezas do mundo ficaram muito próximas. A seqüência de desilusões políticas foi minando minha pouca esperança restante. No trabalho, clientes querendo dar migué. Funcionários armando o bote pra sacanear. Em conversa de bar, sugiro ações de trânsito que restringiriam veículos privados. Amigos inteligentes refutam de imediato. Fico indignado. Num almoço, amigos que trabalham num grande fundo de investimento contam que os cabeças querem colocar grana em logística e infra-estrutura no Brasil, mas a burocracia impede... Fui dar uma olhada em filosofia, alguns pensadores e logo gostei das idéias niilistas: ‘tudo isso pra quê mesmo?’. Li Nietzsche e sua crítica ao idealismo. Vi-me em um paradoxo: como ser simpático ao niilismo e ser católico ao mesmo tempo? Como não ver sentido na vida e ter (que ter) esperança num mundo melhor? Conversei com minha terapeuta, com o padre, com um vereador e até com um professor-filósofo. Fui apresentado a Soren Kierkegaard, um raro existencialista, angustiado, que se manteve cristão. Ainda não o conheço direito. Com o vereador, quis mostrar idéias de trânsito – também tenho estudado –, disparado o item que mais me incomoda numa cidade grande. Não entro na crítica fácil a ‘esses políticos malditos...’. A política somos nós. A Câmara é um conjunto aleatório de quaisquer 513 brasileiros. O cara me recebeu bem, mas vi que a boa vontade dele não bastava. O buraco é bem embaixo. Nos sermões do padre, o convite à ação diária. Na conversa pessoal, ele concordou comigo sobre o momento difícil da humanidade, de transição, com pouca luz no túnel. Relembrou a ideia de buscar portos seguros, instituições, em especial, a família. Ah, minha família... Tive um momento de paz ao perceber que nela poderei ficar bem, sem precisar pensar. Pensando na continuidade, começamos a pensar em filhos. Mas aí lembrei de Brás Cubas: ‘Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.’ E aí, volta a dúvida: ‘Como colocar um filho nesse mundo? Coitado...’ E a terapeuta dando liga, sugerindo que eu me cobre menos. Não sou fã do Brasil. Não gosto do ‘jeitinho’ brasileiro, tão encarnado no nosso dia-a-dia, a lei de Gerson. O brasileiro não é solícito; é uma auto-ilusão. Na verdade, chego a pensar que é diametralmente oposto a isso. Por que não largar o osso? Não foram poucas as vezes que me colocaram o ‘ame-o ou deixe-o’. Até eu mesmo me perguntei. Visitei um amigo no Canadá, tenho amigos nos EUA, na Alemanha, Austrália, na África do Sul, Cingapura,... Todos com seus bens e seus poréns. A grama do vizinho é sempre mais verde, é difícil ser ‘pra sempre’ um ‘imigrante’. No fundo, todo cético-ao-extremo vivo, todo niilista vivo é um incoerente; deveria se matar. Prefiro, então, a incoerência. Continuarei vivendo. Minha esposa, talvez quem melhor me conheça, não me considera mal-humorado, apesar de tudo isso. Ranzinza mas bem-humorado. Acordo sorrindo, vou dormir sorrindo. Tenho amigos com os quais eu sorrio. Vivo (ou sobrevivo) apesar de tudo. Talvez seja esse o princípio para ultrapassar o niilismo, se tornar o tal Übermensch. Ou talvez seja só parar de pensar. Sorrio apesar de tudo.

UPDATE: No exato dia em que escrevo esse texto, leio à noite em 'Ecce Homo' de Nietzsche:
A dor não aparece como objeção contra a vida: "se já não tens alegria alguma para me dar, bem!, tens ainda a tua dor..." (...) de tal modo que a preamar me impossibilitava o sono durante a noite, proporcionava-me quase em tudo o contrário do que era de desejar. Apesar de tudo e quase como demonstração da minha máxima de que tudo o que é decisivo acontece "apesar de". 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Vida é um fractal da História


Há muitos anos, descobri o prazer da leitura. Mais tarde, com curiosidade, desejo de aprender e influenciado por um ou outro amigo, resolvi postergar o desejo de um mestrado, substituindo os cursos por leituras mais ‘sérias’, mais formais. A ideia era fazer meu próprio curso, aprender o que desse na telha. Ganhei amplitude, perdi profundidade. Nunca mais fiz uma matéria da qual eu não gostava. E fiquei preparado para ser um ‘tudólogo’: enrolar sobre quase todos os assuntos... hehe. E misturar assuntos diversos.
Essa introdução serve apenas para contextualizar uma associação que fiz pela leitura de alguns livros que, a princípio, não teriam nada a ver.

Começo com uma ideia do Nassim Taleb, de "Cisne Negro" e "Iludidos pelo Acaso", crítico do uso sem restrições da curva normal, com suas caudas estreitas. Taleb defende a tese de que alguns eventos de grande impacto são menos raros do que supostamente esperamos (os extremos da distribuição de probabilidades – as caudas – são na verdade mais gordos). Os exemplos disso na História são as guerras e revoluções que nos levaram ao mundo como é hoje. Fosse a História feita apenas pelos dias comuns, estaríamos em um estágio muito anterior. Ao ler esse trecho, imaginei 2 gráficos que se somam. Abaixo, o azul representa a evolução cotidiana, de grão em grão, lenta e segura. O vermelho, as revoluções e grandes mudanças, pontuais, ocasionais, um pouco caótico. A soma, em preto, resulta a evolução da História da humanidade. Passos pequenos somados a grandes saltos.





Retire 2 ou 3 grandes eventos ou grandes dias da História, e estaríamos em tempos MUITO diferentes. Analogia do tempo moderno: a Bolsa parece um ótimo investimento de longo prazo; retire (ou esteja fora dela) os 2 ou 3 dias com maiores valorizações e o rendimento total do período já não será bom.

Ok, e daí?
E daí que li também Nilton Bonder, o rabino cujo principal assunto são nossos confrontos internos, nossos dilemas conscientes e inconscientes. Com paródias judaicas (lembrando que sou bem católico...), ele passeia por filosofia e psicanálise. Gostei muito. ‘Alma imoral’ e ‘Segundas intenções’ são embates sobre a imoralidade da alma com a moralidade do corpo, o bom versus o correto, a evolução versus a preservação. (O jogo das capas dos livros é bem legal: aqui e aqui). Ao longo do texto, fui completando a tabela abaixo. E percebendo que nossas vidas são pequenas versões dos gráficos acima. A grande maioria dos dias é comum, mas nossa vida é fundamentalmente marcada pelos poucos momentos atípicos, por acaso, fora de controle. Uma mesmice com pequenos picos de grandes mudanças. Uma topada com certa pessoa, uma demissão, um acidente de carro, um convite, uma ruptura. Retire 2 ou 3 grandes momentos da vida e estaríamos em outro estágio.



Tanto a composição dos gráficos como a ideia de que pequenas estruturas formam estruturas maiores idênticas são baseadas nos fractais de Mandelbrot.
A vida é um fractal da história da humanidade.



Ao longo dos textos, fui pensando também sobre as implicações políticas ou, mais que isso, nas minhas discussões diárias (já que gosto de discutir...). Será que eu estava delirando, querendo encaixar o mundo ao meu pensamento (e não o contrário), fazer o convidado do tamanho da cama (e não o contrário)? No final de ‘Segundas intenções’, fui presenteado com uma seção voltada mesmo pra política – liberais versus conservadores – tal como eu vinha imaginando ao longo dos textos. Não viajei sozinho.
Não gosto da ideia de que essa separação política não faz mais sentido porque não me considero parte do mainstream esquerdista contemporâneo, não gosto desse ‘é-tudo-a-mesma-coisa’, já que não quero a ‘mesma coisa’ que está aí. Não acho legal tudo caminhar para o centrismo, para a peemedebização. E os livros me permitiram categorizar, rotular algumas dessas diferenças.

Em essência, a direita é o corpo, é a linha azul lá de cima. A esquerda é a alma, a linha vermelha lá em cima.
Em essência, o dia-a-dia tem que ser direitista, com cuidado, com regras, com preservação (Daí, acho que em geral os governos devem ser direitistas). Mas os grandes eventos, as grandes conquistas da humanidade foram realizadas por gente que pensou fora da caixa, esquerdistas, alma. Mas não dá pra ter uma situação esquerdista, é muito “vida-loka”. Direita como default, esquerda como conquista.
Do mesmo modo, em essência, nossa vida tem que ser com cuidado, com regras, com disciplina. Mas os grandes momentos da vida são imorais, são alma, um pouco caótico e sem controle.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Segundas intenções

Acabo de ler 'Segundas intenções' de Nilton Bonder. Foi-me apresentando como a resposta do Corpo à 'Alma Imoral', um outro excelente livro do autor-filósofo-rabino (aliás, percebo só agora que não fiz um texto sobre o que esse livro provocou em mim...; um erro).
'Segundas intenções' não é uma leitura fácil. Acho que é do tipo de livro que cada nova leitura acrescentará um ponto não percebido nas anteriores. Não sou capaz de fazer uma resenha. Por isso, apelo para a simples transcrição de alguns pontos que achei interessantes.


Sobre o confronto de corpo e alma
A imoralidade da alma se confunde então com o próprio impulso-mau, com uma segunda intenção; da mesma forma, o corpo, através da moral, produz hipocrisias que são também segundas intenções. O impulso-ao-mau abocanhará dos dois lados sempre que estes não conseguirem preservar a tensão entre si e abandonarem o diálogo direto.

Mas enquanto a tática da alma é propor o desmascaramento do impulso-mau pela transgressão de suas morais hipócritas, a tática do corpo será o de vesti-lo ainda mais, revelando assim que não há honestidade plena e que expor esta condição proporciona a melhor forma de retidão e franqueza disponíveis a um ser humano.

A alma denuncia a presença do impulso-mau na hipocrisia e na moral e as combate com imoralidade, transgressão, relativização e tolerância. O corpo denuncia a presença do impulso-mau na malícia e a combate com a moral, a obediência, a verdade e a intransigência.


Sobre a verdade per se
Dois rivais no mundo dos negócios se encontram numa estação de trem. O primeiro pergunta: “Para onde você está viajando?”. E o segundo responde: “Para Minsk”. “Para Minsk? Que cara de pau! Você está me dizendo que vai para Minsk só para que eu pense que está indo para Pinsk. Mas acontece que eu não sou bobo e sei que você vai mesmo é para Minsk. Então por que você está mentindo pra mim?”. A anedota traz uma questão profunda: a verdade existiria per se ou dependeria do entendimento de quem a escuta? (...) As falas partem sempre do lugar das intenções e atingem o lugar das intenções dos outros.


Sobre a certeza e a verdade
O objeto da visão é a certeza; o objeto da confiança é a verdade. A certeza está associada à função da presença, do material. A verdade está associada à existência, à essência.
“Ah, mas eu vi você fazendo!” é sempre uma prova material, e assim vamos pautando a vida por este preceito maior. O que é visto pelos outros parece determinar o que é verdadeiro. No entanto, isso funciona basicamente de maneira inversa. O que não é visto sempre terá maior materialidade para nossa identidade do que aquilo que se apresenta diante de nós. Distante de olhares, ou na intimidade da consciência, é produzido o material que nos faz sujeito. Nesse lugar, o ser que é visualizado pelos outros com certeza surpreenderia por ser bem mais ou bem menos do que a vestimenta leva os olhos a enxergar.


Sobre a mentira que não fere a verdade
Todo ser humano vestido é como o membro de um grupo de Alcoólicos Anônimos, expondo uma civilidade que é falsa, mas declarando-a abertamente como uma demonstração de honestidade humana. Nossa maior verdade está em nos caracterizarmos como potenciais mentirosos. E se isso parece uma resignação inaceitável, um conformismo à imperfeição, saiba que pode ser também uma manifestação de maturidade própria de uma consciência que se fiscaliza.

[Comentando a paródia do rabino que troca a galinha da mulher pobre para que fique dentro das normas dietéticas da tradição:] Quando o rabino mente – já que entrega outra galinha – só está mentindo para si e com consciência de que é uma mentira. Mentir apenas para si, tendo consciência disso, não fere a verdade. Essa é a inventividade do corpo, diferente da inventividade da alma, que se projeta para fora do mundo e quer modificá-lo (...)


Sobre o não visto
Lembro do caso de um psicanalista socorrendo uma mãe desesperada porque o filho a ameaçara com uma faca. Estavam discutindo acaloradamente na cozinha quando, colérico, o filho ergueu uma faca para a própria mãe. A mulher estava inconsolável: como poderia olhar de novo para aquele filho com amor? Não lhe saía da cabeça a cena da faca levantada, pronta para feri-la. O terapeuta então perguntou: “Mas o que foi que fez que ele não a esfaqueasse?”. A mulher, a princípio, pareceu não entender o que era perguntado. O terapeuta então completou: “Você diz que não consegue tirar de sua mente a cena em que aquele ódio tomou a forma de uma faca. Mas o que foi que deteve a mão de cumprir com o desígnio do ódio?”. Ele mesmo respondeu: “O que a deteve foi o amor. Foi o amor de seu filho que impediu a mão de desferir qualquer agressão”. O que o psicanalista estava dizendo é que sempre vemos o ato, mas não conseguimos completá-lo com seu desdobramento, com a parcela não visível.


Sobre o avesso do avesso do avesso do avesso
A estratégia de revelar um camaleão não é retirando sua roupa. Por baixo de uma estarão outra e mais outra e mais outra e assim infinitivamente. A estratégia correta não é tentar despir, mas acrescentar nova vestimenta. É no contrassenso que está a sapiência.


Sobre a racionalização
A racionalização é fruto da decisão da consciência. Esta racionalização equivaleria ao somatório de impulsos, com os quais considerariam possíveis retaliações sociais e morais. Ela induziria à ação não por aderência a princípio e valores, mas como resultado do mecanismo animal de temores [e recompensas] por seus impulsos.
Melhor o errado que não se afasta da verdade do que o correto que dela prescinde. Por isso, a preferência da tradição pelo “perverso que se sabe perverso” mais do que pelo “justo que se sabe justo”. (...) Isso só é possível se entendemos que o primeiro tem a virtude de não se enganar a si mesmo; já o segundo, por não desconfiar de suas segundas intenções, se faz presa fácil de construções errôneas sobre si e sobre a realidade.


Sobre a falsa humildade
“O nada refletido expõe o tudo”.
Uma clássica anedota judaica conta que em pleno Dia do Perdão, num dos momentos mais fervorosos das orações, o presidente da sinagoga se levantou e, consternado, confessou: “Meu Deus, quem sou eu? Eu sou um nada”. Logo depois, seguindo seu exemplo, levantou-se o diretor de culto que admitiu também: “Meu Deus, o que sou eu? Eu sou um nada”, voltando a sentar-se com um ar constrito. Animado pela seqüência, o bedel, o contínuo da sinagoga, fica de pé e confessa: “Meu Deus, quem sou eu? Eu sou um nada”. De imediato, várias pessoas protestam na multidão: “E quem ele acha que é para se declarar um ‘nada’?”.


Sobre as individualides
Um discípulo leva um amigo para conhecer o rabino. O amigo vai e descreve que tem uma visão sobrenatural, um halo de santidade emanava do rabino. O discípulo ficou gratificado mas com uma espécie de inveja, pois nunca tinha vivenciado algo semelhante. Perturbado com esse sentimento, procurou o conselho do próprio rabino: “Há anos com assiduidade venho vê-lo e nunca presenciei fenômeno extraordinário de conteúdo místico e transcendental. No entanto, trago um amigo, uma pessoa cheia de resistências e na primeira visita que lhe faz já afirma ter visto fenômenos assombrosos. Isso não me parece razoável, não parece justo”. Então o rabino respondeu: “Não se trata de ser justo. Seu amigo é pessoa resistente e, portanto, precisa ver a verdade com seus olhos. Você, por sua vez, é um discípulo, e de você é esperado que confie e acredite”.


Sobre o choro e a dor
Todo choro contém uma fração que não é de dor, mas de uma segunda intenção que quer controlar a dor. Para realizar isso, o ‘Eu’ tem como artifício transformar a experiência do acidente que causa a dor numa ameaça constante. O choro passa a existir por preocupação e por controle, não mais pelas conseqüências dolorosas do ocorrido, mas pela possibilidade dessa dor se repetir. No choro está o truque de transformar nossa impotência, o fato de que somos vítimas, numa forma falsa de potência e controle. Reagimos assim não só à dor, mas à injustiça da dor e à perda do privilégio que ela representa.


Sobre o medo e a dor
“Não é tanto o que me dói que me assusta; mas o que pode doer.”
Os sábios reconheciam que o mais poderoso recurso da imaginação é o medo, que pode ser definido como uma mentira muito sofisticada. O medo não é a subversão de um fato ou evidência, mas uma mentira sobre o tempo. Ele não distorce a realidade em si, apenas o seu tempo. Em vez de olhar a realidade no presente, o medo faz com que a vejamos nas imagens projetadas sobre o futuro. Como o futuro ainda não existe, tudo aquilo pelo qual nos preocupamos está no território da mentira, produzido pela inventividade. O medo tenta neutralizar o elemento mais poderoso do corpo e que tanto o ameaça: a dor. Diferente do medo, a dor localiza-se no território da verdade, que é o agora.


Sobre liberais e fundamentalistas
Para os liberais, a mentira humana, o lugar onde o ser humano enganou a si próprio, está nas doutrinas e nos dogmas. Falas da tradição ou de uma forma superior é a maneira de ludibriar as massas e as mentes em relação a uma autoridade que tem interesses particulares, uma moral particular. Por sua vez, para os fundamentalistas, o lugar onde o ser humano engana a si é na anuência a tudo o que lhe demanda o ‘Eu’, quando este se eleva à autoridade suprema. O ‘Eu’ está para o fundamentalista como o clero ou uma casta privilegiada está para o revolucionário. (...)

E a escolha pelo lado que assumimos amadurece num indivíduo a partir da relação que ele estabelece com seus desejos. Se a força vital permite a alguém exercer controle de seus desejos com maior facilidade, esse indivíduo tenderá a encontrar sua coerência diante das cobranças externas. Se, ao contrário, a força dos desejos for um aspecto fundamental da força vital desse indivíduo, então ele terá que primeiro prestar contas à sua coerência interna, mesmo que em detrimento das expectativas externas.


Sobre desilusão e tristeza
Quem tem sua coerência na alma deve saber que terá que conviver com o impulso-mau em sua liberdade. Quem se pauta pela coerência do corpo terá que conviver com o impulso-mau em suas verdades. E a terapêutica de cada um estará no campo do outro. Para um fundamentalista triste recomenda-se mais liberdade. Para um liberal perdido em ilusões prescreve-se um pouco de verdade e de lei.


Sobre o sagrado e a qualidade humana
A percepção de sagrado deriva de outra perspectiva e acredita na diferença qualitativa da natureza humana. Essa diferença estaria na capacidade de fazer escolhas morais. Estas escolhas não seriam o mero evitar da gratificação dos impulsos por conta do temor de suas conseqüências [como qualquer outro animal o faz], mas a capacidade de conter um impulso justamente quando não há possibilidade de implicações desagradáveis. Quando estas decisões são praticadas a partir de valores e sensibilidades do que é certo ou errado, abandonamos a dimensão animal e nos elevamos à qualidade humana.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

E agora, José? Acabou...

Por definição, não rezo por futebol.
Também não costumo falar sobre futebol na minha terapia. Talvez devesse. Provavelmente meu humor no trabalho ou na vida pessoal esteja muito ligado aos resultados do futebol no final de semana... Que nada de autoconhecimento! É bola na rede e felicidade, bom humor e paz garantidos para próxima semana!! Como essa!

Enfim, acabou o Brasileirão.
Sou do time do PVC, dos que consideram o nosso Brasileirão um belo campeonato. Não gosto daquele saudosismo dos mais velhos. E acho que a comparação com a Europa é distorcida: talvez eles se saíssem melhor num quadrangular com os 2 melhores do brasileiro e os 2 melhores espanhois ou ingleses ou italianos. Mas o 3º, o 4º, o 5º,..., daqui são melhores que os deles... Mas isso é achismo - nunca teremos uma prova - ou, como diz o Balu, é só linguiça para ser enchida nos programas vespertinos de futebol.
A verdade é que gostei muito desse campeonato. Cheguei a considerar a hipótese do meu São Paulo brigar para não cair (tinha esquecido de que time grande não cai!); fiquei triste de verdade com a real possibilidade do Palmeiras campeão e a tolerância que deveria ter com meus amigos mais chatos; criei 15 piadas para o hepta do São Paulo (que terei que guardar para o ano que vem); e acabei não gostando de ter que aguentar meus parentes flamenguistas (eles realmente acreditam que Leo Moura e Bruno são jogadores de verdade... tsc tsc tsc)...
Não desmereço o Flamengo por ter sido o campeão com menor aproveitamento (59%, percentual normalmente considerado para briga por Libertadores), nem São Paulo, Inter, Atlético,... por perderem as chances de ser campeão. A verdade é que estava tudo mais nivelado.
Já tinha falado em outro post que achava improvável que o São Paulo fosse campeão esse ano. Não vou criar um blog só para apontar os erros de juízes (como tem de um palmeirense), como se houvesse uma conspiração universal. Em resumo, o que tinha dito é que a 'popularidade' do Brasileirão não ia muito bem das pernas fora de São Paulo, já que os 5 últimos títulos tinham ficado por aqui. Ou seja, era 'interessante' que São Paulo e Palmeiras não levassem. Flamengo campeão seria o melhor dos mundos. Livrar os 2 outros cariocas do rebaixamento, então, nem se fala... Não sou um gênio. PVC e Juca Kfouri também falaram a mesma coisa. E escrevi isso antes do procurador punir o Vagner Love por não ter 'tranças rubro-negras', antes da anulação ridícula do gol do Obina, antes de darem 2 jogos para um 2º amarelo do Jean, antes de darem 3 jogos para uma falta do Dagoberto pesada, mas idêntica a outras tantas que não deram mais de 2 jogos, de inventarem 'efeito suspensivo parcial' contra o São Paulo, de punirem o Dagoberto por dar risada, de tirarem o jogo do Flamengo contra o Corinthians do mando do Corinthians... Erro de juiz é uma coisa; de tribunal é outra...
É lógico também que, em um lugar mais decente, Corinthians e Grêmio seriam punidos. Dois dos principais jogadores do Corinthians 'se machucam' antes dos 20' do 1º tempo. O médico foi atender o Ronaldo e nem sabia onde espirrar o spray, já que ele não tinha colocado a mão em nada. O Felipe saiu da bola na hora do penalti. O Grêmio foi com 3 titulares, teve seu nome gritado no Maracanã e instruções claras de não chutar no gol. Não aceito o argumento de que o SP não fez a parte dele e, então, não pode reclamar: tivemos que jogar 38 jogos; o Flamengo teve que jogar 36 e ganhou 6 pontos de graça. É totalmente diferente. Num grupo de discussão com amigos, pensamos em soluções: direcionar clássicos locais para as últimas rodadas, parte das cotas de TV baseando-se na classificação do ano anterior (de tal modo que faça diferença ficar em 9º ou em 10º),..., mas não chegamos à nenhuma conclusão...
Mas os jogadores do Flamengo não têm culpa e merecem comemorar. O Flamengo foi um Cisne Negro, aquele evento altamente improvável que acontece de vez em quando. Sem estrutura, com troca de treinador, troca de presidente, com estrela que não treina e outra que veio para saldar dívida, salário atrasado... e campeões! Parabéns! Só não vamos achar que a várzea ganhará todo ano. Esse ano é exceção, não a regra.
Outra coisa que me chamou a atenção é a intenção da imprensa (e, para não ser tão genérico, senti isso mais na Sportv mesmo!) de colocar o 'hexa' na frente de toda vez que se fala 'campeão', forçando goela abaixo! Eu era muito criança em 1987 e, portanto, considero-me um tanto inapto a entrar na discussão com propriedade. Mas quero dar meus pitacos... Sendo pragmático, 1987 é do Sport de direito. Basta entrar no site da CBF. Lógico que houve um outro campeonato, provavelmente muito mais forte, em que o Flamengo se sagrou campeão, o que talvez o dê um título nacional de fato. Mas diferentemente de 2000, quando a mesma CBF fez um mesmo campeonato, só mudando o nome (Copa João Havelange) por razões bem específicas, 1987 teve, sim, um campeonato da própria CBF. Ou seja, talvez o título do Flamengo de 1987 possa ser comparado ao atual status da Copa do Brasil, isto é, de abrangência nacional, mas não 'o campeonato brasileiro'. Não vou me alongar. Essa é só minha verdade, dentre várias verdades possíveis... ;) O que me incomoda não é o eventual 6º título do Flamengo mas, sim, essa lavagem cerebral na tentativa de tirar a exclusividade do hexa são-paulino. Só quero lembrar que ainda precisam igualar 3 Libertadores e 3 Mundiais. haha. Essa foi só para provocar... ("Eu tento ser humilde. Meu time é que não deixa!").
Vou parar a choradeira por aqui. hehe. Até porque terminei o ano feliz. O espetáculo no Morumbi ontem foi SENSACIONAL. A torcida entendeu que não é possível ganhar todo ano. Quanto mais vezes consecutivas você ganha, mais próximo da derrota seguinte. Foi um pequeno sacrifício para termos mais anos de pontos corridos garantidos. E, pelo 7º ano consecutivo, estamos na Libertadores... Meu amigo Bola tem uma tese de que não ganhar o Brasileiro nos dará humildade para ganhar a Libertadores. Tomara.
E, se em 2006 a disputa foi com o Inter, em 2007 com o Santos, em 2008 com o Grêmio e em 2009 com o Flamengo, só existe uma certeza para o ano que vem: é o São Paulo e mais alguém disputando o título... Ah, e o Palmeiras... Vou respeitar o luto por enquanto...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O que é meu, é meu; o que é teu, é nosso.

Uma das coisas que mais me incomoda na cultura brasileira é o conceito anti-lucro. Se uma empresa aumenta seu lucro ou um setor anda muito bem, ao invés de se parabenizar e tentar aprender com seus acertos, já se pensa: 'Hummm... O que eles estão fazendo de errado? Quem estão roubando?'. Os bancos - que, ok, não são nada santos - são as maiores vítimas...
Toco no assunto porque meu ramo, o de estacionamento, também sofre esse tipo de 'ataque' de vez em quando. Semana passada, decidiram isentar a cobrança de estacionamento em shoppings, desde que você gastasse 10 vezes o valor do ticket em compras. A decisão foi logo revogada pela Justiça, mas ainda deve dar muito pano pra manga.
A minha pergunta é: POR QUE teria que isentar? Por um acaso, o investidor (quem comprou ou quem aluga) conseguiu o terreno de graça? Não tem custo manter todo aquele espaço? Imagine um shopping sem estacionamento: teria a mesma demanda?
Não me parece que os estacionamentos dos shoppings estejam vazios, o que sugere que, embora pagando, a população ainda ache que valha a pena parar logo ali e pagar por essa comodidade.
Não me acusem de ser prejudicado por essa eventual decisão e, por isso, advogar em causa própria. Não temos a garagem de nenhum shopping e a maior empresa prejudicada seria uma concorrente, com quem não temos boa relação. Questiono só o conceito mesmo.
Não é a primeira vez que tentam meter o bedelho na indústria do estacionamento. Há algum tempo, queriam criar uma lei de cobrar por minuto. Teve uma empresa que trabalhava assim e faliu. O erro nesse conceito é que o carro que fica parado o dia inteiro (vamos supor 8 horas) não oferece muito mais risco do que um carro que ficou apenas 1 hora (com certeza não oferece 8 vezes mais risco...). O risco no estacionamento é basicamente na manobra de entrada e saída, ou seja, o minuto marginal não tem o mesmo valor dos minutos iniciais. Quando o poder público quer dar muito pitaco na forma de cobrança de uma empresa privada, algo está estranho...
Pra finalizar, cito um amigo nosso, do ramo: 'Acha que dá muito dinheiro? Então abra uma empresa, contrate manobrista, consiga terrenos e opere! Aí, você me conta...'

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Controle? pffff...

Se existe uma coisa que a vida tem me forçado a aprender é que a gente não controla tudo que queria; na verdade, controla muito pouco ou quase nada.
Para pessoas metódicas como eu, é um constante sofrimento. Tocando uma empresa pequena, mais ainda. Passando por um forte processo de autoconhecimento, piorou!
Tenho lido bastante sobre 'acaso', 'eventos altamente improváveis', 'o desconhecido'.
Se eu fosse onipotente, muita coisa seria diferente... Mas não sei se seria melhor...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A resposta 'correta'

Se alguém te perguntar “E aí? Como está a vida?”, a resposta correta é “Putz... Tô trabalhando demais... Correria total. Estressadaço... Tô sugado! Não agüento mais meu trabalho”. Caso contrário, você estará fora de moda!
Trabalho em um grande pólo empresarial de São Paulo. Almoço 3~4 vezes por semana com amigos de empresas que ficam por ali e, com freqüência, encontro meus amigos do banco em que trabalhei. A conversa, invariavelmente, passa pelo trabalho. E, infelizmente, não conheço quem se diz satisfeito com o emprego ou com a qualidade de vida. Pior: até acho que tem gente que gosta do que faz, mas não fala. Ou se faz de coitado ou não quer chamar a atenção: “Se todo mundo reclama, será que eu tô feliz mesmo?”... hehe. Parece que pega mal dizer que está bem; talvez passe a impressão de acomodação e o ‘profissional moderno’ não pode ser relaxado...
Existe um vídeo brilhante no TED (aqui) que fala que nunca foi tão fácil ter uma vida 'boa' e, ao mesmo tempo e meio que paradoxalmente, tanta pressão no emprego.
Não sei se meu mundinho é mais competitivo e exigente ou se são mais casos genéricos de comparação e imitação econômica.
Quanto a mim? “Estou estressado, apanhando no trabalho, dando soco em ponta de faca, sugado...” Estou na moda!
Na minha viagem para o Nordeste em julho, visitei o Beach Park, em Fortaleza. E vivi uma cena marcante, contada pelo meu amigo Daniel. Existe um brinquedo chamado Acquashow, uma espécie de castelo com diversos brinquedos de água: canhões, mangueiras, baldes, moinhos, duchas, calhas... Por mais de 5 minutos, fiquei ‘brincando’ com um moleque de menos de 5 anos, que ficava me ‘atirando’ e eu fingindo que estava sendo acertado... O Daniel só olhando... Depois me disse: “Guarda essa cena para quando você estiver estressado”. E com uma freqüência maior do que a que eu desejava, essa cena vem à minha mente...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sempre falta

Tenho a formação em exatas, mas nos últimos anos tenho desenvolvido um gosto especial pela Psicologia. Gosto do assunto. Gosto de terapia.
Os filósofos antigos ‘pensavam’ sobre todas as coisas... A separação ‘até aqui é Psicologia, a partir dali é Economia’ é um capricho dos últimos 2 séculos. Essa divisão cria uma zona cinzenta.
Na minha pós de economia, já tinha me interessado pela (única) matéria sobre Economia Comportamental. Esse ramo da economia não é muito bem visto pelo mainstream, talvez porque trabalhem com menos números...
Mais tarde, tive a oportunidade de ler “Psicologia Econômica: Estudo do comportamento econômico e da tomada de decisão”, da Dra Vera Rita Mello Ferreira, que faz um grande apanhado de tudo que já foi escrito nessa linha. Muito bom.
Com a minha nova vida profissional, fui atrás de algum curso de educação continuada (um bom hábito semestral que tenho desde que terminei a pós) que falasse sobre o processo de tomada de decisão, e fui parar no COGEAE/PUC com o curso “Psicanálise e Psicologia Econômica”, com a professora e doutora Vera Rita. (Ela está indo para a FIPECAFI. Aconselho fortemente!). Procurando algo sobre tomada de decisão econômica, ganhei de brinde uma palhinha de Psicanálise. Foi um excelente curso.

Acho que o interessante no aprendizado da Psicologia é a apresentação de alguns conceitos que fazem um grande ‘clique’ na hora que se ouve pela primeira vez. Depois, ao tentar se colocar num papel ou contar para um amigo, o tal conceito chega a ser bobo, de tão óbvio.
(Lógico que foram apenas algumas pinceladas, não podendo ser comparadas a qualquer disciplina meia-boca de um curso de graduação.)

Foi o que aconteceu comigo quando a Vera falou sobre a eterna sensação de ‘falta, ausência, incompletude’. Deu um ‘clique’, me percebi. A vida é isso.
A vida é saber lidar com a frustração.
O que te deixa triste pode até ser maior do que o que me deixa triste, mas se você tem uma estrutura melhor para lidar com essa frustração, você será mais feliz. Simples, né? Bobo até.
Mas nossa vida é isso. Quando estou com um problema no trabalho, nem me lembro dos rolos amorosos ou da minha família. “Se eu não estivesse com esse problema, seria feliz”, pensamos. Resolvo o pepino do trabalho e, no mesmo momento, parece que o clima com a família ficou mais tenso... Sempre falta alguma coisa. Não é raro ver nos sites de relacionamento (Orkut, Facebook, ...) pessoas que se definem “com medo, de tão felizes”. Excluindo as que escreveram isso apenas para se enganarem com uma falsa felicidade, as que estão realmente felizes sabem que daqui a pouco alguma coisa de ruim deve acontecer...
Kant falou em 1789: “Dê a um homem tudo o que ele deseja, e ele, apesar disso, naquele mesmo momento, sentirá que esse tudo não é tudo”.
Acho que os psicólogos chamam tudo isso de ‘impulso de vida’, aquela força que nos faz desejar acordar todo dia.
O ‘clique’ na aula falada deve ter sido melhor do que nesse texto...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Live together. Die alone.

Quero discorrer sobre a natureza solitária das nossas tristezas, desafios, frustrações. Por mais que tenhamos família e amigos presentes, ‘meu’ problema é só ‘meu’.
“As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.” – Oscar Wilde.
Se eu tenho uma amiga que está chateada no trabalho, posso ouvir, conversar, dar meu ombro, mas ela vai ter que se virar sozinha. Se tenho um amigo que passa por um grande trauma amoroso, posso estar ao lado o tempo todo, mas ele vai ter que se superar por si só. Não adianta eu sofrer um pouco, para que ele sofra menos... Não é 'transferível'...
Fiz essa introdução para falar do meu avô.
Seu Walter completou 79 anos no último domingo. Tive o prazer de passar o dia ao lado dele. Fumante desde adolescente, meu avô tem sérias dificuldades para respirar. A capacidade pulmonar é ínfima; muito catarro e tosse o tempo todo, parecendo que mais alvéolos estão sendo eliminados. Triste. Sempre muito ativo, há alguns meses está 'condenado' ao sofá e à cama, com rápidas passagens pelo banheiro e pela mesa da cozinha para pouco comer. Nos últimos 2 anos, passou por constantes internações e depende do balão de oxigênio para dormir. Vou parar com a descrição...
Nesses 2 anos, toda vez que íamos visitá-los em Minas (a família do meu pai é de lá), despedíamo-nos com receio de que fosse a última vez. A possibilidade da morte foi ficando cada vez maior, mais presente. Sempre rezei para que ele viva enquanto queira e que queira por muito tempo. Mas ficava triste, óbvio.
Nesse último final de semana, foi um pouco diferente. Senti que meu avô está mais triste, mais solitário. Muito católico, sempre acompanhado da minha avó – mais católica, impossível – percebi que meu avô está sentindo a morte por perto e fica com receio do que vai acontecer de verdade... Tive a sorte de ter pouco contato com mortes, mas tenho a sensação de que não é mais tão comum 'morrer aos poucos'.
Meu avô sempre esteve cercado de muita gente: muitos irmãos, muitos filhos, muitos netos, muitos clientes,... Mas está tendo que enfrentar 'essa fase' sozinho... Lógico: está cercado de cuidados, medicações, carinho. Mas o desafio é só dele.
Como já faz tempo que ele está fraquinho, a imagem do meu avô superativo está ficando cada vez mais turva, mais distante. E é triste. A verdade é que meu avô não vive mais; apenas sobrevive. Fez o que tinha que fazer, cumpriu a missão, combateu o bom combate.
E eu, de minha parte, o 'liberei'. Seu Walter me ensinou sobre dois dos principais pilares da vida: FAMÍLIA e TRABALHO. Foi um exemplo nesses quesitos. E bem sucedido ao transmiti-los às gerações seguintes.
Sei que ele não vai ler este post. Mas logo vai saber não só o que eu escrevo, mas também como penso e ajo. E estará me protegendo.
Vô, obrigado. Fique em paz...