Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de novembro de 2015

O presente de um amigo

Numa homilia recente, com o tema de alguma coisa triste, o padre falou sobre a “necessidade de sentirmos a dor”, um instrumento pra facilitar a empatia com os irmãos (e “pra simular a experiência de Cristo”).


Eu não tinha tido competência pra colocar assim em palavras, mas era mais ou menos isso que eu sentia quanto estava com o Kiko: de alguma maneira, ele tinha “se sacrificado” – limitado a poucos movimentos de alguns dedos e pescoço – para nos ensinar. A experiência com o Kiko era sempre assim: ele me passava muito mais coisa boa do que eu conseguia dar pra ele.



Kiko morreu há 2 anos, meio de repente. Mas não parou de nos dar lições. Ontem, por meio de um trabalho brilhante dos seus pais, Sofia e Edi, e da sua prima, Helena, recebi(emos) um dos melhores presentes da vida: 2 livros com os textos do Kiko.


A mensagem de esperança não poderia vir (a mim) em melhor hora. Foi um ano de perdas dolorosas e com muita angústia no meu coração. Uma amigona em comum, a Ana, deve dizer que é sincronicidade. Egocêntrico, vou concordar.


Kiko, sua passagem em minha vida foi e é uma dádiva. Obrigado pelo tempo juntos e por suas palavras, que agora, mais que nunca, estão eternizadas.


Foto no Facebook do seu pai, Eduardo Haberland

PS: Fale aí com o Homem pra dar uma atenção especial ao nosso SPFC, que a coisa por aqui tá feia...  ;)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Angústia moderna


Meu primeiro contato com Alain de Botton foi através desse excelente vídeo no TED, sobre uma nova concepção de sucesso. Depois, assisti a uma palestra dele no Fronteiras do Pensamento aqui em São Paulo, em que ele defende o legado e o exemplo das religiões mesmo para quem é ateu (como ele): forma de educar através de repetição e parábolas, artes (arquitetura, música), senso de comunidade, busca pelo conhecimento. Muito boa também. Aí, ele criou a tal School of Life, que me parece uma grande embromação.

Mas a ideia desse post é resenhar seu livro ‘Status Anxiety’, traduzido porcamente para ‘Desejo de Status’. Digo ‘porcamente’ porque a tônica do livro é a angústia mesmo, não o ‘desejo’. Gostei MUITO do livro (apesar de ser um pouco repetitivo...); acho que vai bem aos pontos do mal estar incessante dos ‘tempos  modernos’...



Alain de Botton divide o livro em 2 partes. Na primeira, ele reflete sobre 5 eventuais causas dessa angústia. Na 2ª parte, fala sobre 5 eventuais saídas, escapes para ela.

CAUSAS

1. (Falta de) Amor
Ele argumenta que, não raramente, o desejo de subir na hierarquia se deve não às conquistas em si, mas ao amor que recebemos em consequência do alto status; ou seja, dinheiro, fama, influência são como ‘tokens’ (fichas, meios) para ser amado. Nossa autopercepção, nossa própria identidade depende demais do que os outros pensam sobre nós. Procuramos sinais de respeito do mundo para nos tolerarmos. Se dão risadas das nossas piadas, consideramo-nos engraçados; se nos elogiam, consideramo-nos merecedores.

2. Expectativas
O autor lembra que a grandíssima maioria da população medieval, após uma vida inteira de trabalho árduo, possuía apenas 1 ou 2 vacas. O progresso material mudou completamente essas expectativas. Nós não conseguimos perceber como somos prósperos em termos históricos. Consideramo-nos bem sucedidos apenas em comparação com quem crescemos, com quem estudamos, com nossos amigos.
Não há sucesso mais intolerável (intragável, doído) do que o daqueles incrivelmente parecidos conosco. Daí, segue que, quanto maior o número de pessoas com as quais nos consideramos ‘iguais’, maior a possibilidade de sentirmos inveja .

"Quando a desigualdade é regra da sociedade, as grandes diferenças não chamam atenção.
Mas quando tudo fica mais ou menos no mesmo nível, a menor variação é notada."
Tocqueville

Hoje, uma leve queda nas condições de provação aumenta desproporcionalmente o medo da privação total. As pessoas não aceitam dar um passo pra trás.
Daí, as sociedades modernas criaram uma espécie de defesa, uma notável capacidade de achar que nada, nunca é suficiente...
Nós poderíamos estar felizes o suficiente com pouco, se pouco fosse o que queríamos; e poderemos nos sentir miseráveis com muito, se formos inclinados a desejar tudo. O preço que pagamos por ter expectativas tão maiores que nossos ancestrais é justamente uma angústia perpétua por estarmos longe de ser tudo aquilo que ‘poderíamos ser’.

"Há dois modos de tornar um homem mais rico: dar-lhe mais dinheiro ou ceifar seus desejos."
Rousseau

3. Meritocracia
Aqui, o filósofo explicita mudanças em 3 histórias do imaginário popular ao longo do tempo.
A primeira sobre a utilidade dos pobres. Por milênios, a plebe era vista com respeito por ser a trabalhadora, a ‘criadora’ de riqueza, até pela interdependência das classes (clero, nobreza e plebe). Por influência de pensadores modernos, essa lógica se inverteu. Hoje, os ricos, mesmo através de orgulho ou luxúria, são os que possibilitam a criação de riqueza e sua divisão. Antigos vícios passam a ser vistos como virtudes.

A segunda história que mudou é com relação à conotação moral da pobreza. Antes, até pela forte influência do Cristianismo (pelo qual, o verdadeiro ‘bem’ é o reconhecimento da dependência de Deus, independentemente de dinheiro), ser pobre não era um ‘ônus moral’. Agora, concorrendo com os antigos princípios hereditários e igualitários, aparece a MERITOCRACIA.
Não é mais possível argumentar que status seja resultado inteiramente de um sistema rígido. A crença de uma crescente conexão confiável entre o mérito e o sucesso no mundo dá ao dinheiro uma nova qualidade moral. A consequência desse pensamento (que, aliás, é um dos principais pontos lá da 1ª palestra de Alain de Botton no TED) é que, assim como os bem-sucedidos merecem seu sucesso, necessariamente os fracassados MERECEM seu fracasso. O baixo status passa a ser ‘MERECIDO’.

A 3ª história fala sobre ‘erros’. Antes, por influência de Marx & cia, os ricos eram considerados necessariamente corruptos, pecadores, ‘errados’. Enriqueceram porque roubaram os pobres. Agora, os estúpidos são os pobres, incapazes de se tornarem bem sucedidos pelos próprios esforços. (Pessoalmente eu não concordo que houve essa mudança). Os pobres deixam de ser AZARADOS e passam a ser FRACASSADOS (losers).

4. Esnobismo
Vivemos em um mundo diametralmente oposto ao amor incondicional de mãe, isto é, um mundo esnobe, com atenção condicional e dependente do que fazemos ou conquistamos.
O reforço do prestígio de ‘famosos’ necessariamente banaliza a vida dos ordinários.

"Se elas estão loucas para nos conhecer, não deve nos interessar conhecê-las. As únicas pessoas que nos interessam são as que não se interessam por nós."
Cartoon em 1892.

O problema é que não gostar das pessoas quase nunca é motivo suficiente para não desejar que elas gostem da gente.

5. Dependência
Nas sociedades tradicionais, o alto status podia ser difícil de ser alcançado, mas também era muito difícil perdê-lo. Hoje, há muito mais imprevisibilidade (ou pela menos, temos mais percepção dela) para manutenção do status.
Dependemos do talento, da sorte, de um empregador, do lucro desse empregador, da economia global,...
O autor lembra que não faz muito tempo que as pessoas deixaram de trabalhar por conta própria (em suas fazendas ou negócios de família) para barganhar sua inteligência por um salário. Essas ‘novas’ relações trabalhistas (necessidade de ‘puxar saco’ de colegas e superiores, tensão por promoção própria e alheia, corte de funcionários) se tornam uma das mais opressivas angústias.
Abre-se espaço para Marx, cujas teorias de valor capturam esse ‘conflito’ entre empregado e empregador: há uma ÚNICA diferença entre o trabalho e outras commodities; o trabalhador sente dor.

SOLUÇÕES

1. Filosofia
Embora a filosofia entenda que a angústia possa ser 'útil', aqui o autor apresenta o ceticismo em relação à inteligência dos outros, o que chama de 'misantropia inteligente'.
Devemos perceber que a opinião da maioria das pessoas sobre a maioria dos assuntos é extraordinariamente confusa e errada: 'a opinião pública é a pior das opiniões' (Chamfort).
Antes de buscar a aprovação de alguém, devemos nos questionar se as opiniões dessa pessoa merecem ser ouvidas.

"Um músico deve se sentir grato pelo aplauso de uma plateia se soubesse que toda ela, sem exceção, é surda?"
Schopenhauer

2. Arte
A arte é a antítese do moralismo; é marcada pelo desejo de remover o erro humano, limpar a confusão humana, diminuir a miséria humana.
Através da tragédia ('da alegria para miséria', erro de julgamento, inversão de sorte), sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou. Evidencia nossa (falsa) tendência a achar que estamos com o controle consciente do nosso destino. Num mundo imbuído com as lições da arte trágica, as conseqüências das nossas falhas seriam menos pesadas.
Já a aparente inocência das comédias permite passar mensagens que seriam 'perigosas' diretamente. Uma piada engraçada é aquela que cria situações ou sentimentos que causam embaraço ou vergonha no nosso dia-a-dia; jogam luz sobre as vulnerabilidades que costumamos deixar nas sombras.

3. Política
Toda sociedade atribui uma alta estima a um certo grupo (enquanto condena ou ignora outros) baseado em habilidades, origem, temperamento, força física, cor da pele, gênero, religião,... Longe de ser permanente ou universal, as 'qualidades' em um local ou era podem ser irrelevantes ou mesmo indesejáveis em outros. Os valores de status foram e serão objetos de mudanças: esse processo é chamado 'política'. Para tentar mudar, usam-se armas, protestos ou livros.
As 'ideias dominantes' de qualquer época são sempre as ideias da 'classe dominante' e é difícil manter essa relatividade em mente. Paradoxalmente, se essas ideias forem percebidas como 'impostas forçosamente', elas não serão mais dominantes. Daí, a necessidade de ser perguntar de forma autônoma: 'Deve ser assim?'.
Essa percepção pode diminuir nossa sensação de perseguição, passividade e confusão a que estamos sujeitos.

4. Religião
Nós podemos superar o sentimento de ‘desimportância’ não nos fazendo mais importantes, mas reconhecendo a falta de importância de qualquer um (e de todos) na Terra, especialmente diante de uma força muito maior (infinitude, eternidade ou, mais comumente, ‘Deus’).
Memento mori: a ideia da morte reorienta nossas prioridades, afastando-se do mundano, rumo ao espiritual. Passa a ideia de certa 'igualdade': não importa se com alto ou baixo status, todos temos o mesmo destino, o pó.
Achei interessante a passagem de Xerxes (de Herodotus): após grande conquista, o imperador começa a chorar ao perceber que, em um período de 100 anos, todos seus bravos soldados estariam mortos.
Ruínas (um símbolo da infinitude do tempo) e paisagens (símbolo da infinitude do espaço) ajudam nessa tarefa de evidenciar nossa insignificância.
Outro importante auxílio das religiões é o senso de comunidade. No mundo atual, ser ‘qualquer um’ é medíocre, conformista, chato, suburbano; o objetivo é se distinguir da massa. No entanto, pelos ensinamentos de Cristo, por exemplo, ser igual aos outros é uma das principais virtudes do ser humano. Ensina-nos a olhar além das nossas diferenças superficiais, destacando que possuímos basicamente as mesmas vulnerabilidades e necessidades. O entendimento cristão é de que existe um status terreno e outro sagrado; redefine sucesso não em termos materiais: pobreza pode coexistir com bondade, ocupação humilde com alma nobre.

5. Boemia
Trata-se de uma crítica à noção 'burguesa' de respeitabilidade. Valoriza-se a 'simplicidade' (ao invés do termo 'pobreza'): não se é um loser, apenas se escolhe gastar energias em outras coisas que não fazer dinheiro.
Os mártires boêmios são aqueles que sacrificaram a segurança de um emprego estável e da estima da sociedade para escrever, pintar, fazer música, viajar ou simplesmente passar tempo com amigos e família.
Boêmios repudiam a noção de sucesso/fracasso porque o mundo é governado por estupidez e preconceito; os bem sucedidos raramente são os melhores ou mais inteligentes, mas sim os que foram mais aptos a responder aos valores falhos dos tempos modernos.

"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão."
Thoreau

Embora não seja perene (o dinheiro acabava!), a boemia valeu para refletir sobre algumas 'verdades', até então inquestionáveis, da burguesia.

A conclusão é que, por menos prazerosas que sejam, é difícil imaginar uma boa vida completamente livre dessas angústias por status, mas podemos 'melhorar a relação' com elas.
Uma solução madura é perceber que status é definido por uma variedade de ‘audiências’ e que podemos escolher livremente 'nosso público', ou seja, existe mais de um modo de ser ‘bem sucedido’ na vida.


sábado, 7 de julho de 2012

APESAR DE...


Sempre fui um cara pessimista; talvez, preocupado. Na origem, quem sabe, isso se deva à tradição judaico-cristã, de zelo presente e preocupação com o futuro. A mudança do mundo corporativo em um banco para a gestão de uma empresa própria me empurrou pra ‘vida de verdade’. Casar com uma psicóloga que trabalha com dependente químico ainda mais. As sujeiras e tristezas do mundo ficaram muito próximas. A seqüência de desilusões políticas foi minando minha pouca esperança restante. No trabalho, clientes querendo dar migué. Funcionários armando o bote pra sacanear. Em conversa de bar, sugiro ações de trânsito que restringiriam veículos privados. Amigos inteligentes refutam de imediato. Fico indignado. Num almoço, amigos que trabalham num grande fundo de investimento contam que os cabeças querem colocar grana em logística e infra-estrutura no Brasil, mas a burocracia impede... Fui dar uma olhada em filosofia, alguns pensadores e logo gostei das idéias niilistas: ‘tudo isso pra quê mesmo?’. Li Nietzsche e sua crítica ao idealismo. Vi-me em um paradoxo: como ser simpático ao niilismo e ser católico ao mesmo tempo? Como não ver sentido na vida e ter (que ter) esperança num mundo melhor? Conversei com minha terapeuta, com o padre, com um vereador e até com um professor-filósofo. Fui apresentado a Soren Kierkegaard, um raro existencialista, angustiado, que se manteve cristão. Ainda não o conheço direito. Com o vereador, quis mostrar idéias de trânsito – também tenho estudado –, disparado o item que mais me incomoda numa cidade grande. Não entro na crítica fácil a ‘esses políticos malditos...’. A política somos nós. A Câmara é um conjunto aleatório de quaisquer 513 brasileiros. O cara me recebeu bem, mas vi que a boa vontade dele não bastava. O buraco é bem embaixo. Nos sermões do padre, o convite à ação diária. Na conversa pessoal, ele concordou comigo sobre o momento difícil da humanidade, de transição, com pouca luz no túnel. Relembrou a ideia de buscar portos seguros, instituições, em especial, a família. Ah, minha família... Tive um momento de paz ao perceber que nela poderei ficar bem, sem precisar pensar. Pensando na continuidade, começamos a pensar em filhos. Mas aí lembrei de Brás Cubas: ‘Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.’ E aí, volta a dúvida: ‘Como colocar um filho nesse mundo? Coitado...’ E a terapeuta dando liga, sugerindo que eu me cobre menos. Não sou fã do Brasil. Não gosto do ‘jeitinho’ brasileiro, tão encarnado no nosso dia-a-dia, a lei de Gerson. O brasileiro não é solícito; é uma auto-ilusão. Na verdade, chego a pensar que é diametralmente oposto a isso. Por que não largar o osso? Não foram poucas as vezes que me colocaram o ‘ame-o ou deixe-o’. Até eu mesmo me perguntei. Visitei um amigo no Canadá, tenho amigos nos EUA, na Alemanha, Austrália, na África do Sul, Cingapura,... Todos com seus bens e seus poréns. A grama do vizinho é sempre mais verde, é difícil ser ‘pra sempre’ um ‘imigrante’. No fundo, todo cético-ao-extremo vivo, todo niilista vivo é um incoerente; deveria se matar. Prefiro, então, a incoerência. Continuarei vivendo. Minha esposa, talvez quem melhor me conheça, não me considera mal-humorado, apesar de tudo isso. Ranzinza mas bem-humorado. Acordo sorrindo, vou dormir sorrindo. Tenho amigos com os quais eu sorrio. Vivo (ou sobrevivo) apesar de tudo. Talvez seja esse o princípio para ultrapassar o niilismo, se tornar o tal Übermensch. Ou talvez seja só parar de pensar. Sorrio apesar de tudo.

UPDATE: No exato dia em que escrevo esse texto, leio à noite em 'Ecce Homo' de Nietzsche:
A dor não aparece como objeção contra a vida: "se já não tens alegria alguma para me dar, bem!, tens ainda a tua dor..." (...) de tal modo que a preamar me impossibilitava o sono durante a noite, proporcionava-me quase em tudo o contrário do que era de desejar. Apesar de tudo e quase como demonstração da minha máxima de que tudo o que é decisivo acontece "apesar de". 

quarta-feira, 3 de março de 2010

Era uma quinta qualquer...

Quinta-feira passada, uma pessoa muito próxima - extremamente do bem - estava indo para o trabalho, 6h45 da matina, quando atropelou um senhor que atravessava uma via rápida em local proibido. O senhor faleceu no sábado.
Quinta-feira passada, a mãe de uma outra pessoa próxima foi atropelada e também morreu.
Dois lados da moeda e, sinceramente, não sei qual é o mais difícil.
Os fatos, obviamente, mexeram comigo. Duas pessoas 'normais', com a labuta e os problemas do dia-a-dia, mas com uma vida relativamente tranquila, estável, 'sob controle'... Aí, vem a vida e muda tudo... Sob controle?
Era só uma quinta qualquer e as vidas dessas pessoas tomaram outros rumos...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Frases que marcam

Parênteses para o meu avô.

"Não morreste! Foste à frente de nós preparar um lugar, arrumar toda a casa para que o dia do reencontro tenha sabor de infinito" - lembrança das homenagens póstumas.

"A morte de um ente querido nos interpela: nós, vivos, estamos preparados para morrer e gozar a felicidade plena?" - Padre Celso, na missa do primeiro sufrágio.

sábado, 15 de agosto de 2009

Vida que vai, vida que vem

Sexta passada, recebi um SMS da minha mãe: "Iupi! Priminha nova no pedaço. Mãe e filha estão bem. Vida que vai, vida que vem". Fiquei tocado. Pelos dois.
Perdi meu avô 3 dias depois.
Maria Clara, priminha querida, seja bem vinda.
Seu Walter, descanse e olhe por nós.

If I Could
Jack Johnson

A brand new baby was born yesterday, just in time
Papa cried, baby cried, said your tears are like mine
I heard some words from a friend on the phone, didn’t sound so good
The doctor gave him two weeks to live
I’d give him more if I could

You know that I would now
If only I could

Down the middle drops one more grain of sand
They say that new life makes losing life easier to understand
Words are kind they help ease the mind, I’ll miss my old friend
And though you’ve got to go we’ll keep a piece of your soul
One goes out, one comes in

You know that I would now
If only I could

Tradução aqui.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ele está chegando

Imagine que você está à beira mar e vê um navio partindo.
Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando, e afastando, cada vez mais longe.
Até que, finalmente, parece ser um ponto no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram.
E você diz: - "Pronto, ele se foi".
Foi onde? Foi a um lugar que a sua vista não alcança, só isto!
Ele continua tão grande, bonito e importante como era quando estava perto de você.
A dimensão diminuida está só com você, não nele.
E naquele exato momento em que você está dizendo que ele se foi, há outros olhos vendo-o aproximar-se, e outras vozes exclamando em júbilo: "Ele está chegando".

De José Celso de Azevedo Júnior, amigo do meu pai.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Triste é não chorar...

(...)
Sim, nós estamos chorando. Mas não de tristeza.
Triste é não chorar. Triste é não ter com quem chorar, por quem chorar, porque chorar. Triste é ter coração duro para não chorar. Não é o nosso caso.

Vó, fique tranquila. Ele não vai te deixar. A diferença agora é que não precisamos mais falar alto na sua orelha direita. Basta fechar os olhos, falar baixinho... Ele estará nos ouvindo.

(...)
É hora de seguir seus ensinamentos: manter a família unida e cuidar dos vivos. É hora de cuidar da vista, do coração, do intestino; é hora de parar de fumar...
Ele continua nos olhando, pronto para nos zangar e nos amar...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A vida como ela é

A oportunidade de tocar uma empresa de estacionamento me permitiu saber das notícias que estariam em um 'diário popular' diretamente pela boca dos meus supervisores.
Há pouco tempo, um funcionário faltou 4 dias, sem dar satisfação. Na sexta, quando apareceu, fomos perguntar o que tinha acontecido, se estava tudo bem. A resposta foi categórica: "Sabe o que que é... Comi a mulher de um vizinho e o cara tá querendo me matar. Precisei sumir por uns dias"...
Outro manobrista pediu uma antecipação de R$120. Quisemos saber o motivo e a resposta: "Para uma dentadura inteira". Com 120 reais??
Semana retrasada, um outro foi preso. Pensão. A única coisa que prende no país. Uma dívida de 13 vezes o salário bruto...
Hoje, eu poderia ter ido ao enterro da filha de 11 meses de um funcionário, que não resistiu a uma gripe. Triste.
O problema é quando começamos a nos acostumar, quando o coração fica menos tocado por tudo isso... A vida como ela é.
'Tá suave'...?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Live together. Die alone.

Quero discorrer sobre a natureza solitária das nossas tristezas, desafios, frustrações. Por mais que tenhamos família e amigos presentes, ‘meu’ problema é só ‘meu’.
“As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.” – Oscar Wilde.
Se eu tenho uma amiga que está chateada no trabalho, posso ouvir, conversar, dar meu ombro, mas ela vai ter que se virar sozinha. Se tenho um amigo que passa por um grande trauma amoroso, posso estar ao lado o tempo todo, mas ele vai ter que se superar por si só. Não adianta eu sofrer um pouco, para que ele sofra menos... Não é 'transferível'...
Fiz essa introdução para falar do meu avô.
Seu Walter completou 79 anos no último domingo. Tive o prazer de passar o dia ao lado dele. Fumante desde adolescente, meu avô tem sérias dificuldades para respirar. A capacidade pulmonar é ínfima; muito catarro e tosse o tempo todo, parecendo que mais alvéolos estão sendo eliminados. Triste. Sempre muito ativo, há alguns meses está 'condenado' ao sofá e à cama, com rápidas passagens pelo banheiro e pela mesa da cozinha para pouco comer. Nos últimos 2 anos, passou por constantes internações e depende do balão de oxigênio para dormir. Vou parar com a descrição...
Nesses 2 anos, toda vez que íamos visitá-los em Minas (a família do meu pai é de lá), despedíamo-nos com receio de que fosse a última vez. A possibilidade da morte foi ficando cada vez maior, mais presente. Sempre rezei para que ele viva enquanto queira e que queira por muito tempo. Mas ficava triste, óbvio.
Nesse último final de semana, foi um pouco diferente. Senti que meu avô está mais triste, mais solitário. Muito católico, sempre acompanhado da minha avó – mais católica, impossível – percebi que meu avô está sentindo a morte por perto e fica com receio do que vai acontecer de verdade... Tive a sorte de ter pouco contato com mortes, mas tenho a sensação de que não é mais tão comum 'morrer aos poucos'.
Meu avô sempre esteve cercado de muita gente: muitos irmãos, muitos filhos, muitos netos, muitos clientes,... Mas está tendo que enfrentar 'essa fase' sozinho... Lógico: está cercado de cuidados, medicações, carinho. Mas o desafio é só dele.
Como já faz tempo que ele está fraquinho, a imagem do meu avô superativo está ficando cada vez mais turva, mais distante. E é triste. A verdade é que meu avô não vive mais; apenas sobrevive. Fez o que tinha que fazer, cumpriu a missão, combateu o bom combate.
E eu, de minha parte, o 'liberei'. Seu Walter me ensinou sobre dois dos principais pilares da vida: FAMÍLIA e TRABALHO. Foi um exemplo nesses quesitos. E bem sucedido ao transmiti-los às gerações seguintes.
Sei que ele não vai ler este post. Mas logo vai saber não só o que eu escrevo, mas também como penso e ajo. E estará me protegendo.
Vô, obrigado. Fique em paz...