Mas a ideia desse post é
resenhar seu livro ‘
Status Anxiety’, traduzido porcamente para ‘Desejo de
Status’. Digo ‘porcamente’ porque a tônica do livro é a
angústia mesmo, não o ‘desejo’. Gostei MUITO do livro (apesar de
ser um pouco repetitivo...); acho que vai bem aos pontos do
mal
estar incessante dos ‘tempos modernos’...
Alain de Botton divide o livro em 2 partes. Na primeira, ele reflete sobre 5 eventuais causas dessa angústia. Na 2ª parte, fala sobre 5 eventuais saídas, escapes para ela.
CAUSAS
1. (Falta de) Amor
Ele argumenta que, não raramente, o desejo de subir na hierarquia se deve
não às conquistas em si, mas ao amor que recebemos
em consequência do alto status; ou seja, dinheiro, fama, influência são
como ‘tokens’ (fichas, meios) para ser amado. Nossa autopercepção, nossa
própria identidade depende demais do que os outros pensam sobre nós. Procuramos
sinais de respeito do mundo para nos tolerarmos. Se dão risadas das nossas
piadas, consideramo-nos engraçados; se nos elogiam, consideramo-nos
merecedores.
2. Expectativas
O autor lembra que a grandíssima maioria da população medieval, após uma
vida inteira de trabalho árduo, possuía apenas 1 ou 2 vacas. O progresso
material mudou completamente essas expectativas. Nós não conseguimos perceber como somos
prósperos em termos históricos. Consideramo-nos bem sucedidos apenas em
comparação com quem crescemos, com quem estudamos, com nossos amigos.
Não há sucesso mais intolerável (intragável, doído) do que o daqueles
incrivelmente parecidos conosco. Daí, segue que, quanto maior o número de
pessoas com as quais nos consideramos ‘iguais’, maior a possibilidade de
sentirmos inveja .
"Quando a desigualdade é regra da sociedade, as grandes diferenças não chamam atenção.
Mas quando tudo fica mais ou menos no mesmo nível, a menor variação é notada."
Tocqueville
Hoje, uma leve queda nas condições de provação aumenta desproporcionalmente o medo da privação total. As pessoas não aceitam dar um passo pra trás.
Daí, as sociedades modernas criaram uma espécie de defesa, uma notável capacidade de achar que nada, nunca é suficiente...
Nós poderíamos estar felizes o suficiente com pouco, se pouco fosse o que
queríamos; e poderemos nos sentir miseráveis com muito, se formos inclinados a
desejar tudo. O preço que pagamos por ter expectativas tão maiores que nossos
ancestrais é justamente uma angústia perpétua por estarmos longe de ser tudo
aquilo que ‘poderíamos ser’.
"Há dois modos de tornar um homem mais rico: dar-lhe mais dinheiro ou ceifar seus desejos."
Rousseau
3. Meritocracia
Aqui, o filósofo explicita mudanças em 3 histórias do imaginário popular
ao longo do tempo.
A primeira sobre a utilidade dos pobres. Por milênios, a plebe era vista
com respeito por ser a trabalhadora, a ‘criadora’ de riqueza, até pela
interdependência das classes (clero, nobreza e plebe). Por influência de
pensadores modernos, essa lógica se inverteu. Hoje, os ricos, mesmo através de
orgulho ou luxúria, são os que possibilitam a criação de riqueza e sua
divisão. Antigos vícios passam a ser vistos como virtudes.
A segunda história que mudou é com relação à conotação moral da pobreza.
Antes, até pela forte influência do Cristianismo (pelo qual, o verdadeiro ‘bem’
é o reconhecimento da dependência de Deus, independentemente de dinheiro), ser
pobre não era um ‘ônus moral’. Agora, concorrendo com os antigos princípios
hereditários e igualitários, aparece a MERITOCRACIA.
Não é mais possível
argumentar que status seja resultado inteiramente de um sistema rígido.
A
crença de uma crescente conexão confiável entre o mérito e o sucesso no mundo
dá ao dinheiro uma nova qualidade moral. A consequência desse pensamento (que,
aliás, é um dos principais pontos lá da 1ª palestra de Alain de Botton no TED)
é que,
assim como os bem-sucedidos merecem seu sucesso, necessariamente os
fracassados MERECEM seu fracasso. O baixo status passa a ser ‘MERECIDO’.
A 3ª história fala sobre ‘erros’. Antes, por influência de Marx & cia, os
ricos eram considerados necessariamente corruptos, pecadores, ‘errados’.
Enriqueceram porque roubaram os pobres. Agora, os estúpidos são os pobres,
incapazes de se tornarem bem sucedidos pelos próprios esforços. (Pessoalmente
eu não concordo que houve essa mudança).
Os
pobres deixam de ser AZARADOS e passam a ser FRACASSADOS (losers).
4. Esnobismo
Vivemos em um mundo diametralmente oposto ao amor incondicional de mãe,
isto é, um mundo esnobe, com atenção condicional e dependente do que fazemos ou
conquistamos.
O reforço do prestígio de ‘famosos’ necessariamente banaliza a vida dos
ordinários.
"Se elas estão loucas para nos conhecer, não deve nos interessar conhecê-las. As únicas pessoas que nos interessam são as que não se interessam por nós."
Cartoon em 1892.
O problema é que não gostar das pessoas quase nunca é motivo suficiente para não desejar que elas gostem da gente.
5. Dependência
Nas sociedades tradicionais, o alto status podia ser difícil de ser
alcançado, mas também era muito difícil perdê-lo. Hoje, há muito mais
imprevisibilidade (ou pela menos, temos mais percepção dela) para manutenção do
status.
Dependemos do talento, da sorte, de um empregador, do lucro desse
empregador, da economia global,...
O autor lembra que não faz muito tempo que as pessoas deixaram de
trabalhar por conta própria (em suas fazendas ou negócios de família) para
barganhar sua inteligência por um salário. Essas ‘novas’ relações trabalhistas
(necessidade de ‘puxar saco’ de colegas e superiores, tensão por promoção
própria e alheia, corte de funcionários) se tornam uma das mais opressivas
angústias.
Abre-se espaço para Marx, cujas teorias de valor capturam esse ‘conflito’
entre empregado e empregador: há uma ÚNICA diferença entre o trabalho e outras
commodities; o trabalhador sente dor.
SOLUÇÕES
1. Filosofia
Embora a filosofia entenda que a angústia possa ser 'útil', aqui o autor
apresenta o ceticismo em relação à inteligência dos outros, o que chama de
'misantropia inteligente'.
Devemos perceber que a opinião da maioria das pessoas sobre a maioria dos
assuntos é extraordinariamente confusa e errada: 'a opinião pública é a pior
das opiniões' (Chamfort).
Antes de buscar a aprovação de alguém, devemos nos questionar se as
opiniões dessa pessoa merecem ser ouvidas.
"Um músico deve se sentir grato pelo aplauso de uma plateia se soubesse que toda ela, sem exceção, é surda?"
Schopenhauer
2. Arte
A arte é a antítese do moralismo; é marcada pelo desejo de remover o erro
humano, limpar a confusão humana, diminuir a miséria humana.
Através da tragédia ('da alegria para miséria', erro de julgamento,
inversão de sorte), sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação
com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar
o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou. Evidencia nossa (falsa)
tendência a achar que estamos com o controle consciente do nosso destino. Num
mundo imbuído com as lições da arte trágica, as conseqüências das nossas falhas
seriam menos pesadas.
Já a aparente inocência das comédias permite passar mensagens que seriam
'perigosas' diretamente. Uma piada engraçada é aquela que cria situações ou
sentimentos que causam embaraço ou vergonha no nosso dia-a-dia; jogam luz sobre
as vulnerabilidades que costumamos deixar nas sombras.
3. Política
Toda sociedade atribui uma alta estima a um certo grupo (enquanto condena
ou ignora outros) baseado em habilidades, origem, temperamento, força física,
cor da pele, gênero, religião,... Longe de ser permanente ou universal, as
'qualidades' em um local ou era podem ser irrelevantes ou mesmo indesejáveis em outros. Os valores de
status foram e serão objetos de mudanças: esse processo é chamado 'política'.
Para tentar mudar, usam-se armas, protestos ou livros.
As 'ideias dominantes' de qualquer época são sempre as
ideias da 'classe dominante' e é difícil manter essa relatividade em mente. Paradoxalmente,
se essas ideias forem percebidas como 'impostas forçosamente', elas não serão
mais dominantes. Daí, a necessidade de ser perguntar de forma autônoma: 'Deve ser assim?'.
Essa percepção pode diminuir nossa sensação de perseguição, passividade e
confusão a que estamos sujeitos.
4. Religião
Nós podemos superar o sentimento de ‘desimportância’ não nos fazendo mais
importantes, mas reconhecendo a falta de importância de qualquer um (e de todos)
na Terra, especialmente diante de uma força muito maior (infinitude, eternidade
ou, mais comumente, ‘Deus’).
Memento mori: a ideia da morte reorienta nossas prioridades, afastando-se
do mundano, rumo ao espiritual. Passa a ideia de certa 'igualdade': não importa
se com alto ou baixo status, todos temos o mesmo destino, o pó.
Achei interessante a passagem de Xerxes (de Herodotus): após grande
conquista, o imperador começa a chorar ao perceber que, em um período de 100
anos, todos seus bravos soldados estariam mortos.
Ruínas (um símbolo da infinitude do tempo) e paisagens (símbolo da
infinitude do espaço) ajudam nessa tarefa de evidenciar nossa insignificância.
Outro importante auxílio das religiões é o senso de comunidade. No mundo
atual, ser ‘qualquer um’ é medíocre, conformista, chato, suburbano; o objetivo
é se distinguir da massa. No entanto, pelos ensinamentos de Cristo, por
exemplo, ser igual aos outros é uma das principais virtudes do ser humano. Ensina-nos a olhar
além das nossas diferenças superficiais, destacando que possuímos basicamente
as mesmas vulnerabilidades e necessidades. O entendimento cristão é de que
existe um status terreno e outro sagrado; redefine sucesso não em termos
materiais: pobreza pode coexistir com bondade, ocupação humilde com alma nobre.
5. Boemia
Trata-se de uma crítica à noção 'burguesa' de respeitabilidade.
Valoriza-se a 'simplicidade' (ao invés do termo 'pobreza'): não se é um loser,
apenas se escolhe gastar energias em outras coisas que não fazer dinheiro.
Os mártires boêmios são aqueles que sacrificaram a segurança de um
emprego estável e da estima da sociedade para escrever, pintar, fazer música, viajar
ou simplesmente passar tempo com amigos e família.
Boêmios repudiam a noção de sucesso/fracasso porque o mundo é governado
por estupidez e preconceito; os bem sucedidos raramente são os melhores ou mais
inteligentes, mas sim os que foram mais aptos a responder aos valores falhos
dos tempos modernos.
"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão."
Thoreau
Embora não seja perene (o dinheiro acabava!), a boemia valeu para refletir sobre
algumas 'verdades', até então inquestionáveis, da burguesia.
A
conclusão é que, por menos prazerosas que sejam, é difícil imaginar uma boa
vida completamente livre dessas angústias por status, mas podemos 'melhorar a
relação' com elas.
Uma
solução madura é perceber que status é definido por uma variedade de
‘audiências’ e que podemos escolher livremente 'nosso público', ou seja, existe
mais de um modo de ser ‘bem sucedido’ na vida.