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terça-feira, 13 de outubro de 2015

A falácia da "linha de partida"

O Marxismo e sua "igualdade na linha de chegada" faliram. Só no Brasil e em mais uns 2 ou 3 países no mundo, isso ainda é levado a sério. Nenhum ser pensante ainda desconsidera a necessidade e a virtude do esforço.

A partir dessa decadência, a alternativa mais decente que surge à esquerda é a busca da igualdade na "linha de partida", embasada pela "Teoria de Justiça" de John Rawls, muito influenciado por Immanuel Kant. Grosso modo, são os social-democratas.
A ideia é cativante: como ser contra a "igualdade de oportunidades"? Pois bem, a realidade o é.

Normalmente associamos a desigualdade na linha de partida com desigualdade financeira. Entre outros, Michael Sandel, em seu "Justiça - O que é fazer a coisa certa?", expõe que existe uma outra grande desigualdade na partida: o talento nato. Ele usa o clássico exemplo de Michael Jordan: como "igualar" a linha de partida do Jordan com um outro moleque qualquer que queira jogar basquete profissional, por exemplo? O raciocínio leva à distopia de Harrison Bergeron (filme aqui): um gago no Jornal Nacional, uma bailarina com uma bola de chumbo no pé, um gênio com um headfone fazendo um barulho alto e chato para evitar que pense... Todos igualados na mediocridade.
  
O erro no argumento de exigir que todos "larguem do mesmo ponto de partida" é a comparação com a raia ao lado. A vida não é uma corrida de 100m; é uma maratona. A vitória não é chegar em primeiro; é apenas chegar. Ou nem isso; talvez seja apenas correr. E com isso não estou "desmerecendo a meritocracia". É necessário um baita esforço para (simplesmente) chegar. E será mais belo ainda se você conseguir entregar o bastão pra próxima geração num lugar à frente do que aquele que você recebeu, INDEPENDENTEMENTE da raia ao lado, numa corrida sem fim.

Nesse ponto do argumento, sem prejuízo da argumentação para ateus, permito-me uma passagem pelo Cristianismo (em especial, Cristianismo Puro e Simples, de C S Lewis): a quem muito é dado, muito será exigido. Um analfabeto que consegue alfabetizar seus filhos talvez tenha avançado muito mais na maratona do que um ricaço que vira professor e alfabetiza centenas de alunos. Cada um com seu talento, cada um com sua corrida.

O problema de querer igualdade na linha de partida é que a natureza simplesmente não é assim. Pode chamar de acaso, se assim preferir (eu chamo). Você pode até xingá-lo, mas não pode negá-lo. Nem culpar os sortudos por sê-los.

O maior inimigo do esquerdismo é a realidade.

sábado, 7 de julho de 2012

APESAR DE...


Sempre fui um cara pessimista; talvez, preocupado. Na origem, quem sabe, isso se deva à tradição judaico-cristã, de zelo presente e preocupação com o futuro. A mudança do mundo corporativo em um banco para a gestão de uma empresa própria me empurrou pra ‘vida de verdade’. Casar com uma psicóloga que trabalha com dependente químico ainda mais. As sujeiras e tristezas do mundo ficaram muito próximas. A seqüência de desilusões políticas foi minando minha pouca esperança restante. No trabalho, clientes querendo dar migué. Funcionários armando o bote pra sacanear. Em conversa de bar, sugiro ações de trânsito que restringiriam veículos privados. Amigos inteligentes refutam de imediato. Fico indignado. Num almoço, amigos que trabalham num grande fundo de investimento contam que os cabeças querem colocar grana em logística e infra-estrutura no Brasil, mas a burocracia impede... Fui dar uma olhada em filosofia, alguns pensadores e logo gostei das idéias niilistas: ‘tudo isso pra quê mesmo?’. Li Nietzsche e sua crítica ao idealismo. Vi-me em um paradoxo: como ser simpático ao niilismo e ser católico ao mesmo tempo? Como não ver sentido na vida e ter (que ter) esperança num mundo melhor? Conversei com minha terapeuta, com o padre, com um vereador e até com um professor-filósofo. Fui apresentado a Soren Kierkegaard, um raro existencialista, angustiado, que se manteve cristão. Ainda não o conheço direito. Com o vereador, quis mostrar idéias de trânsito – também tenho estudado –, disparado o item que mais me incomoda numa cidade grande. Não entro na crítica fácil a ‘esses políticos malditos...’. A política somos nós. A Câmara é um conjunto aleatório de quaisquer 513 brasileiros. O cara me recebeu bem, mas vi que a boa vontade dele não bastava. O buraco é bem embaixo. Nos sermões do padre, o convite à ação diária. Na conversa pessoal, ele concordou comigo sobre o momento difícil da humanidade, de transição, com pouca luz no túnel. Relembrou a ideia de buscar portos seguros, instituições, em especial, a família. Ah, minha família... Tive um momento de paz ao perceber que nela poderei ficar bem, sem precisar pensar. Pensando na continuidade, começamos a pensar em filhos. Mas aí lembrei de Brás Cubas: ‘Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.’ E aí, volta a dúvida: ‘Como colocar um filho nesse mundo? Coitado...’ E a terapeuta dando liga, sugerindo que eu me cobre menos. Não sou fã do Brasil. Não gosto do ‘jeitinho’ brasileiro, tão encarnado no nosso dia-a-dia, a lei de Gerson. O brasileiro não é solícito; é uma auto-ilusão. Na verdade, chego a pensar que é diametralmente oposto a isso. Por que não largar o osso? Não foram poucas as vezes que me colocaram o ‘ame-o ou deixe-o’. Até eu mesmo me perguntei. Visitei um amigo no Canadá, tenho amigos nos EUA, na Alemanha, Austrália, na África do Sul, Cingapura,... Todos com seus bens e seus poréns. A grama do vizinho é sempre mais verde, é difícil ser ‘pra sempre’ um ‘imigrante’. No fundo, todo cético-ao-extremo vivo, todo niilista vivo é um incoerente; deveria se matar. Prefiro, então, a incoerência. Continuarei vivendo. Minha esposa, talvez quem melhor me conheça, não me considera mal-humorado, apesar de tudo isso. Ranzinza mas bem-humorado. Acordo sorrindo, vou dormir sorrindo. Tenho amigos com os quais eu sorrio. Vivo (ou sobrevivo) apesar de tudo. Talvez seja esse o princípio para ultrapassar o niilismo, se tornar o tal Übermensch. Ou talvez seja só parar de pensar. Sorrio apesar de tudo.

UPDATE: No exato dia em que escrevo esse texto, leio à noite em 'Ecce Homo' de Nietzsche:
A dor não aparece como objeção contra a vida: "se já não tens alegria alguma para me dar, bem!, tens ainda a tua dor..." (...) de tal modo que a preamar me impossibilitava o sono durante a noite, proporcionava-me quase em tudo o contrário do que era de desejar. Apesar de tudo e quase como demonstração da minha máxima de que tudo o que é decisivo acontece "apesar de". 

quinta-feira, 31 de março de 2011

Burgueses boêmios

"Bubos no Paraíso, a nova classe alta e como chegou lá" foi uma grata surpresa indicada pela amiga Tati. O livro faz uma análise crítica, bem humorada e irônica sobre a atual classe alta.
Passeando sobre temas como consumo, prazer, vida empresarial, espiritual e política, o autor se inclui na classe, tornando a tirada mais sutil. Ao longo do livro, identifiquei vários traços de muita gente ao meu redor, incluindo - lógico - eu mesmo...
Sem querer estragar o prazer da leitura, quis repassar aqui alguns trechos, tão espetaculares.

Em essência, a nova classe alta é uma CONCILIADORA de conceitos até então quase diametralmente opostos. O neologismo "bubo" vem de burgueses boêmios. Historicamente conflitantes, burguesia e boemia se encontram na atual classe alta: desejosa de grana e lazer, de ortodoxia e flexibilidade.

São pessoas que querem “mostrar - e não para si mesmos - que embora tenham chegado ao topo da escala não se tornaram todas as coisas que ainda professam desprezar.(...) Que navegam as águas rasas entre sua riqueza e o respeito próprio. Que conciliam seu sucesso com espiritualidade, seu status de elite com ideais igualitários (...). Portam adesivos 'Abaixo a autoridade' nos carros, mas dirigem empresas com 200 subordinados. São ricos mas contra o materialismo. Passam a vida vendendo, mas se preocupam em não se vender.”
São ricos bem sucedidos e, ao mesmo tempo, rebeldes de espírito livre; conciliam o espírito da imaginação com o culto ao resultado financeiro. São prósperos sem parecer gananciosos, agradam os mais velhos sem parecer conformistas, ascenderam ao topo sem que tivessem desprezado explicitamente quem está embaixo, alcançaram o sucesso sem que tivessem cometido certas afrontas socialmente sancionadas ao ideal de igualdade social, são mais religiosos mas sem ser submissos às autoridades religiosas...
Possuem carros com tração nas quatro rodas, mesmo sabendo que, no máximo, vão enfrentar algumas estradas esburacadas. Gostam de trabalhar de jeans e camiseta. Colecionam objetos de culturas nativas ou possuem decoração rústica no meio da sala de alguns milhares de dólares.
Esse (não tão) aparente paradoxo é a tônica do livro, recheado de exemplos reais que são, justamente, onde nos reconhecemos.

Se, antigamente, o início de uma conversa da classe alta era “De onde você veio? Quem são seus pais?” (pois o sangue bastava para definir a elite), hoje passou a ser “O que você faz?”. Talvez por isso, a angústia da classe alta atual seja a consciência de que não se consegue garantir o filho nessa mesma elite.

Uma característica que destaco é o que o autor chama de “perfeição das pequenas coisas”: a classe alta deseja saber (e sabe!) tudo sobre ferramentas, fotos, filmes, esportes, decoração, construção... E gasta muito dinheiro com tudo isso. Por trás, é o desejo de dar importância ao não-trabalho, como se usar a inteligência só no âmbito profissional fosse um desperdício. O mundo não podia perder tanto talento...
Outra parte em que me diverti bastante foi sobre as férias. A elite atual não deseja aquela viagem tradicional para Paris para pedir a namorada em casamento. Não cogita aquele passeio com a família toda para Costa do Sauipe com a CVC. Isso é passado, isso é (só) burguês. Hoje, a elite quer passear sem rumo pela Europa (“só comprei a passagem de ida e a de volta...”), quer conhecer Camboja e Moçambique, aprender francês no Senegal, fazer trilha que “os soldados de Alexandre, o Grande, só fizeram porque estavam ameaçados de morte”...
A atual classe alta é a mãe do “politicamente correto”: já não se incomoda com beijo gay no meio do shopping; mas “ai” de alguém que quiser defender o lucro de uma empresa sem se preocupar com o ambiente.

Pra mim, que sou crítico do “moleque vermelhinho que vai conhecer Cuba com o Amex do pai” e da “menina que larga o acampamento do MST por 2 meses para fazer um intercâmbio em Londres”, foi um balde de água fria. O livro me mostrou que, embora em uma escala bem menor, eu também sou um prato cheio de “incoerências”.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

2011



"A Natureza (ou Deus) nos deu as emoções para um fim. O homem clássico não escondia raiva, desprezo, frustração, tristeza, amor, admiração, medo... Quando começamos a reprimir e escondê-las?" - Taleb

O legal do período do Natal/Ano Novo é que todo mundo fica gente boa... hehe. Em essência, voltamos àquilo que nunca deveríamos ter deixado de ser.

Desejar que todo dia seja como a passagem de 31/dez para 1º/jan - cheio de renovações e boas intenções - é utopia. Mas que, pelo menos, consigamos "sair da caixa" com mais frequência...

terça-feira, 16 de março de 2010

Eufemismos

O filho dos outros é triste.
O nosso está deprimido.

O filho dos outros é mal educado.
O nosso é genioso.

O filho dos outros é louco.
O nosso é bipolar. Ou 'moody'.

O filho dos outros é maria-vai-com-as-outras.
O nosso é flexível, adaptativo.

O filho dos outros é burro.
O nosso tem déficit de atenção.

O filho dos outros é um pentelho.
O nosso é hiperativo.

O filho dos outros tem caganeira.
O nosso tem virose.

O filho dos outros teve sorte.
O nosso é uma estrela.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Personagens

Nessas últimas semanas, reencontrei pessoas que não via há alguns anos.
A conversa com essas pessoas confronta o que éramos com o que nos tornamos. Muitas coisas mudaram; algumas continuam iguaiszinhas...
Também repensei minha relação com algumas pessoas que estão ou se tornaram mais próximas...
E quanto mais você conhece uma pessoa – inclusive a si mesmo – mais percebe a diferença do que ela de fato é com o que ela quer se mostrar... E às vezes, nem a pessoa tem consciência...
Somos todos personagens, caricaturas de si mesmos.
O problema aparece quando a personagem fica mais forte que a pessoa. Ou pior, quando se quer mudar a personagem porque ficou batida ou sei lá o quê... Já era. Você virou a personagem.
O menino é o pai do homem.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um livro não lido...

Dizem que a melhor maneira de fazer seu filho ler é lendo bastante. (Meio óbvio, né...)
Confesso que não tenho uma forte recordação de minha família leitora na infância. A primeira 'estante para livros' na casa dos meus pais chegou quando meus irmãos e eu já éramos adolescentes. É verdade também que peguei um certo trauma ao ler 'Senhora', 'Amor de Perdição', 'Primo Basílio' (embora hoje, lembro dos enredos e me parecem legais). Muito metódico, eu anotava quantas páginas tinha que 'vencer' por dia para dar tempo de ler tudo antes da prova. Eram raros os livros que lia com prazer. Lembro de 'Escaravelho do Diabo' e um outro de uma turma que tinha uns códigos, cujo nome me foge. Clássicos, li com prazer 'Cortiço', 'Macunaima' e mais uns 2 ou 3.
Mas, sei lá o porquê, em um dado momento, minha mãe começou a ler por hobby mais frequentemente. Meu irmão também. E a febre pegou lá em casa. Dar livros de presente virou moda (tivemos que nos controlar). Desde então, fico puto quando vou a um médico e esqueço um livro para sala de espera. No metrô, na época da pós, a mesma coisa...
Aliás, parêntesis. Outro dia tive um evento na GV e, no metrô, vi MUITA gente lendo seu livrinho. Fiquei orgulhoso; foi um pouquinho de esperança na minha ranzinzice com o país.
Entrar na livrariacultura.com.br, na submarino.com.br,... é um prazer. De vez em quando, alguns amigos e eu nos juntamos para comprar da Amazon e economizar no frete...
Hoje, uma das partes da minha casa de que mais gosto é a minha - já bem respeitável - biblioteca.
Em época de amigos secretos, a lista de livros pendentes aumenta. Às vezes, até me sinto pressionado: o ritmo de entrada é muito maior que o de saída. Mas me conforto quando lembro de uma frase de um livro do Taleb:
'Um livro não lido é muito mais valioso que um lido'.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Solidão

Segue um texto brilhante que 'chupinhei' da página de uma amiga.
Para quem mora sozinho, toca uma pequena empresa e acaba de terminar o namoro é confortante.
E não deixa de ser uma mensagem para pessoa(s) querida(s), em um momento especial.

Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço.
Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço.
Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis.
Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos.
Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só.
Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia.
Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo.
Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos.
Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim.
Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro.
Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz a solidão pode ser oásis e não deserto.
Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso a solidão pode ser alimento e não fome.
Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado a solidão pode ser trégua e não luta.
Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito a solidão pode ser resgate e não desacerto.
Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais a solidão pode ser proteção e não contágio.
Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.
Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se.
Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo.
É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia.
Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só.
Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente, mas mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão.
Preciso estar em mim para estar com outros. Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado.
Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos.
Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade.
Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato.
Queremos encontros, comunhão, companhia. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação.
Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido.
É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra.
Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós.
Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós.
Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.
Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!
Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a.
Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Ouse a solidão e fique em ótima companhia.
(Hilda Lucas)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Controle? pffff...

Se existe uma coisa que a vida tem me forçado a aprender é que a gente não controla tudo que queria; na verdade, controla muito pouco ou quase nada.
Para pessoas metódicas como eu, é um constante sofrimento. Tocando uma empresa pequena, mais ainda. Passando por um forte processo de autoconhecimento, piorou!
Tenho lido bastante sobre 'acaso', 'eventos altamente improváveis', 'o desconhecido'.
Se eu fosse onipotente, muita coisa seria diferente... Mas não sei se seria melhor...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Frases que marcam

Parênteses para o meu avô.

"Não morreste! Foste à frente de nós preparar um lugar, arrumar toda a casa para que o dia do reencontro tenha sabor de infinito" - lembrança das homenagens póstumas.

"A morte de um ente querido nos interpela: nós, vivos, estamos preparados para morrer e gozar a felicidade plena?" - Padre Celso, na missa do primeiro sufrágio.

sábado, 15 de agosto de 2009

Vida que vai, vida que vem

Sexta passada, recebi um SMS da minha mãe: "Iupi! Priminha nova no pedaço. Mãe e filha estão bem. Vida que vai, vida que vem". Fiquei tocado. Pelos dois.
Perdi meu avô 3 dias depois.
Maria Clara, priminha querida, seja bem vinda.
Seu Walter, descanse e olhe por nós.

If I Could
Jack Johnson

A brand new baby was born yesterday, just in time
Papa cried, baby cried, said your tears are like mine
I heard some words from a friend on the phone, didn’t sound so good
The doctor gave him two weeks to live
I’d give him more if I could

You know that I would now
If only I could

Down the middle drops one more grain of sand
They say that new life makes losing life easier to understand
Words are kind they help ease the mind, I’ll miss my old friend
And though you’ve got to go we’ll keep a piece of your soul
One goes out, one comes in

You know that I would now
If only I could

Tradução aqui.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ele está chegando

Imagine que você está à beira mar e vê um navio partindo.
Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando, e afastando, cada vez mais longe.
Até que, finalmente, parece ser um ponto no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram.
E você diz: - "Pronto, ele se foi".
Foi onde? Foi a um lugar que a sua vista não alcança, só isto!
Ele continua tão grande, bonito e importante como era quando estava perto de você.
A dimensão diminuida está só com você, não nele.
E naquele exato momento em que você está dizendo que ele se foi, há outros olhos vendo-o aproximar-se, e outras vozes exclamando em júbilo: "Ele está chegando".

De José Celso de Azevedo Júnior, amigo do meu pai.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Triste é não chorar...

(...)
Sim, nós estamos chorando. Mas não de tristeza.
Triste é não chorar. Triste é não ter com quem chorar, por quem chorar, porque chorar. Triste é ter coração duro para não chorar. Não é o nosso caso.

Vó, fique tranquila. Ele não vai te deixar. A diferença agora é que não precisamos mais falar alto na sua orelha direita. Basta fechar os olhos, falar baixinho... Ele estará nos ouvindo.

(...)
É hora de seguir seus ensinamentos: manter a família unida e cuidar dos vivos. É hora de cuidar da vista, do coração, do intestino; é hora de parar de fumar...
Ele continua nos olhando, pronto para nos zangar e nos amar...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Não

Mais um casal amigo, com muitos anos de namoro, se separou. Tem sido recorrente...
É lógico que, quando penso assim, estou influenciado pelo viés da ‘disponibilidade’, que Kahneman e Tversky detalham em sua ‘Teoria do Prospecto’: acontece quando um evento menos freqüente vem à mente com mais facilidade do que um mais corriqueiro porque ‘chama mais atenção’, distorcendo nossa noção de probabilidade. O exemplo clássico é a morte em um acidente de avião versus em automóvel. As pessoas normalmente têm mais medo de viajar de avião porque as quedas de avião são mais impactantes do que os acidentes de automóvel, embora muito mais pessoas morram num carro do que num avião. Quero dizer, tenho muitos casais amigos que ‘permanecem juntos’, mas isso chama menos atenção do que longos relacionamentos que terminam.
Viés à parte, continuo... Mais um casal amigo terminou.
Outro dia saiu uma reportagem na Folha analisando a quantidade de casamentos e de divórcios. A evolução do segundo quando comparado com o primeiro é incrível. Mas nem vou procurar o link da reportagem porque, no meu círculo de amizade, a maioria dos relacionamentos ainda está no status ‘namoro’ e não no ‘casamento’, hehe, e a pesquisa não capta esse estágio inicial.
No fundo, não acho que os relacionamentos da ‘geração dos meus pais’ eram mais bonitos, mais verdadeiros. Acho só que, hoje, as pessoas têm mais coragem de dar um pé. Não sou nem me proponho a falar como um especialista no assunto. São só palpites mesmo... Talvez a constante ascensão da posição da mulher na sociedade dê mais autonomia e coragem a elas. Talvez um ambiente profissional mais competitivo deixe as pessoas mais egoístas, com pouca paciência para viver a dois e considerando-se auto-suficientes. O fato é que os relacionamentos estão (ou, levando-se em conta o viés, pelo menos, parecem) mais efêmeros, ‘menos eternos’.
Não gosto de Chico Buarque, mas a canção não podia ser mais apropriada:
“Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada de um grande amor
Mentira”