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sábado, 5 de março de 2016

A realidade

Teve textão esses dias dizendo que, "nesses momentos acalorados, devemos ter serenidade para buscar a isenção". Esse é o mal do século. A busca da Verdade foi substituída pela busca da isenção, do equidistante (entre a mentira e a Verdade?), do discurso que agrada o maior número de pessoas ou, basicamente, do que não se compromete com nada, ou seja, um vazio.

O fried soltou mais uma boa pensata sobre isso no twitter:

Seria legal, seria interessante ver o pessoal parar de tentar ser inteligente. Sério: esse negócio de ficar pensando muito profundo deixa ruga em vocês. Você fica fazendo força assim e os músculos da face vão se contraindo até você ficar parecido com o Slot. Além disso, causa uma certa sensação de que você é um gênio: "nossa eu sou perspicaz pra caralho, eu enxergo além do que as pessoas comuns enxergam". Não enxerga, não, meu filho; você é normalzinho como nós também. 99% das análises muito aprofundadas na internet vêm dessa doença de achar que você é capaz de fazer uma análise mais profunda que a patuleia. Porque o intelecto pode ser uma doença também, normalmente quando você o descobre. Assim como quando você descobre o pinto ou a pexereca: “nossa eu tenho um pinto, ninguém tem um pinto como o meu” e fica ali mexendo com ele o dia inteiro. Quando você fica mexendo com o intelecto e achando que foi premiado, você esquece de OLHAR PRO MUNDO. É daí que vem tudo que é tipo de escrotidão, porém a escrotidão das mais perversas (que são as escrotidões cientes de si).  Por ex: “tem que ver o que está ‘por trás’ da prisão do lula” e começa toda uma análise crítica do porquê teriam prendido o lula sendo que a resposta está bem ali à vista, explicada, mostrada, basta abrir os olhos e parar de achar que teu cérebro vai desvelar o que ninguém desvela. Por ex 2: “nossa, o comunismo, tem que analisar porque não deu certo e comparar com suas verdadeiras aspirações que...” sendo que basta você querer enxergar o que aconteceu na realidade pura e simplesmente. Por ex 3: “o estado islâmico: bom, tem que tentar entender porquê eles pensam assim e...”, sendo que basta querer enxergar o que acontece e ver o que eles realmente fazem. Porque não há sustentação teórica que se sobreponha à realidade concreta, assim como não há justificação possível pra um grupo de pessoas que arranca cabeças e mata crianças pisoteadas. Essa é a diferença entre uma pessoa "ANALISAR" a realidade e uma pessoa ENXERGAR a realidade. Toda análise vem EM DETRIMENTO da realidade que está ali, ela é dada, como um presente. Mas que você se nega a ver porque ela é acessível a todos e você não quer ser todos. Você quer ser o cara que "vê além". Isso é uma doença. Sem contar que é chato pra caralho. Pensa assim: a vida real é como você ali esperando pra atravessar a rua. Tem o sinal vermelho e o sinal verde. Você olha o sinal verde e ele SIGNIFICA que você pode atravessar; você olha o sinal vermelho e ele SIGNIFICA que você não pode atravessar. Você não precisa parar e pensar “nossa, mas será que o verde realmente quer dizer o que ele quer dizer?”, “será que o sinal vermelho não é alguém que está querend...” - e o sinal fechou de novo. O resumo de tudo é que não há significado FORA da realidade. Tentando achar algo assim ou você é atropelado ou não atravessa a rua nunca.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Um relance de otimismo

Talvez pelo advento das redes sociais... Talvez pelo simples fato de haver ciclos naturais... Mas, desde muito tempo, me pareceu o primeiro Natal em que as mensagens e textões pró-família foram em maior número do que os irônicos ou detratores. Ou melhor, os pró-família ironizaram os irônicos. Sim, seu tio reaça também não tem prazer de jantar com um sobrinho esquedolóide. Mas sabe que isso é importante.

No tempo em que os diálogos imaginários do mundo virtual de esquerdistas utópicos são devidamente satirizados (vejam essa página!), o diálogo mais importante do Natal (esse real, juro!) continua sendo:
- Bença, vó!
- Deus te abençoe, meu filho.

Família é foda!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Política é...

A arte de priorizar... A arte de fazer o possível... A arte de negociar...
Ok, tudo lindo. Mas pra mim a síntese é: política é a arte de controlar narrativas.

Um amigo diz sobre a imprensa: ‘em todo assunto que manjo um pouquinho, consigo perceber que só sai bullshit na imprensa; o que me leva a crer que todo o resto – o que não manjo – também é bullshit’. Faz todo sentido.

Não quero demonizar a imprensa. O problema é justamente não ser só na imprensa: rodas de amigos, discussões em redes sociais, gente estudada... todos nós temos comprado a narrativa petista por 14~15 anos. E o Brasil não se livra do PT enquanto o PT controlar a narrativa.

Na próxima fanfic, na próxima reportagem do JN, na próxima justificativa que seu (ex)amigo compartilhar, pergunte-se ‘A quem interessa essa narrativa?’. A resposta é a mesma nos últimos 15 anos.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Moral e a busca da Verdade

Há algum tempo (décadas?), a palavra ‘moralismo’ passou a ter uma conotação negativa. Essa interpretação faz parte da Guerra pela Linguagem, que, por exemplo, George Orwell tanto fala em 1984, e da Hegemonia Cultural, que Antonio Gramsci pregava. Passou a significar cagação de regra, algo antiquado, obsoleto. E, claro, não é isso.

Existem definições formais elegantes (conjunto de normas aceitas, conjunto de costumes,...), mas o ponto fundamental é que a moral é o elo, é a liga que deixa uma sociedade coesa. Não existe sociedade pacificada em que não haja uma base moral bem aceita e respeitada. É uma coisa construída ao longo do tempo e, justamente por isso, não é algo que ‘se impõe’. Mas, claro, a força de um movimento contrário, de uma ‘contra-base’ moral (que – notem – não é amoral, mas, sim, possui OUTRA base moral) pode enfraquecer a base moral da sociedade. Isso não deve terminar com uma ‘substituição da base moral’, mas sim, com um enfraquecimento da moralidade como um todo, constituindo uma sociedade não-coesa, cada um por si, cada um com seu porrete.
"Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete.” – Eros Grau
O encadeamento do argumento pode levar a pensar que qualquer base moral basta, desde que haja uma amplamente aceita. Mas não; isso é só um artifício de quem quer destruir a base moral existente. E daí vem a segunda parte do meu ponto: a busca da Verdade. Era isso que motivava os filósofos antigos e infelizmente foi substituído por um extremo relativismo recente: “nada é fato; tudo é opinião”. Isso é uma desgraça. É A DESGRAÇA.



Não se trata de carimbar que o que eu acho é Verdade e ponto. Não. Posso estar errado, você pode estar errado e, ao percebermos, mudamos de lado. Mas desistir da busca pela Verdade, como se não houvesse Verdade, como se qualquer coisa fosse uma verdade, isso é o fim de uma sociedade. Evito ser maniqueísta, mas sim, estamos diante de uma ladeira escorregadia. Ao aceitar uma pequena relativização, aceitamos a relativização completa e vamos querer tentar entender e ter empatia pelo erro. Podemos (/devemos) perdoar o pecador, não o pecado.
“Todavia daí não se segue que, se assim o quiser, deixará de ser injusto, passando a ser justo; do mesmo modo que um homem que está enfermo não ficará curado dessa maneira, embora possa ocorrer que um homem esteja doente voluntariamente. (...)O mesmo se dá com o injusto e o intemperante: no começo dependia deles não se tornarem homens dessa espécie, e, assim, é por sua escolha que são injustos e intemperantes. Agora, porém, que são assim, não lhes é possível ser diferentes”. – Aristóteles, em Ética a Nicômaco

Ou seja, existe sim uma base moral que vai levar uma sociedade para o Bem (pelo menos DESSA sociedade) e outras que não levarão.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A falácia da "linha de partida"

O Marxismo e sua "igualdade na linha de chegada" faliram. Só no Brasil e em mais uns 2 ou 3 países no mundo, isso ainda é levado a sério. Nenhum ser pensante ainda desconsidera a necessidade e a virtude do esforço.

A partir dessa decadência, a alternativa mais decente que surge à esquerda é a busca da igualdade na "linha de partida", embasada pela "Teoria de Justiça" de John Rawls, muito influenciado por Immanuel Kant. Grosso modo, são os social-democratas.
A ideia é cativante: como ser contra a "igualdade de oportunidades"? Pois bem, a realidade o é.

Normalmente associamos a desigualdade na linha de partida com desigualdade financeira. Entre outros, Michael Sandel, em seu "Justiça - O que é fazer a coisa certa?", expõe que existe uma outra grande desigualdade na partida: o talento nato. Ele usa o clássico exemplo de Michael Jordan: como "igualar" a linha de partida do Jordan com um outro moleque qualquer que queira jogar basquete profissional, por exemplo? O raciocínio leva à distopia de Harrison Bergeron (filme aqui): um gago no Jornal Nacional, uma bailarina com uma bola de chumbo no pé, um gênio com um headfone fazendo um barulho alto e chato para evitar que pense... Todos igualados na mediocridade.
  
O erro no argumento de exigir que todos "larguem do mesmo ponto de partida" é a comparação com a raia ao lado. A vida não é uma corrida de 100m; é uma maratona. A vitória não é chegar em primeiro; é apenas chegar. Ou nem isso; talvez seja apenas correr. E com isso não estou "desmerecendo a meritocracia". É necessário um baita esforço para (simplesmente) chegar. E será mais belo ainda se você conseguir entregar o bastão pra próxima geração num lugar à frente do que aquele que você recebeu, INDEPENDENTEMENTE da raia ao lado, numa corrida sem fim.

Nesse ponto do argumento, sem prejuízo da argumentação para ateus, permito-me uma passagem pelo Cristianismo (em especial, Cristianismo Puro e Simples, de C S Lewis): a quem muito é dado, muito será exigido. Um analfabeto que consegue alfabetizar seus filhos talvez tenha avançado muito mais na maratona do que um ricaço que vira professor e alfabetiza centenas de alunos. Cada um com seu talento, cada um com sua corrida.

O problema de querer igualdade na linha de partida é que a natureza simplesmente não é assim. Pode chamar de acaso, se assim preferir (eu chamo). Você pode até xingá-lo, mas não pode negá-lo. Nem culpar os sortudos por sê-los.

O maior inimigo do esquerdismo é a realidade.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Vida na Sarjeta, em especial 'E a faca entrou'

Trechos selecionados de A Vida na Sarjeta, de Theodore Dalrymple, especialmente do artigo 'E a faca entrou'.

“Fragrante destruição dos sólidos laços familiares nos mais pobres, laços que, pela mera existência, faziam com que um grande número de pessoas saísse da pobreza”.

“Os instrumentos para vencer a pobreza são sistematicamente negados aos pobres de hoje, ao passo que são marteladas justificativas para que permaneçam pobres. Essa verdadeira praga é baseada em ideologias que transferem para terceiros – sempre ‘os outros’ – a culpa pelos seus problemas, o que, sem dúvida, estimula vícios como a inveja, a revolta e o ressentimento”.

“Pessoas com vidas desprovidas de significados, já que não são incentivadas a se orgulharem de conseguir pagar a própria comida e a própria casa, como as gerações anteriores faziam. Em outras palavras, são deixadas ao deus-dará e sem nenhuma noção de responsabilidade, em um mundo relativista e extremamente carente de juízos de valor.”

“Retrata com clareza o quanto são erradas e nocivas as políticas que estimulam os pobres a esse comportamento autodestrutivo.”

“Se queremos de fato combater a pobreza, a primeira coisa a ser feita é tratar os pobres como seres humanos e não como boiada, dotá-los de senso de responsabilidade individual e social e apresentar a eles a importância dos valores morais tradicionais – como honestidade, trabalho, frugalidade e respeito ao próximo – que, infelizmente, vêm sendo progressivamente abandonados”.

“Alguns educadores, intelectuais e outros creem estar sendo amigos dos pobres ao justificar ou ‘entender’ esse comportamento autodestrutivo e ao estimulá-los a ter uma visão paranoica do mundo que os cerca”.

“Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não correm bem – muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos – pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina... Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode!” – William Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena II

[Sobre comportamentos autodestrutivos e círculos viciosos da 'subclasse']: “O determinismo econômico (...) dificilmente parece dar uma resposta. (...) O determinismo genético ou racial não é melhor. (...) O Estado previdenciário (...) pode ter sido a condição necessária para tal ascensão: tornou-a possível, não inevitável. (...) Mas o ingrediente adicional é encontrado no campo das ideias.”

“A frequência de locuções de passividade é um exemplo surpreendente. Um alcoólatra, ao explicar sua conduta quando bêbado, dirá: ‘A cerveja é muito doida’. Um viciado em heroína, ao explicar seu recurso à agulha, dirá, ‘tá tudo dominado pela heroína’, como se a cerveja bebesse o alcoólatra e a heroína se injetasse no viciado. Possuem uma função justificativa e representam a negação do agente e, portanto, da responsabilidade pessoal. O assassino alega que ‘a faca entrou’ ou que ‘a arma disparou’. O homem que ataca a parceira sexual alega que ‘ficou muito doido’ ou ‘perdeu a cabeça’, como se fosse a vítima de uma espécie de epilepsia. (...) Até a ‘cura’, é claro, ele pode continuar a maltratar (...) certo de que é ele, e não a parceira, a verdadeira vítima. Passei a ver essa desonestidade e autoengano como parte essencial do meu trabalho. Quando um homem diz-me, como explicação para seu comportamento antissocial, que ele se deixa levar facilmente, pergunto-lhe se alguma vez se deixou levar pelo estudo da matemática ou do subjuntivo dos verbos franceses. (...) O absurdo do que ele disse se torna aparente para ele mesmo. (...) mas existem algumas vantagens, psicológicas e sociais, decorrentes da manutenção dessa farsa.”

“Não muito tempo depois que os ~teóricos da criminologia~ propuseram a teoria de os criminosos reincidentes possuírem um desejo ~compulsivo~ pelo crime (...), um ladrão de carros, de inteligência limitada e de pouca educação, pediu-me que tratasse de sua ~compulsão~ de roubar carros e, ao não receber tal tratamento, é claro, via-se moralmente justificado para continuar a livrar os donos de carros de suas propriedades”.

[Sobre um relacionamento] “’Não deu certo’, dizem, e o que não deu certo foi o relacionamento, que concebem como algo possuidor de existência independente das duas pessoas que o compõem”.

“Revelar a origem dessa realidade, que é a propagação de ideias más, insignificantes e insinceras. (...) É importante lembrarmo-nos de que, caso haja culpa, uma grande parte é devida aos ~intelectuais~. Não deveriam ter sido tão tolos, mas sempre preferiram evitar-lhes o olhar. Consideraram a pureza das ideias mais importante que as reais consequências. Desconheço egotismo mais profundo.”

Lamúria escusatória. (...) Fatalismo desonesto. (...) Fico tomado de surpresa pela pequeníssima parte que atribuem aos próprios esforços, escolhas e ações. (...) Descrevem-se como marionetes do acaso”.

[Como se a] “A vítima do esfaqueamento, no entanto, é que foi o verdadeiro autor da ação homicida: se ela não estivesse lá, ele não teria a matado.”

“O modo de o prisioneiro apresentar-se ao público muitas vezes guarda semelhança com o retrato que deles fazem os progressistas. É como se dissessem: ‘Vocês querem que eu pareça vítima das circunstâncias? Pois bem, para vocês serei vítima’”.

“Auto-engano (...) o orgulho e o amor-próprio não tem dificuldade de superar a memória. (...) A facilidade com que as pessoas rejeitam a responsabilidade por aquilo que fizeram – a desonestidade intelectual e emocional sobre as próprias ações – que aumentou enormemente nas últimas décadas.”

3 possíveis motivos:
  • Legião de pessoas cujas rendas e carreiras dependem da suposta incapacidade de outras pessoas
  • Ampla disseminação de conceitos psicoterapêuticos adulterados ou mal-interpretados: se a pessoa não conhece ou compreende os motivos inconscientes dos próprios atos não é verdadeiramente responsável por eles
  • Classes médias abarrotadas de culpa

“É bastante verossímil para abalar a confiança das ~classes médias~ que o crime é um problema moral e não um problema de disposição de ânimo.”

“O próprio modo de explicação oferecido pelos progressistas para o crime moderno – que parte das condições sociais direto para o comportamento, sem passar pela mente humana – oferece aos criminosos uma desculpa perfeita.”


“O comportamento antissocial não aumenta na proporção das desculpas criadas pelos intelectuais?”

“As pessoas, longe de se acharem extremamente afortunadas se comparadas a todas as populações anteriores, passam a acreditar que vivem nos dias atuais na pior das épocas e sob os mais injustos regimes.”

“A noção disseminada de que a desigualdade material é, em si, um símbolo de injustiça institucionalizada também ajuda a fomentar o crime. (...) Se a propriedade é um roubo, logo, o roubo é uma forma de justa retribuição. Isso leva ao desenvolvimento de um fenômeno extremamente curioso: o ladrão ético.”

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O que li em 2014


O livro é a compilação de um tradicional curso da Casa do Saber. Em linguagem ultracoloquial, os autores refletem sobre 8 temas: ética, moral, identidade, liberdade, poder, dominação, justiça e virtude.
O conceito exposto de que mais gostei é o de 'moral' como necessidade prática para se viver em sociedade a partir do momento em que não amamos todo mundo. (Se amássemos todos, a moral não seria necessária).

O grande amigo de Montaigne, Étienne de La Boétie escreve um curto manifesto refletindo sobre como tiranos mantém sua tirania (mesmo os escolhidos pelo povo; talvez até piores) e como as pessoas se sujeitam a essa tirania: boas doses de conivência, covardia e cumplicidade são necessárias para manter a própria servidão...
Escrito há quase 500 anos e muito atual.


Mário Ferreira dos Santos analisa a sociedade "atual" (aspas porque foi escrito em 1967) sob influência dos "bárbaros" (como contraposição a civilizados, intelectualizados). Mais: não mais uma invasão "horizontal" (=conquista territorial), mas uma invasão "vertical", interna, dentro da própria cultura. Alguns tópicos bem interessantes como moral, crimes, Cristianismo, ciência e religião, 'alta cultura', racismo... O filósofo usa termos e defende posições que provavelmente causariam mimimi se fossem escritos hoje em dia. Mas gostei bastante do texto. Sua capacidade preditiva é impressionante.

Conflito de Visões ✰✰✰✰✰
Segundo Thomas Sowell, as disputas ideológicas não são baseadas em diferenças de interesse, de conhecimento ou de moral; o cerne é a diferença de 'visão', definida como uma 'concepção pré-analítica'.
Ele classifica as visões em: - IRRESTRITA, que entende que o POTENCIAL humano é ilimitado ou que ainda não foi alcançado (e, portanto, devemos buscá-lo) e; - RESTRITA, que entende que a CONDIÇÃO humana é limitada, falha (e, portanto, devemos lidar com isso).
Os adeptos da visão irrestrita buscam SOLUÇÕES; os da visão restrita buscam COMPENSAÇÕES/TRADE-OFFs.
A partir dessa diferenciação (obviamente um continuum, não binária), há toda uma coerência no posicionamento de ambas as visões quando discutem igualdade, liberdade, justiça, poder...
Com certeza, um livro que será dos mais influentes na minha vida.

Subliminar ✰✰✰
Leonard Mlodinow, autor de O Andar do Bêbado, escreve mais um bom livro, dessa fez sobre a influência do inconsciente em nossas vidas. Com uma pequena pincelada em neurociência (especialmente em relação ao mapeamento da atividade cerebral), ele aponta alguns estudos sobre memória, visão, audição, categorização, racionalização,... Gostei especialmente do capítulo sobre in-groups e out-groups: as diferenciações inconscientes que fazemos entre as pessoas que são do nosso grupo e as que não são, QUALQUER que seja a definição desse grupo (e disso podemos tirar algumas ideias para questões de preconceito).
É um bem bolado de Dan Ariely, Malcolm Gladwell e da turma do Gorila Invisível.
"A evolução NÃO projetou o cérebro humano para entender a si mesmo com precisão, mas para [simplesmente] nos ajudar a sobreviver".

Nate Silver, o estatístico que ficou (mais) famoso por gabaritar o vencedor das eleições americanas em cada um dos 50 estados, fez um abrangente e agradabilíssimo apanhado sobre os vários mundos da previsão, cada qual com suas particularidades, seus desafios, seus acertos, seus erros, seus pop-stars.
Os capítulos passam por eleições, beisebol, basquete, meteorologia, xadrez, poker, macroeconomia, mercado econômico, epidemias, terremotos, aquecimento global, terrorismo.
Apesar de ser uma leitura fácil, não técnica, Nate Silver expõe alguns conceitos teóricos interessantes.
Ou seja, um livro excelente pra uma época em que querem prever a temperatura da Terra daqui a 100 anos ou em que a variação de 0,1 p.p. na previsão do PIB pro ano que vem dá manchete de jornal.

Ideias tem Consequências ✰✰✰✰
Muitos consideram esse livro como um ~must-read~ para direitistas. De fato, Richard Weaver defende muitos pilares do conservadorismo, mas achei um ou outro ponto divergente, como quando ele flerta com uma economia mais planejada ou quando dá umas pequenas porradas no “capitalismo financeiro”.
Achei a leitura difícil, mas gostei bastante. É um excelente mix de “Invasão vertical dos bárbaros”, “Rebelião das massas”, “Conflito de visões”, “As vantagens do pessimismo”.
O autor critica o materialismo e a imediatez vigentes, não no mesmo barco do ambientalismo ou da crítica ao consumismo, mas pela falta de algo transcendental, metafísico.
CRITICA a paixão pela razão, a fragmentação do conhecimento, a substituição da noção de fraternidade pela de igualdade, o fato da organização social deixar de se pautar pelas vocações e passar a ser pela capacidade de consumo (com o trabalho virando mero emprego sem significado ou valor); critica a ideia de conforto como fim último da vida, a psicologia da criança mimada (que acha que tem direito a tudo por “reclamações e exigências” sem ter aprendido a relação entre esforço e recompensa), que a política tenha sido transformada em uma mera serva da economia; enfim, critica “a teoria progressista da história, que ensina que o ponto mais avançado no tempo representa o ponto de maior desenvolvimento".
O autor DEFENDE a distinção e hierarquia (selecionei trechos desse espetacular capítulo aqui), a propriedade privada (ligada à escolha e à vontade, ou seja, intrinsecamente à liberdade) como o “último direito metafísico” (pois não depende de demonstração da utilidade social), a tolerância e a piedade (à natureza, aos outros e ao passado), a prudência e a responsabilidade.
Sensacional.

O livro é um “testemunho da credulidade, estupidez e crueldade humana”; ilustra uma série de besteiras que fizemos e acreditamos ao longo da história. (Consequentemente, claro, faz pensar nas idiotices que vamos deixar pros nossos filhos contarem).
O autor conta histórias de bodes expiatórios na religião (em especial, no Judaísmo e no Cristianismo, em que bate bastante), no esporte (técnicos, juízes), relacionados a gênero/sexo (como na ‘misoginia’ – segundo o autor – da caça às bruxas), na mitologia, com animais e objetos (as histórias de Cortes gastando tempo e dinheiro para ‘condenar’ porcos, pássaros, insetos, sinos e espadas são cômicas se não fossem trágicas), políticos (comunistas como ato final de lealdade, inimigos externos), financeiras (bolhas, lei do ‘tolo maior’), médicas (os próprios doentes, eventualmente a 1ª vítima).
Termina falando do caso emblemático de Alfred Dreyfus, das ideias por trás das teorias da conspiração e da psicologia do bode expiatório, especialmente com Jung (“arquétipo da sombra”). Achei interessante a analogia do bode expiatório com um herói (se ferram individualmente pelo bem do todo).
Alguns capítulos são muito longos, outros muito curtos, o autor sempre volta na questão do Cristianismo, mas é um livro interessante.

Michael Lewis, o autor de renomados livros como Moneyball e Big Short, publica uma espécie de diário sobre sua experiência como pai de 3 filhos, motivado pelo "persistente e incômodo gap entre o que ele DEVERIA SENTIR e o que ele REALMENTE SENTIA" como pai.
Com causos realmente engraçados, ele escancara a função secundária do pai e ironiza os experts em paternidade. Se você não estiver encanado, perturbado ou confuso com a paternidade, você provavelmente estará fazendo algo errado com seus filhos. Na verdade, você provavelmente estará fazendo algo errado de todo modo, mas tudo bem.
(Selecionei alguns trechos aqui)

As ideias conservadoras  ✰✰✰✰
Embora curto, não considerei o livro tão raso como algumas resenhas apontam (talvez seja apenas minha ignorância) principalmente porque João Pereira Coutinho versa sobre alguns "tendões de Aquiles" do conservadorismo e algumas diferenças entre os próprios conservadores. Ou seja, não se trata de um simples contraponto ao pensamento esquerdista ou às ideologias extremistas.
Entre esses "tendões", o autor fala sobre o eventual imobilismo (achei excelente o capítulo sobre "reformas prudentes") e o eventual conflito com "sociedade comercial" (não sabia que daria pra montar um longo manual anti-capitalista apenas com autores, em tese, conservadores).
Com relação às possíveis discordâncias entre os conservadores, a única que me saltou aos olhos (isto é, que inicialmente me faria discordar de Coutinho) é quanto à "maleabilidade na hierarquização de valores de acordo com as circunstâncias", que ele defende. No entanto, é engraçado que, ao ler outros conservadores, a ideia faz muito sentido e fica bem clara.
O livro é muito bom.
"Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos. (...) Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos homens que ainda estimam alguma coisa."

É sempre uma experiência interessante ler alguém que sabidamente pensa diferente de mim. O historiador comunista Eric Hobsbawm evidencia seu saudosismo pela União Soviética e sua inhaca pelos Estados Unidos, principalmente nas partes em que fala sobre ‘impérios’. Gostei bastante dos textos sobre terrorismo – em que ele crítica o medo irracional, talvez mais prejudicial que o próprio terror – e sobre democracia – em que ele questiona a ‘unanimidade não questionada’ sobre o tema. Mostra as fragilidades e exemplos que deram errado em ambientes democráticos e outros que deram certo sem ele. (O problema, claro, é que ele dá um passinho além e fica no limite de defender "algo pior" que a democracia...)

O Reacionário ✰✰✰✰
Nelson Rodrigues é um monstro. Crônicas deliciosas, que fazem falta nos jornais de hoje.
Selecionei uns trechos aqui.








Complacência ✰✰✰✰
Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman analisam as decisões do governo brasileiro na última década, levando à triste situação atual.
Com uma escrita bastante leve, passa por diversos temas como funcionalismo público, educação, previdência, balança comercial, política industrial (de “escolha dos vencedores”), sempre com uma espécie de “curso de introdução à economia” como pano de fundo. Bem interessante.

Política da Prudência ✰✰✰✰✰
Russel Kirk escreve sua bíblia sobre o pensamento conservador americano. Expõe seus 10 livros, seus 10 acontecimentos e seus 10 pensadores preferidos, explica a maioria deles, critica a ideologia progressista e os libertários. Defende a ordem, a justiça e a liberdade.
Livro necessário para todo conservador e outro que, sem dúvida, terá influência marcante em toda minha vida.

Conversa no Catedral ✰✰✰✰✰
Mario Vargas Llosa trata esse livro como sua melhor obra. E, de fato, é espetacular. Tanto o enredo (as histórias se passam na sociedade peruana na época da ditadura) como o estilo.
Muita coisa parecida com a sociedade brasileira e com os tempos modernos.
O Peru também não corre o risco de dar certo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primum non nocere

Em um dos rascunhos públicos para seu último livro Antifragile, Nassim Taleb argumenta:

Há também o elemento do engano associado com o viés de intervenção, acelerado em uma sociedade de profissionalização. É muito mais fácil vender um "Olha o que eu fiz por/para você" do que um "Olha o que eu evitei por/para você".
Eu procurei na história por heróis que se tornaram heróis por aquilo que NÃO fizeram - é difícil de observar "não-ação"; não pude facilmente encontrar nem na minha memória nem nos livros. O médico que se abstenha de operar uma coluna (uma cirurgia muito delicada e gratificante), dando a chance de curar sozinha, não será recompensado ou julgado tão favoravelmente como o médico que faz a cirurgia que parece indispensável, trazendo [um falso] alívio para o paciente ao expô-lo a riscos e grandes recompensas financeiras para si mesmo. (...). O gerente corporativo que evitou uma perda não será facilmente recompensado. [tradução livre].
 A sabedoria milenar já avisa: Primum non nocere. First do no harm.

Eis, na verdade, um dos pilares da disposição conservadora: prefiro o mal que conheço ao mal que não conheço.

O fenômeno social que acontece em São Paulo, o haddadismo (só o Brasil mesmo pra ter imprensa governista e torcida organizada pra prefeito...) é a antítese disso. Nem os integrantes da TOFH (Torcida Organizada Fê Haddad, uma homenagem à zambininha) julgam como 'boas' as intervenções feitas em São Paulo. O único argumento é 'ainh... pelo menos ele fez alguma coisa...'.

Pois é. Sempre dá pra fazer alguma coisa. E piorar.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O que li em 2013

A Revolta de Atlas 1 ✰✰✰
O 2º livro mais influente nos EUA (só atrás da Bíblia) é muito bom. É uma homenagem ao self-made man. Ayn Rand conta a história de um pequeno grupo de empresários que quer ganhar dinheiro 'fazendo as coisas acontecerem' nos EUA. O pano de fundo é o libertarianismo (deixa rolar!) versus o keynesianismo (mão pesada do governo controlando a economia). Mas dá pra encarar como algo mais simplista: os que querem desatar os nós versus os que querem apertar os nós ainda mais. 
(Não estou reduzindo as citadas escolas econômicas a esses 2 pontos; até porque a visão de Rand é bem parcial e extremamente caricatural). Gostei da primeira parte da trilogia.

O que o dinheiro não compra ✰✰
Gosto muito do autor, Michel Sandel, pelo famoso curso 'Justice - the right thing to do' (disponível online) e respectivo livro sobre o assunto. Mas acho que ele erra a mão um pouco nesse 2º livro. A ideia de reforçar a importância das questões morais no campo político é importantíssima, mas ele exagera.



Quando a maioria pensa da mesma maneira, muito provavelmente estará errada. O livro conta histórias de efeito manada (pro lado errado, claro) e lista uma espécie de 'técnicas' para conseguir se blindar. Opinião pública não é sinônimo de verdade (muito pelo contrário). Foi escrito em 1953. Bem bom!



O Príncipe ✰✰✰
'Os fins justificam os meios' não está escrito ipsis litteris na obra de Maquiavel mas claro que, ao descrever - baseado em sua larga experiência - os modos como os governos (principados) são conquistados e mantidos, ele deixa explícita essa lógica. Mas menos como um conselho ou um pensamento próprio, e mais pela observância de como as coisas são de fato. Também gostei. Completou 500 anos em 2013, como destacou João Pereira Coutinho nessa coluna

A mais pura verdade sobre a desonestidade ✰✰✰✰
Sou um fã de Dan Ariely. O 3º livro do economista comportamental de Duke também é muito bom. Com uma série de testes controlados, ele desmonta a tese do 'crime racional' (pela qual, trapacearíamos apenas por um cálculo entre o benefício da trapaça e o custo de ser pego). Ele testa influências mais 'irracionais' - como simples evocação à moralidade, parceria, esgotamento, criatividade, etc. - no efeito (e no montante) da trapaça. Livro muito bom.

Crime e Castigo ✰✰✰✰
Outra obra prima de Dostoievski, com reflexões sobre o acaso, os impulsos, a (auto)mentira, a bagunça entre o 'bem' e o 'mal', o 'certo' e o 'errado' e, principalmente, a angústia (pra se tolerar?) em que vive o protagonista (e, claro, todos nós).




Ser conservador ✰✰✰✰
Um pequeno manifesto do clássico pensador conservador Michael Oakeshott. Excelente.








Status Anxiety ✰✰✰✰✰
Meu primeiro contato com Alain de Botton foi assistindo a essa ótima palestra TED sobre noção de sucesso e meritocracia. Estive presente quando se apresentou em São Paulo, pelo Fronteiras do Pensamento, falando sobre as virtudes da religião, mesmo para ateus (como ele). Depois, a seqüência do The School of Life me pareceu meio embromation. Nesse livro, acho que ele acerta em cheio falando sobre o maior drama da atualidade: a angústia. Discorre sobre 5 causas (falta de amor, expectativas, meritocracia, esnobismo e dependência) e 5 possíveis escapatórias/proteções (filosofia, arte, política, religião e boemia). Fiz uma resenha aqui. 

Human Transit ✰✰✰✰✰
Jarret Walker sintetiza as principais ideias sobre as quais já escreve em humantransit.org. No livro, fala sobre as 7 demandas de um bom transporte público, sobre linhas e loops, paradas e estações, obstáculos e atrasos, tarifas, os trade-offs entre cobertura versus quantidade de passageiros, entre conexões versus complexidade e, principalmente, sobre sua bandeira principal: a necessidade de maior freqüência entre os ônibus/trens. Considero um livro simplesmente necessário para quem quiser discutir (e gerir) transporte público, mobilidade e urbanização.

Foi um imenso prazer conhecer Roger Scruton. O filósofo conservador apresenta 7 falácias utilizadas pelos 'otimistas inescrupulosos' (o eufemismo que ele utiliza para esquerdistas) e algumas conseqüências a partir delas. Resenhei aqui. 'Meu' melhor livro do ano.




Como viver ✰✰✰
Sarah Bakewell faz uma biografia de Montaigne, apresentando as principais ideias do filósofo, com estrutura semelhante à sua principal obra ('Ensaios'), ou seja, pensamentos livres, sem uma organização clara ou pré-definida. Interessante.
(Exatamente hoje, saiu uma resenha no BrainPickings)


Capitalismo de laços ✰✰✰✰
O doutorado do professor Sergio Lazzarini virou um livro no qual ele disseca a estrutura de poder no Brasil, passando pela abertura econômica do Collor, as privatizações de FHC e as aberturas de capital no período Lula. Muda-se tudo para não se mudar nada: o Estado continua sendo o principal player econômico, cercado de 'amigos' cada vez mais próximos. Também considero uma leitura fundamental para discussão econômica aqui no Brasil.

Com uma escrita irreverente (até demais), meio no estilo 'Guia dos Curiosos', o que mais me chamou a atenção no livro (e - confesso - me deixou um tanto desanimado) foi confirmar que a história é contada pelos vencedores ou, pior, que pode ser mudada ao longo do tempo, pela repetição sistemática de algumas mentiras.


O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota ✰✰✰✰
Gostei MUITO dessa seleção de artigos de Olavo de Carvalho, o principal filósofo brasileiro conservador vivo. A esquerda e grande parte dos 'cults' das redes sociais amam odiar Olavo. Mas é inegável seu talento na escrita e argumentação (embora, claro, eu não concorde sempre) e sua capacidade de estimular o conhecimento.


A Rebelião das Massas ✰✰✰✰✰
Ortega y Gasset concluiu o livro em 1930, mas serviria perfeitamente pra analisar as manifestações do ano passado. O conceito de que mais gostei foi sobre o equilíbrio (instável) da nossa sociedade: forças que se acumularam ao longo do tempo e hoje parecem imperceptíveis para uma geração de 'señoritos satisfechos' que acham que o estágio atual de civilização é dado pela natureza e que não exige cuidados constantes. Uma massa mimada que usufrui dos benefícios do mundo atual sem ter que enfrentar sacrifícios para sua conquista. (Aliás, Olavo de Carvalho também fala disso em um texto. Selecionei alguns trechos aqui)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

As vantagens do pessimismo

Faço uma resenha do livro As Vantagens do Pessimismo.
Foi minha estreia na obra do filósofo conservador Roger Scruton. E gostei muito.

O livro é, em linhas gerais, uma defesa do princípio da prudência e, assim, um alerta aos perigos da 'falsa esperança', uma crítica aos 'otimistas inescrupulosos' (o eufemismo que ele usa para os esquerdistas).

"Os otimistas inescrupulosos acreditam que as dificuldades e as desordens da espécie humana podem ser vencidas por um ajustamento em grande escala: basta inventar um novo arranjo, um novo sistema, e as pessoas serão libertadas da sua prisão temporária para um reino de sucesso."

"O único melhoramento que está sob nosso controle é o melhoramento de nós próprios."

Ele explica 7 falácias utilizadas por esses 'otimistas' e, em seguida, apresenta algumas 'defesas pela verdade'.

A primeira falácia é a da Melhor das Hipóteses. O esquerdista mira o ideal e não se preocupa com um 'plano de contingência' caso a 'ideia' não dê certo, ou seja, não avalia todos os riscos para saber se consegue bancar a pior das hipóteses (como um conservador o faz).

A falácia seguinte é a do Nascido Livre. O autor explora o conceito de liberdade, associando-o aos conceitos de responsabilidade e reciprocidade e diferenciando-o da simples 'ausência de restrições'. Liberdade inclui respeitar o próximo e depende dos contextos culturais. Um exemplo significativo que ele utiliza é o desastre da educação a partir da falta de disciplina do 'desconstrucionismo', que usa justamente o conceito distorcido de liberdade.

Em seguida, no capítulo sobre a Falácia Utópica, ele evidencia os riscos de colocar as fichas numa utopia e como, paradoxalmente, as utopias se fortalecem pela sua inexeqüibilidade.

"A mente utópica é uma mente moldada por uma moral particular e uma necessidade metafísica que leva à aceitação de absurdos não a despeito da sua absurdidade mas por causa dela."

Na Falácia da Soma Zero há o pano de fundo para o eterno confronto criado pelos esquerdistas entre opressores vs oprimidos (com os atores se modificando; a versão atual é pobre x rico). Não aceitam a situação indesejada como um 'fato da realidade'; sempre acham que foi causado por outrem.

A Falácia do Planejamento é o arcabouço teórico para coletivismos e Estados grandes. Os otimistas inescrupulosos acreditam que uma meia-dúzia de Iluminados terão as soluções para os problemas do mundo e, assim, desprezam a sabedoria cotidiana das micro-relações criadas ao longo da história. Não percebem que as soluções não são impostas, mas descobertas ao longo do tempo.

A penúltima, a Falácia do Espírito em Movimento, tenta nos convencer que o Zeitgeist, o espírito do tempo, praticamente 'nos obriga' a aceitarmos as mudanças, quase que abrindo mão de nossas liberdades e individualidades. Os otimistas inescrupulosos se enganam (e tentam nos enganar) ao associar o progresso científico a um eventual 'progresso moral ou de costumes'. Scruton pontua que nada garante que uma geração será melhor que a anterior do ponto de vista moral ou de costumes ou de cultura... (ao contrário da ciência).

"A falácia de ter uma visão retrospectiva de uma coisa que ainda não aconteceu tornou-se parte integrante do pensamento progressista."

Por fim, com a Falácia da Agregação, os esquerdistas tentam 'somar' conceitos que costumam ser concorrentes, como no exemplo clássico de liberdade x igualdade.

Em seguida, Roger Scruton expõe algumas estratégias através das quais os esquerdistas utilizam as falácias apresentadas.

Diante do fracasso das soluções propostas pelos esquerdistas, a desculpa é sempre que não foram 'longe o suficiente'. Invertem o ônus da prova: dizem que os conservadores teriam que provar por que a dinâmica atual ('status quo'?) é melhor que o 'melhoramento' proposto por eles, como se a simples sobrevivência à prova do tempo já não fosse prova suficiente da funcionalidade (vis a vis a 'boa intenção' da ideia deles).

"O senso comum também diz que um costume que sobreviveu à prova do tempo tem pelo menos isso para dizer a seu favor: que não é disfuncional."

Outra estratégia é a criação de falsos peritos (em assuntos em que simplesmente não há peritos). Uma retórica embutida de sociologia amadora e dá-se crédito a qualquer um.

Também costumam transferir a culpa, sugerindo que o simples êxito já seja prova suficiente para condenação. Um exemplo é rotular de odioso quem sofre o ódio. Nesse contexto, costuma-se criar bodes expiatórios.

Tentam ser herméticos, com discursos confusos, acusando ignorância de quem não concorda. (cita trechos de Marx e Althusser como exemplo)

O autor, então, imagina um mundo do jeito que os esquerdistas querem: com ausência de restrições, todos iguais, sem instituições, com soma zero (vive-se ou morre-se)... e chega ao nosso passado tribal! Supõe, então, que esses impulsos esquerdistas talvez sejam resquícios dos nossos antepassados.

"Leva a uma conclusão algo deprimente, que é a de que as falácias que identifiquei nesse livro como subjacentes às tolices do nosso tempo não são novos acrescentos ao repertório da loucura humana mas os resíduos das tentativas honestas dos nossos antepassados de endireitar as coisas."

Conclui dizendo que a vida civilizada não deve nos dizer o que fazer, mas o que NÃO fazer uns aos outros. Lembra que destruir é muito mais fácil do que criar.

"Devemos reconhecer que o confronto em que estamos envolvidos não é político; (...) é um confronto existencial."

"A melhor comunidade a que os seres humanos podem aspirar: uma sociedade sem convicção, na qual ninguém acredita ter o direito divino ou o dever histórico de fazer guerra contra aqueles que discordarem de si."

O livro é muito bom!


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A fórmula para enlouquecer o mundo

Trechos selecionados desse texto de Olavo de Carvalho.

(...) O poeta Stephen Spender, após romper com o Partido Comunista, já havia admitido que o que conduzia os intelectuais ocidentais à paixão por ideologias contrárias à própria liberdade de que desfrutavam era o sentimento de culpa e o desejo de livrar-se dele a baixo preço.

(...) A origem dessa culpa reside no fato de que amplas faixas da classe média passaram a desfrutar de lazeres e prazeres praticamente ilimitados, sem ter de arcar com as responsabilidades políticas, militares e religiosas com que a antiga aristocracia pagava o preço moral dos seus desmandos sexuais e etílicos.

(...) Já na Idade Média, os encargos da defesa territorial incumbiam inteiramente à classe aristocrática: ninguém podia obrigar um camponês ou comerciante a ir para a guerra, mas o nobre que fugisse aos seus deveres bélicos seria instantaneamente executado pelos seus pares. Noblesse oblige: a classe aristocrática era liberada de parte dos rigores morais cristãos na mesma medida em que pagava pela sua liberdade com a permanente oferta da própria vida em sacrifício pelo bem de todos.

(...) Ao contrário, junto com a liberdade vem o acesso a bens inumeráveis e a um padrão de vida que chega mesmo a ser superior ao da velha aristocracia – tudo isso a leite de pato. Ortega y Gasset notou, no seu clássico de 1928, La Rebelión de las Masas , que o típico representante da moderna classe média, o “homem massa”, era realmente um filhinho-de-papai, um señorito satisfecho que se julgava herdeiro legítimo de todos os benefícios da civilização moderna para os quais não havia contribuído em absolutamente nada, pelos quais não tinha de pagar coisa nenhuma e dos quais, geralmente, ignorava tudo quanto aos sacrifícios que os produziram.

Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais profundo e avassalador quanto menos conscientizado.

(...) O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si mesmo, mas está proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de suas culpas, e mais ainda de aliviá-las mediante a confissão religiosa e o cumprimento de deveres penitenciais.

(...) A culpa mal conscientizada, conforme a psicanálise demonstrou vezes sem conta, acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória projetada sobre os outros, sobre “o mundo”, sobre “o sistema”. O homem medianamente instruído do nosso tempo joga suas culpas sobre “o sistema”, fingindo para si mesmo que está revoltado pelo que ele nega aos pobres, quando na realidade o odeia por aquilo que esse sistema lhe dá sem exigir nada em troca. Não que o sistema seja isento de culpas; mas a mesma prosperidade geral que espalha os benefícios da civilização entre massas crescentes que jamais poderiam sonhar com isso nos séculos anteriores mostra que essas culpas não são de ordem econômica, mas cultural: o capitalismo não cria miséria e sim riqueza; mas junto com ela espalha o laicismo e o permissivismo, rompendo o equilíbrio entre o prazer e o sacrifício, necessidade básica da psique humana. Daí o aparente paradoxo de que o ódio ao sistema se dissemine principalmente – ou exclusivamente – entre as classes que dele mais se beneficiam materialmente.

(...) A tentação socialista aparece aí como o canal mais fácil por onde as culpas do filhinho-de-papai são jogadas precisamente sobre as fontes do seu bem-estar e da sua liberdade. Vejam essa meninada da USP, gente de classe média e alta, depredando uma universidade gratuita, e compreenderão do que estou falando: o que esses garotos precisam não é de mais benefícios; é de uma cobrança moral que restaure a sua sanidade. Mas, como os representantes do Estado são eles próprios señoritos satisfechos que também não compreendem a origem das suas próprias culpas, sua tendência é fazer dos jovens enragés um símbolo da sua própria consciência moral faltante; daí que lhes cedam tudo, num arremedo de penitência, corrompendo-os e corrompendo-se cada vez mais e precipitando uma acumulação de culpas que só pode culminar na suprema culpa da sangueira revolucionária. “Vivemos num mundo demente, e sabemos perfeitamente disso”, dizia Jan Huizinga na década de 30, pouco antes que o desequilíbrio da alma européia desaguasse no morticínio geral.

(...)Transcorridas quase oito décadas, a humanidade ocidental nada aprendeu com a experiência e está pronta a repeti-la. Hipnotizada pela lógica do desejo, que não enxerga cura para os males senão na busca de mais satisfações e mais liberdade, como poderia ela descobrir que seu problema não é falta de bens ou prazeres, mas falta de deveres e sacrifícios que restaurem o sentido da vida e a integridade da alma?

(...) Os capitalistas, os representantes do “sistema”, por sua vez, aceitam passivamente ser objeto de ódio e até se regozijam nele, na vã esperança de assim purgar suas próprias culpas; mas, como estas não residem onde as aponta o discurso revolucionário, cada nova concessão ao clamor esquerdista os torna ainda mais culpados e vulneráveis.

(...) Igor Caruso localizava a origem das neuroses não na repressão do desejo sexual, mas na rejeição dos apelos da consciência moral. O abandono da consciência de culpa não pode trazer outro resultado senão a proliferação de culpas inconscientes. E as culpas inconscientes necessitam de novos e novos bodes expiatórios, cujo sacrifício só as torna ainda mais angustiantes e intoleráveis.

Credo do Reacionário

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Eu não hesito em anunciar que sou um reacionário. Eu tomo com um profundo orgulho, na verdade. Não vejo mais razão em olhar para a frente, para um futuro desconhecido, ao invés de olhar para trás nostalgicamente para valores conhecidos e comprovados.

O termo "reacionário", na forma em que uso, não representa um conjunto de ideias definitivos e imutáveis. Representa uma atitude de espírito. (...)

As circunstâncias em que o termo "reacionário" é aplicado como um epíteto para fascistas e outras marcas do homem moderno - as quais um verdadeiro reacionário tem apenas desprezo - não é minha culpa.

Como um reacionário honesto, eu naturalmente rejeito o Nazismo, Comunismo, Fascismo e todas as ideologias relacionadas que são, de fato, um reductio ad absurdum da chamada democracia e do “povo no poder”. Eu rejeito os pressupostos absurdos do governo da maioria (...) e o falso conservadorismo dos grandes banqueiros e industrialistas. Eu abomino o centralismo e a uniformidade da vida em rebanho, o espírito estúpido racista, o capitalismo privado, bem como o capitalismo de estado (socialismo) que contribuíram para a ruína gradual da nossa civilização nos últimos dois séculos. O verdadeiro reacionário desses dias é um rebelde contra os pressupostos prevalecentes e um "radical" que vai até as raízes.

(...) O desastre final foi, na Revolução Francesa, diante do eterno dilema de escolher entre liberdade e igualdade, decidiu-se pela igualdade. (...) [Eles que] acreditavam que a torre da catedral deveria ser demolida porque essa estava acima do nível igualitário de todas as outras casas são símbolos do modernismo e do "progresso" perverso.

As massas, formando maiorias organizadas e abraçando ideias idênticas e odiando uniformemente todos aqueles que ousam ser diferentes, são o produto atual dessas várias revoltas. (...) O rebanho manda hoje em quase todos os lugares, com diversos meios e sob os mais diversos rótulos. É a essa tirania que eu me oponho.

Como um reacionário, acredito em liberdade, mas não igualdade. (...) Não aceito nem o igualitarismo degradante dos "democratas", nem as divisões artificiais do racistas, nem as distinções de classe dos comunistas e esnobes.

Seres humanos são únicos. Eles devem ter a oportunidade de desenvolver suas personalidades - e isso significa responsabilidade, sofrimento, solidão. (...). E há todos os tipos de coroas, a mais nobre delas, composta por espinhos.

(...) Eu acredito na família, na hierarquia natural dentro da família e no abismo natural entre os sexos. Eu amo os velhos cheios de dignidade e pais orgulhosos, mas também adoro crianças corajosas e justas. Em uma hierarquia o membro mais inferior é funcionalmente tão importante quanto o mais elevado.
(...) O abismo entre os homens e as mulheres me parece uma coisa boa também. Não há triunfo na construção de uma ponte sobre uma mera poça.

Eu gosto de pessoas com propriedades. (...) Eu detesto o capitalismo que concentra a propriedade na mão de poucos, não menos do que o socialismo que quer transferi-lo para o grande ninguém, uma hidra com um milhão de cabeças e sem alma: Sociedade. Gosto de pessoas com sua própria morada, com seus próprios campos, com seus próprios pontos de vista levando-os a ações independentes. Eu tenho medo da massa: os 51% que votaram em Hitler e Hugenberg; a multidão em frenesi que apoiou o Terror Francês; os 55% dos brancos dos Estados do Sul que mantiveram 45% dos negros "em seu lugar" (...).
Eu temo todas as massas que consistem de homens com medo de serem únicos, de serem pessoas; se importando mais com a segurança do que a liberdade, temendo seus vizinhos ou a "comunidade" mais do que Deus e suas consciências. Essas são pessoas que não exigem somente a igualdade, mas também identidade. Eles suspeitam de qualquer um que se atreve a ser diferente. (...) O homem moderno parece ter apenas um desejo: ver tudo moldado na sua própria imagem; ele detesta personalidade e tenta se assimilar. O que ele não consegue assimilar, ele extirpa. Toda a nossa época é marcada por um vasto sistema de nivelamento.

(...) Eu não tenho afinidade pelo "liberalismo" do século XIX, com seu materialismo grosseiro e a crença pagã na "sobrevivência do mais apto", ou seja, do mais inescrupuloso.

(...) O que nós reacionários queremos é liberdade e a diversidade. Nós acreditamos que existe uma força peculiar na diversidade. 

(...) Como um reacionário, gosto de patriotas; que ficam entusiasmados com a sua pátria, sua terra natal; e não gosto de nacionalistas, que ficam excitados com sua língua e seu sangue. O reacionário defende a ideia de solo e liberdade, ele luta contra o complexo de sangue e igualdade.

(...) Como um reacionário, eu possuo opiniões definitivas como também opiniões provisórias. "Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade" é um bom programa reacionário. Se eu considerar algo ser a Verdade, eu desconsidero toda opinião que contraria.  (...) Como reacionário, respeito qualquer pessoa que, com coragem e sinceridade, mantém visões errôneas, embora seguindo sua consciência. Eu tenho infinitamente mais respeito a um anarquista fanático catalão, ou por um Judeu Ortodoxo, ou por um Calvinista linha dura do que a um humanitário pseudo-liberal com uma veneração secreta a um estado onipotente. Um verdadeiro reacionário é um homem de fé absoluta e generosidade absoluta. Ele concilia dogma e liberdade.

(...) O que precisamos de ambos os lados do Atlântico é mais uma atitude pessoal. Colossialismo e coletivismo são o inimigo. O agricultor de Hindelang, por exemplo, deve antes de tudo, ter orgulho de ser o chefe de uma família, dono de uma fazenda e depois, de ser um morador de Hindelang. (...) [Mas] a identificação pelo "maior" com o "melhor" nos mostra a degradação expressa na adoração da quantidade, o nosso desprezo pela pessoa, todo o nosso desespero moderno pela singularidade humana.

(...) Eles [nós, os reacionários,] não acreditaram necessariamente em um Passado Glorioso em oposição a um Admirável Mundo Novo, mas viram as calamidades do presente, crescendo dos erros do passado, nas catástrofes do futuro. Estão isolados pela suspeita que os rodeia. São considerados desmancha-prazeres por não entrar na apologia universal do "Progresso". (...)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Falácia da Agregação

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia da Agregação' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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Aos seus olhos [dos revolucionários franceses], liberdade era bom, igualdade era bom e fraternidade era bom, pelo que a combinação era três vezes bom. É como dizer que lagosta é bom, chocolate é bom, ketchup é bom, pelo que lagosta em chocolate e ketchup é três vezes bom.

Robespierre prometeu fanaticamente o 'despotismo da liberdade', (...) uma contradição. (...)
Viram que o objetivo da igualdade exige a destruição da liberdade.

Objetivos que não podem ser promovidos em conjunto; isto é a falácia da agregação.

Os assaltos à liberdade com que os norte-americanos até aqui se deleitaram a realizar-se, em regra, em nome da liberdade. Por exemplo, quando a liberdade de um empregador de empregar quem ele desejar for eliminada por políticas de 'não discriminação', isso é justificado como 'atribuição de poder' e por isso 'libertação' de minorias anteriormente oprimidas. (...)
Não são como os direitos individuais; (...) São diretos de 'grupo' - direitos de uma pessoa tem em virtude de ser mulher, homossexual, ...

Este novo tipo de direito é inventado para justificar a discriminação em nome da não discriminação. É um modo de eliminar direitos individuais. (...) Vai contra o significado global de liberalismo na sua forma clássica, que visava proteger o indivíduo do grupo. (...)
Todavia, os liberais norte-americanos não tem dúvidas no seu espírito de que são eles, e não seus adversários conservadores, os verdadeiros defensores da liberdade individual no mundo moderno. O desejo de igualdade é, aos seus olhos, nada menos do que o desejo de tornar a liberdade igualmente disponível. (...)
E o único agente capaz desse ato em grande escala de atribuição de poder é o Estado.

O conflito ilustra o modo como liberdade e igualdade estão em guerra, bem como o modo como as pessoas tomam partido na guerra sem admitir a sua existência. (...)
Daí, poder-se ser 'liberal' e dedicar-se à destruição das liberdades que se intrometem no caminho da igualdade.

[Esquerdistas] Interpretam liberdade de uma nova maneira, como sendo concedida pela 'luta' pela igualdade. As liberdades defendidas por conservadores (...) são 'formas de dominação'. (...) A procura da liberdade na sua 'verdadeira forma' envolve a erradicação da dominação. (...)
Daí, ao mesmo tempo que faz campanha a favor da expansão do Estado na esfera pública, o novo tipo de vontade liberal fazer campanha a favor da exclusão do Estado da esfera privada.

Adam Smith via claramente que liberdade e moralidade são duas facetas da mesma moeda. (...) Uma sociedade livre (...) não é uma sociedade de pessoas libertadas de toda a restrição moral, pois isso é precisamente o oposto de sociedade. Sem restrição moral não pode haver cooperação, nem compromisso familiar, nem perspectivas de longo prazo, nem esperança de ordem econômica, quanto mais social.

Deste modo se molda a nova agenda social: o controle do Estado sobre todos os aspectos da vida pública; a total liberação na esfera privada. Se uma sociedade assim constituída consegue sobreviver e se consegue reproduzir-se são ainda questões em aberto (...). Todavia, a capacidade dos reformadores liberais de ignorar os sinais de decadência social (...) não constitui a mínima prova assinalável de que vivem num mundo de falsas esperanças.

Qualquer pessoa que tenha estudado o destino dos impérios e as dificuldades de estabelecer jurisdição territorial sobre comunidades que diferem em religião, língua e costumes conjugais sabe que a missão é quase impossível e ameaça constantemente soçobrar transformando-se em fragmentação, tribalismo ou guerra civil.

Todas as culturas concedem benefícios às pessoas que crescem em seu seio e as culturas que resistiram ao teste do tempo dão, por isso, prova das suas virtudes. Mas NÃO se segue que essas muitas formas do bem possam ser agregadas. (...)
O multiculturalismo não substituiu esse programa; destruiu-o pura e simplesmente.