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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Moral e a busca da Verdade

Há algum tempo (décadas?), a palavra ‘moralismo’ passou a ter uma conotação negativa. Essa interpretação faz parte da Guerra pela Linguagem, que, por exemplo, George Orwell tanto fala em 1984, e da Hegemonia Cultural, que Antonio Gramsci pregava. Passou a significar cagação de regra, algo antiquado, obsoleto. E, claro, não é isso.

Existem definições formais elegantes (conjunto de normas aceitas, conjunto de costumes,...), mas o ponto fundamental é que a moral é o elo, é a liga que deixa uma sociedade coesa. Não existe sociedade pacificada em que não haja uma base moral bem aceita e respeitada. É uma coisa construída ao longo do tempo e, justamente por isso, não é algo que ‘se impõe’. Mas, claro, a força de um movimento contrário, de uma ‘contra-base’ moral (que – notem – não é amoral, mas, sim, possui OUTRA base moral) pode enfraquecer a base moral da sociedade. Isso não deve terminar com uma ‘substituição da base moral’, mas sim, com um enfraquecimento da moralidade como um todo, constituindo uma sociedade não-coesa, cada um por si, cada um com seu porrete.
"Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete.” – Eros Grau
O encadeamento do argumento pode levar a pensar que qualquer base moral basta, desde que haja uma amplamente aceita. Mas não; isso é só um artifício de quem quer destruir a base moral existente. E daí vem a segunda parte do meu ponto: a busca da Verdade. Era isso que motivava os filósofos antigos e infelizmente foi substituído por um extremo relativismo recente: “nada é fato; tudo é opinião”. Isso é uma desgraça. É A DESGRAÇA.



Não se trata de carimbar que o que eu acho é Verdade e ponto. Não. Posso estar errado, você pode estar errado e, ao percebermos, mudamos de lado. Mas desistir da busca pela Verdade, como se não houvesse Verdade, como se qualquer coisa fosse uma verdade, isso é o fim de uma sociedade. Evito ser maniqueísta, mas sim, estamos diante de uma ladeira escorregadia. Ao aceitar uma pequena relativização, aceitamos a relativização completa e vamos querer tentar entender e ter empatia pelo erro. Podemos (/devemos) perdoar o pecador, não o pecado.
“Todavia daí não se segue que, se assim o quiser, deixará de ser injusto, passando a ser justo; do mesmo modo que um homem que está enfermo não ficará curado dessa maneira, embora possa ocorrer que um homem esteja doente voluntariamente. (...)O mesmo se dá com o injusto e o intemperante: no começo dependia deles não se tornarem homens dessa espécie, e, assim, é por sua escolha que são injustos e intemperantes. Agora, porém, que são assim, não lhes é possível ser diferentes”. – Aristóteles, em Ética a Nicômaco

Ou seja, existe sim uma base moral que vai levar uma sociedade para o Bem (pelo menos DESSA sociedade) e outras que não levarão.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A falácia da "linha de partida"

O Marxismo e sua "igualdade na linha de chegada" faliram. Só no Brasil e em mais uns 2 ou 3 países no mundo, isso ainda é levado a sério. Nenhum ser pensante ainda desconsidera a necessidade e a virtude do esforço.

A partir dessa decadência, a alternativa mais decente que surge à esquerda é a busca da igualdade na "linha de partida", embasada pela "Teoria de Justiça" de John Rawls, muito influenciado por Immanuel Kant. Grosso modo, são os social-democratas.
A ideia é cativante: como ser contra a "igualdade de oportunidades"? Pois bem, a realidade o é.

Normalmente associamos a desigualdade na linha de partida com desigualdade financeira. Entre outros, Michael Sandel, em seu "Justiça - O que é fazer a coisa certa?", expõe que existe uma outra grande desigualdade na partida: o talento nato. Ele usa o clássico exemplo de Michael Jordan: como "igualar" a linha de partida do Jordan com um outro moleque qualquer que queira jogar basquete profissional, por exemplo? O raciocínio leva à distopia de Harrison Bergeron (filme aqui): um gago no Jornal Nacional, uma bailarina com uma bola de chumbo no pé, um gênio com um headfone fazendo um barulho alto e chato para evitar que pense... Todos igualados na mediocridade.
  
O erro no argumento de exigir que todos "larguem do mesmo ponto de partida" é a comparação com a raia ao lado. A vida não é uma corrida de 100m; é uma maratona. A vitória não é chegar em primeiro; é apenas chegar. Ou nem isso; talvez seja apenas correr. E com isso não estou "desmerecendo a meritocracia". É necessário um baita esforço para (simplesmente) chegar. E será mais belo ainda se você conseguir entregar o bastão pra próxima geração num lugar à frente do que aquele que você recebeu, INDEPENDENTEMENTE da raia ao lado, numa corrida sem fim.

Nesse ponto do argumento, sem prejuízo da argumentação para ateus, permito-me uma passagem pelo Cristianismo (em especial, Cristianismo Puro e Simples, de C S Lewis): a quem muito é dado, muito será exigido. Um analfabeto que consegue alfabetizar seus filhos talvez tenha avançado muito mais na maratona do que um ricaço que vira professor e alfabetiza centenas de alunos. Cada um com seu talento, cada um com sua corrida.

O problema de querer igualdade na linha de partida é que a natureza simplesmente não é assim. Pode chamar de acaso, se assim preferir (eu chamo). Você pode até xingá-lo, mas não pode negá-lo. Nem culpar os sortudos por sê-los.

O maior inimigo do esquerdismo é a realidade.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Vida na Sarjeta, em especial 'E a faca entrou'

Trechos selecionados de A Vida na Sarjeta, de Theodore Dalrymple, especialmente do artigo 'E a faca entrou'.

“Fragrante destruição dos sólidos laços familiares nos mais pobres, laços que, pela mera existência, faziam com que um grande número de pessoas saísse da pobreza”.

“Os instrumentos para vencer a pobreza são sistematicamente negados aos pobres de hoje, ao passo que são marteladas justificativas para que permaneçam pobres. Essa verdadeira praga é baseada em ideologias que transferem para terceiros – sempre ‘os outros’ – a culpa pelos seus problemas, o que, sem dúvida, estimula vícios como a inveja, a revolta e o ressentimento”.

“Pessoas com vidas desprovidas de significados, já que não são incentivadas a se orgulharem de conseguir pagar a própria comida e a própria casa, como as gerações anteriores faziam. Em outras palavras, são deixadas ao deus-dará e sem nenhuma noção de responsabilidade, em um mundo relativista e extremamente carente de juízos de valor.”

“Retrata com clareza o quanto são erradas e nocivas as políticas que estimulam os pobres a esse comportamento autodestrutivo.”

“Se queremos de fato combater a pobreza, a primeira coisa a ser feita é tratar os pobres como seres humanos e não como boiada, dotá-los de senso de responsabilidade individual e social e apresentar a eles a importância dos valores morais tradicionais – como honestidade, trabalho, frugalidade e respeito ao próximo – que, infelizmente, vêm sendo progressivamente abandonados”.

“Alguns educadores, intelectuais e outros creem estar sendo amigos dos pobres ao justificar ou ‘entender’ esse comportamento autodestrutivo e ao estimulá-los a ter uma visão paranoica do mundo que os cerca”.

“Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não correm bem – muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos – pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina... Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode!” – William Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena II

[Sobre comportamentos autodestrutivos e círculos viciosos da 'subclasse']: “O determinismo econômico (...) dificilmente parece dar uma resposta. (...) O determinismo genético ou racial não é melhor. (...) O Estado previdenciário (...) pode ter sido a condição necessária para tal ascensão: tornou-a possível, não inevitável. (...) Mas o ingrediente adicional é encontrado no campo das ideias.”

“A frequência de locuções de passividade é um exemplo surpreendente. Um alcoólatra, ao explicar sua conduta quando bêbado, dirá: ‘A cerveja é muito doida’. Um viciado em heroína, ao explicar seu recurso à agulha, dirá, ‘tá tudo dominado pela heroína’, como se a cerveja bebesse o alcoólatra e a heroína se injetasse no viciado. Possuem uma função justificativa e representam a negação do agente e, portanto, da responsabilidade pessoal. O assassino alega que ‘a faca entrou’ ou que ‘a arma disparou’. O homem que ataca a parceira sexual alega que ‘ficou muito doido’ ou ‘perdeu a cabeça’, como se fosse a vítima de uma espécie de epilepsia. (...) Até a ‘cura’, é claro, ele pode continuar a maltratar (...) certo de que é ele, e não a parceira, a verdadeira vítima. Passei a ver essa desonestidade e autoengano como parte essencial do meu trabalho. Quando um homem diz-me, como explicação para seu comportamento antissocial, que ele se deixa levar facilmente, pergunto-lhe se alguma vez se deixou levar pelo estudo da matemática ou do subjuntivo dos verbos franceses. (...) O absurdo do que ele disse se torna aparente para ele mesmo. (...) mas existem algumas vantagens, psicológicas e sociais, decorrentes da manutenção dessa farsa.”

“Não muito tempo depois que os ~teóricos da criminologia~ propuseram a teoria de os criminosos reincidentes possuírem um desejo ~compulsivo~ pelo crime (...), um ladrão de carros, de inteligência limitada e de pouca educação, pediu-me que tratasse de sua ~compulsão~ de roubar carros e, ao não receber tal tratamento, é claro, via-se moralmente justificado para continuar a livrar os donos de carros de suas propriedades”.

[Sobre um relacionamento] “’Não deu certo’, dizem, e o que não deu certo foi o relacionamento, que concebem como algo possuidor de existência independente das duas pessoas que o compõem”.

“Revelar a origem dessa realidade, que é a propagação de ideias más, insignificantes e insinceras. (...) É importante lembrarmo-nos de que, caso haja culpa, uma grande parte é devida aos ~intelectuais~. Não deveriam ter sido tão tolos, mas sempre preferiram evitar-lhes o olhar. Consideraram a pureza das ideias mais importante que as reais consequências. Desconheço egotismo mais profundo.”

“Lamúria escusatória. (...) Fatalismo desonesto. (...) Fico tomado de surpresa pela pequeníssima parte que atribuem aos próprios esforços, escolhas e ações. (...) Descrevem-se como marionetes do acaso”.

[Como se a] “A vítima do esfaqueamento, no entanto, é que foi o verdadeiro autor da ação homicida: se ela não estivesse lá, ele não teria a matado.”

“O modo de o prisioneiro apresentar-se ao público muitas vezes guarda semelhança com o retrato que deles fazem os progressistas. É como se dissessem: ‘Vocês querem que eu pareça vítima das circunstâncias? Pois bem, para vocês serei vítima’”.

“Auto-engano (...) o orgulho e o amor-próprio não tem dificuldade de superar a memória. (...) A facilidade com que as pessoas rejeitam a responsabilidade por aquilo que fizeram – a desonestidade intelectual e emocional sobre as próprias ações – que aumentou enormemente nas últimas décadas.”

3 possíveis motivos:
  • Legião de pessoas cujas rendas e carreiras dependem da suposta incapacidade de outras pessoas
  • Ampla disseminação de conceitos psicoterapêuticos adulterados ou mal-interpretados: se a pessoa não conhece ou compreende os motivos inconscientes dos próprios atos não é verdadeiramente responsável por eles
  • Classes médias abarrotadas de culpa

“É bastante verossímil para abalar a confiança das ~classes médias~ que o crime é um problema moral e não um problema de disposição de ânimo.”

“O próprio modo de explicação oferecido pelos progressistas para o crime moderno – que parte das condições sociais direto para o comportamento, sem passar pela mente humana – oferece aos criminosos uma desculpa perfeita.”


“O comportamento antissocial não aumenta na proporção das desculpas criadas pelos intelectuais?”

“As pessoas, longe de se acharem extremamente afortunadas se comparadas a todas as populações anteriores, passam a acreditar que vivem nos dias atuais na pior das épocas e sob os mais injustos regimes.”

“A noção disseminada de que a desigualdade material é, em si, um símbolo de injustiça institucionalizada também ajuda a fomentar o crime. (...) Se a propriedade é um roubo, logo, o roubo é uma forma de justa retribuição. Isso leva ao desenvolvimento de um fenômeno extremamente curioso: o ladrão ético.”

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Trechos selecionados de "As Ideias Conservadoras"


Dois tipos de pensamento antirrevolucionário: (...) espírito moderado e (...) reação intolerante.
Se uma grande mudança é para ser feita nos assuntos humanos, as mentes dos homens adaptar-se-ão a ela, as opiniões e o sentimentos gerais confluirão para esse destino.
Uma tradição que foi capaz de evitar os males do radicalismo revolucionário ou do revanchismo reacionário – no fundo, uma tradição que pode se orgulhar de não ter sangue nas suas mãos.
O conservadorismo – ensina Michael Oakeshott – deve começar pelo presente: pela fruição e conservação desse presente.

A ideologia conservadora
Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos. (...) Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos homens que ainda estimam alguma coisa.
Disposição: (...) usar e desfrutar aquilo que está disponível, em vez de desejar ou procurar outra coisa. (...) Não porque eles sejam superiores a uma alternativa hipotética, mas, precisamente, porque eles não são uma alternativa hipotética. São reais, tangíveis. E a possibilidade de os perder em situações de mudança, e sobretudo de mudança violenta e repentina, afigura-se com uma provação fundamental. (...) Só abraçam entusiasticamente a mudança, a qualquer mudança, (...) aqueles que são estranhos ao amor e ao afeto.
Evitam com apreciável esforço a palavra ‘ideologia’. (...) Temperamento (...) Fé (...) Espírito (...) Instinto (...) Inclinação (...) DISPOSIÇÃO. (...) O conservadorismo apresenta uma dimensão existencial que é anterior, ou até superior, a qualquer ideologia política.
O conservadorismo político também transportará para a esfera da governança esse gosto pelo próximo, pelo suficiente, pelo conveniente – recusando a ‘felicidade utópica’ que é típica da atitude revolucionária.
Distinguir o conservador da sua caricatura habitual: o reacionário. O reacionário não será mais do que o ‘revolucionário do avesso’ (Anthony Quinton) (...), para uma felicidade utópica passada.
O pensamento utópico sempre projetou no passado ou no futuro a ‘solução final’ para as iniquidades que afligem o presente.
Um conservador tenderá a recusar essas fantasias (...): por um lado, a falácia de que os homens possuem uma natureza fixa e inalterável e que, por isso, desejam necessariamente as mesmas coisas e, por outro lado, a falácia (...) de que os valores mais caros à existência humana podem ser vivenciados na sua expressão máxima (a máxima liberdade, a máxima igualdade, a máxima fraternidade) sem possibilidade de conflito entre eles.
Conservadorismo não apresenta esse ‘ideal substantivo’. (...) Ausência de uma cartilha a priori.
[Conservadorismo pode ser] uma ‘ideologia’ que, ao contrário dos rivais, tenderá apenas a emergir quando ‘os fundamentos da sociedade são ameaçados’. (...) Uma natureza vigilante e reativa.
O conservadorismo é uma ‘ideologia posicional’. (...) Procura enfrentar uma necessidade histórica específica. (...) ‘Ideologia de emergência’.
Os revolucionários, alicerçados em doutrinas políticas abstratas sobre os ‘direitos dos homens’, encaravam a comunidade como se esta fosse uma carta branca para as suas visões de perfeição. (...) Quando está em causa a perfeição da humanidade, faz parte do processo revolucionário não questionar a desmesura dos meios e a ferocidade com que eles são aplicados. O prêmio final seria demasiado precioso para inspirar condutas de moderação. (...) [E aí] ‘Os meios criminosos, uma vez tolerados, são rapidamente os preferidos’.

Imperfeição humana
Primeiro princípio estrutural do conservadorismo: a imperfeição humana ["restrito" de Sowell]
Não é necessário apelar para a Cidade Celeste de forma a explicar as imperfeições da terrestre. [de forma geral, princípios conservadores podem ser anteriores aos religiosos; não precisa ser religioso para ser conservador].
Desautorizam "projetos de mudança grandiosos e abstratos levados a cabo por pensadores isolados das realidades práticas da vida política".
A complexidade dos fenômenos sociais não pode ser abarcada, muito menos radicalmente transformada rumo à perfeição, por matéria tão precária [o homem]. Não se pretende com isso dizer que a ideologia conservadora nega a possibilidade de melhoria das condições terrenas - isso seria, no mínimo, historicamente obtuso. Porque a crítica conservadora não poderá ser confundida com uma crítica antirracional.
A crítica conservadora lidará não com a razão, mas com o racionalismo, entendido com uma subversão da razão, (...) com a ambição desmedida de atribuir à razão a tarefa hercúlea de construir e reconstruir a sociedade humana de forma radical e perfeita. Não é a razão per se que inspira a crítica conservadora; é, tão só, a arrogância do racionalismo moderno e a sua ideia nefasta de "possibilidade infinita" ["irrestrita" de Sowell]. (...) própria de quem se deixa embriagar pela "filosofia da vaidade" - a vaidade do otimismo racionalista.
Consequências imprevistas da ação social: (...) óbvias limitações epistemológicas do agente político, que muitas vezes erra na análise da situação que se lhe apresenta, ou na escolha do melhor curso de ação a seguir ou na forma como executa essa ação.
Sabemos menos do que pensamos e erramos mais do que devemos. "Sabe pouco da humanidade aquele que não concede um desconto à nossa comum e inevitável fraqueza".
Consequências fortuitas: (...) conhecimento que não possuímos porque não o PODEMOS obter antecipadamente.
E, mesmo que o fossem, como garantir que existe uma ligação direta entre aquilo que se deseja, por mais nobre que seja, e aquilo que se obtem no final? Não haverá sempre a possibilidade de um lamentável abismo entre as (melhores) intenções e as (piores) conclusões?
Espera-se de um estadista que ele possa exibir certas virtudes que estão ausentes nas condutas de revolucionários. Humildade e prudência.
Não se pretende sustentar que a posição conservadora remete toda e qualquer ação humana para o inevitável fracasso. O ceticismo conservador não é uma forma de fatalismo, nem a rigor de pessimismo. (...) Há consequências imprevistas (e imprevisíveis) que podem ser indesejadas (e indesejáveis). (...) A política não é um jogo de cassino.
Avançar sempre "sensível à sua própria cegueira" e com um apurado "sentido de sua própria fraqueza". (...) Terá em conta o inescapável papel das tradições e das circunstâncias.

O sentido da realidade
"Por mais absorto que um general esteja na elaboração das suas estratégias, às vezes é importante levar em consideração o inimigo". (...) A importância das circunstâncias.
Desautorizar esse violento repúdio ao presente que parece definir a teoria e prática de revolucionários ou reacionários.
"Nada de universal pode ser racionalmente afirmado sobre qualquer assunto moral ou político".
Essa capacidade para entender a realidade tal como ela é e não como deveria ser à luz dos nossos projetos, desejos ou sentimentos particulares - o estadista "realista" não surge perante a comunidade "possuído pelo seu brilhante e coerente sonho" e interessado em submeter todos a esse sonho.
Legou ao pensamento conservador sua maleabilidade. [não flerta com "incoerência"?]
Burke vislumbrou na Revolução Francesa o seu caráter perfectibilista e destrutivo (ou destrutivo porque perfectibilista).
Cada situação, cada circunstância, convida a uma resposta particular.
O conservadorismo britânico se orgulha por adotar inovações de esquerda quando elas mostram a sua validade perante os testes da experiência e as necessidades do momento.
A maleabilidade às circunstâncias (...) será a expressão mais evidente do seu pluralismo político.
Um conservador pluralista tenderá sempre a negar prioridade a um único valor ou a um conjunto de valores sobre os demais. [no momento, isso me deu um grande nó; não aceitei fácil. Mas, principalmente após Kirk, entendi melhor].
Admitindo, porém, que outras comunidades podem abraçar outros valores. [não precisa impor "sua verdade"; Kirk também bate muito nisso quando critica ideia americana de impor "sua" democracia pro resto do mundo].
Não é função do estadista conceder a determinados valores, sempre e em qualquer contexto, primazia sobre os restantes.
Uma vez afastada a "falácia agregadora" de que fala Scruton (...), ao estadista cabe a função mais modesta de escolher e equilibrar valores múltiplos e concorrentes. (...) "A total liberdade para os lobos é a morte para os cordeiros".
Conforme relembra Scruton, perguntar qual a melhor forma de governo em abstrato convida sempre à atitude do ateniense Sólon, que devolveu a pergunta com novas perguntas: "Governo pra quem? E em que tempo?".
[É claro que] A maleabilidade poderá abrir-se à crítica recorrente de que o conservadorismo não será mais do que uma forma de relativismo cultural e até ético...
Concepção universal de natureza humana que indicará não aquilo que os indivíduos devem fazer, mas o que eles não devem nem podem fazer.

Os testes do tempo
Só aqueles que nada estimam podem abraçar entusiasticamente a mudança, qualquer mudança, em qualquer circunstância.
A duração não é valiosa para aqueles que pensam que pouco ou nada foi feito antes do seu tempo. Pelo contrário: a antiguidade dessas tradições e instituições era um motivo suplementar para que elas fossem inapelavelmente destruídas. Como se essa antiguidade fosse expressão de um defeito intrínseco.
Parece existir no moderno pensamento liberal a ideia radical de que todas as tradições são "invenções" (...), que podem ser "reinventadas", substituídas ou pura e simplesmente destruídas.
Mas as tradições que importam a um conservador não são apenas as que resultam ou resultaram de um ato consciente de criação humana. (...) porque sucessivas gerações encontraram nelas vantagens que aconselharam a sua manutenção.
Obviamente que, nessa atitude, o conservador sabe que nem todos, no tempo presente, podem desfrutar desses arranjos - o conservador não é um personagem de Voltaire, acreditando que vive no melhor dos mundos possíveis.
O conservador não é estranho a situações de pobreza e exclusão que impedem muitos seres humanos de beneficiar do patrimônio moral e institucional de uma sociedade. Porém, a única forma de estender futuramente esse patrimônio aos mais desfavorecidos não significa, logicamente, destruí-lo. Significa, antes pelo contrário, preservá-lo (e às vezes reformá-lo) de modo que as gerações vindouras possam ter "uma casa, e não uma ruína".
As tradições (...) permitem ao indivíduo (...) entrar na "grande conversa da humanidade".
As tradições que cobrem a "natureza nua" dos indivíduos com as vestes do costume e do hábito.
Alargar os horizontes limitados do estadista presente, alertando-o para a sua circunstancial pequenez humana.
Relembrar aos vivos a sua natureza transitória num mundo que não lhes pertence, exceto por empréstimo.
"Sabedoria sem reflexão" - uma forma de designar os preconceitos que todos temos e de que todos precisamos.
Acontece que os "preconceitos" que interessam a um conservador não podem ser entendidos, ou confundidos, com meras ideias irracionais sobre determinados comportamentos, minorias ou indivíduos - o sentido atual e rasteiro do termo. Se todas as palavras também tem uma tradição, importa recordar que "preconceito" deve ser entendido no sentido clássico, ou seja, como praejudicium - um precedente ou um julgamento baseado em decisões ou experiências passadas que, pela sua validade comprovada, informam decisões ou experiências presentes e futuras. (...) válidos porque testados.
As tradições são também o ponto de partida para qualquer atitude reformista. (...) Uma sociedade incapaz de conservar é uma sociedade incapaz de se reformar.

A reforma prudente
"Para que mudar, se as coisas já estão tão ruins?" [Da piada] se conclui que a inação será sempre preferível a qualquer ação inevitavelmente destrutiva. (...) Levou demasiado longe uma caricatura.
[Críticas aos conservadores:]
"Tese perversa" (:...) acabarão sempre por gerar perversamente o oposto dos objetivos que se propunham alcançar.
"Tese fútil" (:...) serão apenas "superficiais" (mudanças de fachada, digamos).
"Tese ameaçadora" (:...) para que mudar se as coisas não estão tão ruins?
A revalorização das "consequências fortuitas" não equivale à afirmação de que tudo resultará necessariamente no seu contrário. (...) Os resultados de qualquer mudança apresentam sempre uma margem de imponderabilidade que tanto pode frustrar o agente, como contentá-lo muito além das suas melhores intenções originais. (...) Há acasos felizes.
Outras ideologias rivais (e racionalistas) defendem com preocupante otimismo que tudo está condenado ao sucesso desde que os homens tragam os problemas da sociedade perante o tribunal último de uma "razão clara e distinta".
Um organismo vivo, dotado de vida própria, ou seja, de evolução e transformação.
Reconhecendo que a mudança é inevitável em qualquer sociedade composta por seres vivos, Disraeli afirma que ela não deve proceder de doutrinas gerais ou princípios abstratos (e arbitrários). As mudanças devem fazer-se por referência (e em deferência) "às maneiras, aos costumes, às leis, às tradições de um povo".
Um princípio seguro de conservação e um princípio seguro de transmissão, sem excluir um princípio de melhoria. Conservação, transmissão, melhoria: a ordem dos fatores não é arbitrária.
"Um estado sem a possibilidade de alguma mudança é incapaz de se conservar", diz Burke. (...) A reforma é necessária para se preservar (e melhorar) o que se encontra em risco.
A importância preventiva da reforma para que se evitem situações potencialmente revolucionárias. (...) A reforma será especialmente relevante para um conservador avesso ao radicalismo político.
É importante estender quantitativamente essas condições, de forma a evitar que um elevado número de indivíduos atue radicalmente porque nada tem a perder e tudo a ganhar. (...) "Para que possamos amar o nosso país, nosso país deve ser amável".
Sobre as mudanças exógenas, o conservador deve ter em conta que a inovação traz sempre uma perda inevitável e um ganho possível, o que significa que cabe a quem propõe a referida mudança mostrar claramente as vantagens da inovação sobre as certezas da tradição.
A inovação deve partir de uma situação concreta, não de mero desejo abstrato. Deve ser resposta a um defeito preciso. Deve ser pequena e parcelar. Deve operar-se lentamente e ser acompanhada passo-a-passo.
Fazer uma distinção, nem sempre fácil, entre as imperfeições toleráveis e as imperfeições intoleráveis (...), distinguir coisas acidentais de causas permanentes, na medida em que nem todas as irregularidades constituem um "desvio total".
"A ciência de construir uma comunidade ou de renová-la ou de reformá-la é como qualquer outra ciência experimental, algo que não pode ser ensinado a priori" - Burke
As reformas atempadas [prudentes] são feitas "com o sangue frio" e não precipitadas por "estados de inflamação", típicos da mentalidade revolucionária e destrutiva.
Capaz de separar o todo da parte em falta, reformando-se a parte em falta sem alterar a substância do todo.
Karl Popper - engenharia "parcelares": (...) avaliar no prazo devido as consequências mais tangíveis de cada ação reformista antes de se avançar para uma nova ação do mesmo tipo.
Imperfeição intelectual (...), humildade política, (...) afastar do horizonte da espécie humana qualquer ambição perfectibilista ou utópica.

A "sociedade comercial"
A direita nunca vislumbrou no capitalismo o tipo de vícios desumanos que a esquerda se especializou em detectar e denunciar. Acontece que, para espanto desses mesmos espíritos, seria possível escrever um longo manual anticapitalista só com autores conservadores.
É possível articular uma defesa conservadora da "sociedade comercial"sem haver qualquer contradição entre os termos.
Se a função de um governo é respeitar, por princípio, a natureza humana, importante é também que ele respeite uma das propriedades fundamentais dessa mesma natureza: (...) propensão para negociar, permutar ou trocar uma coisa pela outra.
A vontade e a necessidade humanas de mercadejar eram das mais "autênticas" paixões naturais, e só um poder político tirânico podia suspendê-las ou destruí-las.
O conservadorismo portanto deve começar por respeitar a natureza dos homens, (...) num sistema em que são as escolhas naturais e livres dos indivíduos, e não a imposição autoritária de um padrão único de preferências ou comportamentos.
"Os resultados econômicos [do mundo ocidental] são melhores porque a filosofia moral é superior. É superior porque começa pelo indivíduo, pela sua singularidade e pela sua capacidade de escolha." - Thatcher
"Capacidade de escolha" parece colidir com "legisladores da humanidade". (...) O capitalismo  não parece despertar o mesmo fervor que outros ideais econômicos ou éticos. Não existe uma dimensão "transcendente" no capitalismo.
Um conservador valoriza uma "sociedade comercial" , não por motivos transcendentes - antes por motivos empíricos e imanentes. (...) A "sociedade comercial" funciona. Funciona duplamente: na criação e na distribuição de riqueza e, além disso, como expressão das livres aspirações humanas.
O mercado livre, mais do que uma ameaça a tradições estabelecidas, deve ser visto com uma tradição estabelecida (...) sobreviveu aos sucessivos "testes do tempo". (...) "ordem espontânea" (...) emergiu natural e espontaneamente pela interação livre e obviamente incontrolada dos seus diferentes elementos.
A mentalidade monista do intelectual secular convive mal com indivíduos que procuram livremente os seus fins de vida sem atenderem às recomendações paternalistas e tantas vezes autoritárias de uma elite política, filosófica ou religiosa.
O respeito pela liberdade das escolhas humanas não pode ser confundido com uma reverência acrítica a qualquer resultado.
A imperfeição humana que define os homens determinará muitas vezes lamentáveis condutas - e lamentáveis consequências. (...) Ninguém celebra a liberdade de um louco que fugiu de sua cela para aterrorizar a vizinhança. (...) Sublinhar a impossibilidade de aferirmos a qualidade de um valor apenas tendo em conta a "nudez e o isolamento da abstração metafísica". [talvez uma boa resposta à 'maleabilidade de valores']
Será também aconselhável (...) que o açougueiro, o cervejeiro e o padeiro exibam certas virtudes que o mercado tende a reconhecer e a premiar. (...) Valores como disciplina (e autodisciplina), confiança (e auto confiança), honestidade. (...) A moralidade dos mercados. "Viver numa economia de mercado encoraja certas formas de comportamento virtuoso".
E quando esse comportamento não é virtuoso? (...) Questionar se (...) as falhas morais são anteriores a qualquer participação no sistema e que podem igualmente emergir em contextos exteriores ao próprio mercado.
Imputar ao mercado comportamentos reprováveis do ponto de vista ético mais não é do que um lamentável expediente para desculpabilizar moralmente os indivíduos. (...) Convém não desprezar a influência prévia que as famílias, as escolas, as igrejas e todos os restantes "pequenos pelotões" desempenharam (ou não) na formação moral de um caráter. (...) O que somos dentro do mercado depende do que fomos (e somos) fora dele.
Uma lembrança especialmente importante para os herdeiros libertários de Adam Smith (... :) o Estado é a mais importante instituição para o bom funcionamento de uma "sociedade comercial". Porque só o Estado garante a defesa da paz e da ordem; a construção onerosa de grandes infraestruturas que não podem depender apenas do voluntarismo da iniciativa privada; e a administração independente da justiça, capaz de defender a propriedade privada, o respeito pelos contratos firmados ou a punição de crimes e abusos cometidos.
"O governo também tem o claro dever de ajudar a cuidar dos doentes e dos velhos e de providenciar uma rede de proteção para todos aqueles que, sem culpa alguma, caem no desemprego, na pobreza e na privação." - Thatcher

Conservadores ou monomaníacos: uma conclusão
Ignorância ou má-fé (...) "Conservador" e "fascista" são termos incompatíveis entre si. (...) Fascismo, assim como o comunismo, adquire contornos inapelavelmente revolucionários e utópicos.
A ação revolucionária, pelo contrário, obedece antes a um "princípio de preguiça": a preguiça de quem é incapaz de pacientemente estudar e reformar a comunidade real, optando antes por "atalhos" e pelas "facilidades falaciosas" da destruição e recriação totais.
O conservadorismo, como ideologia reativa que é, define-se pela sua atitude geneticamente antiutópica.
Pela defesa da imperfeição intelectual humana perante a complexidade e as contingências com que nos confrontamos no ato de governar; pelo reconhecimento das diferentes concepções do bem que definem as sociedades abertas, democráticas e pluralistas; pelo respeito às tradições úteis e benignas que sobreviveram aos diferentes "testes do tempo"; pela apologia de uma atitude reformista que seja capaz de evitar a degradação do "edifício" que se procura conservar; e pela valorização e proteção de uma sociedade comercial.
Desautorizar a procura por ideais utópicos (...) porque (...) assentam na arrogância própria de quem se considera onipotente e onisciente ignorando "a sua própria cegueira".
O que move Burke é a perigosa ideia de "plasticidade" do mundo e da natureza dos homens, como se ambos pudessem ser objeto de transformação radical.
Modesto e prudente.
Não cabe ao poder político decidir a hierarquia de valores sob a qual todos os indivíduos terão de viver as suas vidas. Porque são os indivíduos que vivem essas vidas. [não abre brecha pra falar que aborto é uma questão pessoal, então? Poder político pode impor valor da vida como primazia?]. (...) Confronto com outras tradições conservadoras de natureza monista, ou seja, defensores da aplicação de um valor ou de um conjunto de valores absolutos.
"Uma moralidade mínima que proíbe o homicídio, a agressão, o roubo e a mentira é igualmente aceita por liberais e tradicionalistas". [isso já não é uma hierarquização?]
O reconhecimento de uma natureza humana comum será também uma forma de repetir a velha máxima de que, em cada destino amargo, poderia também estar o meu destino.
Definir a específica (e limitada) vocação de um governo: (...) sobretudo aquilo que ele não pode nem deve fazer.
O que um governo conservador não pode nem deve fazer é "impor atividades substantivas" sobre terceiros, como se a vida alheia pertencesse a um dono sem rosto.
Para um conservador, o imperativo da continuidade é mais importante do que a promessa de que algo irá triunfar.
É perfeitamente possível ser um conservador em política e um radical em todo o resto.
Eis talvez o mais importante princípio de uma sociedade política tolerável: evitar que o poder seja exercido por monomaníacos [radicais].

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primum non nocere

Em um dos rascunhos públicos para seu último livro Antifragile, Nassim Taleb argumenta:

Há também o elemento do engano associado com o viés de intervenção, acelerado em uma sociedade de profissionalização. É muito mais fácil vender um "Olha o que eu fiz por/para você" do que um "Olha o que eu evitei por/para você".
Eu procurei na história por heróis que se tornaram heróis por aquilo que NÃO fizeram - é difícil de observar "não-ação"; não pude facilmente encontrar nem na minha memória nem nos livros. O médico que se abstenha de operar uma coluna (uma cirurgia muito delicada e gratificante), dando a chance de curar sozinha, não será recompensado ou julgado tão favoravelmente como o médico que faz a cirurgia que parece indispensável, trazendo [um falso] alívio para o paciente ao expô-lo a riscos e grandes recompensas financeiras para si mesmo. (...). O gerente corporativo que evitou uma perda não será facilmente recompensado. [tradução livre].
 A sabedoria milenar já avisa: Primum non nocere. First do no harm.

Eis, na verdade, um dos pilares da disposição conservadora: prefiro o mal que conheço ao mal que não conheço.

O fenômeno social que acontece em São Paulo, o haddadismo (só o Brasil mesmo pra ter imprensa governista e torcida organizada pra prefeito...) é a antítese disso. Nem os integrantes da TOFH (Torcida Organizada Fê Haddad, uma homenagem à zambininha) julgam como 'boas' as intervenções feitas em São Paulo. O único argumento é 'ainh... pelo menos ele fez alguma coisa...'.

Pois é. Sempre dá pra fazer alguma coisa. E piorar.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O que li em 2013

A Revolta de Atlas 1 ✰✰✰✰
O 2º livro mais influente nos EUA (só atrás da Bíblia) é muito bom. É uma homenagem ao self-made man. Ayn Rand conta a história de um pequeno grupo de empresários que quer ganhar dinheiro 'fazendo as coisas acontecerem' nos EUA. O pano de fundo é o libertarianismo (deixa rolar!) versus o keynesianismo (mão pesada do governo controlando a economia). Mas dá pra encarar como algo mais simplista: os que querem desatar os nós versus os que querem apertar os nós ainda mais. 
(Não estou reduzindo as citadas escolas econômicas a esses 2 pontos; até porque a visão de Rand é bem parcial e extremamente caricatural). Gostei da primeira parte da trilogia.

O que o dinheiro não compra ✰✰
Gosto muito do autor, Michel Sandel, pelo famoso curso 'Justice - the right thing to do' (disponível online) e respectivo livro sobre o assunto. Mas acho que ele erra a mão um pouco nesse 2º livro. A ideia de reforçar a importância das questões morais no campo político é importantíssima, mas ele exagera.



Quando a maioria pensa da mesma maneira, muito provavelmente estará errada. O livro conta histórias de efeito manada (pro lado errado, claro) e lista uma espécie de 'técnicas' para conseguir se blindar. Opinião pública não é sinônimo de verdade (muito pelo contrário). Foi escrito em 1953. Bem bom!



O Príncipe ✰✰✰
'Os fins justificam os meios' não está escrito ipsis litteris na obra de Maquiavel mas claro que, ao descrever - baseado em sua larga experiência - os modos como os governos (principados) são conquistados e mantidos, ele deixa explícita essa lógica. Mas menos como um conselho ou um pensamento próprio, e mais pela observância de como as coisas são de fato. Também gostei. Completou 500 anos em 2013, como destacou João Pereira Coutinho nessa coluna. 

A mais pura verdade sobre a desonestidade ✰✰✰✰
Sou um fã de Dan Ariely. O 3º livro do economista comportamental de Duke também é muito bom. Com uma série de testes controlados, ele desmonta a tese do 'crime racional' (pela qual, trapacearíamos apenas por um cálculo entre o benefício da trapaça e o custo de ser pego). Ele testa influências mais 'irracionais' - como simples evocação à moralidade, parceria, esgotamento, criatividade, etc. - no efeito (e no montante) da trapaça. Livro muito bom.

Crime e Castigo ✰✰✰✰
Outra obra prima de Dostoievski, com reflexões sobre o acaso, os impulsos, a (auto)mentira, a bagunça entre o 'bem' e o 'mal', o 'certo' e o 'errado' e, principalmente, a angústia (pra se tolerar?) em que vive o protagonista (e, claro, todos nós).




Ser conservador ✰✰✰✰
Um pequeno manifesto do clássico pensador conservador Michael Oakeshott. Excelente.








Status Anxiety ✰✰✰✰✰
Meu primeiro contato com Alain de Botton foi assistindo a essa ótima palestra TED sobre noção de sucesso e meritocracia. Estive presente quando se apresentou em São Paulo, pelo Fronteiras do Pensamento, falando sobre as virtudes da religião, mesmo para ateus (como ele). Depois, a seqüência do The School of Life me pareceu meio embromation. Nesse livro, acho que ele acerta em cheio falando sobre o maior drama da atualidade: a angústia. Discorre sobre 5 causas (falta de amor, expectativas, meritocracia, esnobismo e dependência) e 5 possíveis escapatórias/proteções (filosofia, arte, política, religião e boemia). Fiz uma resenha aqui. 

Human Transit ✰✰✰✰✰
Jarret Walker sintetiza as principais ideias sobre as quais já escreve em humantransit.org. No livro, fala sobre as 7 demandas de um bom transporte público, sobre linhas e loops, paradas e estações, obstáculos e atrasos, tarifas, os trade-offs entre cobertura versus quantidade de passageiros, entre conexões versus complexidade e, principalmente, sobre sua bandeira principal: a necessidade de maior freqüência entre os ônibus/trens. Considero um livro simplesmente necessário para quem quiser discutir (e gerir) transporte público, mobilidade e urbanização.

Foi um imenso prazer conhecer Roger Scruton. O filósofo conservador apresenta 7 falácias utilizadas pelos 'otimistas inescrupulosos' (o eufemismo que ele utiliza para esquerdistas) e algumas conseqüências a partir delas. Resenhei aqui. 'Meu' melhor livro do ano.




Como viver ✰✰✰
Sarah Bakewell faz uma biografia de Montaigne, apresentando as principais ideias do filósofo, com estrutura semelhante à sua principal obra ('Ensaios'), ou seja, pensamentos livres, sem uma organização clara ou pré-definida. Interessante.
(Exatamente hoje, saiu uma resenha no BrainPickings)


Capitalismo de laços ✰✰✰✰
O doutorado do professor Sergio Lazzarini virou um livro no qual ele disseca a estrutura de poder no Brasil, passando pela abertura econômica do Collor, as privatizações de FHC e as aberturas de capital no período Lula. Muda-se tudo para não se mudar nada: o Estado continua sendo o principal player econômico, cercado de 'amigos' cada vez mais próximos. Também considero uma leitura fundamental para discussão econômica aqui no Brasil.

Com uma escrita irreverente (até demais), meio no estilo 'Guia dos Curiosos', o que mais me chamou a atenção no livro (e - confesso - me deixou um tanto desanimado) foi confirmar que a história é contada pelos vencedores ou, pior, que pode ser mudada ao longo do tempo, pela repetição sistemática de algumas mentiras.


O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota ✰✰✰✰
Gostei MUITO dessa seleção de artigos de Olavo de Carvalho, o principal filósofo brasileiro conservador vivo. A esquerda e grande parte dos 'cults' das redes sociais amam odiar Olavo. Mas é inegável seu talento na escrita e argumentação (embora, claro, eu não concorde sempre) e sua capacidade de estimular o conhecimento.


A Rebelião das Massas ✰✰✰✰✰
Ortega y Gasset concluiu o livro em 1930, mas serviria perfeitamente pra analisar as manifestações do ano passado. O conceito de que mais gostei foi sobre o equilíbrio (instável) da nossa sociedade: forças que se acumularam ao longo do tempo e hoje parecem imperceptíveis para uma geração de 'señoritos satisfechos' que acham que o estágio atual de civilização é dado pela natureza e que não exige cuidados constantes. Uma massa mimada que usufrui dos benefícios do mundo atual sem ter que enfrentar sacrifícios para sua conquista. (Aliás, Olavo de Carvalho também fala disso em um texto. Selecionei alguns trechos aqui)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

As vantagens do pessimismo

Faço uma resenha do livro As Vantagens do Pessimismo.
Foi minha estreia na obra do filósofo conservador Roger Scruton. E gostei muito.

O livro é, em linhas gerais, uma defesa do princípio da prudência e, assim, um alerta aos perigos da 'falsa esperança', uma crítica aos 'otimistas inescrupulosos' (o eufemismo que ele usa para os esquerdistas).

"Os otimistas inescrupulosos acreditam que as dificuldades e as desordens da espécie humana podem ser vencidas por um ajustamento em grande escala: basta inventar um novo arranjo, um novo sistema, e as pessoas serão libertadas da sua prisão temporária para um reino de sucesso."

"O único melhoramento que está sob nosso controle é o melhoramento de nós próprios."

Ele explica 7 falácias utilizadas por esses 'otimistas' e, em seguida, apresenta algumas 'defesas pela verdade'.

A primeira falácia é a da Melhor das Hipóteses. O esquerdista mira o ideal e não se preocupa com um 'plano de contingência' caso a 'ideia' não dê certo, ou seja, não avalia todos os riscos para saber se consegue bancar a pior das hipóteses (como um conservador o faz).

A falácia seguinte é a do Nascido Livre. O autor explora o conceito de liberdade, associando-o aos conceitos de responsabilidade e reciprocidade e diferenciando-o da simples 'ausência de restrições'. Liberdade inclui respeitar o próximo e depende dos contextos culturais. Um exemplo significativo que ele utiliza é o desastre da educação a partir da falta de disciplina do 'desconstrucionismo', que usa justamente o conceito distorcido de liberdade.

Em seguida, no capítulo sobre a Falácia Utópica, ele evidencia os riscos de colocar as fichas numa utopia e como, paradoxalmente, as utopias se fortalecem pela sua inexeqüibilidade.

"A mente utópica é uma mente moldada por uma moral particular e uma necessidade metafísica que leva à aceitação de absurdos não a despeito da sua absurdidade mas por causa dela."

Na Falácia da Soma Zero há o pano de fundo para o eterno confronto criado pelos esquerdistas entre opressores vs oprimidos (com os atores se modificando; a versão atual é pobre x rico). Não aceitam a situação indesejada como um 'fato da realidade'; sempre acham que foi causado por outrem.

A Falácia do Planejamento é o arcabouço teórico para coletivismos e Estados grandes. Os otimistas inescrupulosos acreditam que uma meia-dúzia de Iluminados terão as soluções para os problemas do mundo e, assim, desprezam a sabedoria cotidiana das micro-relações criadas ao longo da história. Não percebem que as soluções não são impostas, mas descobertas ao longo do tempo.

A penúltima, a Falácia do Espírito em Movimento, tenta nos convencer que o Zeitgeist, o espírito do tempo, praticamente 'nos obriga' a aceitarmos as mudanças, quase que abrindo mão de nossas liberdades e individualidades. Os otimistas inescrupulosos se enganam (e tentam nos enganar) ao associar o progresso científico a um eventual 'progresso moral ou de costumes'. Scruton pontua que nada garante que uma geração será melhor que a anterior do ponto de vista moral ou de costumes ou de cultura... (ao contrário da ciência).

"A falácia de ter uma visão retrospectiva de uma coisa que ainda não aconteceu tornou-se parte integrante do pensamento progressista."

Por fim, com a Falácia da Agregação, os esquerdistas tentam 'somar' conceitos que costumam ser concorrentes, como no exemplo clássico de liberdade x igualdade.

Em seguida, Roger Scruton expõe algumas estratégias através das quais os esquerdistas utilizam as falácias apresentadas.

Diante do fracasso das soluções propostas pelos esquerdistas, a desculpa é sempre que não foram 'longe o suficiente'. Invertem o ônus da prova: dizem que os conservadores teriam que provar por que a dinâmica atual ('status quo'?) é melhor que o 'melhoramento' proposto por eles, como se a simples sobrevivência à prova do tempo já não fosse prova suficiente da funcionalidade (vis a vis a 'boa intenção' da ideia deles).

"O senso comum também diz que um costume que sobreviveu à prova do tempo tem pelo menos isso para dizer a seu favor: que não é disfuncional."

Outra estratégia é a criação de falsos peritos (em assuntos em que simplesmente não há peritos). Uma retórica embutida de sociologia amadora e dá-se crédito a qualquer um.

Também costumam transferir a culpa, sugerindo que o simples êxito já seja prova suficiente para condenação. Um exemplo é rotular de odioso quem sofre o ódio. Nesse contexto, costuma-se criar bodes expiatórios.

Tentam ser herméticos, com discursos confusos, acusando ignorância de quem não concorda. (cita trechos de Marx e Althusser como exemplo)

O autor, então, imagina um mundo do jeito que os esquerdistas querem: com ausência de restrições, todos iguais, sem instituições, com soma zero (vive-se ou morre-se)... e chega ao nosso passado tribal! Supõe, então, que esses impulsos esquerdistas talvez sejam resquícios dos nossos antepassados.

"Leva a uma conclusão algo deprimente, que é a de que as falácias que identifiquei nesse livro como subjacentes às tolices do nosso tempo não são novos acrescentos ao repertório da loucura humana mas os resíduos das tentativas honestas dos nossos antepassados de endireitar as coisas."

Conclui dizendo que a vida civilizada não deve nos dizer o que fazer, mas o que NÃO fazer uns aos outros. Lembra que destruir é muito mais fácil do que criar.

"Devemos reconhecer que o confronto em que estamos envolvidos não é político; (...) é um confronto existencial."

"A melhor comunidade a que os seres humanos podem aspirar: uma sociedade sem convicção, na qual ninguém acredita ter o direito divino ou o dever histórico de fazer guerra contra aqueles que discordarem de si."

O livro é muito bom!


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A fórmula para enlouquecer o mundo

Trechos selecionados desse texto de Olavo de Carvalho.

(...) O poeta Stephen Spender, após romper com o Partido Comunista, já havia admitido que o que conduzia os intelectuais ocidentais à paixão por ideologias contrárias à própria liberdade de que desfrutavam era o sentimento de culpa e o desejo de livrar-se dele a baixo preço.

(...) A origem dessa culpa reside no fato de que amplas faixas da classe média passaram a desfrutar de lazeres e prazeres praticamente ilimitados, sem ter de arcar com as responsabilidades políticas, militares e religiosas com que a antiga aristocracia pagava o preço moral dos seus desmandos sexuais e etílicos.

(...) Já na Idade Média, os encargos da defesa territorial incumbiam inteiramente à classe aristocrática: ninguém podia obrigar um camponês ou comerciante a ir para a guerra, mas o nobre que fugisse aos seus deveres bélicos seria instantaneamente executado pelos seus pares. Noblesse oblige: a classe aristocrática era liberada de parte dos rigores morais cristãos na mesma medida em que pagava pela sua liberdade com a permanente oferta da própria vida em sacrifício pelo bem de todos.

(...) Ao contrário, junto com a liberdade vem o acesso a bens inumeráveis e a um padrão de vida que chega mesmo a ser superior ao da velha aristocracia – tudo isso a leite de pato. Ortega y Gasset notou, no seu clássico de 1928, La Rebelión de las Masas , que o típico representante da moderna classe média, o “homem massa”, era realmente um filhinho-de-papai, um señorito satisfecho que se julgava herdeiro legítimo de todos os benefícios da civilização moderna para os quais não havia contribuído em absolutamente nada, pelos quais não tinha de pagar coisa nenhuma e dos quais, geralmente, ignorava tudo quanto aos sacrifícios que os produziram.

Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais profundo e avassalador quanto menos conscientizado.

(...) O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si mesmo, mas está proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de suas culpas, e mais ainda de aliviá-las mediante a confissão religiosa e o cumprimento de deveres penitenciais.

(...) A culpa mal conscientizada, conforme a psicanálise demonstrou vezes sem conta, acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória projetada sobre os outros, sobre “o mundo”, sobre “o sistema”. O homem medianamente instruído do nosso tempo joga suas culpas sobre “o sistema”, fingindo para si mesmo que está revoltado pelo que ele nega aos pobres, quando na realidade o odeia por aquilo que esse sistema lhe dá sem exigir nada em troca. Não que o sistema seja isento de culpas; mas a mesma prosperidade geral que espalha os benefícios da civilização entre massas crescentes que jamais poderiam sonhar com isso nos séculos anteriores mostra que essas culpas não são de ordem econômica, mas cultural: o capitalismo não cria miséria e sim riqueza; mas junto com ela espalha o laicismo e o permissivismo, rompendo o equilíbrio entre o prazer e o sacrifício, necessidade básica da psique humana. Daí o aparente paradoxo de que o ódio ao sistema se dissemine principalmente – ou exclusivamente – entre as classes que dele mais se beneficiam materialmente.

(...) A tentação socialista aparece aí como o canal mais fácil por onde as culpas do filhinho-de-papai são jogadas precisamente sobre as fontes do seu bem-estar e da sua liberdade. Vejam essa meninada da USP, gente de classe média e alta, depredando uma universidade gratuita, e compreenderão do que estou falando: o que esses garotos precisam não é de mais benefícios; é de uma cobrança moral que restaure a sua sanidade. Mas, como os representantes do Estado são eles próprios señoritos satisfechos que também não compreendem a origem das suas próprias culpas, sua tendência é fazer dos jovens enragés um símbolo da sua própria consciência moral faltante; daí que lhes cedam tudo, num arremedo de penitência, corrompendo-os e corrompendo-se cada vez mais e precipitando uma acumulação de culpas que só pode culminar na suprema culpa da sangueira revolucionária. “Vivemos num mundo demente, e sabemos perfeitamente disso”, dizia Jan Huizinga na década de 30, pouco antes que o desequilíbrio da alma européia desaguasse no morticínio geral.

(...)Transcorridas quase oito décadas, a humanidade ocidental nada aprendeu com a experiência e está pronta a repeti-la. Hipnotizada pela lógica do desejo, que não enxerga cura para os males senão na busca de mais satisfações e mais liberdade, como poderia ela descobrir que seu problema não é falta de bens ou prazeres, mas falta de deveres e sacrifícios que restaurem o sentido da vida e a integridade da alma?

(...) Os capitalistas, os representantes do “sistema”, por sua vez, aceitam passivamente ser objeto de ódio e até se regozijam nele, na vã esperança de assim purgar suas próprias culpas; mas, como estas não residem onde as aponta o discurso revolucionário, cada nova concessão ao clamor esquerdista os torna ainda mais culpados e vulneráveis.

(...) Igor Caruso localizava a origem das neuroses não na repressão do desejo sexual, mas na rejeição dos apelos da consciência moral. O abandono da consciência de culpa não pode trazer outro resultado senão a proliferação de culpas inconscientes. E as culpas inconscientes necessitam de novos e novos bodes expiatórios, cujo sacrifício só as torna ainda mais angustiantes e intoleráveis.

Credo do Reacionário

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Eu não hesito em anunciar que sou um reacionário. Eu tomo com um profundo orgulho, na verdade. Não vejo mais razão em olhar para a frente, para um futuro desconhecido, ao invés de olhar para trás nostalgicamente para valores conhecidos e comprovados.

O termo "reacionário", na forma em que uso, não representa um conjunto de ideias definitivos e imutáveis. Representa uma atitude de espírito. (...)

As circunstâncias em que o termo "reacionário" é aplicado como um epíteto para fascistas e outras marcas do homem moderno - as quais um verdadeiro reacionário tem apenas desprezo - não é minha culpa.

Como um reacionário honesto, eu naturalmente rejeito o Nazismo, Comunismo, Fascismo e todas as ideologias relacionadas que são, de fato, um reductio ad absurdum da chamada democracia e do “povo no poder”. Eu rejeito os pressupostos absurdos do governo da maioria (...) e o falso conservadorismo dos grandes banqueiros e industrialistas. Eu abomino o centralismo e a uniformidade da vida em rebanho, o espírito estúpido racista, o capitalismo privado, bem como o capitalismo de estado (socialismo) que contribuíram para a ruína gradual da nossa civilização nos últimos dois séculos. O verdadeiro reacionário desses dias é um rebelde contra os pressupostos prevalecentes e um "radical" que vai até as raízes.

(...) O desastre final foi, na Revolução Francesa, diante do eterno dilema de escolher entre liberdade e igualdade, decidiu-se pela igualdade. (...) [Eles que] acreditavam que a torre da catedral deveria ser demolida porque essa estava acima do nível igualitário de todas as outras casas são símbolos do modernismo e do "progresso" perverso.

As massas, formando maiorias organizadas e abraçando ideias idênticas e odiando uniformemente todos aqueles que ousam ser diferentes, são o produto atual dessas várias revoltas. (...) O rebanho manda hoje em quase todos os lugares, com diversos meios e sob os mais diversos rótulos. É a essa tirania que eu me oponho.

Como um reacionário, acredito em liberdade, mas não igualdade. (...) Não aceito nem o igualitarismo degradante dos "democratas", nem as divisões artificiais do racistas, nem as distinções de classe dos comunistas e esnobes.

Seres humanos são únicos. Eles devem ter a oportunidade de desenvolver suas personalidades - e isso significa responsabilidade, sofrimento, solidão. (...). E há todos os tipos de coroas, a mais nobre delas, composta por espinhos.

(...) Eu acredito na família, na hierarquia natural dentro da família e no abismo natural entre os sexos. Eu amo os velhos cheios de dignidade e pais orgulhosos, mas também adoro crianças corajosas e justas. Em uma hierarquia o membro mais inferior é funcionalmente tão importante quanto o mais elevado.
(...) O abismo entre os homens e as mulheres me parece uma coisa boa também. Não há triunfo na construção de uma ponte sobre uma mera poça.

Eu gosto de pessoas com propriedades. (...) Eu detesto o capitalismo que concentra a propriedade na mão de poucos, não menos do que o socialismo que quer transferi-lo para o grande ninguém, uma hidra com um milhão de cabeças e sem alma: Sociedade. Gosto de pessoas com sua própria morada, com seus próprios campos, com seus próprios pontos de vista levando-os a ações independentes. Eu tenho medo da massa: os 51% que votaram em Hitler e Hugenberg; a multidão em frenesi que apoiou o Terror Francês; os 55% dos brancos dos Estados do Sul que mantiveram 45% dos negros "em seu lugar" (...).
Eu temo todas as massas que consistem de homens com medo de serem únicos, de serem pessoas; se importando mais com a segurança do que a liberdade, temendo seus vizinhos ou a "comunidade" mais do que Deus e suas consciências. Essas são pessoas que não exigem somente a igualdade, mas também identidade. Eles suspeitam de qualquer um que se atreve a ser diferente. (...) O homem moderno parece ter apenas um desejo: ver tudo moldado na sua própria imagem; ele detesta personalidade e tenta se assimilar. O que ele não consegue assimilar, ele extirpa. Toda a nossa época é marcada por um vasto sistema de nivelamento.

(...) Eu não tenho afinidade pelo "liberalismo" do século XIX, com seu materialismo grosseiro e a crença pagã na "sobrevivência do mais apto", ou seja, do mais inescrupuloso.

(...) O que nós reacionários queremos é liberdade e a diversidade. Nós acreditamos que existe uma força peculiar na diversidade. 

(...) Como um reacionário, gosto de patriotas; que ficam entusiasmados com a sua pátria, sua terra natal; e não gosto de nacionalistas, que ficam excitados com sua língua e seu sangue. O reacionário defende a ideia de solo e liberdade, ele luta contra o complexo de sangue e igualdade.

(...) Como um reacionário, eu possuo opiniões definitivas como também opiniões provisórias. "Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade" é um bom programa reacionário. Se eu considerar algo ser a Verdade, eu desconsidero toda opinião que contraria.  (...) Como reacionário, respeito qualquer pessoa que, com coragem e sinceridade, mantém visões errôneas, embora seguindo sua consciência. Eu tenho infinitamente mais respeito a um anarquista fanático catalão, ou por um Judeu Ortodoxo, ou por um Calvinista linha dura do que a um humanitário pseudo-liberal com uma veneração secreta a um estado onipotente. Um verdadeiro reacionário é um homem de fé absoluta e generosidade absoluta. Ele concilia dogma e liberdade.

(...) O que precisamos de ambos os lados do Atlântico é mais uma atitude pessoal. Colossialismo e coletivismo são o inimigo. O agricultor de Hindelang, por exemplo, deve antes de tudo, ter orgulho de ser o chefe de uma família, dono de uma fazenda e depois, de ser um morador de Hindelang. (...) [Mas] a identificação pelo "maior" com o "melhor" nos mostra a degradação expressa na adoração da quantidade, o nosso desprezo pela pessoa, todo o nosso desespero moderno pela singularidade humana.

(...) Eles [nós, os reacionários,] não acreditaram necessariamente em um Passado Glorioso em oposição a um Admirável Mundo Novo, mas viram as calamidades do presente, crescendo dos erros do passado, nas catástrofes do futuro. Estão isolados pela suspeita que os rodeia. São considerados desmancha-prazeres por não entrar na apologia universal do "Progresso". (...)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Falácia da Agregação

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia da Agregação' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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Aos seus olhos [dos revolucionários franceses], liberdade era bom, igualdade era bom e fraternidade era bom, pelo que a combinação era três vezes bom. É como dizer que lagosta é bom, chocolate é bom, ketchup é bom, pelo que lagosta em chocolate e ketchup é três vezes bom.

Robespierre prometeu fanaticamente o 'despotismo da liberdade', (...) uma contradição. (...)
Viram que o objetivo da igualdade exige a destruição da liberdade.

Objetivos que não podem ser promovidos em conjunto; isto é a falácia da agregação.

Os assaltos à liberdade com que os norte-americanos até aqui se deleitaram a realizar-se, em regra, em nome da liberdade. Por exemplo, quando a liberdade de um empregador de empregar quem ele desejar for eliminada por políticas de 'não discriminação', isso é justificado como 'atribuição de poder' e por isso 'libertação' de minorias anteriormente oprimidas. (...)
Não são como os direitos individuais; (...) São diretos de 'grupo' - direitos de uma pessoa tem em virtude de ser mulher, homossexual, ...

Este novo tipo de direito é inventado para justificar a discriminação em nome da não discriminação. É um modo de eliminar direitos individuais. (...) Vai contra o significado global de liberalismo na sua forma clássica, que visava proteger o indivíduo do grupo. (...)
Todavia, os liberais norte-americanos não tem dúvidas no seu espírito de que são eles, e não seus adversários conservadores, os verdadeiros defensores da liberdade individual no mundo moderno. O desejo de igualdade é, aos seus olhos, nada menos do que o desejo de tornar a liberdade igualmente disponível. (...)
E o único agente capaz desse ato em grande escala de atribuição de poder é o Estado.

O conflito ilustra o modo como liberdade e igualdade estão em guerra, bem como o modo como as pessoas tomam partido na guerra sem admitir a sua existência. (...)
Daí, poder-se ser 'liberal' e dedicar-se à destruição das liberdades que se intrometem no caminho da igualdade.

[Esquerdistas] Interpretam liberdade de uma nova maneira, como sendo concedida pela 'luta' pela igualdade. As liberdades defendidas por conservadores (...) são 'formas de dominação'. (...) A procura da liberdade na sua 'verdadeira forma' envolve a erradicação da dominação. (...)
Daí, ao mesmo tempo que faz campanha a favor da expansão do Estado na esfera pública, o novo tipo de vontade liberal fazer campanha a favor da exclusão do Estado da esfera privada.

Adam Smith via claramente que liberdade e moralidade são duas facetas da mesma moeda. (...) Uma sociedade livre (...) não é uma sociedade de pessoas libertadas de toda a restrição moral, pois isso é precisamente o oposto de sociedade. Sem restrição moral não pode haver cooperação, nem compromisso familiar, nem perspectivas de longo prazo, nem esperança de ordem econômica, quanto mais social.

Deste modo se molda a nova agenda social: o controle do Estado sobre todos os aspectos da vida pública; a total liberação na esfera privada. Se uma sociedade assim constituída consegue sobreviver e se consegue reproduzir-se são ainda questões em aberto (...). Todavia, a capacidade dos reformadores liberais de ignorar os sinais de decadência social (...) não constitui a mínima prova assinalável de que vivem num mundo de falsas esperanças.

Qualquer pessoa que tenha estudado o destino dos impérios e as dificuldades de estabelecer jurisdição territorial sobre comunidades que diferem em religião, língua e costumes conjugais sabe que a missão é quase impossível e ameaça constantemente soçobrar transformando-se em fragmentação, tribalismo ou guerra civil.

Todas as culturas concedem benefícios às pessoas que crescem em seu seio e as culturas que resistiram ao teste do tempo dão, por isso, prova das suas virtudes. Mas NÃO se segue que essas muitas formas do bem possam ser agregadas. (...)
O multiculturalismo não substituiu esse programa; destruiu-o pura e simplesmente.