sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Falácia do Planejamento

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia do Planejamento' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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É a reação natural a dificuldades coletivas na mente de qualquer pessoa que não reconheça que as soluções consensuais de problemas coletivos não são, em regra, impostas mas descobertas, e que são descobertas ao longo do tempo.

Esse conhecimento está disperso pela sociedade e não é propriedade de nenhum indivíduo.

Parece, na verdade, como uma atividade de transferência, um modo de os políticos se ocuparem com soluções ilusórias enquanto esperam que os problemas desapareçam.

A ordem social e econômica emerge da nossa negociação tácita como subproduto e não como objetivo.

A falácia do planejamento leva a outra: a desagregação dos problemas.(...)
Em todas as suas formas, o planejamento tem uma perigosa tendência para ignorar o modo como, pela lei das consequências não planejadas, a solução de um problema pode ser o início de outro.(...)
Não há prática mais arriscada que desagregar riscos, de modo a proibi-los um a um.

Na raiz da falácia do planejamento reside o problema identificado há dois milênios por Terêncio: Quis custodiet illos custodes? (Quem vigia os vigilantes?)

O ponto de vista razoável é o que visa uma ordem social baseada em restrições e não em objetivos.(...)
Kant reformulou a ideia em termos do seu 'imperativo categórico', que não nos diz o que devíamos visar mas apenas o que evitar. Devemos agir com base na 'máxima que podemos desejar como lei universal'. (o equivalente kantiano à Regra de Ouro judaica e cristã) (...)
A coexistência pacífica numa sociedade de estranhos consegue-se não por meio de um propósito comum ou de um plano organizado, mas por meio de restrições colaterais, as quais protegem cada pessoa dos propósitos e planos de todas as outras.

Tal como os preços no mercado condensam em si mesmos informação que doutro modo fica dispersa na sociedade contemporânea, também as leis condensam informação que está dispersa pelo passado de uma sociedade.

Os que acreditam que a ordem social exige restrições ao mercado têm razão. Todavia, numa ordem verdadeiramente espontânea as restrições já existem, sob a forma de costumes, leis e princípios morais. Se essas coisas boas se desintegram, não há maneira, segundo Hayek, de a legislação as substituir. Porque ou surgem de forma espontânea ou não surgem, pura e simplesmente, e a imposição de instrumentos legislativos para a 'boa sociedade' destrói o que resta do saber acumulado que torna possível essa sociedade. (...)
Tinham fé nos limites espontâneos colocados ao mercado pelo consenso moral da comunidade. Talvez esse consenso esteja atualmente a ceder. Mas essa cessão é em parte resultado da interferência do Estado e é certamente improvável que seja curada por ele.


Foi precisamente o êxito da falácia do planejamento na criação de enormes máquinas de poder e influência, a galopar descontroladas para o futuro, que levou à erosão do consenso.

Falácia da Soma Zero

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia da Soma Zero' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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Quando otimistas empenhados se confrontam com o fracasso (...) começa um processo de compensação destinado a salvar o projeto encontrando a pessoa, a classe ou a clique que a frustrou. E essa pessoa, classe ou clique é marcada pelos sinais de êxito. Se falhei foi porque outro foi bem-sucedido.

Para um certo tipo de temperamento, a derrota nunca é derrota pela realidade, mas derrota por outras pessoas. (...)
A injustiça, para o socialista, é conclusivamente comprovada pela desigualdade, de modo que a mera existência de uma classe rica justifica o plano para redistribuir seus ativos entre os 'perdedores'.

(...) Ao transferir o nosso ressentimento, podemos evitar o custo de o entender, que é o custo assustador do autoconhecimento.
Mesmo sem o contexto da revolução, o pensamento da soma zero tem uma função importante no apoio a falsas esperanças. Um forte exemplo é a crença generalizada de que igualdade e justiça são a mesma ideia. Poucas pessoas acreditam que se o João tiver mais dinheiro do que José isso é, em si mesmo, um sinal de injustiça. Mas se o João pertencer a uma classe com dinheiro e o José a uma classe sem ele, o modo de pensar da soma zero entra imediatamente em ação para convencer as pessoas de que a classe de João se tornou rica às custas da de José.

É este o ímpeto (...) que está efetivamente a minar as verdadeiras reivindicações de justiça e a pôr um substituto espúrio em seu lugar.(...)
O resultado tem sido o aparecimento na política moderna de toda uma ideia nova de justiça, ideia essa que tem pouco ou nada a ver com direito, merecimento, recompensa ou retribuição e que está efetivamente desligada dos atos e das responsabilidades dos indivíduos.

É fácil assegurar a igualdade no campo da educação: basta eliminar todas as oportunidades de progredir. (...)

Uma oportunidade de progredir só pelo talento e pela aplicação foi destruído pela simples razão de que separava os êxitos dos fracassos.

Falácia Utópica

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia Utópica' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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Não estamos a lidar meramente com erros localizados de raciocínio, mas sim com um molde mental, e um molde mental que de algum modo misterioso é indiferente à verdade. (...)
A mente utópica é uma mente moldada por uma moral particular e uma necessidade metafísica que leva à aceitação de absurdos não a despeito da sua absurdidade mas por causa dela.

Esta 'imunidade à refutação' é o que quero dizer com falácia da utopia, e vale a pena explorá-la como um dos curiosos caminhos secundários do otimismo, que aponta o caminho para uma profunda explicação da razão pela qual, no espírito humano, o irracional é tão interminavelmente renovável.

A falácia da melhor das hipóteses aparece quando a esperança prevalece sobre a razão, na presença de uma escolha importante. Não é utópica em si mesma. (...) 
Em todas as suas versões, porém, a utopia é concebida como uma unidade de ser, em que todos os conflitos não existem porque as condições que os criam já não estarão presentes.

Basta o mais ligeiro discurso crítico para reconhecer que o 'comunismo' de Marx incorpora uma contradição: é um estado em que todas as vantagens da ordem jurídica ainda estão presentes, ainda que não haja lei; em que todos os produtos da cooperação social ainda existem, ainda que ninguém desfrute dos direitos de propriedade que até aí forneceram o único motivo para os produzir.

A crítica mais importante a fazer a esse modo de pensar não é que é contraditório, embora o seja, mas que, ao prosseguir uma solução única e completa para o conflito humano, uma solução que elimine o problema para sempre, destrói as instituições que nos permitem resolver os nosso conflitos um por um. (...)
A solução para os conflitos humanos descobre-se caso a caso e incorpora-se depois em precedentes, costumes e leis.
A solução não existe enquanto plano, esquema ou utopia. É o resíduo de uma miríade de acordos e negociações, preservada no costume e na lei.
As soluções raramente são encaradas de antemão, mas acumulam-se gradualmente através do diálogo e da negociação. (...)
E é precisamente esse depósito, nos costumes e nas instituições, que o utópico se prepara para destruir.

A utopia é inteiramente construída pela negação [do mundo tal como é]. O ideal constrói-se para destruir o real. (...)
[Utopia] é o desejo de vingança contra a realidade.

É a característica mais notável dos Estados totalitários: a necessidade constante e implacável de uma classe de vítimas, a classe dos que se colocam no caminho da utopia e impedem sua aplicação. (...)
Será um grupo marcado pelo seu êxito anterior, cujos frutos lhe serão tirados e destruídos ou distribuídos entre os vencedores. (...)
'Você é judeu/burguês/cúlaque.' 'Bem, sim, confesso.' 'Então, qual é sua defesa?'.


Na utopia, nunca se sentirá a vontade no mundo que cria. (...) Suspeitará de que a refutação da utopia já está a ser descoberta.

Falácia do Nascido Livre

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia do Nascido Livre' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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O Contrato Social de Rousseau (...) apresenta um novo conceito de liberdade humana, de acordo com a qual liberdade é o que nos resta quando afastamos todas as instituições, todas as restrições, todas as leis e todas as hierarquias. E seus seguidores acreditavam que essa liberdade, uma vez obtida, exprimir-se-ia na felicidade e na fraternidade da espécie humana, e não naquela 'guerra de todos contra todos', que Hobbes descreveu como o verdade 'estado natural'.
(...) a defesa apaixonada [desse conceito] da liberdade foi mais tarde utilizada para desculpar a tirania dos revolucionários.
(...) resistiu na política, na educação e na filosofia até os dias de hoje.

As instituições, as leis, as restrições e a disciplina moral fazem parte da liberdade e não dos seus inimigos, e a libertação dessas coisas leva rapidamente ao fim da liberdade.

A 'liberdade' disponível num estado natural é uma ilusão - uma mera 'falta de restrição', mas sem a segurança e o reconhecimento que dota a liberdade com os seus atributos distintivamente humanos. É a liberdade do 'eu' indomado, que pode perambular à sua vontade, mas que não tem ideia do valor de estar aqui em vez de estar ali, de ganhar uma coisa em vez de outra, (...) um eu no seu imediatismo, que deseja coisas mas não tem o sentido do seu valor. A verdadeira liberdade envolve não só fazer o que se quer, mas também valorizar o que se obtém. Envolve planejar, programar, ter razões para agir e conseguir o que se resolve realizar. E a ideia dominante de Hegel é que todas essas características são essencialmente características sociais da vontade: dependem das relações humanas em que os nossos atos e as nossas emoções se encaixam, e não estão disponíveis fora do contexto fornecido pelas regras e pelos costumes de uma comunidade que usa uma linguagem e das restrições mutuamente reconhecidas através das quais não procuramos meramente concretizar os nossos desejos mas também renunciamos a eles.

A liberdade genuína só aparece quando (...) o conflito se resolve num estado de reconhecimento mútuo. (...)
O preço dessa liberdade é o preço da reciprocidade.

Responsabilidade e reciprocidade informam todos os modos de sociedade humana e são as fundações sobre as quais se constrói a paz e a felicidade. Uma vez que se reconheça isso, porém, temos que reconhecer que as leis, os costumes, as instituições e as restrições convencionais residem na própria natureza da liberdade.
Daí não nascermos livres: a liberdade é algo que adquirimos. E adquirimo-lo através da obediência. Só a criança que aprendeu a respeitar e acatar os outros pode respeitar-se a si mesma.

A falácia do nascido livre leva (...) às 2 doutrinas (...) que se tornaram as bases da política educativa desde país: a doutrina de que nenhuma das partes envolvidas no processo de ensino (nem o aluno, nem o pai, nem o professor) tem culpa do seu fracasso; e a doutrina de que o Estado deve investir no fracasso em vez de no êxito.

A liberdade não é um dom da natureza mas o resultado de um processo educativo, algo que temos que trabalhar para adquirir através de disciplina e sacrifício.

Cada prova de que a destruição da ordem também era uma perda de liberdade era interpretada no sentido oposto, como prova de que as coisas ainda não tinham ido suficientemente longe.

Uma vez que tem que ser verdade que as crianças nascem livres, quaisquer sinais de que a liberdade e a autonomia não foram atingidas tem que ser culpa de outros [,pensam os otimistas inescrupulosos].


Elogiei Hegel pelo reconhecimento de que a liberdade não é um dom natural mas um artefato que construímos em conjunto através da nossa pertença social partilhada.

Falácia da Melhor das Hipóteses

Trechos escolhidos do capítulo 'Falácia da Melhor das Hipóteses' em 'As vantagens do pessimismo' de Roger Scruton.
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[Segundo Robert Conquest,] a primeira [das '3 leis da política'] afirma que toda a gente é de direita em relação àquilo que sabe melhor. Com 'direita', queria dizer desconfiado em relação ao entusiasmo e à novidade e respeitoso para com a hierarquia, a tradição e os modos estabelecidos.(...)
Claro que precisamos de originalidade, tal como podemos precisar de soluções radicais quando as circunstâncias mudam radicalmente (...), quando as condições são excepcionais; e era contra o desejo de considerar todos os casos excepcionais que Conquest estava a prevenir.

(As outras 2 leis são:
- qualquer organização que não seja explicitamente de direita torna-se mais tarde ou mais cedo de esquerda; e
- a maneira mais simples de explicar o comportamento de qualquer organização burocrática é presumir que é controlada por um grupo de inimigo seus.)

O pessimismo (...) encoraja-nos a fazer contas ao preço do fracasso, a formar uma ideia da pior das hipóteses e a correr riscos com plena consciência do que acontecerá se os riscos não compensarem. O otimista inescrupuloso não é assim. Dá saltos de pensamento (...). Solicitado a optar em condições de incerteza, imagina o melhor dos resultados e pressupõe que não precisa pensar em mais nenhum (...), se esquece de fazer as contas do custo do fracasso ou então - e este é o aspecto mais pernicioso - projeta a endossá-lo a outrem.

O pessimismo judicioso ensina-nos não a idolatrar seres humanos mas a perdoar os seus erros e a lutar em privado pela sua emenda. Ensina-nos (...) a manter abertas as instituições, os costumes e os procedimentos através dos quais se corrigem os erros e aos quais se confessam as faltas, em vez de visar algum novo arranjo em que nunca se cometam erros. (...)
O pior tipo de otimismo é aquele que (...) fez acreditar que tinham posto a espécie humana no caminho de uma solução de problemas da História e os fez destruir todas as instituições e todos os procedimentos através dos quais é possível corrigir erros.

Os críticos dos otimistas inescrupulosos não só, segundo eles, estão errados, mas são o mal, ansioso por destruir as esperanças de toda a espécie humana e por substituir a amabilidade cordial para com a nossa espécie por um cinismo cruel. (...)
Sei que nenhum otimista será convencido [pelos meus exemplos]. É uma das características mais notáveis da mentalidade otimista nunca aceitar a responsabilidade pelos efeitos das suas próprias crenças nem reconhecer o perigo das falácias que a guiaram.

Qualquer tentativa de construir o Céu na Terra será ao mesmo tempo presunçosa e irracional. (...)
Na verdade, provavelmente uma das funções da religião é neutralizar o otimismo. Ao transferir as nossas esperanças mais especulativas da arena da ação mundana para uma esfera que não podemos alterar, uma fé transcendental liberta-nos da necessidade de acreditar que estão ao nosso alcance mudanças radicais. (...) Ênfase na piedade e na cautela.

As pessoas escrupulosas vêem a ordem da sociedade não como uma coisa imposta como meta e conseguida pelo esforço partilhado mas como algo que emerge por meio de uma 'mão invisível' das decisões e dos acordos que não a tinham como intenção.
Aceitam o mundo e as suas imperfeições, não por não poder ser melhorado, mas porque muitos dos melhoramentos que importam são subprodutos da nossa cooperação em vez de seu objetivo.

Reconhecem que a 'mão invisível' tanto produz maus como bons resultados e que há necessidade de liderança e de orientação para gerir com êxito as emergências. Todavia, também reconhecem que a sabedoria raramente se contém numa única cabeça e que é mais provável que esteja guardada como relíquia nos costumes que resistiram ao teste do tempo do que nos esquemas de radicais e ativistas.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Não seja tão quadrado


Embora já bem freqüente na Europa e na Austrália, os americanos ainda são muito reticentes com relação à implantação de rotatórias. [No Brasil, então...]

Esse estranhamento se deve, obviamente, ao costume de toda uma geração que cresceu confiando na lógica binária (pare-siga) e se sente desconfortável com uma situação ‘meio difusa’ que parece governar numa rotatória. Ele cita também o ‘viés da disponibilidade’: um autoengano psicológico, no qual um evento mais raro vem à mente com mais facilidade. No caso, americanos que visitam cidades européias e não se sentem bem nas rotatórias de lá. O engano se dá simplesmente por não estarem acostumados e ficarem pouco tempo para se adaptar. Um europeu, acostumado, já não sente o mesmo.

Vanderbilt também diferencia o modelo 'bom' dos 'antigos': se é muito grande, se a preferência não é de quem já está na rotatória ou se existem semáforos, não se trata do ‘bom modelo’ para rotatórias.

Para argumentar sobre as vantagens das rotatórias sobre os cruzamentos, o autor cria um acróstico mnemônico: STEP.

S de ‘safety’, segurança. Os cruzamentos são os locais com a maior quantidade de acidentes e de acidentes fatais. As rotatórias eliminam a ‘virada à esquerda’, grande vilã do trânsito, e a quantidade de ‘pontos de contato’. Os motoristas precisam diminuir a velocidade para entrar na rotatória; ou seja, mesmo que haja alguma colisão, será menos grave por ser em velocidade menor. Eliminando a faixa dedicada a quem espera para virar à esquerda num cruzamento normal, a largura da via pode diminuir, facilitando a travessia do pedestre. Os números na Austrália, na Europa e até nos EUA já comprovam essa redução. [Nota minha: no Brasil, provavelmente as rotatórias também podem eliminar os assaltos enquanto se espera o sinal verde.]

T de ‘time’, tempo. A velocidade em um determinado momento não pode ser confundida com tempo total da viagem. Menos batidas, menos ciclos de aceleração/desaceleração e menos espera pelo sinal verde faz com que os tempos gastos em trajetos com rotatórias sejam menores. Os números comprovam.

E de ‘energy’, energia. Os ciclos de aceleração/desaceleração, típicos de cruzamentos tradicionais, são sabidamente os momentos de maior consumo de gasolina. As rotatórias trarão economia.

P de ‘public space’, espaço público. O centro da rotatória pode servir para algum jardim ou monumento. A faixa de espera para virar à esquerda pode ser reaproveitada. A velocidade mais lenta pode fazer com que os motoristas percebam mais o comércio ao longo das vias. Em suma, o ambiente fica mais harmonioso.

Como pontos de atenção, Vanderbilt diz que alguns cruzamentos já estão tão saturados que a rotatória pode não ser mais tão eficiente (assim como o cruzamento já não o é). Outra questão é uma eventual dificuldade de iniciantes para ‘entrar’ nas rotatórias.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Angústia moderna


Meu primeiro contato com Alain de Botton foi através desse excelente vídeo no TED, sobre uma nova concepção de sucesso. Depois, assisti a uma palestra dele no Fronteiras do Pensamento aqui em São Paulo, em que ele defende o legado e o exemplo das religiões mesmo para quem é ateu (como ele): forma de educar através de repetição e parábolas, artes (arquitetura, música), senso de comunidade, busca pelo conhecimento. Muito boa também. Aí, ele criou a tal School of Life, que me parece uma grande embromação.

Mas a ideia desse post é resenhar seu livro ‘Status Anxiety’, traduzido porcamente para ‘Desejo de Status’. Digo ‘porcamente’ porque a tônica do livro é a angústia mesmo, não o ‘desejo’. Gostei MUITO do livro (apesar de ser um pouco repetitivo...); acho que vai bem aos pontos do mal estar incessante dos ‘tempos  modernos’...



Alain de Botton divide o livro em 2 partes. Na primeira, ele reflete sobre 5 eventuais causas dessa angústia. Na 2ª parte, fala sobre 5 eventuais saídas, escapes para ela.

CAUSAS

1. (Falta de) Amor
Ele argumenta que, não raramente, o desejo de subir na hierarquia se deve não às conquistas em si, mas ao amor que recebemos em consequência do alto status; ou seja, dinheiro, fama, influência são como ‘tokens’ (fichas, meios) para ser amado. Nossa autopercepção, nossa própria identidade depende demais do que os outros pensam sobre nós. Procuramos sinais de respeito do mundo para nos tolerarmos. Se dão risadas das nossas piadas, consideramo-nos engraçados; se nos elogiam, consideramo-nos merecedores.

2. Expectativas
O autor lembra que a grandíssima maioria da população medieval, após uma vida inteira de trabalho árduo, possuía apenas 1 ou 2 vacas. O progresso material mudou completamente essas expectativas. Nós não conseguimos perceber como somos prósperos em termos históricos. Consideramo-nos bem sucedidos apenas em comparação com quem crescemos, com quem estudamos, com nossos amigos.
Não há sucesso mais intolerável (intragável, doído) do que o daqueles incrivelmente parecidos conosco. Daí, segue que, quanto maior o número de pessoas com as quais nos consideramos ‘iguais’, maior a possibilidade de sentirmos inveja .

"Quando a desigualdade é regra da sociedade, as grandes diferenças não chamam atenção.
Mas quando tudo fica mais ou menos no mesmo nível, a menor variação é notada."
Tocqueville

Hoje, uma leve queda nas condições de provação aumenta desproporcionalmente o medo da privação total. As pessoas não aceitam dar um passo pra trás.
Daí, as sociedades modernas criaram uma espécie de defesa, uma notável capacidade de achar que nada, nunca é suficiente...
Nós poderíamos estar felizes o suficiente com pouco, se pouco fosse o que queríamos; e poderemos nos sentir miseráveis com muito, se formos inclinados a desejar tudo. O preço que pagamos por ter expectativas tão maiores que nossos ancestrais é justamente uma angústia perpétua por estarmos longe de ser tudo aquilo que ‘poderíamos ser’.

"Há dois modos de tornar um homem mais rico: dar-lhe mais dinheiro ou ceifar seus desejos."
Rousseau

3. Meritocracia
Aqui, o filósofo explicita mudanças em 3 histórias do imaginário popular ao longo do tempo.
A primeira sobre a utilidade dos pobres. Por milênios, a plebe era vista com respeito por ser a trabalhadora, a ‘criadora’ de riqueza, até pela interdependência das classes (clero, nobreza e plebe). Por influência de pensadores modernos, essa lógica se inverteu. Hoje, os ricos, mesmo através de orgulho ou luxúria, são os que possibilitam a criação de riqueza e sua divisão. Antigos vícios passam a ser vistos como virtudes.

A segunda história que mudou é com relação à conotação moral da pobreza. Antes, até pela forte influência do Cristianismo (pelo qual, o verdadeiro ‘bem’ é o reconhecimento da dependência de Deus, independentemente de dinheiro), ser pobre não era um ‘ônus moral’. Agora, concorrendo com os antigos princípios hereditários e igualitários, aparece a MERITOCRACIA.
Não é mais possível argumentar que status seja resultado inteiramente de um sistema rígido. A crença de uma crescente conexão confiável entre o mérito e o sucesso no mundo dá ao dinheiro uma nova qualidade moral. A consequência desse pensamento (que, aliás, é um dos principais pontos lá da 1ª palestra de Alain de Botton no TED) é que, assim como os bem-sucedidos merecem seu sucesso, necessariamente os fracassados MERECEM seu fracasso. O baixo status passa a ser ‘MERECIDO’.

A 3ª história fala sobre ‘erros’. Antes, por influência de Marx & cia, os ricos eram considerados necessariamente corruptos, pecadores, ‘errados’. Enriqueceram porque roubaram os pobres. Agora, os estúpidos são os pobres, incapazes de se tornarem bem sucedidos pelos próprios esforços. (Pessoalmente eu não concordo que houve essa mudança). Os pobres deixam de ser AZARADOS e passam a ser FRACASSADOS (losers).

4. Esnobismo
Vivemos em um mundo diametralmente oposto ao amor incondicional de mãe, isto é, um mundo esnobe, com atenção condicional e dependente do que fazemos ou conquistamos.
O reforço do prestígio de ‘famosos’ necessariamente banaliza a vida dos ordinários.

"Se elas estão loucas para nos conhecer, não deve nos interessar conhecê-las. As únicas pessoas que nos interessam são as que não se interessam por nós."
Cartoon em 1892.

O problema é que não gostar das pessoas quase nunca é motivo suficiente para não desejar que elas gostem da gente.

5. Dependência
Nas sociedades tradicionais, o alto status podia ser difícil de ser alcançado, mas também era muito difícil perdê-lo. Hoje, há muito mais imprevisibilidade (ou pela menos, temos mais percepção dela) para manutenção do status.
Dependemos do talento, da sorte, de um empregador, do lucro desse empregador, da economia global,...
O autor lembra que não faz muito tempo que as pessoas deixaram de trabalhar por conta própria (em suas fazendas ou negócios de família) para barganhar sua inteligência por um salário. Essas ‘novas’ relações trabalhistas (necessidade de ‘puxar saco’ de colegas e superiores, tensão por promoção própria e alheia, corte de funcionários) se tornam uma das mais opressivas angústias.
Abre-se espaço para Marx, cujas teorias de valor capturam esse ‘conflito’ entre empregado e empregador: há uma ÚNICA diferença entre o trabalho e outras commodities; o trabalhador sente dor.

SOLUÇÕES

1. Filosofia
Embora a filosofia entenda que a angústia possa ser 'útil', aqui o autor apresenta o ceticismo em relação à inteligência dos outros, o que chama de 'misantropia inteligente'.
Devemos perceber que a opinião da maioria das pessoas sobre a maioria dos assuntos é extraordinariamente confusa e errada: 'a opinião pública é a pior das opiniões' (Chamfort).
Antes de buscar a aprovação de alguém, devemos nos questionar se as opiniões dessa pessoa merecem ser ouvidas.

"Um músico deve se sentir grato pelo aplauso de uma plateia se soubesse que toda ela, sem exceção, é surda?"
Schopenhauer

2. Arte
A arte é a antítese do moralismo; é marcada pelo desejo de remover o erro humano, limpar a confusão humana, diminuir a miséria humana.
Através da tragédia ('da alegria para miséria', erro de julgamento, inversão de sorte), sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou. Evidencia nossa (falsa) tendência a achar que estamos com o controle consciente do nosso destino. Num mundo imbuído com as lições da arte trágica, as conseqüências das nossas falhas seriam menos pesadas.
Já a aparente inocência das comédias permite passar mensagens que seriam 'perigosas' diretamente. Uma piada engraçada é aquela que cria situações ou sentimentos que causam embaraço ou vergonha no nosso dia-a-dia; jogam luz sobre as vulnerabilidades que costumamos deixar nas sombras.

3. Política
Toda sociedade atribui uma alta estima a um certo grupo (enquanto condena ou ignora outros) baseado em habilidades, origem, temperamento, força física, cor da pele, gênero, religião,... Longe de ser permanente ou universal, as 'qualidades' em um local ou era podem ser irrelevantes ou mesmo indesejáveis em outros. Os valores de status foram e serão objetos de mudanças: esse processo é chamado 'política'. Para tentar mudar, usam-se armas, protestos ou livros.
As 'ideias dominantes' de qualquer época são sempre as ideias da 'classe dominante' e é difícil manter essa relatividade em mente. Paradoxalmente, se essas ideias forem percebidas como 'impostas forçosamente', elas não serão mais dominantes. Daí, a necessidade de ser perguntar de forma autônoma: 'Deve ser assim?'.
Essa percepção pode diminuir nossa sensação de perseguição, passividade e confusão a que estamos sujeitos.

4. Religião
Nós podemos superar o sentimento de ‘desimportância’ não nos fazendo mais importantes, mas reconhecendo a falta de importância de qualquer um (e de todos) na Terra, especialmente diante de uma força muito maior (infinitude, eternidade ou, mais comumente, ‘Deus’).
Memento mori: a ideia da morte reorienta nossas prioridades, afastando-se do mundano, rumo ao espiritual. Passa a ideia de certa 'igualdade': não importa se com alto ou baixo status, todos temos o mesmo destino, o pó.
Achei interessante a passagem de Xerxes (de Herodotus): após grande conquista, o imperador começa a chorar ao perceber que, em um período de 100 anos, todos seus bravos soldados estariam mortos.
Ruínas (um símbolo da infinitude do tempo) e paisagens (símbolo da infinitude do espaço) ajudam nessa tarefa de evidenciar nossa insignificância.
Outro importante auxílio das religiões é o senso de comunidade. No mundo atual, ser ‘qualquer um’ é medíocre, conformista, chato, suburbano; o objetivo é se distinguir da massa. No entanto, pelos ensinamentos de Cristo, por exemplo, ser igual aos outros é uma das principais virtudes do ser humano. Ensina-nos a olhar além das nossas diferenças superficiais, destacando que possuímos basicamente as mesmas vulnerabilidades e necessidades. O entendimento cristão é de que existe um status terreno e outro sagrado; redefine sucesso não em termos materiais: pobreza pode coexistir com bondade, ocupação humilde com alma nobre.

5. Boemia
Trata-se de uma crítica à noção 'burguesa' de respeitabilidade. Valoriza-se a 'simplicidade' (ao invés do termo 'pobreza'): não se é um loser, apenas se escolhe gastar energias em outras coisas que não fazer dinheiro.
Os mártires boêmios são aqueles que sacrificaram a segurança de um emprego estável e da estima da sociedade para escrever, pintar, fazer música, viajar ou simplesmente passar tempo com amigos e família.
Boêmios repudiam a noção de sucesso/fracasso porque o mundo é governado por estupidez e preconceito; os bem sucedidos raramente são os melhores ou mais inteligentes, mas sim os que foram mais aptos a responder aos valores falhos dos tempos modernos.

"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão."
Thoreau

Embora não seja perene (o dinheiro acabava!), a boemia valeu para refletir sobre algumas 'verdades', até então inquestionáveis, da burguesia.

A conclusão é que, por menos prazerosas que sejam, é difícil imaginar uma boa vida completamente livre dessas angústias por status, mas podemos 'melhorar a relação' com elas.
Uma solução madura é perceber que status é definido por uma variedade de ‘audiências’ e que podemos escolher livremente 'nosso público', ou seja, existe mais de um modo de ser ‘bem sucedido’ na vida.