sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Angústia moderna


Meu primeiro contato com Alain de Botton foi através desse excelente vídeo no TED, sobre uma nova concepção de sucesso. Depois, assisti a uma palestra dele no Fronteiras do Pensamento aqui em São Paulo, em que ele defende o legado e o exemplo das religiões mesmo para quem é ateu (como ele): forma de educar através de repetição e parábolas, artes (arquitetura, música), senso de comunidade, busca pelo conhecimento. Muito boa também. Aí, ele criou a tal School of Life, que me parece uma grande embromação.

Mas a ideia desse post é resenhar seu livro ‘Status Anxiety’, traduzido porcamente para ‘Desejo de Status’. Digo ‘porcamente’ porque a tônica do livro é a angústia mesmo, não o ‘desejo’. Gostei MUITO do livro (apesar de ser um pouco repetitivo...); acho que vai bem aos pontos do mal estar incessante dos ‘tempos  modernos’...



Alain de Botton divide o livro em 2 partes. Na primeira, ele reflete sobre 5 eventuais causas dessa angústia. Na 2ª parte, fala sobre 5 eventuais saídas, escapes para ela.

CAUSAS

1. (Falta de) Amor
Ele argumenta que, não raramente, o desejo de subir na hierarquia se deve não às conquistas em si, mas ao amor que recebemos em consequência do alto status; ou seja, dinheiro, fama, influência são como ‘tokens’ (fichas, meios) para ser amado. Nossa autopercepção, nossa própria identidade depende demais do que os outros pensam sobre nós. Procuramos sinais de respeito do mundo para nos tolerarmos. Se dão risadas das nossas piadas, consideramo-nos engraçados; se nos elogiam, consideramo-nos merecedores.

2. Expectativas
O autor lembra que a grandíssima maioria da população medieval, após uma vida inteira de trabalho árduo, possuía apenas 1 ou 2 vacas. O progresso material mudou completamente essas expectativas. Nós não conseguimos perceber como somos prósperos em termos históricos. Consideramo-nos bem sucedidos apenas em comparação com quem crescemos, com quem estudamos, com nossos amigos.
Não há sucesso mais intolerável (intragável, doído) do que o daqueles incrivelmente parecidos conosco. Daí, segue que, quanto maior o número de pessoas com as quais nos consideramos ‘iguais’, maior a possibilidade de sentirmos inveja .

"Quando a desigualdade é regra da sociedade, as grandes diferenças não chamam atenção.
Mas quando tudo fica mais ou menos no mesmo nível, a menor variação é notada."
Tocqueville

Hoje, uma leve queda nas condições de provação aumenta desproporcionalmente o medo da privação total. As pessoas não aceitam dar um passo pra trás.
Daí, as sociedades modernas criaram uma espécie de defesa, uma notável capacidade de achar que nada, nunca é suficiente...
Nós poderíamos estar felizes o suficiente com pouco, se pouco fosse o que queríamos; e poderemos nos sentir miseráveis com muito, se formos inclinados a desejar tudo. O preço que pagamos por ter expectativas tão maiores que nossos ancestrais é justamente uma angústia perpétua por estarmos longe de ser tudo aquilo que ‘poderíamos ser’.

"Há dois modos de tornar um homem mais rico: dar-lhe mais dinheiro ou ceifar seus desejos."
Rousseau

3. Meritocracia
Aqui, o filósofo explicita mudanças em 3 histórias do imaginário popular ao longo do tempo.
A primeira sobre a utilidade dos pobres. Por milênios, a plebe era vista com respeito por ser a trabalhadora, a ‘criadora’ de riqueza, até pela interdependência das classes (clero, nobreza e plebe). Por influência de pensadores modernos, essa lógica se inverteu. Hoje, os ricos, mesmo através de orgulho ou luxúria, são os que possibilitam a criação de riqueza e sua divisão. Antigos vícios passam a ser vistos como virtudes.

A segunda história que mudou é com relação à conotação moral da pobreza. Antes, até pela forte influência do Cristianismo (pelo qual, o verdadeiro ‘bem’ é o reconhecimento da dependência de Deus, independentemente de dinheiro), ser pobre não era um ‘ônus moral’. Agora, concorrendo com os antigos princípios hereditários e igualitários, aparece a MERITOCRACIA.
Não é mais possível argumentar que status seja resultado inteiramente de um sistema rígido. A crença de uma crescente conexão confiável entre o mérito e o sucesso no mundo dá ao dinheiro uma nova qualidade moral. A consequência desse pensamento (que, aliás, é um dos principais pontos lá da 1ª palestra de Alain de Botton no TED) é que, assim como os bem-sucedidos merecem seu sucesso, necessariamente os fracassados MERECEM seu fracasso. O baixo status passa a ser ‘MERECIDO’.

A 3ª história fala sobre ‘erros’. Antes, por influência de Marx & cia, os ricos eram considerados necessariamente corruptos, pecadores, ‘errados’. Enriqueceram porque roubaram os pobres. Agora, os estúpidos são os pobres, incapazes de se tornarem bem sucedidos pelos próprios esforços. (Pessoalmente eu não concordo que houve essa mudança). Os pobres deixam de ser AZARADOS e passam a ser FRACASSADOS (losers).

4. Esnobismo
Vivemos em um mundo diametralmente oposto ao amor incondicional de mãe, isto é, um mundo esnobe, com atenção condicional e dependente do que fazemos ou conquistamos.
O reforço do prestígio de ‘famosos’ necessariamente banaliza a vida dos ordinários.

"Se elas estão loucas para nos conhecer, não deve nos interessar conhecê-las. As únicas pessoas que nos interessam são as que não se interessam por nós."
Cartoon em 1892.

O problema é que não gostar das pessoas quase nunca é motivo suficiente para não desejar que elas gostem da gente.

5. Dependência
Nas sociedades tradicionais, o alto status podia ser difícil de ser alcançado, mas também era muito difícil perdê-lo. Hoje, há muito mais imprevisibilidade (ou pela menos, temos mais percepção dela) para manutenção do status.
Dependemos do talento, da sorte, de um empregador, do lucro desse empregador, da economia global,...
O autor lembra que não faz muito tempo que as pessoas deixaram de trabalhar por conta própria (em suas fazendas ou negócios de família) para barganhar sua inteligência por um salário. Essas ‘novas’ relações trabalhistas (necessidade de ‘puxar saco’ de colegas e superiores, tensão por promoção própria e alheia, corte de funcionários) se tornam uma das mais opressivas angústias.
Abre-se espaço para Marx, cujas teorias de valor capturam esse ‘conflito’ entre empregado e empregador: há uma ÚNICA diferença entre o trabalho e outras commodities; o trabalhador sente dor.

SOLUÇÕES

1. Filosofia
Embora a filosofia entenda que a angústia possa ser 'útil', aqui o autor apresenta o ceticismo em relação à inteligência dos outros, o que chama de 'misantropia inteligente'.
Devemos perceber que a opinião da maioria das pessoas sobre a maioria dos assuntos é extraordinariamente confusa e errada: 'a opinião pública é a pior das opiniões' (Chamfort).
Antes de buscar a aprovação de alguém, devemos nos questionar se as opiniões dessa pessoa merecem ser ouvidas.

"Um músico deve se sentir grato pelo aplauso de uma plateia se soubesse que toda ela, sem exceção, é surda?"
Schopenhauer

2. Arte
A arte é a antítese do moralismo; é marcada pelo desejo de remover o erro humano, limpar a confusão humana, diminuir a miséria humana.
Através da tragédia ('da alegria para miséria', erro de julgamento, inversão de sorte), sentimos piedade pelo herói e medo por causa da identificação com ele. A tragédia nos ensina a ter modéstia sobre nossa capacidade de evitar o desastre e, assim, ter empatia por quem o encontrou. Evidencia nossa (falsa) tendência a achar que estamos com o controle consciente do nosso destino. Num mundo imbuído com as lições da arte trágica, as conseqüências das nossas falhas seriam menos pesadas.
Já a aparente inocência das comédias permite passar mensagens que seriam 'perigosas' diretamente. Uma piada engraçada é aquela que cria situações ou sentimentos que causam embaraço ou vergonha no nosso dia-a-dia; jogam luz sobre as vulnerabilidades que costumamos deixar nas sombras.

3. Política
Toda sociedade atribui uma alta estima a um certo grupo (enquanto condena ou ignora outros) baseado em habilidades, origem, temperamento, força física, cor da pele, gênero, religião,... Longe de ser permanente ou universal, as 'qualidades' em um local ou era podem ser irrelevantes ou mesmo indesejáveis em outros. Os valores de status foram e serão objetos de mudanças: esse processo é chamado 'política'. Para tentar mudar, usam-se armas, protestos ou livros.
As 'ideias dominantes' de qualquer época são sempre as ideias da 'classe dominante' e é difícil manter essa relatividade em mente. Paradoxalmente, se essas ideias forem percebidas como 'impostas forçosamente', elas não serão mais dominantes. Daí, a necessidade de ser perguntar de forma autônoma: 'Deve ser assim?'.
Essa percepção pode diminuir nossa sensação de perseguição, passividade e confusão a que estamos sujeitos.

4. Religião
Nós podemos superar o sentimento de ‘desimportância’ não nos fazendo mais importantes, mas reconhecendo a falta de importância de qualquer um (e de todos) na Terra, especialmente diante de uma força muito maior (infinitude, eternidade ou, mais comumente, ‘Deus’).
Memento mori: a ideia da morte reorienta nossas prioridades, afastando-se do mundano, rumo ao espiritual. Passa a ideia de certa 'igualdade': não importa se com alto ou baixo status, todos temos o mesmo destino, o pó.
Achei interessante a passagem de Xerxes (de Herodotus): após grande conquista, o imperador começa a chorar ao perceber que, em um período de 100 anos, todos seus bravos soldados estariam mortos.
Ruínas (um símbolo da infinitude do tempo) e paisagens (símbolo da infinitude do espaço) ajudam nessa tarefa de evidenciar nossa insignificância.
Outro importante auxílio das religiões é o senso de comunidade. No mundo atual, ser ‘qualquer um’ é medíocre, conformista, chato, suburbano; o objetivo é se distinguir da massa. No entanto, pelos ensinamentos de Cristo, por exemplo, ser igual aos outros é uma das principais virtudes do ser humano. Ensina-nos a olhar além das nossas diferenças superficiais, destacando que possuímos basicamente as mesmas vulnerabilidades e necessidades. O entendimento cristão é de que existe um status terreno e outro sagrado; redefine sucesso não em termos materiais: pobreza pode coexistir com bondade, ocupação humilde com alma nobre.

5. Boemia
Trata-se de uma crítica à noção 'burguesa' de respeitabilidade. Valoriza-se a 'simplicidade' (ao invés do termo 'pobreza'): não se é um loser, apenas se escolhe gastar energias em outras coisas que não fazer dinheiro.
Os mártires boêmios são aqueles que sacrificaram a segurança de um emprego estável e da estima da sociedade para escrever, pintar, fazer música, viajar ou simplesmente passar tempo com amigos e família.
Boêmios repudiam a noção de sucesso/fracasso porque o mundo é governado por estupidez e preconceito; os bem sucedidos raramente são os melhores ou mais inteligentes, mas sim os que foram mais aptos a responder aos valores falhos dos tempos modernos.

"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão."
Thoreau

Embora não seja perene (o dinheiro acabava!), a boemia valeu para refletir sobre algumas 'verdades', até então inquestionáveis, da burguesia.

A conclusão é que, por menos prazerosas que sejam, é difícil imaginar uma boa vida completamente livre dessas angústias por status, mas podemos 'melhorar a relação' com elas.
Uma solução madura é perceber que status é definido por uma variedade de ‘audiências’ e que podemos escolher livremente 'nosso público', ou seja, existe mais de um modo de ser ‘bem sucedido’ na vida.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Administrando grandes cidades


Tive o prazer de assistir ao seminário organizado pelo Insper, Harvard e Columbia (através dos respectivos escritórios no Brasil) sobre a Administração de Mega Cidades, com ênfase em São Paulo.

Além de 2 palestras com visões mais macro (do economista Edward Glaeser e do prefeito Fernando Haddad), o seminário foi composto por 4 mesas (1 palestrante + 2 comentaristas) com os temas: educação, trânsito, segurança/violência e visão estratégica.

Gostei BASTANTE. Com uma única exceção, as palestras e debates foram muito bons. Já falei sobre Ed Glaeser aqui: é o defensor entusiasta da vitalidade das cidades, das suas microrrelações diárias e do ganho exponencial com a proximidade do conhecimento.

Mas quero falar de 2 temas específicos: política e trânsito.

Politicamente, é triste constatar que a única palestra RUIM foi a do prefeito. Falou um monte de obviedades zagallianas (“Defesa, vamos defender!!”; “Atacantes, vamos fazer gols!”; “Precisamos melhorar a mobilidade e aumentar a segurança!!”). O pior é não identificar início, meio e fim nos argumentos. Se me perguntarem sobre o que ele falou, juro que não sei responder. Por outro lado (e para não dizerem que essa minha opinião sobre Haddad é completamente enviesada), duas das palestras mais interessantes foram de pessoas-chave na administração petista: Ciro Biderman, da SPTrans, e Fernando de Mello Franco, secretário de Desenvolvimento Urbano (acho que foi o 1º nome que Haddad anunciou; pertence ao “núcleo duro” do prefeito). Ambos mostraram-se preparados para as respectivas funções. Embora haja bastante coisa que continua da administração anterior (do neo-aliado Kassab), parece existir um clima de “transição”, de “nova fase”. Tenho um pouco de receio quando ouço petista falando assim (vão achar que SP surgiu em 2013 como fazem com o Brasil 2002?), mas não deixa de ser saudável que a cidade de São Paulo seja repensada, desde política de uso de solo, mobilidade, etc.

(Provocação barata: primeira vez que vejo uma “autoridade” petista participando de um debate gringo sem precisa de head phones pra tradução... Ponto positivo para Fernando de Mello Franco. Hehe)

Sobre a questão de trânsito, vou me estender um pouco mais. Ciro Biderman, professor da FGV, agora na SPTrans, fez sua palestra defendendo a construção/incentivo de BRT (bus rapid transit) em contraposição ao metrô (e variações como o monotrilho) - menos flexíveis, mais caros - e principalmente em relação ao uso do veículo particular.
Apenas lembrando, grosso modo (beeem grosso modo), o BRT é um meio termo entre os corredores de ônibus e o metrô. Ou seja: ônibus maiores de superfície (nas ruas mesmo, como os articulados que já existem), em vias totalmente separadas, com vias para ultrapassagem, com diferenciação de linha expressa e linha “paradora”, com embarque/desembarque em nível (ou seja, sem precisar descer/subir escada para acessar o ônibus; esses 2 segundos de escadas são muito relevantes no acumulado do dia), bilhetagem externa (não existe cobrador dentro do ônibus; a cobrança é feita no ponto/plataforma), entre outras características. Trata-se de um modelo de transporte de alta capacidade, mais barato e mais resiliente (mais fácil adaptar a novos trajetos, situação impossível para uma linha de metrô, por exemplo).

Pra melhorar, o palestrante ainda citou a redefinição das rotas de ônibus para abordagens mais “pendulares”, isto é, não radiais, ligando perifeira a perifeira, sem passar pelo centro.

Em suma, muito perto do que eu imagino pra São Paulo (Talvez tenham percebido pelo modo como escrevi. hehe). (Faltou só citar um redesenho de rotas para facilitar/incentivar comutações, como falei aqui...). Ou seja, gostei bastante!
Vai ser muito difícil pra mim, mas se implementarem esse modelo de fato, vou ter que dar a mão à palmatória e parabenizar a gestão petista (ousando dizer que é o ato mais importante a ser feito em SP, considerando TODAS as secretarias...).

José Luiz Portella, de quem gosto, ex secretário de Transportes do Estado, mais ligado aos tucanos, foi um dos comentaristas. E fez observações pertinentes. Disse que não precisa haver essa “competição de modais”, no sentido de que todos são importantes e precisam ser ampliados (isto é, não precisamos achar que um deles – no caso do Ciro, o BRT – é a solução de todos os males) e colocou sérias restrições à implementação do BRT em São Paulo. Por exemplo, lugares cruciais seriam a Santo Amaro e a Francisco Morato/Rebouças mas não é nada trivial aumentar a largura dessas vias com desapropriação. Ou seja, talvez pela mais larga experiência no setor público, jogou água no chopp do Ciro ao dizer que não é tão fácil assim... De todo modo, conversei em off com o Ciro depois da palestra e aprofundei essa questão. O cara me pareceu meio doidão mesmo; parece que, por ele, sairia hoje mesmo tocando o pau com BRT nessas avenidas, seja com túneis, elevados ou mesmo desapropriação. No fundo até achei bom. Ele, como responsável pela SPTrans, tem que querer isso mesmo. Se for doideira (financeira ou politicamente), alguém (da Secretaria de Finanças, por exemplo) que freie o projeto.

Outro ponto que achei relevante nessa mesa foi o trabalho acadêmico do outro comentarista, aluno do Insper, no qual chega à conclusão de que, uma vez tendo ido para o transporte individual (carro próprio) haverá pouca migração de retorno ao transporte público. Ou seja, ele acha que o BRT pode ser útil ao dar mais conforto e agilidade pra quem JÁ usa o transporte público, mas que não deve conseguir convencer usuários de veículos próprios a começarem a usar o novo modal. Tenho minhas dúvidas; menos pela questão financeira e mais pela questão de perda de tempo mesmo.

Todos concordaram que deve haver desincentivo à utilização de veículos próprios, seja pela redução de vias de fato (para dar mais espaço a ônibus; Portella citou o plano de metas de Paris de reduzir 30km de vias por ano), seja pela introdução do pedágio urbano. Engraçado(/Triste) ver pessoas próximas a prefeitos e governadores acharem que o pedágio urbano será benéfico, mas não conseguirem convencer os respectivos chefes executivos (sempre com o contrargumento de custo político).

Por fim – e do ponto de vista prático, o mais importante pra mim ;) – a questão do estacionamento finalmente entrou na pauta. A necessidade legal de construção de um número mínimo de vagas associadas aos prédios, a quase gratuidade do estacionamento em vias públicas e, principalmente, a “restrição a estacionamentos” foram citados. Conceitualmente, eu concordo com quase tudo (mesmo com essa questão de “restringir”, que, em tese, seria ruim pro meu negócio), mas tudo depende da forma como é feito. Ciro Biderman é enfático na questão da restrição via “taxação”. Fui questioná-lo por que desse modo e não, simplesmente, reduzindo a oferta (diminuindo a quantidade de vagas). E ele não fez cerimônia: “Melhor o dinheiro vir para o governo do que virar lucro das operadoras”. Hehe. A conversa não foi muito mais longe...

Se, por um lado, fiquei satisfeito ao perceber que tem gente no governo municipal que pensa parecido com o que eu penso (do ponto de vista prático), por outro, desanimei ao relembrar que um detalhe ideológico pode fazer bastante diferença.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O conhecimento (e mesmo o sentimento) é subtrativo

Esse é provavelmente o ~conceito filosófico~ de que mais gosto, resumido nesse aforismo de Nicholas Taleb:
'O conhecimento é subtrativo, não aditivo; é o que nós rejeitamos (o que não funciona, o que não devemos fazer), e não o que acrescentamos (o que fazemos ou devemos fazer).'

Daí, surgem alguns corolários interessantes como:
'A melhor maneira de se achar um charlatão: aquele que te aconselha o que deve ser feito ao invés de aconselhar o que NÃO deve ser feito'.
Ou:
'O idiota acha que a Verdade é a busca pelo conhecimento; o sábio sabe que a Verdade é a busca pelo que se ignora.'
Ou:
'O conhecimento será sempre limitado; o desconhecido será sempre ilimitado.' (meu preferido)

Taleb não é o primeiro a falar do conceito, claro. Trata-se de alicerce para uma das principais ideias de Karl Popper (na verdade, crítica ao processo de indução), o famigerado 'cisne negro': um milhão de cisnes brancos não são suficientes para afirmarmos que 'todo cisne é branco'; um único cisne negro já é suficiente para afirmarmos que 'nem todo cisne é branco'. O conhecimento é subtrativo!

É como uma criança que nasce e acha que tudo é possível. Aos poucos, o 'mundo' vai falando: isso não dá certo, aquilo é errado, e o mundo vai se 'estreitando'. Como o conhecimento subtrai, as possibilidades ficam (mais assertivas mas) menores. Podemos pensar assim em política, empreendedorismo,...
[Lógico que algumas situações são circunstanciais e mudam com o tempo; não estamos falando sobre essas...]

Em termos mais amplos, a psicologia adaptou o conceito com a ideia de que 'é muito mais fácil saber o que NÃO se quer do que aquilo que de fato queremos'. Isto é, não sei se quero ser engenheiro, mas tenho certeza de que não quero ser médico. Não sei se quero continuar no meu trabalho, mas tenho certeza que não quero abrir um restaurante.

Isso tudo já aparece em Schopenhauer (sintetizado por Marco Lucchesi): 'Notamos a dor, mas não sua falta; a angústia, mas não a serenidade: o bem-estar - portanto - é absolutamente negativo.'

Acho tudo isso bem elegante.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O que li em 2012


Em termos de leitura, foi um bom ano pra mim. Li bastante. Aprendi um tanto. Segue minha lista, com link e um mini resumo.


1. Animal Spirits – George Arkelog e Robert Shiller

Na contramão da corrente majoritária ('o homo economicus é totalmente racional'), os dois renomados economistas defendem teses comportamentais, já defendidas por Keynes: a economia é regida por sentimentos de confiança, percepção de justiça, propensão a comportamentos de má fé ou corrupção, ilusão monetária e histórias que rondam o imaginário ('causos'). Ok, a economia comportamental já não é tão 'pequena'...


 

2. Um jogador – Dostoievsky

Com pesar, confesso que ainda não li 'Crime e Castigo', nem 'Irmãos Karamazov', nem 'O Idiota'. Ou seja, foi minha estreia em Dostoievsky. A narrativa é gostosa, mas esperava mais.






Trata-se basicamente de uma 'resposta' - dessa vez 'defendendo o corpo' - a um outro livro do rabino, 'Alma Imoral', que 'defendia a alma'. Novamente os dilemas entre desejo e valores, liberdade e segurança, traição e tradição, evolução e preservação, malícia e hipocrisia. É espetacular. Separei uns trechos aqui.




Mais um ótimo livro de psicologia econômica, sobre nossos vieses. No caso, especificamente o auto-engano: nossas ilusões de atenção, de memória (pra mim, o melhor capítulo), de confiança, de conhecimento, de causa e de potencial. Muito bom!



Meu 3º livro do escritor pop também é bem legalzinho. Ele exagera em alguns pontos (bastante criticado inclusive no Invisible Gorilla) como por exemplo ao afirmar relações causais sem o devido cuidado metodológico (tendo grupos de controle, por exemplo). Mas ok, não deixa de ser interessante. A tese central do livro é a não-linearidade de eventos sociais (venda de livros, fortuna, crimes no metrô...), os pontos de ruptura, assunto bem interessante.
 


A historinha de Antoine que, desiludido e infeliz com o mundo, tenta se matar algumas vezes, mas nem isso consegue. Acaba no mercado financeiro. Interessante.
"De tanto pensar, a consciência sempre tumescente, vivia mal. Ele agora queria ser um pouco inconsciente, bem ignorante das causas, das verdades, da realidade... Estava cansado da acuidade de observação que lhe dava uma imagem cínica das relações humanas. Queria viver; não saber a realidade da vida..."

Um tributo ao acaso, com um apanhado de textos que passa pela Bíblia, por Epíteto, Homero, Shakespeare, Rembrandt, Voltaire, Mark Twain, Albert Camus, Sartre, Borges...
Destaco o 1º parágrafo desse texto de Epíteto.
Difícil de ler, até pelo inglês erudito, mas interessante.


8. 
Justiça – Michael Sandel

O livro sobre o baladado curso, disponibilizado online, de Harvard. O professor-autor-filósofo é muito bom. Faz um resumão, confrontando as noções de moral e justiça ('o que é o certo? o que deve ser feito?') nas visões de Kant, Bentham e os utilitaristas, a teoria do véu da ignorância de Rawls e Aristóteles. A argumentação é tão boa que eu sempre ficava com a sensação de que o autor era 'signatário' do pensamento em questão. Talvez tenha faltado justamente isso: uma oposição a cada um desses pensadores.
Mas essa crítica ao autor também é interessante. Livro top.



Segundo o próprio autor, principal nome do niilismo, o livro se propõe a ser um resumão de sua obra. Nietzche refuta a exaltação dos ‘fracos’ (a moral da décadence) e não se conforma que ninguém perceba isso. Volta às ideias de ‘transmutação dos valores’, ou seja, trocar ‘tudo isso que está aí’, sempre apresentando seu Zaratrusta como o super-homem. Os títulos dos capítulos são impagáveis! (Por que sou tão sábio; Por que escrevo tão bons livros; Por que sou um destino...)
É muito bom. A vida só é possível ‘apesar de’.
 

O autor é conhecido pelos seus bons livros sobre a arte da psicoterapia. Nesse, ele vai fazendo um paralelo entre o trabalho cotidiano de um terapeuta com câncer e a vida e obra de Arthur Schopenhauer. Uma ótima introdução a uma das principais influências para o pensamento de Nietzche e de Freud. Gostei muito.


Resenhei aqui. Três intelectuais justificam suas preferências pelas ideias conservadoras.
Gostei bastante do texto de João Pereira Coutinho e, sabendo ponderar, costumo gostar bastante do Ponde. Acho que o Rosenfield não foi bem. A introdução, de Marcelo Consentino, é também muito boa.
Até pela grande quantidade de citações e bibliografia, trata-se de uma excelente referência para quem quiser estudar (entender, criticar, sei lá) as ideais direitistas.



Sem dúvida meu livro mais difícil do ano. A escrita de um dos primeiros pensadores existencialistas, raríssimo caso que se manteve cristão, não é nem um pouco fácil. Com a história de Abraão como pano de fundo, o autor discorre sobre sua noção de fé. Tentei resenhar aqui.


13.O estrangeiro – Albert Camus

O autor foi amigo de Sartre até romperem por questões políticas do pós-guerra. O texto de Camus é considerado misantropo, ou seja, com uma eterna desconfiança na humanidade. A principal fala do protagonista do enredo em questão, recém órfão e preso por um crime bobo, é ‘Tanto faz...’.
Espetacular livro que conta a história dos estacionamentos, desde a transição de carroças para carros, das ruas para ‘estalagens’. Sobretudo, tenta inserir a questão do estacionamento (que chega a ocupar 30%~40% da área urbana) como um fator mais importante na definição da ‘cidade que queremos’, do ponto de vista funcional e, principalmente, arquitetônico. A passagem sobre os usos alternativos da área de estacionamentos (em horários de subutilização) – como quadras, teatros, feiras, brechós, templos – é muito interessante.


Uma ode à cidade. O renomado economista defende os centros urbanos, principalmente pela sinergia e troca de ideias que geram inovações e evolução. Cada capítulo trata de um assunto, via de regra usando uma cidade como exemplo (ou contra exemplo). Dá uma bela cutucada nos ambientalistas, defendendo as cidades verticais ao invés de expansões territoriais. O argumento é: ‘Cada estudo só avalia o impacto do projeto se ele for aprovado, e não o impacto de ele ser negado e a construção começar em outro lugar’.
Dei uma pincelada sobre um dos assuntos aqui.
O livro já é considerado pré-requisito para se estudar urbanismo. Muito bom.



Concordo: é fácil não gostar do Pondé. Se esse for seu caso, nem chegue perto do livro. Na minha opinião, o cara peca pelo exagero, por ser agressivo ou arrogante demais; mas a mensagem geralmente é muito boa. De filosofia mesmo, tem muito pouco. Nesse livro, que ele mesmo chama se ‘ensaio de ironia’, Pondé bate em quase tudo: preconceitos, opinião pública, felicidade, mulheres, universidades, religião, música,... O politicamente correto é a origem da maioria dos males do nosso tempo.
Gostei bastante do livro (talvez porque concorde com quase tudo).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Não tenha medo de trocar de ônibus


Faço um resumo desse bom texto do ótimo Jarrett Walker, acrescentando alguns comentários. (as figuras desse post são do texto original).

Em 'Por que dirigimos assim?' (que resumi aqui), Tom Vanderbilt argumenta (com estudos) que o que mais incomoda o cidadão no trânsito não é o longo tempo em si da viagem, mas, sim, a variação desse tempo. Exemplificando: o que mais incomoda um aluno da cidade universitária de São Paulo que mora na zona leste não é gastar 1 hora para atravessar a cidade mas, sim, que em vários dias, essa 1 hora vira 1 hora e meia (na prática, a felicidade de que, em alguns dias, ele leve 'apenas' 40 minutos não compensa a frustração da demora nos outros dias).

Nessa mesma linha, Jarrett Walker defende como um dos maiores pilares da política de mobilidade urbana a busca por FREQUÊNCIA ao invés de VELOCIDADE. O artigo que trago toca justamente nesse ponto.

Via de regra, os cidadãos se deliciam com uma linha de ônibus que passe na porta do trabalho e os leve à porta de casa. Mas isso é simplesmente impossível de atender em larga escala. Buscar esse objetivo é jogar dinheiro fora e subaproveitar a malha de ônibus.

A alternativa, impopular (aliás, como a maioria das soluções de verdade), é incentivar transferências (conexões, baldeações,...).

O exemplo clássico é o seguinte: imaginemos 3 origens e 3 destinos. Pra ligar ponto-a-ponto pra todo mundo, precisaremos de 9 rotas (A a 1, A a 2, A a 3, B a 1, B a 2, B a 3, C a 1, C a 2, C a 3).
Supondo tempo de viagem de 20 minutos e orçamento suficiente para realizar cada viagem a cada 30 minutos, temos que cada viagem demorará entre 20 minutos (você chegou no ponto bem na hora da porta aberta do ônibus; tempo de espera = 0) e 50 minutos (você chegou no ponto bem na hora da porta fechando; tempo de espera = 30 minutos). Na média, 35 minutos.



A alternativa com transferência criaria um ponto de conexão (vamos supor no meio do caminho de todo mundo). Nessa situação serão necessárias apenas 3 rotas, todas passando por esse ponto central. Com o mesmo orçamento e a redução de rotas num fator de 3, podemos aumentar a FREQUÊNCIA das viagens em um fator de 3, ou seja, a cada 10 minutos. O tempo de viagem será composto por: de 0 a 10 minutos pra pegar o 1º ônibus + 10 minutos da 1ª viagem + de 0 a 10 minutos para pegar o 2º ônibus + 10 minutos da 2ª viagem; ou seja, entre 20 e 40 minutos. Na média, 30 minutos.



Repare que, se você tiver a 'sorte' de ter a viagem direta (no exemplo, acontecerá em 1/3 das rotas), você ainda não terá o tempo de espera do meio, ou seja, a média de viagem cai ainda mais.

Essa alternativa possui ainda mais vantagens do que apenas a economia de tempo:
- é mais fácil pra população entender as rotas; é mais mnemônico; haverá menos tempo perdido com o motorista tendo que responder pra senhorinha se esse ônibus passa na avenida x.
- a malha será mais bem aproveitada; a tendência é que todos os ônibus sejam mais bem ocupados (todo ônibus será, de fato, útil). Isso pode parecer uma desvantagem (ônibus cheio é mais desconfortável), mas ônibus bem ocupado (não superocupado) é sinal de bom uso do dinheiro público. Ou não existe a sensação de 'desinteligência' ou desperdício quando pegamos um ônibus abarrotado e, na sequência, um ônibus super vazio?
- menos rotas e mais curtas significam mais resiliência, mais capacidade de acertar um detalhe do trajeto como um cruzamento-gargalo.
- a vantagem aumenta com o aumento da cidade. Basta imaginarmos uma redução de rotas num fator de 10 e aumento da frequência num fator de 10.

Existem três argumentos contra os transfers: um fresco, um falacioso e um considerável.

A crítica fresca é que não terá mais viagens sentadinhas, longas, para se ler um livro. Bem, aí a população precisa escolher se prefere chegar logo ou chegar sentada. Frescura.

A crítica falaciosa condena o cálculo de espera lá de cima no texto. Dizem que basta você saber a hora que o ônibus passa e se programar pra ela, levando o tempo de espera sempre a zero. Quem vive a prática, sabe que isso não é aplicável. Primeiro porque não sabemos ao certo a hora dos ônibus. Segundo porque, mesmo que soubéssemos, nem sempre conseguiríamos nos adequar. A frequência menor (mais tempo entre um ônibus e o próximo) levará a tempos de espera, mesmo que você saiba os horários. O exemplo no post original é bom: se você tem que chegar ao escritório às 9h00, mesmo que saiba que um ônibus passa às 8h05 e te deixará no escritório às 8h40, você continuará perdendo os 20 minutos no trabalho por ter chegado mais cedo do que precisaria (e o ônibus seguinte faria você chegar atrasado). Ou seja, essa crítica é uma falácia.

A crítica boa é psicológica: o perrengue da conexão. Ou seja, existe um 'penalty' maior do que simplesmente o tempo de espera adicional na conexão.
Na verdade, tudo isso pode ser mensurado para vermos até que ponto (até quantos minutos) o usuário aceita gastar mais na viagem direta do que fazendo conexão (5 minutos? 10 minutos?). Obviamente, a conexão tem que ser uma situação agradável e cômoda, sem ter que andar demais, por exemplo.

Pra tudo isso, claro, um cartão do tipo 'bilhete único' é imprescindível.

Experimentei a teoria na prática e adivinhem: dessa vez, deu certo. hehe. Comecei a pegar, de fato, o primeiro ônibus que passasse em frente ao trabalho, sem nem saber o nome ou o número. No meu caso, confesso, era um pouco mais fácil: ou ele pega a Av Santo Amaro (que me basta para rota direta) ou sobe a Av Brigadeiro Luis Antonio. Nesse 2º caso, pulava do ônibus assim que percebesse o 'desvio da minha rota', andava até a Av Santo Amaro e pegava o primeiro ônibus que passasse, também sem saber nome ou número. Como a entrada dos ônibus na Av Santo Amaro às vezes trava, acredito que em alguns dias, até ganhei tempo ao pular de um ônibus e entrar no outro, já na Avenida.

Enfim, seria bom ter um prefeito com um pouco mais de coragem para enfrentar o status quo e tomar uma decisão um pouco mais técnica com relação à malha de ônibus.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Xinguem os números. Ou: cuidado, vó!


No debate pra eleição de governador em São Paulo em 2010, um dos candidatos (acho que o ex-neo-queridinho Russomano) perguntou pro candidato Alckmin sobre as propostas para combater a violência em São Paulo e terminou com algo como 'Mas não me venha com estatísticas, não...'.

Dei risada.
Talvez seja verdade que, em alguns casos, 'estatística seja a arte de fazer os números confessarem'.
Madre Teresa dizia que, se ela fosse olhar as desgraças de todo o mundo, não ajudaria o próximo, ao lado. E, se não ajudasse a pessoa ao lado, o mundo não melhoraria. Isso é válido para igrejas, psicólogos, assistentes sociais. Minha esposa trabalha na Brasilândia, um dos locais mais afetados nesses meses. O bicho pegou e eu ficava tenso. Mas era uma questão muito mais qualitativa do que quantitativa.

Com relação ao Estado, não há outro modo para tomar decisões e medir os resultados, se não pelas estatísticas.

A grande diferença da crise pela qual São Paulo passou é que foi justamente isso: uma crise. Aguda, não crônica. Pontual, não sistemática.
Não deve ser minimizada. A polícia tem que entender os motivos que levaram o PCC a se rebelar novamente. E evitar. Mas a imprensa não tem que ficar na base do achômetro. A entrevista que o Canal Livre da Band fez com um coronel da PM foi muito interessante. O link aqui. Os jornalistas faziam comentários de botequim e o coronel respondia com dados.

Mas vamos aos números.
A OMS estabeleceu uma métrica para definir o que pode ser considerada uma cidade 'violenta': menos de 10 mortes por 100 mil habitantes por ano, a cidade está ok; mais do que 10 por 100 mil habitantes, a cidade passa a ser 'endemicamente' violenta. Para essa métrica, eles consideram os 'crimes violentos letais intencionais (CVLI)': homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.

São Paulo teve 10,8 dessas mortes por 100 mil habitantes em 2011. Em 2012, deve subir para algo em torno de 11,5. E, com esse número é, simplesmente, o Estado mais seguro do Brasil.

Muita coisa do que pensei em escrever já estão aqui e aqui.
Um dado interessante é que, mesmo extrapolando esse pior cenário por todo ano, São Paulo ainda é o Estado mais seguro. É dado, não opinião.
Não adianta discutirem comigo ou com a Veja ou com quem quer que seja.
'Ah, mas eu conheço um vizinho do meu tio que foi assassinado'. Sim, são 11 assassinatos por 100 mil habitantes por ano. Não zero. Infelizmente.

Xinguem os números.
Aliás, publico a tabela abaixo, mas consultem vocês mesmos aqui. Página 28, tabela 10. Antes de questionar os dados, lembro que se tratam de publicações do próprio Ministério da Justiça.



'Ah, mas quem diz que os dados são confiáveis? Quem garante que nem toda morte na praia é considerada afogamento, como em Tropa de Elite?' 'Tu é legista, mermão??'.

Bom, compartilho a opinião - e, no fundo, é só isso mesmo, uma opinião, um chute - de que furtos não são mesmo denunciados pela população através de boletim de ocorrência. Mas morte? Sumiço de corpo? Hum... Sei não. E, SE houver, mais provável que seja em Estados menores, mais distantes, com menos gente, não?

Aliás, São Paulo é o único Estado que divulga seus números de segurança mensalmente e abertos por delegacia. Ou seja, se você é um estagiário de jornalismo em um portal qualquer, terá pelo menos um tema garantido por mês! Sempre terá números novos pra você descer a lenha. (No Acre, por exemplo, as últimas estatísticas ainda são de 2009).

E, sobretudo, São Paulo prende. São Paulo tem cerca de 22% da população do Brasil e 41% da população carcerária nacional. Quiseram comparar a ação das UPPs do Rio com a ação da PM na favela Paraisópolis em São Paulo. Não tem NADA a ver. A UPP é tomada de território. É war, futebol americano, Combate da Estrela. Era uma terra do tráfico, que o Estado recuperou. O símbolo é hastear a bandeira da cidade e do país. Em São Paulo, não foi isso. A polícia entrou pra prender. E prendeu mais pessoas do que todas as UPPs somadas. Veja bem: não estou criticando a ação das UPPs no Rio, não. A ação é correta. Mas é um estágio anterior a prender. Lá, os bandidos foram simplesmente espalhados.



'Ah, mas São Paulo ainda não está bom'.
É verdade. Não está e tem muita coisa pra fazer. Mas isso não justifica mentir, não justifica bater nos dados. Pra efeito de comparação, Nova Iorque tem cerca de 7,5 mortes por 100 mil habitantes por ano e Chicago tem 15. Sim, senhores e senhoras, São Paulo é só um pouco mais violenta que Nova Iorque e mais segura que Chicago.

'Ah, mas a sensação não é essa'.
Esse é, de fato, um grande problema. Difícil arrumar, ainda mais quando não olhamos os números.
Vale também lembrar, jogando um pouco de polêmica ou conspiração no ar, que o percentual da 'indústria da insegurança' (seguranças particulares, redes elétricas, monitoramento remoto, blindagem) no PIB não é pequeno (li sobre um estudo do IPEA que estima em 5% do PIB, mas não encontrei o artigo original). Ou seja, há interesses econômicos nisso tudo também.

Dica para os críticos
Se quiserem bater no governo estadual (ou mesmo nos paulistas, a nova moda brasileira), sugiro não tentarem refutar os números. Um caminho pode ser dizer que o governo não tem responsabilidade nenhuma nessa melhora (dos últimos anos). Isso é mais crível. Sério. Os economistas do Freakonomics captaram correlação de décadas atrás para redução da violência atual (no caso de lá, a liberação do aborto). Malcoln Gladwell, em seu Outlier, diz que a violência parece ter algo como 'ciclos endógenos', ou seja, crescem e diminuem sem muitas razões claras, numa espécie de manada irracional. Se quer xingar, vá por esse lado. 'São Paulo melhoraria de qualquer jeito'. Melhor que bater nos números.

Finalizando
No mês passado, quando liguei para mandar um beijo pra minha avó, que mora no interior de Minas, ela ficou uns 5 minutos falando pr'eu tomar cuidado na rua, que a cidade era um caos e tudo mais. Coitada. É o que aparece na TV. Na cidade dela, nos últimos 12 meses, devem ter tido umas 2 mortes. São cerca de 2.500 habitantes, ou seja, uma taxa de 80 por 100 mil habitantes por ano. Pensei em fazer toda essa argumentação com ela pelo telefone. Mas não sei se seria uma boa. Fica aqui minha resposta: cuidado vó! A probabilidade da senhora morrer assassinada aí é 8 vezes maior do que eu aqui...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Angústia, fé e razão


Algumas perguntas das inúmeras discussões em que me meto às vezes simplesmente ficam no ar. Uma dessas é a do amigo Fil, questionando os motivos da minha religiosidade, ‘embora culto, sem doenças e sem necessidades materiais’.

Antes de tudo, é bom deixar claro que não sou ‘do tipo pregador’, tão chato quanto os ateus pregando sua crença, a inexistência de deus. Ou seja, não o incomodo (pelo menos, não nesse particular...). Outro fato intrigante da pergunta-confronto é que esse amigo é muito ‘do bem’, segue uma moral ou ‘bons costumes’ que uma mãe (ou uma religião...) gostaria de passar pr’um filho. Mas me questiona...

Geralmente digo que, por trás dessa desconfiança no sobre-humano por parte de um ateu, existe um excesso de confiança na razão humana. E esse excesso de confiança no homem, essa auto-suficiência é tão ‘misteriosa’ (ou ‘questionável’...) que a confiança em um deus. Pois bem...



Acabei de ler ‘Temor e tremor’, de Soren Kierkegaard, um raro filósofo existencialista e, ao mesmo tempo, religioso. Confesso que a leitura não é fácil.

Cheguei ao autor através de um dilema interno entre idéias aparentemente paradoxas, pelas quais sou simpático: a ausência de sentido da vida e a fé em Deus.

O livro conta a história de Abraão - já em idade avançada, chamado por Deus a sacrificar seu único filho, Isaac -, apresenta suas alternativas e as compara a alguns outros dilemas famosos da História.
A passagem de Abraão é (erroneamente) simplificada da seguinte maneira: ‘Abraão ofereceu o que tinha de mais valioso como prova de sua fé em Deus’.
Kierkegaard discorda. A mensagem não é essa e destaca duas grandes razões:
1) Um milionário que se desfaz de toda sua fortuna como prova de amor a Deus também pode estar oferecendo o que tem de mais valioso, mas definitivamente não revive a história de Abraão. Aí não há a angústia, não há a dúvida doída e calada, questão central no drama de Abraão.
2) Ao contrário dos demais dilemas, nos quais a moral é ‘força impulsionadora’ para coisa certa, na questão de Abraão a moral é justamente a tentação. Os costumes mandavam Abraão não matar seu próprio filho.

A história é o caminho pelo qual Kierkegaard desenvolve sua noção de fé. Ele diz que antes da fé, é preciso uma resignação absoluta, um completo aceitar. Acho que assim, ao invés de contrapor (como um paradoxo), ele consegue aliar a ideia da religiosidade ao conceito de (ausência de) sentido da vida.

Gosto da parte em que diz que a fé é uma paixão e, como toda paixão, deliciosa e carente de maiores explicações. Ainda: a fé se inicia onde acaba a razão. (Uma boa explicação para religiosidade em diversos níveis educacionais, isto é, cada pessoa com seu ‘limite de razão’).

Acho que é uma boa resposta, na medida do que é possível e preciso ser respondido...