segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Angústia, fé e razão


Algumas perguntas das inúmeras discussões em que me meto às vezes simplesmente ficam no ar. Uma dessas é a do amigo Fil, questionando os motivos da minha religiosidade, ‘embora culto, sem doenças e sem necessidades materiais’.

Antes de tudo, é bom deixar claro que não sou ‘do tipo pregador’, tão chato quanto os ateus pregando sua crença, a inexistência de deus. Ou seja, não o incomodo (pelo menos, não nesse particular...). Outro fato intrigante da pergunta-confronto é que esse amigo é muito ‘do bem’, segue uma moral ou ‘bons costumes’ que uma mãe (ou uma religião...) gostaria de passar pr’um filho. Mas me questiona...

Geralmente digo que, por trás dessa desconfiança no sobre-humano por parte de um ateu, existe um excesso de confiança na razão humana. E esse excesso de confiança no homem, essa auto-suficiência é tão ‘misteriosa’ (ou ‘questionável’...) que a confiança em um deus. Pois bem...



Acabei de ler ‘Temor e tremor’, de Soren Kierkegaard, um raro filósofo existencialista e, ao mesmo tempo, religioso. Confesso que a leitura não é fácil.

Cheguei ao autor através de um dilema interno entre idéias aparentemente paradoxas, pelas quais sou simpático: a ausência de sentido da vida e a fé em Deus.

O livro conta a história de Abraão - já em idade avançada, chamado por Deus a sacrificar seu único filho, Isaac -, apresenta suas alternativas e as compara a alguns outros dilemas famosos da História.
A passagem de Abraão é (erroneamente) simplificada da seguinte maneira: ‘Abraão ofereceu o que tinha de mais valioso como prova de sua fé em Deus’.
Kierkegaard discorda. A mensagem não é essa e destaca duas grandes razões:
1) Um milionário que se desfaz de toda sua fortuna como prova de amor a Deus também pode estar oferecendo o que tem de mais valioso, mas definitivamente não revive a história de Abraão. Aí não há a angústia, não há a dúvida doída e calada, questão central no drama de Abraão.
2) Ao contrário dos demais dilemas, nos quais a moral é ‘força impulsionadora’ para coisa certa, na questão de Abraão a moral é justamente a tentação. Os costumes mandavam Abraão não matar seu próprio filho.

A história é o caminho pelo qual Kierkegaard desenvolve sua noção de fé. Ele diz que antes da fé, é preciso uma resignação absoluta, um completo aceitar. Acho que assim, ao invés de contrapor (como um paradoxo), ele consegue aliar a ideia da religiosidade ao conceito de (ausência de) sentido da vida.

Gosto da parte em que diz que a fé é uma paixão e, como toda paixão, deliciosa e carente de maiores explicações. Ainda: a fé se inicia onde acaba a razão. (Uma boa explicação para religiosidade em diversos níveis educacionais, isto é, cada pessoa com seu ‘limite de razão’).

Acho que é uma boa resposta, na medida do que é possível e preciso ser respondido...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Por que virei à direita

Li ‘Por que virei à direita – Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo’. Os intelectuais são João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Ponde e Denis Rosenfield.

A introdução, de Marcelo Consentino, já é bem agradável. Ele escancara a régua assimétrica: absoluta intolerância ao nazismo (ainda bem!) sem a equivalente repugnância ao totalitarismo esquerdista. Diz que, embora lamentável pela repressão policial, torturas, prisões, etc, a ditadura brasileira nunca tentou impor uma doutrinação ideológica, comum nas ditaduras esquerdistas; tanto que universidades, imprensa e partidos estiveram dominados pelo pensamento esquerdista, mesmo no período militar.

A melhor contribuição de Consentino, no entanto, foi a interessante categorização dos pensamentos direitista e esquerdista. Diante da evidente distância entre os mundos real e ideal, a estratégia do esquerdista é tentar misturá-los. Para o direitista, a vida será melhor se entendermos, aceitarmos e termos bem clara a separação desses mundos.

A tônica dos textos é nesse sentido: o homem é imperfeito e sempre será. Ignorar essa verdade, buscar a utopia, a criação do Paraíso na Terra é um gigantesco engano (até porque o Paraíso será diferente para cada homem). A busca pela utopia é uma chantagem e, portanto, suja: onde já se viu não buscar o mundo perfeito?; 'consola a alma e os outros'. (E, depois, procuram-se os culpados pelo óbvio insucesso...)

O erro da esquerda é justamente ignorar a falibilidade inata do ser humano, ignorar que ‘somos condenados ao naufrágio’.  Para o direitista, basta aos homens não transformar nosso mundo real num Inferno.

Não é função do Estado se colocar como agente moralizador. Quem governa deve suspeitar das suas próprias idéias de mundo. O governo é apenas necessário; não é uma entidade naturalmente benigna, com a função de levar a comunidade à perfeição, justamente porque os homens são incapazes para tanto e porque o Estado não sabe o que é melhor para cada cidadão.

Os autores também trazem o clássico embate entre liberdade e igualdade. Ampliando liberdade, ampliamos a criatividade e escancaramos as diferenças, distanciando-se da pretendida igualdade. Ao contrário, ampliando igualdade, ampliamos a mediocridade. A solução para o direitista é, de novo, aceitar que os homens são diferentes.

Vivemos sob um pano de fundo randômico e, daí, a necessidade de seguir hábitos que nos trouxeram até aqui. É preciso ser cético, desconfiado em relação à razão: nenhum homem ou grupo de homens deve se colocar como capaz nem tem a primazia de resolver os problemas do mundo. Temos que ser cuidadosos com a crença excessiva em si mesmo 'porque o si mesmo não é fundamento de si mesmo, assim como ninguém escapa do abismo puxando a si mesmo pelo cabelo'. Precisamos respeitar a ‘sabedoria dos mortos’.

Gostei bastante.

sábado, 7 de julho de 2012

APESAR DE...


Sempre fui um cara pessimista; talvez, preocupado. Na origem, quem sabe, isso se deva à tradição judaico-cristã, de zelo presente e preocupação com o futuro. A mudança do mundo corporativo em um banco para a gestão de uma empresa própria me empurrou pra ‘vida de verdade’. Casar com uma psicóloga que trabalha com dependente químico ainda mais. As sujeiras e tristezas do mundo ficaram muito próximas. A seqüência de desilusões políticas foi minando minha pouca esperança restante. No trabalho, clientes querendo dar migué. Funcionários armando o bote pra sacanear. Em conversa de bar, sugiro ações de trânsito que restringiriam veículos privados. Amigos inteligentes refutam de imediato. Fico indignado. Num almoço, amigos que trabalham num grande fundo de investimento contam que os cabeças querem colocar grana em logística e infra-estrutura no Brasil, mas a burocracia impede... Fui dar uma olhada em filosofia, alguns pensadores e logo gostei das idéias niilistas: ‘tudo isso pra quê mesmo?’. Li Nietzsche e sua crítica ao idealismo. Vi-me em um paradoxo: como ser simpático ao niilismo e ser católico ao mesmo tempo? Como não ver sentido na vida e ter (que ter) esperança num mundo melhor? Conversei com minha terapeuta, com o padre, com um vereador e até com um professor-filósofo. Fui apresentado a Soren Kierkegaard, um raro existencialista, angustiado, que se manteve cristão. Ainda não o conheço direito. Com o vereador, quis mostrar idéias de trânsito – também tenho estudado –, disparado o item que mais me incomoda numa cidade grande. Não entro na crítica fácil a ‘esses políticos malditos...’. A política somos nós. A Câmara é um conjunto aleatório de quaisquer 513 brasileiros. O cara me recebeu bem, mas vi que a boa vontade dele não bastava. O buraco é bem embaixo. Nos sermões do padre, o convite à ação diária. Na conversa pessoal, ele concordou comigo sobre o momento difícil da humanidade, de transição, com pouca luz no túnel. Relembrou a ideia de buscar portos seguros, instituições, em especial, a família. Ah, minha família... Tive um momento de paz ao perceber que nela poderei ficar bem, sem precisar pensar. Pensando na continuidade, começamos a pensar em filhos. Mas aí lembrei de Brás Cubas: ‘Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.’ E aí, volta a dúvida: ‘Como colocar um filho nesse mundo? Coitado...’ E a terapeuta dando liga, sugerindo que eu me cobre menos. Não sou fã do Brasil. Não gosto do ‘jeitinho’ brasileiro, tão encarnado no nosso dia-a-dia, a lei de Gerson. O brasileiro não é solícito; é uma auto-ilusão. Na verdade, chego a pensar que é diametralmente oposto a isso. Por que não largar o osso? Não foram poucas as vezes que me colocaram o ‘ame-o ou deixe-o’. Até eu mesmo me perguntei. Visitei um amigo no Canadá, tenho amigos nos EUA, na Alemanha, Austrália, na África do Sul, Cingapura,... Todos com seus bens e seus poréns. A grama do vizinho é sempre mais verde, é difícil ser ‘pra sempre’ um ‘imigrante’. No fundo, todo cético-ao-extremo vivo, todo niilista vivo é um incoerente; deveria se matar. Prefiro, então, a incoerência. Continuarei vivendo. Minha esposa, talvez quem melhor me conheça, não me considera mal-humorado, apesar de tudo isso. Ranzinza mas bem-humorado. Acordo sorrindo, vou dormir sorrindo. Tenho amigos com os quais eu sorrio. Vivo (ou sobrevivo) apesar de tudo. Talvez seja esse o princípio para ultrapassar o niilismo, se tornar o tal Übermensch. Ou talvez seja só parar de pensar. Sorrio apesar de tudo.

UPDATE: No exato dia em que escrevo esse texto, leio à noite em 'Ecce Homo' de Nietzsche:
A dor não aparece como objeção contra a vida: "se já não tens alegria alguma para me dar, bem!, tens ainda a tua dor..." (...) de tal modo que a preamar me impossibilitava o sono durante a noite, proporcionava-me quase em tudo o contrário do que era de desejar. Apesar de tudo e quase como demonstração da minha máxima de que tudo o que é decisivo acontece "apesar de". 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Vida é um fractal da História


Há muitos anos, descobri o prazer da leitura. Mais tarde, com curiosidade, desejo de aprender e influenciado por um ou outro amigo, resolvi postergar o desejo de um mestrado, substituindo os cursos por leituras mais ‘sérias’, mais formais. A ideia era fazer meu próprio curso, aprender o que desse na telha. Ganhei amplitude, perdi profundidade. Nunca mais fiz uma matéria da qual eu não gostava. E fiquei preparado para ser um ‘tudólogo’: enrolar sobre quase todos os assuntos... hehe. E misturar assuntos diversos.
Essa introdução serve apenas para contextualizar uma associação que fiz pela leitura de alguns livros que, a princípio, não teriam nada a ver.

Começo com uma ideia do Nassim Taleb, de "Cisne Negro" e "Iludidos pelo Acaso", crítico do uso sem restrições da curva normal, com suas caudas estreitas. Taleb defende a tese de que alguns eventos de grande impacto são menos raros do que supostamente esperamos (os extremos da distribuição de probabilidades – as caudas – são na verdade mais gordos). Os exemplos disso na História são as guerras e revoluções que nos levaram ao mundo como é hoje. Fosse a História feita apenas pelos dias comuns, estaríamos em um estágio muito anterior. Ao ler esse trecho, imaginei 2 gráficos que se somam. Abaixo, o azul representa a evolução cotidiana, de grão em grão, lenta e segura. O vermelho, as revoluções e grandes mudanças, pontuais, ocasionais, um pouco caótico. A soma, em preto, resulta a evolução da História da humanidade. Passos pequenos somados a grandes saltos.





Retire 2 ou 3 grandes eventos ou grandes dias da História, e estaríamos em tempos MUITO diferentes. Analogia do tempo moderno: a Bolsa parece um ótimo investimento de longo prazo; retire (ou esteja fora dela) os 2 ou 3 dias com maiores valorizações e o rendimento total do período já não será bom.

Ok, e daí?
E daí que li também Nilton Bonder, o rabino cujo principal assunto são nossos confrontos internos, nossos dilemas conscientes e inconscientes. Com paródias judaicas (lembrando que sou bem católico...), ele passeia por filosofia e psicanálise. Gostei muito. ‘Alma imoral’ e ‘Segundas intenções’ são embates sobre a imoralidade da alma com a moralidade do corpo, o bom versus o correto, a evolução versus a preservação. (O jogo das capas dos livros é bem legal: aqui e aqui). Ao longo do texto, fui completando a tabela abaixo. E percebendo que nossas vidas são pequenas versões dos gráficos acima. A grande maioria dos dias é comum, mas nossa vida é fundamentalmente marcada pelos poucos momentos atípicos, por acaso, fora de controle. Uma mesmice com pequenos picos de grandes mudanças. Uma topada com certa pessoa, uma demissão, um acidente de carro, um convite, uma ruptura. Retire 2 ou 3 grandes momentos da vida e estaríamos em outro estágio.



Tanto a composição dos gráficos como a ideia de que pequenas estruturas formam estruturas maiores idênticas são baseadas nos fractais de Mandelbrot.
A vida é um fractal da história da humanidade.



Ao longo dos textos, fui pensando também sobre as implicações políticas ou, mais que isso, nas minhas discussões diárias (já que gosto de discutir...). Será que eu estava delirando, querendo encaixar o mundo ao meu pensamento (e não o contrário), fazer o convidado do tamanho da cama (e não o contrário)? No final de ‘Segundas intenções’, fui presenteado com uma seção voltada mesmo pra política – liberais versus conservadores – tal como eu vinha imaginando ao longo dos textos. Não viajei sozinho.
Não gosto da ideia de que essa separação política não faz mais sentido porque não me considero parte do mainstream esquerdista contemporâneo, não gosto desse ‘é-tudo-a-mesma-coisa’, já que não quero a ‘mesma coisa’ que está aí. Não acho legal tudo caminhar para o centrismo, para a peemedebização. E os livros me permitiram categorizar, rotular algumas dessas diferenças.

Em essência, a direita é o corpo, é a linha azul lá de cima. A esquerda é a alma, a linha vermelha lá em cima.
Em essência, o dia-a-dia tem que ser direitista, com cuidado, com regras, com preservação (Daí, acho que em geral os governos devem ser direitistas). Mas os grandes eventos, as grandes conquistas da humanidade foram realizadas por gente que pensou fora da caixa, esquerdistas, alma. Mas não dá pra ter uma situação esquerdista, é muito “vida-loka”. Direita como default, esquerda como conquista.
Do mesmo modo, em essência, nossa vida tem que ser com cuidado, com regras, com disciplina. Mas os grandes momentos da vida são imorais, são alma, um pouco caótico e sem controle.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Segundas intenções

Acabo de ler 'Segundas intenções' de Nilton Bonder. Foi-me apresentando como a resposta do Corpo à 'Alma Imoral', um outro excelente livro do autor-filósofo-rabino (aliás, percebo só agora que não fiz um texto sobre o que esse livro provocou em mim...; um erro).
'Segundas intenções' não é uma leitura fácil. Acho que é do tipo de livro que cada nova leitura acrescentará um ponto não percebido nas anteriores. Não sou capaz de fazer uma resenha. Por isso, apelo para a simples transcrição de alguns pontos que achei interessantes.


Sobre o confronto de corpo e alma
A imoralidade da alma se confunde então com o próprio impulso-mau, com uma segunda intenção; da mesma forma, o corpo, através da moral, produz hipocrisias que são também segundas intenções. O impulso-ao-mau abocanhará dos dois lados sempre que estes não conseguirem preservar a tensão entre si e abandonarem o diálogo direto.

Mas enquanto a tática da alma é propor o desmascaramento do impulso-mau pela transgressão de suas morais hipócritas, a tática do corpo será o de vesti-lo ainda mais, revelando assim que não há honestidade plena e que expor esta condição proporciona a melhor forma de retidão e franqueza disponíveis a um ser humano.

A alma denuncia a presença do impulso-mau na hipocrisia e na moral e as combate com imoralidade, transgressão, relativização e tolerância. O corpo denuncia a presença do impulso-mau na malícia e a combate com a moral, a obediência, a verdade e a intransigência.


Sobre a verdade per se
Dois rivais no mundo dos negócios se encontram numa estação de trem. O primeiro pergunta: “Para onde você está viajando?”. E o segundo responde: “Para Minsk”. “Para Minsk? Que cara de pau! Você está me dizendo que vai para Minsk só para que eu pense que está indo para Pinsk. Mas acontece que eu não sou bobo e sei que você vai mesmo é para Minsk. Então por que você está mentindo pra mim?”. A anedota traz uma questão profunda: a verdade existiria per se ou dependeria do entendimento de quem a escuta? (...) As falas partem sempre do lugar das intenções e atingem o lugar das intenções dos outros.


Sobre a certeza e a verdade
O objeto da visão é a certeza; o objeto da confiança é a verdade. A certeza está associada à função da presença, do material. A verdade está associada à existência, à essência.
“Ah, mas eu vi você fazendo!” é sempre uma prova material, e assim vamos pautando a vida por este preceito maior. O que é visto pelos outros parece determinar o que é verdadeiro. No entanto, isso funciona basicamente de maneira inversa. O que não é visto sempre terá maior materialidade para nossa identidade do que aquilo que se apresenta diante de nós. Distante de olhares, ou na intimidade da consciência, é produzido o material que nos faz sujeito. Nesse lugar, o ser que é visualizado pelos outros com certeza surpreenderia por ser bem mais ou bem menos do que a vestimenta leva os olhos a enxergar.


Sobre a mentira que não fere a verdade
Todo ser humano vestido é como o membro de um grupo de Alcoólicos Anônimos, expondo uma civilidade que é falsa, mas declarando-a abertamente como uma demonstração de honestidade humana. Nossa maior verdade está em nos caracterizarmos como potenciais mentirosos. E se isso parece uma resignação inaceitável, um conformismo à imperfeição, saiba que pode ser também uma manifestação de maturidade própria de uma consciência que se fiscaliza.

[Comentando a paródia do rabino que troca a galinha da mulher pobre para que fique dentro das normas dietéticas da tradição:] Quando o rabino mente – já que entrega outra galinha – só está mentindo para si e com consciência de que é uma mentira. Mentir apenas para si, tendo consciência disso, não fere a verdade. Essa é a inventividade do corpo, diferente da inventividade da alma, que se projeta para fora do mundo e quer modificá-lo (...)


Sobre o não visto
Lembro do caso de um psicanalista socorrendo uma mãe desesperada porque o filho a ameaçara com uma faca. Estavam discutindo acaloradamente na cozinha quando, colérico, o filho ergueu uma faca para a própria mãe. A mulher estava inconsolável: como poderia olhar de novo para aquele filho com amor? Não lhe saía da cabeça a cena da faca levantada, pronta para feri-la. O terapeuta então perguntou: “Mas o que foi que fez que ele não a esfaqueasse?”. A mulher, a princípio, pareceu não entender o que era perguntado. O terapeuta então completou: “Você diz que não consegue tirar de sua mente a cena em que aquele ódio tomou a forma de uma faca. Mas o que foi que deteve a mão de cumprir com o desígnio do ódio?”. Ele mesmo respondeu: “O que a deteve foi o amor. Foi o amor de seu filho que impediu a mão de desferir qualquer agressão”. O que o psicanalista estava dizendo é que sempre vemos o ato, mas não conseguimos completá-lo com seu desdobramento, com a parcela não visível.


Sobre o avesso do avesso do avesso do avesso
A estratégia de revelar um camaleão não é retirando sua roupa. Por baixo de uma estarão outra e mais outra e mais outra e assim infinitivamente. A estratégia correta não é tentar despir, mas acrescentar nova vestimenta. É no contrassenso que está a sapiência.


Sobre a racionalização
A racionalização é fruto da decisão da consciência. Esta racionalização equivaleria ao somatório de impulsos, com os quais considerariam possíveis retaliações sociais e morais. Ela induziria à ação não por aderência a princípio e valores, mas como resultado do mecanismo animal de temores [e recompensas] por seus impulsos.
Melhor o errado que não se afasta da verdade do que o correto que dela prescinde. Por isso, a preferência da tradição pelo “perverso que se sabe perverso” mais do que pelo “justo que se sabe justo”. (...) Isso só é possível se entendemos que o primeiro tem a virtude de não se enganar a si mesmo; já o segundo, por não desconfiar de suas segundas intenções, se faz presa fácil de construções errôneas sobre si e sobre a realidade.


Sobre a falsa humildade
“O nada refletido expõe o tudo”.
Uma clássica anedota judaica conta que em pleno Dia do Perdão, num dos momentos mais fervorosos das orações, o presidente da sinagoga se levantou e, consternado, confessou: “Meu Deus, quem sou eu? Eu sou um nada”. Logo depois, seguindo seu exemplo, levantou-se o diretor de culto que admitiu também: “Meu Deus, o que sou eu? Eu sou um nada”, voltando a sentar-se com um ar constrito. Animado pela seqüência, o bedel, o contínuo da sinagoga, fica de pé e confessa: “Meu Deus, quem sou eu? Eu sou um nada”. De imediato, várias pessoas protestam na multidão: “E quem ele acha que é para se declarar um ‘nada’?”.


Sobre as individualides
Um discípulo leva um amigo para conhecer o rabino. O amigo vai e descreve que tem uma visão sobrenatural, um halo de santidade emanava do rabino. O discípulo ficou gratificado mas com uma espécie de inveja, pois nunca tinha vivenciado algo semelhante. Perturbado com esse sentimento, procurou o conselho do próprio rabino: “Há anos com assiduidade venho vê-lo e nunca presenciei fenômeno extraordinário de conteúdo místico e transcendental. No entanto, trago um amigo, uma pessoa cheia de resistências e na primeira visita que lhe faz já afirma ter visto fenômenos assombrosos. Isso não me parece razoável, não parece justo”. Então o rabino respondeu: “Não se trata de ser justo. Seu amigo é pessoa resistente e, portanto, precisa ver a verdade com seus olhos. Você, por sua vez, é um discípulo, e de você é esperado que confie e acredite”.


Sobre o choro e a dor
Todo choro contém uma fração que não é de dor, mas de uma segunda intenção que quer controlar a dor. Para realizar isso, o ‘Eu’ tem como artifício transformar a experiência do acidente que causa a dor numa ameaça constante. O choro passa a existir por preocupação e por controle, não mais pelas conseqüências dolorosas do ocorrido, mas pela possibilidade dessa dor se repetir. No choro está o truque de transformar nossa impotência, o fato de que somos vítimas, numa forma falsa de potência e controle. Reagimos assim não só à dor, mas à injustiça da dor e à perda do privilégio que ela representa.


Sobre o medo e a dor
“Não é tanto o que me dói que me assusta; mas o que pode doer.”
Os sábios reconheciam que o mais poderoso recurso da imaginação é o medo, que pode ser definido como uma mentira muito sofisticada. O medo não é a subversão de um fato ou evidência, mas uma mentira sobre o tempo. Ele não distorce a realidade em si, apenas o seu tempo. Em vez de olhar a realidade no presente, o medo faz com que a vejamos nas imagens projetadas sobre o futuro. Como o futuro ainda não existe, tudo aquilo pelo qual nos preocupamos está no território da mentira, produzido pela inventividade. O medo tenta neutralizar o elemento mais poderoso do corpo e que tanto o ameaça: a dor. Diferente do medo, a dor localiza-se no território da verdade, que é o agora.


Sobre liberais e fundamentalistas
Para os liberais, a mentira humana, o lugar onde o ser humano enganou a si próprio, está nas doutrinas e nos dogmas. Falas da tradição ou de uma forma superior é a maneira de ludibriar as massas e as mentes em relação a uma autoridade que tem interesses particulares, uma moral particular. Por sua vez, para os fundamentalistas, o lugar onde o ser humano engana a si é na anuência a tudo o que lhe demanda o ‘Eu’, quando este se eleva à autoridade suprema. O ‘Eu’ está para o fundamentalista como o clero ou uma casta privilegiada está para o revolucionário. (...)

E a escolha pelo lado que assumimos amadurece num indivíduo a partir da relação que ele estabelece com seus desejos. Se a força vital permite a alguém exercer controle de seus desejos com maior facilidade, esse indivíduo tenderá a encontrar sua coerência diante das cobranças externas. Se, ao contrário, a força dos desejos for um aspecto fundamental da força vital desse indivíduo, então ele terá que primeiro prestar contas à sua coerência interna, mesmo que em detrimento das expectativas externas.


Sobre desilusão e tristeza
Quem tem sua coerência na alma deve saber que terá que conviver com o impulso-mau em sua liberdade. Quem se pauta pela coerência do corpo terá que conviver com o impulso-mau em suas verdades. E a terapêutica de cada um estará no campo do outro. Para um fundamentalista triste recomenda-se mais liberdade. Para um liberal perdido em ilusões prescreve-se um pouco de verdade e de lei.


Sobre o sagrado e a qualidade humana
A percepção de sagrado deriva de outra perspectiva e acredita na diferença qualitativa da natureza humana. Essa diferença estaria na capacidade de fazer escolhas morais. Estas escolhas não seriam o mero evitar da gratificação dos impulsos por conta do temor de suas conseqüências [como qualquer outro animal o faz], mas a capacidade de conter um impulso justamente quando não há possibilidade de implicações desagradáveis. Quando estas decisões são praticadas a partir de valores e sensibilidades do que é certo ou errado, abandonamos a dimensão animal e nos elevamos à qualidade humana.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Burgueses boêmios

"Bubos no Paraíso, a nova classe alta e como chegou lá" foi uma grata surpresa indicada pela amiga Tati. O livro faz uma análise crítica, bem humorada e irônica sobre a atual classe alta.
Passeando sobre temas como consumo, prazer, vida empresarial, espiritual e política, o autor se inclui na classe, tornando a tirada mais sutil. Ao longo do livro, identifiquei vários traços de muita gente ao meu redor, incluindo - lógico - eu mesmo...
Sem querer estragar o prazer da leitura, quis repassar aqui alguns trechos, tão espetaculares.

Em essência, a nova classe alta é uma CONCILIADORA de conceitos até então quase diametralmente opostos. O neologismo "bubo" vem de burgueses boêmios. Historicamente conflitantes, burguesia e boemia se encontram na atual classe alta: desejosa de grana e lazer, de ortodoxia e flexibilidade.

São pessoas que querem “mostrar - e não para si mesmos - que embora tenham chegado ao topo da escala não se tornaram todas as coisas que ainda professam desprezar.(...) Que navegam as águas rasas entre sua riqueza e o respeito próprio. Que conciliam seu sucesso com espiritualidade, seu status de elite com ideais igualitários (...). Portam adesivos 'Abaixo a autoridade' nos carros, mas dirigem empresas com 200 subordinados. São ricos mas contra o materialismo. Passam a vida vendendo, mas se preocupam em não se vender.”
São ricos bem sucedidos e, ao mesmo tempo, rebeldes de espírito livre; conciliam o espírito da imaginação com o culto ao resultado financeiro. São prósperos sem parecer gananciosos, agradam os mais velhos sem parecer conformistas, ascenderam ao topo sem que tivessem desprezado explicitamente quem está embaixo, alcançaram o sucesso sem que tivessem cometido certas afrontas socialmente sancionadas ao ideal de igualdade social, são mais religiosos mas sem ser submissos às autoridades religiosas...
Possuem carros com tração nas quatro rodas, mesmo sabendo que, no máximo, vão enfrentar algumas estradas esburacadas. Gostam de trabalhar de jeans e camiseta. Colecionam objetos de culturas nativas ou possuem decoração rústica no meio da sala de alguns milhares de dólares.
Esse (não tão) aparente paradoxo é a tônica do livro, recheado de exemplos reais que são, justamente, onde nos reconhecemos.

Se, antigamente, o início de uma conversa da classe alta era “De onde você veio? Quem são seus pais?” (pois o sangue bastava para definir a elite), hoje passou a ser “O que você faz?”. Talvez por isso, a angústia da classe alta atual seja a consciência de que não se consegue garantir o filho nessa mesma elite.

Uma característica que destaco é o que o autor chama de “perfeição das pequenas coisas”: a classe alta deseja saber (e sabe!) tudo sobre ferramentas, fotos, filmes, esportes, decoração, construção... E gasta muito dinheiro com tudo isso. Por trás, é o desejo de dar importância ao não-trabalho, como se usar a inteligência só no âmbito profissional fosse um desperdício. O mundo não podia perder tanto talento...
Outra parte em que me diverti bastante foi sobre as férias. A elite atual não deseja aquela viagem tradicional para Paris para pedir a namorada em casamento. Não cogita aquele passeio com a família toda para Costa do Sauipe com a CVC. Isso é passado, isso é (só) burguês. Hoje, a elite quer passear sem rumo pela Europa (“só comprei a passagem de ida e a de volta...”), quer conhecer Camboja e Moçambique, aprender francês no Senegal, fazer trilha que “os soldados de Alexandre, o Grande, só fizeram porque estavam ameaçados de morte”...
A atual classe alta é a mãe do “politicamente correto”: já não se incomoda com beijo gay no meio do shopping; mas “ai” de alguém que quiser defender o lucro de uma empresa sem se preocupar com o ambiente.

Pra mim, que sou crítico do “moleque vermelhinho que vai conhecer Cuba com o Amex do pai” e da “menina que larga o acampamento do MST por 2 meses para fazer um intercâmbio em Londres”, foi um balde de água fria. O livro me mostrou que, embora em uma escala bem menor, eu também sou um prato cheio de “incoerências”.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A lógica da vida e um - por enquanto único - bom argumento pró cotas

Acabei de ler "A lógica da vida", de Tim Harford, indicação do amigo Balu.
O autor defende o processo decisório racional sobre todas as coisas, ou seja, diametralmente oposto a um outro economista que já citei por aqui, Dan Ariely, de quem sou fã.
Harford discorre sobre o aumento do sexo oral, a concentração de mesmas etnias em alguns bairros, os riscos de crimes violentos, as vantagens da cidade em relação a zonas rurais, sempre usando lógica ou incentivos racionais para embasar a decisão dos "atores" desses casos.
O livro é interessante.

Mas o que me motivou a escrever um post sobre o livro é o primeiro - e até agora único - bom argumento para cotas raciais em universidades.
Harford divide o racismo em duas categorias: o racismo de preferência e o racismo racional.
O primeiro se trata de uma opção sem muito embasamento: alguém pretere um negro simplesmente porque não gosta de negros. É uma estratégia burra pois acaba se perdendo o funcionário negro preparado para um concorrente não racista, ou seja, está condenada a desaparecer no longo prazo.
Já o racismo racional é o perigoso, pois é baseado em estatísticas e, portanto, tende a dar lucro e/ou ser sustentável. Um executivo que tem tempo para fazer apenas 5 entrevistas, por exemplo, tende a otimizar a "pré-escolha" desses 5 candidatos. Como - é fato - os negros estatisticamente ainda possuem uma educação de mais baixo nível do que brancos, é racional que o executivo já pré-escolha 5 brancos para as 5 únicas entrevistas para aquela 1 vaga.
Daí, a lógica de garantir cotas para negros: quebrar esse paradigma de que negros estatisticamente tiveram uma educação pior. A partir do momento que o tal executivo questionar a estatística ou, em outras palavras, começar a desconfiar que ela possa estar mudando, ele não terá porque pré-escolher 5 brancos para seu curto tempo.

Ainda tenho convicção de que os malefícios das cotas são muito maiores que os benefícios, mas quis deixar registrado um bom argumento contrário, além da minha disposição em rever ou questionar minhas certezas...