Ok, lendo Nietzsche e Schopenhauer, acompanhando as colunas do Pondé na Folha e – o livro da vez – Tony Judt ('O mal ronda a terra'), não tenho muito como escapar de uma visão mais trágica do mundo... Tenho aprendido sobre o niilismo, aquele 'pessimismo disfarçado de imparcialidade', e – confesso – tenho me encontrado...
Mas, nas últimas semanas, um artigo de Juan Arias, correspondente do jornal espanhol El Pais no Brasil, despertou uma discussão extremamente interessante, dessas que estavam guardadas em algum lugar na minha cabeça mas que eu não conseguia enunciar. A pergunta ‘Por que o Brasil não tem indignados?’ ecoou.
Costumo discutir política em rodas de amigo e redes sociais. Sei que não sou bem visto por isso: ‘Lá vai o mala postar de novo...’ A sensação é clara: semeando ao vento, discussão infrutífera...
O Globo News Painel, comandado pelo bom jornalista William Waack, discutiu o assunto no último sábado. O filósofo Luiz Felipe Ponde, o cientista político Carlos Melo e o historiador Marco Antonio Villa debateram o assunto.
Ponde e Melo tendem a contemporizar; Villa é mais incisivo: ‘Sim, os brasileiros estão sem a capacidade de se indignar’. Eu estou mais do lado do historiador.
Obviamente o tema não é esgotado pelos debatedores, mas alguns pontos merecem destaque.
O mais óbvio, claro, é a possibilidade de que o bom momento econômico esconda as insatisfações. Ou seja, as revoltas na Grécia, na Espanha, ..., e mesmo as do passado brasileiro (Diretas Já, Impeachment), mais do que movimentos anti-corrupção, combatem mesmo é a falta de dinheiro (desemprego, inflação,...). Acho simplista. Talvez porque pense nas minhas reações pessoais: embora com meu dinheirinho, não engulo as put4rias do poder público.
Ao contrário do que eu esperava (já que o considero ‘pessimista’, ‘materialista’), Ponde coloca a questão de forma mais ampla: pergunta por que precisamos estar sempre cobrando? Diz que a história política não começou na Revolução Francesa; vem lááá de trás. Será que essa ‘passividade’ não é um novo passo na evolução da história política?
Outro ponto interessante levantado pelo Ponde é que, às vezes, basta que as pessoas possam falar o que bem quiserem e terem seu dinheirinho. Ou seja, as mínimas condições democráticas já seriam suficientes pra levar a corrupção para um plano menos importante. Villa discorda desse ponto. Estou, novamente, com o historiador: ‘a democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido’ (Sérgio Buarque de Holanda).
Melo contribui quando aponta exemplos do cotidiano: o Congresso somos nós. Todos contribuímos para o ‘jeitinho brasileiro’, a porta de entrada para burlar a lei.
E Villa fica batendo na tecla da incapacidade do Judiciário para nos passar confiança e certeza de punição.
A conversa caminha para um ponto que, de alguma forma, Reinaldo Azevedo também cita no seu texto comentando a reportagem do El Pais: os diversos agentes econômicos estão amarrados, satisfeitos com o status quo, desde sindicais e estudantes até a mídia e os grandes empresários. Não quero cair no senso comum de apontar o dedo, por exemplo, para Globo, mas de alguma forma os potenciais agentes de mudança estão atendidos com o modo como o Brasil tem funcionado (isto é, com toda essa corrupção).
Pra tentar colocar alguma contribuição pessoal à discussão – e não apenas ficar citando argumentos de terceiros – destaco duas idéias, que pra mim são o cerne do problema:
1) Acredito que nós brasileiros não temos valores sólidos. A frase pode parecer pesada, mas repare como as pessoas, cidadãos comuns, mudam de opinião dependendo do envolvimento próprio. Nego tem uma opinião sobre aborto, mas quando é com a filha, a coisa muda. Nego tem uma opinião sobre trânsito, mas quando é com o próprio carro, a coisa muda. Acho que a origem disso pode ser o fato do país nunca ter passado por alguma situação que fortalecesse o sentimento de ‘pertença’. A grande guerra da história do Brasil foi uma farsa na Guerra do Paraguai. Reparem a ironia: a Independência e a República foram ‘proclamadas’, respectivamente, pelo colonizador e pelo monarca, num grande ‘acordão’.
2) José Murilo de Carvalho, no brilhante ‘Cidadania no Brasil – O longo caminho’, evidencia a diferença na seqüência das conquistas dos direitos no Brasil. O ‘normal’ no resto do mundo é: primeiro, a sociedade conquista os direitos civis (liberdade, igualdade, propriedade,..); daí, os direitos políticos (participação, organização, voto,...); por fim, com as ‘classes’ podendo ser representadas nos parlamentos, a sociedade conquista os direitos sociais (participação na riqueza coletiva, justiça social,...). No Brasil, os direitos sociais precederam os direitos civis e políticos. Antes de poder votar, o ‘povo’ já se ‘beneficiava’ do populismo de Getúlio, por exemplo. A possibilidade de uma democracia plena, sólida, como há no Brasil desde a Constituição de 1988 não foi suficiente para eliminar esse ranço de dependência e ligação umbilical com o governo. E reparem que não estou entrando no mérito de Estado grande ou pequeno. O fato é que o senso crítico ao governo é minado.
Por tudo isso, minha resposta à pergunta do jornalista espanhol é ‘sim’, acho mesmo que o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar. Não é possível! Já não sei o que propor para reverter. Até no meu mundinho (ou na minha ‘redoma’, como diz um amigo), já percebo que não tenho muita margem para esse tipo de discussão.
Como diz um outro amigo, talvez a solução seja chamar um monte de geólogos, recriar as condições do Paleozóico e recomeçar a experiência humana na Terra... hehe
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Eu ainda preciso ler o texto do El País. Mas, no geral, concordo com os argumentos pelo "bovinismo" brasileiro: deve ter centenas de argumentos antropológicos e sociológicos por trás, mas o fato é que brasileiro não gosta de enfrentamento, sempre busca contornar os problemas. Se a política vale como espelho da sociedade, isso é evidente, vide o "PMDBismo" que toma conta de Brasília. Por outro lado isso pode ter evitado muito derramamento de sangue ao longo da história, não vejo, a princípio, como definitivamente bom ou ruim.
ResponderExcluirO argumento econômico passa, primeiro, pelo o que você citou, de a economia estar bem, mas, acho, também pelo forte peso do estado na economia, de maneira nem sempre direta, mas quase sempre decisiva. O status quo empresarial e o estado vivem numa simbiose, e, enquanto o povo aguentar, não há nenhuma pressão por avanço político ou institucional. Meu chefe tem uma tese interessante, de que a corrupção é parte fundamental do arranjo econômico brasileiro, que sem corrupção o país seria ainda mais passivo... Isso daria dezenas de teses acadêmicas, vou ficar só com a tarefa menos difícil de deixar a ideia no ar.
Você ainda tem aquele link para a reportagem da Piaui sobre o PMDBismo?
ResponderExcluirVocê já me disse sobre essa teoria de corrupção como o 'óleo' da máquina... a liga para as coisas acontecerem. Prefiro acreditar que não é a melhor alternativa.
ResponderExcluirSobre a simbiose dos grandes empresários com o governo, é fato. Meu sócio fala que, na prática, os bancos brasileiros são todos estatais: são os maiores pagadores de impostos, mas ficam sócios ao fazerem o que bem entenderem (ninguém consegue bater de frente...). Não gosto de apontar o dedo pra banco, mas a argumentação faz sentido. Mas o que se questiona é a indignação do 'resto' da população (já que governo e grandes empresários não tem incentivos para mudar alguma coisa).