Assisti ao filme Quebrando Tabu. São 80 minutos bem gastos. É sempre saudável se permitir rever algumas certezas.
Mas o fato é que, excluindo 1 ou 2 bons pontos, a argumentação do filme é fraca. Pra ser sincero, MUITO FRACA.
Um especialista em argumentação ou dialética esmagará o filme. Alguém que manje bem os 38 estratagemas de Schopenhauer para "vencer um debate sem precisar ter razão" será capaz de apontar diversos usos. Vou tentar colocar alguns aqui.
(Obs: Como pretendo contraargumentar, a partir de agora pode haver alguns "spoilers". Portanto, cuidado se você pretende assistir ao filme).
O primeiro ponto para o qual quero chamar atenção é a ampla percepção de FHC. Ele sabe que pode ser mal interpretado (uma mulher pergunta se ele quer colocar maconha na merenda das escolas!!) e faz questão de esclarecer alguns pontos, em especial a diferença entre descriminalização e legalização. É importante.
Sobre os argumentos em si, começo pelos bons pontos.
O primeiro é que a evolução da maconha para outras drogas geralmente se dá porque o vendedor de todas é o mesmo. Ao separar a venda da cocaína, por exemplo, da venda da maconha, o passo de uma droga pra outra pode ser mais raro.
O outro bom ponto é encarar o dependente como um doente e não como um criminoso. Mas isso não é novidade. A OMS já recomenda a política da "Redução de Danos", isto é, já que o usuário continuará usuário, o Estado pode ajudar no fornecimento de seringas adequadas, locais adequados para o uso, etc. A dificuldade é estabelecer o limite a partir do qual o "usuário continuará usuário", ou seja, a partir de que momento "desistimos" de tirá-lo do uso.
Pra mim, os bons argumentos acabam por aí.
Aos ruins.
O filme começa argumentando que a droga sempre existiu na humanidade, desde macacos bêbados. Eu não entendi o ponto. Os assassinatos também sempre existiram. Vamos descriminalizá-los? Homem batendo em mulher também sempre existiu? Vamos descrimizalizar? Péééééé. Fail! Estratagemas de Schopenhauer utilizados: 'tomar a prova pela tese', 'pré-silogismo', 'pistas falsas', 'fuga do específico para universal'.
Aí, o filme fala que os EUA já gastaram não sei quantos trilhões de dólares com a "Guerra contra as drogas" e o problema continua. Mas a pergunta é: como estaríamos sem esse investimento? A suposição de que estaríamos melhor é baseada em quê? Também já gastamos muito com a procura pela cura do câncer ou com a tentativa de erradicação da fome. E, no entanto, o câncer e a fome ainda estão aí. Vamos parar de investir? Péééééé. Fail! Estratagemas de Schopenhauer utilizados: 'Pistas falsas', 'alternativa forçada', 'falsa proclamação de vitória', 'falsa redução ao absurdo', 'negação da teoria na prática'.
Quando o filme vai para estatísticas, mostra que a maconha é só a 11ª em potencial destrutivo, depois do álcool e do tabaco. Pra mim, esse é o ponto que permite a continuidade da conversa; quero dizer, se a maconha fosse cruel, pararíamos qualquer discussão já por aí. Mas, ao longo do filme, a defesa da descriminalização não se limita à maconha. Péééééé. Fail! Estratagema utilizado: 'ampliação indevida'.
O filme segue, então, falando de um cara vítima de bala perdida e associando todo crime às drogas. O filme comete o erro básico de confundir (propositalmente?) correlação com causalidade. Sim, lógico que drogas e crimes estão relacionados, mas não, não podemos afirmar que a droga é a causa de qualquer outro crime. Suponha um mundo sem drogas; continuará havendo criminosos. Péééééé. Fail! Estratagemas utilizados: 'perguntas em ordem alterada', 'confusão de correlação com causalidade', 'falsa instância', 'alternativa forçada'.
Começa-se a comparar com outros países. A experiência da Holanda é interessantíssima. Mas não imagino um garçom no Brasil limitando o consumo a 5g por noite por indivíduo (como é na Holanda). No Brasil, R$50 no bolso do camarada ainda resolvem qualquer limite. Também não imagino no Brasil um local oficial de cultivo de maconha (como é na Holanda). Sempre haverá um "conhecido" que arranja um pouquinho "por fora". Meu ponto é que o problema está mais embaixo: na cultura, na educação. Estratagema utilizado: 'salto indutivo'.
Um moleque gringo diz que, se a maconha fosse permitida, ele não a experimentaria porque não teria o prazer do "proibido". O filme explora esse depoimento como um ponto pró-descriminalização. Eu discordo radicalmente e acho até um erro bobo do filme. Pra mim, é o oposto. Já que o prazer é justamente o "proibido", esse moleque vai pra droga seguinte, proibida, mais pesada. E isso me faz repensar até naquele primeiro bom argumento lá de cima, sobre vendedores diferentes pra maconha e pra outras drogas. Se o atual usuário de maconha deu o salto do vendedor legal do tabaco para o vendedor ilegal de maconha, por que ele não daria o passo do vendedor legal de maconha para o vendedor ilegal de cocaína?
Dráuzio Varella cita um caso de uma mulher que vai levar droga escondida no corpo para o marido preso por tráfico e que, pega pela revista, vai também pra cadeia. Ele fala como se ela não estivesse, de fato, traficando. Estranho... Aí, diz que os filhos que ela deixou em casa vão crescer sem pais e a sociedade assim estragaria mais uma família. Sempre a culpa da "sociedade", essa entidade tão abstrata. Estratagemas utilizados: 'falsa proclamação de vitória', 'premissa falsamente aceita pelo oponente', 'perguntas em ordem alterada', 'tomar a prova pela tese'. Essa família já está destruída antes. Não será a prisão da mulher a causa, o fato que dá origem à destruição da família.
Aí, o neoespecialista em drogas Paulo Coelho (ãnh???) entra em cena. Diz que quem é contra a descriminalização é moralista, hipócrita, teimoso. Estratagemas: 'encolerizar o oponente', 'criar rótulo odioso', 'usar a raiva', 'usar ofensa pessoal'. Ele usa um argumento falso em si mesmo. Diz que não devemos falar pro jovem que droga mata porque o moleque vai experimentar e não vai morrer na hora; vai passar a acreditar mais no amigo (que tinha dito que seria legal), vai consumir mais e aí, vai acabar morrendo. Ou seja, o conselho inicial de que droga mata é, sim, verdade!!! Estratagemas: 'anulação do paradoxo', 'perguntas em desordem'.
Por fim, um especialista gringo diz que quem não usa hoje não usará se permitido, ou seja, o número de usuários não aumentará. Falso também. Ele parte do absurdo princípio que ninguém cumpre a lei, ou melhor, que ninguém deixa de fazer uma coisa porque a lei proíbe. Por exemplo: álcool faz mal - eu sei - e, apesar disso, eu uso. Mas é permitido. Se fosse proibido, eu provavelmente não usaria. Estratagema utilizado: 'uso de premissas falsas'.
Vou parar por aqui. Pelas críticas, pode parecer que os 80 minutos não valem. Não é por aí. A reflexão é saudável.
Mas esperava mais, estava disposto até a ceder mais, acreditar mais nessa alternativa. Mas ainda não... Por enquanto, pra mim, fica apenas o alerta para sabermos tratar alguns usuários como doentes, como questão de saúde pública tanto quanto de segurança pública. Antes de descriminalizar (que não é a mesma coisa que 'legalizar'), ainda temos muita coisa pra fazer no policiamento de fronteiras, nos tribunais, na educação,...
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