terça-feira, 17 de maio de 2011

A presidenta e o nós pega

"A presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta, de forma eleganta para ser escolhida representanta. Poderia ter sido sargenta da polícia, gerenta de banco ou serventa de escola e nunca ficar doenta. Esperamos vê-la sempre sorridenta, brilhando nela a chama de governanta ardenta. Mas nossa maior dirigenta política, não tem o direito de violentar nosso pobre português, só para ficar contenta".

Os linguistas acatam o termo "presidenta" por um único - e, a princípio, bom - argumento: a língua é viva e deve incorporar os termos que surgem. Daí, a palavra "deletar" já estar presente (presenta?) nos Aurelios, embora com a etimologia bem distante da nossa língua portuguesa. Ou seja, embora o sufixo que designa um agente seja "ente", independentemente do gênero, "presidenta" passa a ser correto, se repetida à exaustão.
Na prática, "presidenta" ou "presidente" virou apenas uma questão política, um código para mostrar se você está na base de apoio ou de oposição ao governo. Fale "presidenta" e seja bem quisto no Planalto.

O problema dessas soluções disfarçadas de bom senso é que a linha para um oportunismo, ou mesmo um simples modismo, é muito tênue. Soma-se a isso o “politicamente correto”, que transforma a nação em uma massa amorfa de opinião, e estão criadas as condições para o desleixo total. Danem-se as regras. Gosto (e temo) muito de uma frase do ex-ministro do STF Eros Grau: “Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete.”

Escrevo tudo isso por causa do livro aprovado pelo MEC onde se lê “nós pega o peixe”, em tese, para combater o “preconceito lingüístico” (ãh???). O cidadão que defende “presidenta” teria o dever lógico de defender “nós pega o peixe”. Afinal, basta usar para que se torne correto. (E, sim, é muito usado!) E assim está evidenciado o problema que, do ponto de vista conceitual, já está lá no “presidenta”.

Havia uma moralidade no primeiro caso que não há no segundo?
O certo e o errado passam a ser subjetivos? Qual a régua? Qual o limite? Qual o gatilho do aceitável?
“Se aceito que uma regra seja relaxada para aliviar os bons (ou punir os maus), está criado o precedente que justificará seu relaxamento para aliviar também os ruins (ou punir também os bons).”

Meu ponto na comparação é: existe método na loucura.

Infelizmente acho que estamos andando a passos largos para a fase do cada-um-por-si-com-o-seu-porrete...

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