Dois assuntos me levaram a ter vontade de falar sobre a imprensa: as eleições – claro – e a febre de controle da imprensa, já avançado em alguns estados.
Como disse no último post, li MUITO nesse processo eleitoral. E procurei ler não só com o que concordava, mas também o que o ‘outro lado’ dizia. Não que eu estivesse propenso a mudar de lado, mas para entender as motivações do adversário.
Tudo isso me proporcionou um grande aprendizado. Pelo crescimento das redes sociais (ou por minha inclusão nelas já que nunca fui muito adepto...), discuti bastante, me propus a argumentar, convencer, discutir princípios e cresci. Como disse RAzevedo, ‘sou grato a Dilma; sua eleição me fez ter ainda mais clareza sobre o que eu penso e sobre o que eles pensam’.
De tudo, o que mais me chocou foi a choradeira (que no início não entendi e depois não imaginava ser tão grande) sobre o tal PIG, ‘partido da imprensa golpista’. Caraca, é impressionante! Eles realmente acham que existe uma mídia elitista querendo derrubar o Lula!!!
Ignoram que a Globo tirou do ar sua propaganda de 45 anos por reclamação maluca do PT (porque faria propaganda tucana subliminar), que a Dilma foi a única que não foi contestada sobre mensalão nas entrevistas do JN, que a Folha denunciou a tal ligação do Serra para o Gilmar Mendes, que o SBT montou uma versão mentirosa sobre a agressão ao Serra no RJ, que a CartaCapital inventou que o Aécio estaria criando um novo partido,... (exemplos rápidos só do período eleitoral). Do ponto de vista ‘estrutural’, ignoram o montante de patrocínio estatal que a Bandeirantes recebe desde que o Lulinha teve a PlayTV (embora não tenha crescido nada em termos de audiência), que o iG também tem uma enxurrada de dinheiro estatal, que o bispo da Record é um dos maiores patrocinadores do PT,...
Não quero aqui criar a gangorra para falar que uns mentem a favor, outros mentem contra e, no fim, é tudo a mesma coisa. NÃO! É justamente isso que quero desmentir.
Já falei em outros posts que não considero um problema quando um veículo de comunicação se posiciona politicamente em editorial. Acho até saudável desde que não confundam ‘o direito de opinar’ com o ‘dever de informar’. O problema não é mídia que não seja imparcial; o problema é mídia que não seja séria. O Estadão se posicionou pró-Serra, mas acho que ninguém pode duvidar de sua seriedade. A Folha tende para o PT, mas ‘apesar disso’ (hehe), continua sendo séria! O RAzevedo é parcial e sério. O NPTO é parcial e sério (embora mais fraquinho... hehe). CartaCapital, Paulo Henrique Amorim, Nassif,... não são sérios e esse é um problema! Mas deixa pra lá, o post não é sobre isso...
Minha crítica é que, quando a imprensa vermelha (e aqui, sem conotação pejorativa) faz o que faz, criando esse mito ‘PIG’, a estratégia é clara: ‘Se não pode convencê-los, confunda-os.’ A ideia é confundir, jogar tudo na vala comum: ‘É TUDO A MESMA COISA!’...
Essa foi a frase mais dita nessa campanha e a que mais me irritou.
Quando toda imprensa coloca na mesma vala os panfletos da gráfica no Cambuci com a revista da CUT, ela está prestando um desserviço. E não, não é porque uma é pro meu lado (os panfletos eram anti-Dilma) e outra é contra o meu desejo (propaganda pró Dilma na revista). A diferença é que os panfletos foram encomendados por uma igreja que pode (e segundo o Papa, deve) manifestar-se politicamente e, por outro lado, um sindicato POR LEI não pode se posicionar eleitoralmente. NÃO É A MESMA COISA. Um pode pela lei; outro não pode. Não é questão de opinião; é questão legal.
Quando a imprensa coloca na mesma vala o caso Erenice com o caso Paulo Preto está prestando um desserviço. E não é porque eu tenho lado nessa história, não é só minha interpretação. No caso Erenice, a vítima é o patrimônio público, trata-se de dinheiro público. No caso Paulo Preto, a vítima é a campanha do Serra (em última instância, o próprio candidato), trata-se de dinheiro privado. (Uma comparação porca é acusar a Dilma por ter seu carro roubado!). O caso Erenice já está, com provas, num estágio avançado na Polícia. O caso Paulo Preto é uma suspeita, sem absolutamente nada de concreto (pelo menos, por enquanto...). NÃO É A MESMA COISA.
Quando a imprensa coloca na mesma vala o diz-não-diz sobre aborto e privatização, ela está prestando um desserviço à sociedade. Tem vídeo da Dilma se contradizendo. Do outro lado, eu pergunto: mostrem uma única afirmação do Serra que possa, mesmo que de longe, dar a entender que ele queria privatizar alguma coisa. Não há. Portanto, NÃO É A MESMA COISA.
A imprensa séria tem que parar com essa coisa de ter sempre que mostrar o OUTRO LADO. O RAzevedo tem chamado isso de o ‘OUTRO LADISMO’. Ele diz: daqui a pouco vai ter veículo querendo publicar o ‘outro lado’ da pedofilia, da dengue e da ditadura. Tem coisa que não tem ‘outro lado’. Um veículo não precisa esperar uma fraude das duas campanhas para poder mostrar a de uma só. O cúmulo desse pensamento torto foi a quantidade de gente que reclamou do Serra porque ele exagerou no episódio da agressão no RJ. É estratagema de Schopenhauer para vencer debate sem ter razão: mudar o foco, se vitimizar, empurrar o adversário ao exagero... Porr4, ele foi agredido!!
Tenho muito claro que as críticas à imprensa vindas da mídia vermelha e reforçadas pelo presidente têm a estratégia nítida de confundir e tirar o eleitor mediano do debate. Muitos perdem a paciência (e, por exemplo, acabam caindo no colo da Marina). RAzevedo (de novo!) resume bem a lógica petista:
“Quem sabe do que estou falando ou endossa a mentira e a considera necessária para eu vencer ou já não vota em mim mesmo. Então, tudo bem! Quem não sabe pode acabar acreditando que falo a verdade (...). Assim, a mentira me é útil”.
Sim, conheço gente bem informada, bem educada que estranhou quando ficou sabendo das promessas do Serra com relação ao Bolsa Família: ‘mas o PSDB não foi sempre contra?’ Nããão! O PSDB criou 4 dos 5 programas que compuseram o Bolsa Família, mas de tanto o PT martelar na nossa cabeça que o Brasil começou em 2002, começamos a ter dúvidas...
Não foi pouca gente que reclamou do nível da campanha e, talvez, jurou amores pela Marina. Fico me perguntando quantos desses entraram nos sites para ver as propostas. Sim, as 3 campanhas tinham propostas no site! ‘Mas eram genéricas!’, podem criticar. Mas se entram no detalhe: ‘Não falam a língua do eleitor...’
Muita gente criticou o debate sobre aborto, mas na maior democracia do mundo (EUA), tem um debate quase que só pro tema. É sério que o brasileiro não acha que devemos discutir valores? Vocês realmente acham que a sociedade está convicta de suas posições sobre essas temas que misturam valores e justiça? Não sei vocês, mas a discussão me trouxe muita reflexão, me foi muito útil. Mas o brasileiro reclamou!
Muita gente criticava que os candidatos não respondiam às perguntas dos debates. Na reta final, Serra e Dilma começaram a voltar nos assuntos pendentes de perguntas anteriores (quando a nova pergunta já era outra) e também receberam críticas.
Enfim, o brasileiro gosta de reclamar mas, a se julgar pelo resultado das urnas, reclama de barriga cheia: 12 governadores foram reeleitos, sem contar os que representavam a situação (como em SP e MG), além do pleito nacional.
Ou seja, reclamamos mas parece que estamos satisfeitos com o status quo.
Ou será que é só desinteresse? E aí, "o maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam". (Arnold Toynbee).
O Celso, do NPTO, teve uma boa crítica também: “A idéia de que quando acabar a eleição vai diminuir a baixaria é fantástica. A partir de 1º/nov, volta o festival de frivolidade e déficit de atenção que, daqui a quatro anos, vai forçar novos candidatos (...) a se fazerem de palhaços [de novo]. E nego vem me dizer que depois da eleição o nível sobe? Contem-me entre os céticos. O que acontece é que o nível de atenção novamente desce.”
Para encerrar, a questão é que, pra mim, política é uma questão de modo, mais do que de lado. É mais fácil se alinhar com alguém que pense muito diferente do que com algum vizinho de pensamento, mas que seja sujo.
Nessa linha, o resultado dessa eleição é um rastro de ódio, de separação, e que tem um responsável muito claro: Luis Inácio Lula da Silva.
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Mto mto bom! Explicar razões sem querer “ganhar” a discussão exige longos textos, mas melhores de se ler...
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