segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Enfim, por que Serra?

Reforço a bandeira de que não é verdade que os pobres estejam com Dilma e os ricos estejam com Serra. E que a discussão acabaria aí. Não é verdade que o ‘meu mundinho’ esteja com Serra e ‘aquele pessoal que nem conheço’ esteja com Dilma. Tem muita gente por perto, amigos que pensam diferente (e não, não são inimigos!!!) que estão com Dilma. É mais pra eles que escrevo esse texto... Quero, lógico, sem tergiversar, apresentar meu raciocínio e convencer um ou outro...

1. A comparação pessoal: Muitos desses estão com Dilma, mas de ‘nariz tampado’. Dilma é ruim, mas seria a ‘menos pior’. Será verdade? Convido à reflexão...
Essa parte defende o voto em Dilma pela desconstrução de Serra. É compreensível: Dilma não tem muita história (oficial; não falo da adolescência, do submundo – e isso é fato, não opinião!) para contar. E Serra já tem uma longa vida pública, já brigou com muita gente por suas posições. É fácil criticá-lo, rotulá-lo, pelo volume de questões em que esteve envolvido.
Mas o fato é que – acredite ou não – um dos dois será nosso presidente! (ah vá!). E você pode até questionar algumas opções do Serra, mas é inquestionável que ele se preparou muito mais para exercer o cargo em disputa.

2. A comparação dos governos: Para evitar o confronto da biografia dos 2 candidatos, um argumento forte é evocar as conquistas do governo Lula. É um debate mais inteligente do que o que temos visto nas campanhas, mas é preciso cuidado. O governo Lula tem alguns números MUITO bons. Destaco, em especial, o de redução de pobres. Mas quero bater em 4 pontos:

a) Na verdade, em tudo que remete a consumo, ele foi bem: emprego, assistencialismo,... Mas TUDO que é mais estrutural (reformas, segurança, infra-estrutura, educação, saúde, saneamento), tudo que os frutos demoram mais para serem colhidos, o governo Lula deixou passar... (Escrevi um pouco mais sobre isso aqui).

b) mesmo na parte de consumo, é preciso entender o que é exógeno e o que dependeu do Lula; o que foi proporcionado pela maré espetacular do cenário internacional (em 6,5 dos 7,5 anos de governo até agora) e o que foi motivado pelas escolhas internas. Já vi panfletinho petista se vangloriando até da queda da inflação e da supervalorização do real (que impactam o consumo!...) Não quero ser mesquinho e dizer que o Lula não acertou em nada, não. Cito um exemplo que critiquei na época e depois, vendo os resultados, percebi que eu estava errado e ‘eles’ estavam certos: na crise de 2008, o homem saiu propagando que o povo devia gastar. Eu tinha achado um erro na época; achava que era irresponsabilidade. No fim, foi o mercado interno (entre outras heranças benditas do FHC, como o Proer) que seguraram a onda do Brasil na crise de 2008.

c) se dividirmos os 16 anos de FHC/Lula em 4 mandatos (de 4 anos), a grande maioria dos indicadores propagados pelos petistas melhoram de mandato em mandato. Os últimos 4 anos foram melhores que os primeiros 4 anos do Lula, que foram melhores que os últimos 4 do FHC,... Suponha que não houvesse reeleição e o Lula colocasse a dona Marisa para ser presidente de 2006 a 2010 e eles brigassem agora. A dona Marisa poderia falar que fez muito mais pelo Brasil do que o Lula. O que quero dizer? Que o Brasil está numa crescente! Existe uma inércia positiva que começou lá na redemocratização e vem ganhando novos impulsos em cada governo, inclusive com Collor (por exemplo, com a abertura econômica) e Itamar, mas principalmente com a organização institucional no governo FHC. Ou seja, ganhe quem ganhar as eleições de 2010, é MUITO PROVÁVEL que em 2014, o governante se gabe de ter reduzido a pobreza, de ter aumentado os programas sociais, de ter reduzido juros,...
No fundo, quem está fazendo a campanha do medo dessa vez (como em 2006) são os petistas: ‘Olha gente, eles vão mudar tudo!’.
Não quero, com isso, dizer que é tudo a mesma coisa. (Vide qualquer outro argumento desse texto). Quero dizer que isso não é suficiente para a continuidade do PT. E mais: esse argumento pode ser extrapolado para defender a alternância de poder, que é, indubitavelmente, mais saudável na democracia.

d) já dizia o malandro que estatística é a arte de bater nos números até eles confessarem o que você quer mostrar. É preciso argumentar pró-A ou pró-B com o mesmo dado (e um dado real!). Cito um exemplo: educação superior. Há um panfleto rodando por aí dizendo que Lula criou 14 universidades e FHC não criou nenhuma. Strictu sensu, é verdade!! Mas é verdade também que 8 ou 9 dessas foram meros rearranjos de cursos de graduação que não eram vinculados a uma universidade (ou seja, criou-se a universidade ‘unificada’ mas as vagas já existiam). É verdade também que a ociosidade das vagas e, principalmente, a evasão cresceram muito no governo Lula. É verdade também que, mesmo com menos universidades, houve mais matrículas no ensino superior no 2º mandato de FHC (158.000 de 1998 a 2002) do que no governo Lula (76.000 de 2003 a 2008). Tudo isso faz com que menos gente se forme por ano no governo Lula do que no governo FHC. E aí, quem foi melhor na educação? Cada um vê pelo prisma que lhe é conveniente. E ambos usando números verdadeiros. (E olha que nem entrei na seara dos números montados, fictícios, e que existem sim!)
De modo algum quero menosprezar os indicadores. Aprendi no banco em que trabalhei que ‘o que não é medido não pode ser melhorado’. Mas não podemos ser simplistas, pouco críticos; o longo prazo não deve ser ignorado (ainda mais em política).

3. Ideologia: o PT conseguiu a proeza de instaurar o rótulo de ‘PSDB direitista’ e se colocar como único partido viável de esquerda. Não entendo. Do ponto de vista ideológico, PT e PSDB devem ser os partidos mais parecidos do Brasil, com uma ou outra pequena diferença (recentemente o quesito religioso foi destacado). Óbvio que a aliança com DEM ajudou a reforçar o rótulo no PSDB. DEM é o PFL, associado à Arena, dos coronéis, e por aí vai. Coitado do DEM. Hoje não tem essa força toda. Vejam os ‘caciques’ atuais do DEM... Os verdadeiros coronéis estão é com Dilma: Sarney, Collor, Jader, Renan. É esse o partido da esquerda?
Pelamordedeus, não estou argumentando que a esquerda é a solução, que o PSDB é mais à esquerda do que o PT, e que por isso todos deveriam votar no PSDB (não por isso!). Já disse muitas vezes por aqui que eu, pessoalmente, estou muito à direita de PT e PSDB e questiono por que tanta aversão se somos um povo tão conservador (Quero dizer que, no fundo, EU votaria em alguém viável mais à direita de Serra e Dilma; mas nem vou me alongar porque não tenho essa opção...).
Como no argumento anterior, meu ponto aqui é que não é por isso (ser de ‘centro esquerda’) que PT e PSDB se diferenciam; ou seja, ‘ser de esquerda’ não é suficiente para justificar o voto no PT.
Então é tudo igual? De novo, não! A minha simpatia pelo PSDB é menos pela sua posição no espectro ideológico e mais pelas pessoas pensantes do partido. Fiz um elogio parecido à equipe da Marina em um outro post aqui.

4. Eficiência: Esse talvez seja o ponto mais pessoal (se eu fosse político, minha defesa seria nessa linha). Precisamos de um Estado mais eficiente. Dá para ficar uma vida discutindo o tamanho do Estado. Passo. Dá para ser um Estado grande e eficiente; dá para ser pequeno e eficiente. O ponto é que o Brasil não vai se agüentar por tanto tempo com o Estado gastando desse jeito. Invariavelmente os gastos governamentais cresceram mais do que o PIB. E essa é uma bandeira que o PSDB leva a sério. Os tucanos arrumaram as finanças de São Paulo e Minas Gerais, enquanto o PT fez crescer absurda e desnecessariamente a folha pública por onde passou...

5. Valores: enfim, o ponto mais importante. Em uma frase: o PT tem um PROJETO DE PODER, não um projeto de governo. Levado ao extremo por alguns (como eu), isso nos faz temer pela democracia: vejo, sim, traços totalitários do governo na forma como lida com a imprensa e com a oposição. Mas esqueça esse meu ‘extremismo’: não há como negar que o PT faz de TUDO para ganhar eleições. O tema do aborto é emblemático, menos pela posição em si da candidata petista, e mais pelo oportunismo de ‘mudar de opinião’ de acordo com as conveniências eleitorais. O uso da máquina pública é uma questão ABSURDA: em nenhuma democracia forte do mundo, isso passaria batido como tem passado no Brasil. O Lula e o Franklin Martins, ‘funcionários do povo’, gravando campanha da Dilma até com carro oficial... O presidente da Petrobrás (empresa de capital MISTO) mentindo e inventando histórias sobre o PSDB... A Polícia Federal fazendo blitz de acordo com os interesses da campanha petista... Notícia bombástica de um aborto da mulher do Serra contada por uma mulher qualquer em uma rede social!... (pra citar só a última semana). A verdade é que será um milagre se o Serra ganhar. Disputar contra essa máquina de ganhar eleição não tem sido fácil...

Sou um fanático por argumentação. Vou ponto por ponto, pensando nos contra-argumentos do adversário, tentando fechar cada brecha, como se eu conseguisse dar um xeque-mate: ‘ãh rã, agora te convenci!!!’
Mas tenho aprendido que, na maioria das vezes, temos ‘certezas anteriores à razão’, queremos coisas sem saber nomeá-las.
Se você não está assim, tomara que meu texto tenha algum efeito...

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